A real razão da anulação da eleição romena

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 14/12/2024, revisão da Estátua)

O que o Ocidente não suporta são líderes que não façam da independência e soberania nacionais, do interesse comum e do bem-estar social, limites à apropriação privada pelos interesses económicos e financeiros internacionais.


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Fosse de extrema-direita e o Ocidente teria o maior prazer em trabalhar com ele. E esse é o melhor teste do algodão que pode haver, quando se trata de saber se um determinado candidato é, ou não, de extrema-direita.

Nunca o ocidente capitalista, imperialista, neoliberal, teve qualquer problema em trabalhar com fanáticos de qualquer tipo, como muito bem se pode ver na Síria dos nossos dias. O que o ocidente não suporta, sejam eles quem forem, são líderes que não façam da independência e soberania nacionais, do interesse comum e do bem-estar social, limites à apropriação privada pelos interesses económicos e financeiros internacionais, por si protegidos.

A verdade é que o ocidente não tem problemas em trabalhar com Meloni, na Itália, com Vickers, nos Países Baixos, com Boris Johnson no Reino Unido, com o actual presidente sul coreano ou, mesmo, com a família real saudita. Na Síria, por exemplo, deram as mãos a grupos formados a partir da Al-Qaeda, ligados à irmandade Islâmica, escola teológica que também alimenta o Hamas, derrubando um governo laico, defensor da igualdade de género, mas também da soberania nacional, nomeadamente em matéria de propriedade dos sectores estratégicos. Não faltará muito e a imprensa mainstream chorará baba e ranho por causa da opressão às mulheres Sírias.

Daí que, nada obstaria a que o ocidente também trabalhasse com Calin Georgescu. O que impediria? Não o fazem com Zelensky e os partidários da ideologia de Bandera? Afinal, o que defenderá Georgescu, para que o ocidente tenha, de forma tão veemente, utilizado a sua máquina de lawfare para, assim, tentar colocar um fim à mais que previsível eleição da sua pessoa?

A acusação de que a eleição foi ilícita porque houve manipulação do Tik-Tok e “interferência russa”, não encontrou resposta coincidente por parte da plataforma em questão, que o negou veementemente. Mas de uma assentada, os poderes que hoje dominam a Roménia e por conta dos quais uma elite oligárquica se agarra ao poder, anularam a eleição, tentando assim ganhar tempo para que, ou através de um esquema que impeça o concurso a eleições do candidato em causa, ou talvez através de uma repetição de tantas eleições quantas as necessárias, até que os resultados batam certo, como se fez nos malogrados referendos à constituição europeia em França e na Irlanda, os EUA possam, assim, descansar e construir a sua poderosa base para atacar a Federação Russa.

Esta forma de actuação brutal, incomparável e impensável há uns anos, é em si própria reveladora do estado de desespero em que se encontram os poderes que dominam a Roménia. A construção da maior base europeia da OTAN e a utilização deste país como trampolim para uma guerra nuclear, que se antevê no horizonte, tornam a Roménia um país fundamental para toda a estratégia de domínio da Europa e da Federação Russa. As eleições na Roménia poderão, assim, muito bem, acabar com uma ditadura militar expressa ou inconfessada, em nome de uma suposta “ingerência russa” inexistente. A “ingerência russa” está hoje para os países da OTAN, como o “papão comunista” estava para os fascistas ocidentais. O pretexto para extinguir a pouca democracia que resta. Com esse fim, ir-se-á também a liberdade.

Calin Georgescu não esteve com meias medidas e, ainda no início deste ano que ora finda, questionado por um jornalista sobre o que pensava do ano de eleições que se avizinhava, respondeu “este ano vai ser o ano da mudança do sistema”. Ora essa, um tipo de extrema-direita a falar em “mudança do sistema” … Suspeito. Deveria ter falado de “limpar o sistema”, mas nunca de mudá-lo.

Mas, Georgescu foi mais longe, referindo que a Ucrânia é um proxy ocidental para que os EUA possam colocar a mão nas riquezas russas, que equivalem, segundo ele, a “80 triliões de euros”, “toda a dívida mundial”. Estava dado o mote para a narrativa preferida de Washington, a do “agente do Kremlin”. Também referiu que somos governados por “psicopatas” e que esses psicopatas, “tal como os que governam a Ucrânia”, “nunca perguntaram ao povo ucraniano” se queria esta guerra, este povo que é acima de tudo uma “vítima” desta situação.

Ainda com fôlego, Georgescu referiu que “estamos a viver o fim da era imperial e colonial ocidental”. Extrema-direita? Conhecem algum partido de extrema-direita europeu que reconheça que os EUA são um império e que o domínio de EUA/EU e OTAN sobre os outros países seja de natureza imperial e colonial? Eu não!

Georgescu ainda acusou o governo e políticos romenos de serem “lacaios do exterior”, de diplomaticamente a “Roménia ser um zero”. Ou seja, Georgescu não parece estar com meias medidas quanto à perda de soberania e independência nacional da Roménia (se o homem fosse a Portugal…). Mais uma coisa que não cabe na caracterização da “extrema-direita” actual, pois se existe algo que a caracteriza, esse algo é o alinhamento com a OTAN, com a EU e, especialmente, com os EUA e o que consideram ser o “ocidente” e os seus “valores”.

Este Doutor, que trabalhou no Centro Nacional para o Desenvolvimento Sustentável (NCSD) uma ONG, prestando consultoria na área das questões ambientais, foi membro fundador e director executivo do Instituto de Projectos de Inovação e Desenvolvimento (IPID), que incluía figuras proeminentes das comunidades científica e académica romena, bem como da sociedade civil. Fundou, juntamente com os principais representantes das associações empresariais, dos sindicatos, da comunidade académica e da sociedade civil, a Aliança de Profissionais para o Progresso (APP), que tinha a missão de “promover a definição de objectivos estratégicos precisos no curto, médio e longo prazo e mobilizar as competências reais que existem na Roménia”. A Aliança organizou, em cooperação com a Academia Romena, dois debates públicos sobre “Reforma do Estado” e “Desenvolvimento Social Responsável”, trabalhou como investigador para o Clube de Roma, e muito mais, o que o torna alguém que conhece, como ninguém o sistema e como tão injustamente funciona.

Ambientalista, especialista em agronomia e crítico profundo das políticas agrícolas e ambientais da EU, especialista em desenvolvimento sustentável, ex-funcionário da ONU, escritor sobre assuntos ligados ao desenvolvimento da Roménia, Georgescu, está bom de ver, tem um perfil que bate com muita coisa, mas nunca com um líder “populista, extremista, fanático” como são os da extrema-direita.

Georgescu fundamenta todo o seu discurso numa ideia de progresso e justiça social, na ciência, no conhecimento, nunca usando fake-news e ideias feitas. Georgescu, ao invés, explica claramente o seu pensamento, fundamentando-o com base na ciência. O que tem isto a ver com a “extrema-direita”.

Se estas ideias, já por si, seriam suficientes para que os seus críticos o tentassem catalogar e condicionar como se tratando de “um agente do Kremlin”, um “Pró Russo”, um “agente de Putin”, o que dizer dos objectivos programáticos que encontramos nos seus canais Telegram e online em geral?

Vejamos esta tirada, num canal do movimento “Alimentos, Água, Energia”: “O projecto nacional “Alimentos, Água, Energia” do Sr. Calin Georgescu tem como base o Distributismo”. Para tal, foi criada uma página da Liga Distributista (https://www.facebook.com/distributismulatreiacale), que defende um verdadeiro programa de cooperação, distribuição, justiça social e de paz.

Um dos textos diz mesmo “é o momento em que devemos traçar um limite e mobilizar-nos para o desenvolvimento deste país, para a recuperação dos activos do Estado através da nacionalização selectiva, onde foram cometidos roubos grosseiros contra os romenos.”

Ou ainda: “A globalização e o desvio da atenção, como técnica de escravização da mente, devem parar em todos os países do mundo”. E aqui se rejeita toda a doutrina do Fórum Económico Mundial e do grande reset, com um toque Internacionalista, nada ao gosto do Tio Sam.

Mas vai mais longe: “Assistimos a uma campanha agressiva de confisco da soberania dos Estados, por parte de corporações internacionais que se alimentam de conflitos e crises, que fazem cenários com as nações do mundo, financiando simultaneamente serviços secretos, grupos terroristas e organizações capazes de desestabilizar nações.”

Ou ainda: “Todos os partidos actuais são controlados pelos serviços secretos e apenas acompanham o embolsamento de dinheiro público, a transferência de activos do Estado para propriedade privada.” Mas que raio de “extrema direita” é esta?

Defendendo a cooperação, a distribuição de riqueza, a nacionalização de activos estratégicos que possam ser utilizados pelo estado para elevar as condições de vida do povo, o projecto de Georgescu é tudo, tudo, tudo, menos um projecto de extrema-direita. É anti-liberal? Sim! Suporta-se no povo Ortodoxo Cristão? Talvez! Prima pela soberania nacional? Sim! Mas não numa lógica nacionalista pura, antes numa lógica mais patriótica, preocupada com a vida e bem-estar do seu povo.

Nada do que este senhor defende, e a forma como defende, é de extrema-direita. Eis algumas das grandes preocupações de Georgescu: a mortalidade infantil a subir na Roménia nos últimos 15 anos; a queda da natalidade, a perda de jovens para a emigração, a redução populacional pelo envelhecimento da população, a qualidade da educação. O que é que aqui é de “extrema-direita”?

Este ataque a Georgescu levanta várias suspeitas e dá-nos várias pistas sobre o que se está a passar no leste europeu, numa verdadeira batalha, “sem metáforas”, como diz Georgescu, “da luz contra as trevas”:

  • Sabendo muito bem que o projecto Georgescu é um projecto de progresso social, democrático e assente nas bases populares, os EUA não podem deixá-lo vingar, pois sendo inspirador e revolucionário, pode “infectar” os países do leste europeu, a quem a EU e os EUA prometeram muito e muito desiludiram;
  • Uma personagem como Georgescu, tal como o movimento em que se apoia, é similar ao tipo de movimentos de emancipação social que se viram, um pouco por todo o mundo, mas especialmente a seguir à segunda guerra mundial na Europa de leste e em muitos locais da América Latina, até aos dias de hoje, os quais resistem à submissão ao globalismo, ao neoliberalismo, aos EUA e ao que significam;
  • Uma população inspirada pelos ideais de emancipação social que Georgescu defende, tem um poder enorme, assim, os EUA têm de o estancar desde já este movimento, pois a sua afirmação fará perigar a estratégia de domínio do leste europeu, de cerco à Rússia e mesmo de contenção da China.

Toda esta acção contingente, assente em refúgios tácticos que não resolvem a contradição principal, acabará pode se revelar limitada. Existem algumas razões para em tal acreditar:

  • No final de 1991, o principal chamariz usado pelo ocidente para trazer os países de leste ao alargamento baseou-se na ideia de que, entrar na União Europeia, significava receber fundos comunitários infindáveis e aceder a um nível de desenvolvimento mais elevado;
  • Após a guerra fria, a União Europeia começou a vender-se como um espaço de “paz” e estabilidade, apresentando-se como uma construção que prevenia a guerra na Europa.

Passados mais de trinta anos, após uma crise de 2008 que não mais findou e está em vias de se agravar, a UE vende hoje a guerra contra a Rússia, como elemento de coesão. Ora, uma coisa é vender a paz, outra é a guerra. É que ninguém quer morrer, muito menos por causas que não são as suas, como a ofensiva dos EUA/NATO contra a Federação Russa.

Por outro lado, o desvio sucessivo de fundos para: 1. A construção de um complexo militar industrial e compra de armamento; 2. A criação de ciclos de acumulação que aumentam, cada vez mais o fosso entre ricos e pobres; traz consigo toda uma realidade em que se denota a estagnação do desenvolvimento infra-estrutural e económico da UE.

A época de ouro coincidiu com uma propriedade pública forte, que garantia energia, telecomunicações e logística baratas, que foi privatizada, e coincidiu com épocas de crescimento económico muito forte, capacidade de investimento público em infra-estruturas grandiosas, crescimento resultante também da capacidade de manipular o câmbio monetário, a taxa de juro, etc… Primeiro o consenso de Washington, a seguir o pacto de estabilidade, depois o Euro e tudo o que trouxe, foram facadas mortais na capacidade dos estados europeus criarem projectos de desenvolvimento. A mais valia que desenvolveu a Europa, passou a acumular-se em fundos de capital nos paraísos fiscais criados para o efeito.

Não seria então de esperar outra coisa que não fosse a desilusão pelas promessas feitas e não atendidas.

Mesmo na Lituânia, temos um partido (hoje, na coligação de centro-esquerda) chamado “Alvorada de Nemunas”, cuja defesa da soberania nacional, propriedade pública de determinados sectores económicos, críticas ao sionismo, proximidade com o campo e com a identidade nacional, a quem a imprensa mainstream também cataloga como “extrema-direita”, demonstram que outras formas de poder popular democrático e progressista poderão estar a reemergir, agora que as elites, antes derrotadas pelo movimento para o socialismo, e, mais tarde novamente elevadas pelo capitalismo ocidental, estão a falhar, uma vez mais.

E não admira que estes partidos se apresentem como sendo “anti-sistema”. O “sistema” que está hoje disseminado por um amplo centro de poder, determina como sendo “de esquerda” que é “wokista, contra o fóssil, animalista ou alterações climáticas”, de “centro” quem é liberal e neoliberal, e de direita quem é “conservador e reaccionário”. Não existe lugar para a esquerda revolucionária, do progresso e da emancipação social, do trabalho, do campo, da era humanista.

Uma esquerda dessas, é tão difícil de catalogar para as mentes superficiais e perturbadas da era globalista, resultado de um retrocesso na consciência social e no estado subjectivo das forças produtivas, só pode ser comparada ao pior que se conhece.

Tudo tem a ver com a incapacidade para sonhar com que foram impressas as mentes do século XXI. Esta incapacidade para sonhar é ela própria um travão à emancipação social. Logo, compara-se o desconhecido à negra extrema-direita. Mas apenas na aparência, como em tudo o que se vende nesta era simplista, que rejeita o pensamento complexo.

A prová-lo, está a Roménia de Georgescu. Fosse esta esquerda, social, progressista, humanista, igual à “extrema-direita”, com que a querem catalogar, e já os EUA estaria com ela a trabalhar!

Como o fizeram e fazem com todos os ditadores, mais ou menos expressos, que apoiam!

Fonte aqui.


A Síria e os “nossos ativos ocidentais”

(Pino Cabras, Deputado italiano in Observatoriocrisis, 12/12/2024, Trad. da Estátua)

Os líderes ocidentais comentam com alegria o fim da República Árabe Síria, substituída por uma coligação jihadista liderada por Abu Muhammad al-Jawlani, que tem uma longa história de militância terrorista no ISIS e na Al Qaeda.


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É muito interessante ler o desfile de declarações de muitos líderes ocidentais sobre o fim da República Árabe Síria, hoje conquistada e substituída por uma coligação jihadista liderada por Abu Muhammad al-Jawlani, que tem uma longa história de militância no ISIS e na Al Qaeda, e que como primeira medida libertou todos os terroristas do ISIS das prisões sírias.

As declarações dos figurões ocidentais também são interessantes pela uniformidade de estilo e argumentos, todos eles seguindo o mesmo padrão:

  1. Júbilo pelo derrube de Assad, rotulado como “ditador”.
  2. Referência genérica e muito monótona aos riscos associados aos novos líderes devido ao seu passado, quase nunca mencionado explicitamente.
  3. Confiança na boa oportunidade para alcançar bons acordos com os novos líderes.
  4. Alegria beligerante pela derrota estratégica de Putin. (pesquise na Internet declarações de Biden , Scholz , Von Der Leyen , Macron , Metsola , Starmer , Kallas ).
  5. Estes são os mesmos líderes ocidentais que, em certos momentos, fizeram todos os possíveis para nos assustar com o perigo do fundamentalismo terrorista e, hoje, celebram o primeiro triunfo verdadeiramente importante do jihadismo, que se torna um Estado na Síria, e fazem-no em proclamação, como zelosos repetidores das instruções de um esquema predefinido.

Você está surpreendido? Para quem acompanha estes acontecimentos há muitos anos não há surpresas. Em 19 de janeiro de 2016, o jornal The Times of Israel publicou declarações do então ministro da Defesa de Telavive, Moshe Ya’alon , que explicou que o Irão representava uma ameaça maior do que o Estado Islâmico, e que no caso de o regime sírio cair, Israel iria preferir que a Síria ficasse sob o controlo do ISIS em vez do governo iraniano. 

A declaração de Ya’alon soou como uma declaração de guerra ao Irão, uma guerra total em que cada movimento, aberto ou encoberto, era previamente justificado por Telavive. Ya’alon explicou sem floreados o que já sabíamos, mas que milhões de cidadãos ocidentais não sabem porque os jornais não os informam: os hospitais israelitas, no auge da agressão jihadista contra a Síria há dez anos, trataram milicianos jihadistas sírios feridos, e depois enviaram-nos de volta para lutar para enfraquecer ainda mais o Estado sírio.

A intervenção russa na guerra síria conseguiu alterar o equilíbrio, e aqueles que optaram por uma situação diferente queixaram-se com raiva: até as grandes e velhas raposas do imperialismo americano, Zbignew Brzezinski (1928-2017) e John McCain (1936-2018), levantaram as suas vozes alarmadas.

Na verdade, John McCain acusou Moscovo de “destruir os nossos ativos”, isto é, os militantes de grupos terroristas, considerados recursos orgânicos no que diz respeito às estratégias geopolíticas do Império. McCain, em particular, reuniu-se com vários líderes jihadistas em 27 de maio de 2013, depois de cruzar a fronteira entre a Turquia e a Síria, para discutir o envio de armas pesadas e outro tipo de apoio.

É instrutivo reler hoje uma declaração divulgada pelo Wikileaks, datada de dezembro de 2006 e assinada por William Roebuck, então encarregado de negócios da embaixada americana em Damasco, que dizia:

“Pensamos que as fraquezas de Bashar al-Assad residem na forma como ele reage aos problemas iminentes, sejam eles reais ou percebidos, como o conflito entre as reformas económicas, a corrupção, a questão curda e a ameaça ao regime, que representa uma presença crescente de extremistas islâmicos.  A nossa opinião resume a avaliação das vulnerabilidades do regime de Assad e sugere que poderíamos aumentar a probabilidade de potenciais eventos desestabilizadores”. 

Traduzido de forma menos suave: “devemos atiçar o fogo de tudo o que pode queimar Assad, incluindo aqueles assassinos nojentos, que são úteis aos EUA”.

Pouco importa se até há poucos anos o Ocidente declarou a Al Qaeda e os seus líderes, Al Zarqawi e Osama Bin Laden, terroristas e a expressão do mal absoluto. Hoje está claro que o fizeram para pôr em prática as suas técnicas de manipulação, o medo das massas e assim justificar novas guerras e leis de segurança draconianas. 

Quem – tal como eu – apresentou numerosos documentos para demonstrar a estreita relação que sempre existiu entre as organizações terroristas islâmicas e os serviços de inteligência ocidentais e especialmente com as operações sujas dos serviços israelitas, foi acusado de ter “uma mentalidade conspiratória”. Mas hoje as ações dos terroristas jihadistas são um grande motivo de alegria nas redes sociais para toda a elite dos governos ocidentais.

A pimeira lição que emerge dos factos: o que é comummente definido como “terrorismo” é, na maior parte dos casos, uma ferramenta de manipulação de massas, apoiada por entidades estatais e orquestrada com o consentimento dos poucos proprietários de quase todos os meios de comunicação social tradicionais.

Estes meios de comunicação social têm a tarefa de alimentar a histeria e os medos coletivos quando ordenados, destacando algumas vítimas inocentes e ignorando outras. Com esse controlo rígido da narrativa, a operação oposta também é alcançada: transformar os assassinos em rebeldes e em novos estadistas da noite para o dia.

Segunda lição e não menos importante: há uma uniformidade de papagaio nos chefes de governo e nos eurocratas que agora apoiam “o ponto de viragem sírio”, demonstrando que também eles, tal como os quadros da Al Qaeda, não são verdadeiros “líderes”. São simplesmente simples “ativos” de um sofisticado sistema de dominação, são “recursos” inteiramente nas mãos de quem realmente dirige o Império. E, portanto, podem rapidamente alinhar-se com os outros “ativos” das guerras eternas.

Fonte aqui.


 

Síria, após 13 anos de terrorismo de estado dos EUA, o que podemos esperar?

(Finian Cunningham in Observatoriocrisis, 10/12/2024, Trad. da Estátua)

A destruição da Síria é outro grande crime cometido pelo imperialismo ocidental liderado pelos Estados Unidos. É errado especular que houve qualquer tipo de “acordo” entre Assad e os seus aliados na Rússia e no Irão.


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Em menos de 13 dias, uma coligação de grupos jihadistas apoiados pelos EUA assumiu o controlo da Síria. A ofensiva, que começou em 27 de novembro, culminou com a renúncia precipitada do presidente sírio, Bashar al-Assad, e com a sua fuga para a Rússia. Foi confirmado que Assad e sua esposa estavam em Moscou em 9 de dezembro.

Assad afirmou que tomou a decisão de preservar a paz na Síria. A Rússia alegou que não estava envolvida na sua tomada de decisão.

A ostentação dos políticos americanos e europeus reflete anos de investimento das potências ocidentais na mudança de regime na Síria, um investimento que parece ter finalmente valido a pena.

É errado especular que houve algum tipo de traição ou “acordo” por parte de Assad e dos seus aliados da Rússia e do Irão para deixar o país render-se. Sim, o que é verdade é que o exército e as autoridades sírias capitularam num tempo vertiginoso, mas é ingénuo conjeturar sobre uma manobra mais tortuosa nos bastidores, como a Rússia ou o Irão deixando o seu aliado sírio à mercê dos insurgentes.

A Síria estava simplesmente quebrada e exausta por anos de agressão e desgaste por parte do Ocidente. Havia pouco que a Rússia ou o Irão pudessem fazer para a salvar enquanto país aliado.

O colapso final da Síria não ocorreu depois de uma blitzkrieg de 13 dias, mas depois de 13 anos de terrorismo ininterrupto por parte dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus da NATO.

A fase anterior do terrorismo por procuração patrocinado pelos EUA (2011 a 2020) foi interrompida pela intervenção da Rússia, do Irão e do Hezbollah, mas os agentes ocidentais não foram definitivamente derrotados. Em retrospetiva, isso pode ser visto como um erro estratégico fatal.

A continuação da guerra por procuração após 2020 baseou-se na imposição de sanções económicas e comerciais devastadoras à Síria, pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

A guerra por outros meios também envolveu forças militares dos EUA e da Turquia que ocuparam ilegalmente o território sírio no norte, leste e sul, permitindo o roubo das exportações de petróleo e trigo da Síria. Durante a sua presidência anterior, Trump vangloriou-se abertamente de “roubar o petróleo da Síria”.

Assim, desde 2011, quando a administração Obama colocou a mira na Síria para a mudança de regime, até à queda de Damasco no fim de semana, o país suportou uma guerra de desgaste de 13 anos. Mesmo depois da relativa paz obtida graças à intervenção da Rússia e do Irão a partir de 2020.

Os sírios foram privados de alimentos, medicamentos e combustível e mais de metade da sua população foi deslocada das suas casas. A economia síria estava em ruínas. A sua moeda tinha perdido todo o valor, ajustando-se à inflação a cada hora. Quando os insurgentes apoiados pelo Ocidente lançaram a sua ofensiva em 27 de Novembro a partir do enclave norte de Idlib, não sobrou nada do Estado sírio que pudesse oferecer qualquer resistência. Aleppo, Hama, Homs e a capital caíram como dominós.

A principal facção insurgente é Hayat Tahrir al-Sham (HTS), liderada por Mohammed al-Jawlani. A HTS é uma organização terrorista banida internacionalmente que até os Estados Unidos designaram oficialmente como um grupo ilegal. O Departamento de Estado oferece uma recompensa de 10 milhões de dólares pela captura do seu líder.

Mas, no jogo de guerra por procuração dos EUA, o HTS e o seu líder são ativos de Washington. Desde 2011, os americanos e os seus parceiros da NATO usaram a Al Qaeda, o ISIS, a Frente Jabhat al Nusra (mais tarde HTS) com fornecimentos de armas e combatentes jihadistas da Líbia, Turquia e outros países para manter a agressão à Síria e infligir-lhe horrores.

A comunicação social ocidental propagou a farsa ao se referir cinicamente aos terroristas como “rebeldes moderados”. Diz-se que a base militar gerida pelo Pentágono em Al Tanf, no sul da Síria, serve para treinar “rebeldes moderados”, quando na realidade são extremistas jihadistas que estão a ser armados.

Na semana passada, antes do ataque final à capital síria, Damasco, Al-Jawlani, o comandante do HTS, deu uma entrevista em horário nobre à rede noticiosa norte-americana CNN para reabilitar a sua imagem de líder estadista em vez da de líder terrorista, supostamente procurado.

Al-Jawlani diz que os dias em que ele e a sua organização eram parceiros do ISIS e da Al Qaeda ficaram para trás. E a CNN e outros meios de comunicação ocidentais fazem tudo o que podem para que essa afirmação pareça plausível. Ah, que final feliz!

Nesta fase inicial, não está claro se a Síria estará agora atolada num derramamento de sangue sectário, com represálias e assassinatos em massa que caracterizaram a fase anterior da guerra por procuração patrocinada pelos EUA, quando xiitas, alauitas e cristãos foram decapitados por serem “apóstatas e infiéis”.

De forma ameaçadora, nesta altura, os Estados Unidos e Israel começaram imediatamente a bombardear o país, alegando cinicamente que estavam a tentar estabilizar a situação.

Os rápidos acontecimentos na Síria surpreenderam o mundo inteiro. Quem teria pensado, há apenas duas semanas, que Assad acabaria no exílio em Moscovo? A reação dos Estados Unidos, de Israel e de outros líderes ocidentais é quase de descrença no que consideram uma grande sorte.

A Rússia e o Irão parecem ter ficado realmente surpreendidos. A guerra por procuração da NATO na Ucrânia, às portas da Rússia, tem, sem dúvida, sobrecarregado os recursos militares russos. O Irão está preocupado em proteger o seu próprio país da agressão israelita.

O presidente dos EUA, Joe Biden, e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, falaram com entusiasmo sobre a nova “oportunidade” na Síria. Ambos alegaram ter tido algo a ver com o triunfo da insurgência terrorista. Netanyahu assumiu o crédito pela sua guerra genocida em Gaza e no Líbano por enfraquecer os aliados da Síria, o Hezbollah e o Irão.

Biden foi ainda mais descarado ao explicar como o terrorismo de estado americano destruiu a Síria e abriu o caminho para que os seus aliados jihadistas tomassem o poder. Ele disse: “A nossa abordagem mudou o equilíbrio de poder no Médio Oriente através de uma combinação de apoio aos nossos parceiros, sanções, diplomacia e força militar direcionada”.

No duplo discurso de Washington, “apoio aos parceiros, sanções e força militar seletiva” traduz-se em patrocinar terroristas para subjugar uma nação, guerra económica para enfraquecê-la e agressão ilegal para forçar a submissão final. A destruição da Síria é outro grande crime cometido pelo imperialismo ocidental liderado pelos Estados Unidos.

Fonte aqui.