Esperança média de vida!

(Hugo Dionísio, in Canal Factual, 28/02/2023)

4 horas… 240 minutos… 14400 segundos…. Eis a esperança média de vida de Bahkmut, para um soldado Ucraniano, de acordo com os testemunhos de um soldado americano regressado da guerra e de um jornalista afecto ao regime de Kiev!

Arrastado pelas calçadas de Odessa; perseguido pelos centros comerciais de Kiev ou arrancado à força do seu lar… Um qualquer civil, com idade compreendida entre os 18 e os 60, com excepção dos que tenham incapacidades muito evidentes, corre sérios riscos de ser legalmente intimado a juntar-se, com força obrigatória geral e sob pena de deserção, à “força” militar que tenta a qualquer custo prolongar a presente guerra até ao próximo verão.

É isto! A sua função não é mais do que esta! Vítimas de um processo de conscrição forçada, homens e algumas mulheres, sem qualquer treino militar, recebem uma formação apressada, num qualquer centro de “treino”, dirigido sob os nada auspiciosos princípios estratégicos dos EUA, estes filhos da classe trabalhadora têm funções bem determinadas e muito precisas:

•            Ocupar os postos de combate nas trincheiras, bunkers e demais fortificações do Donbass, substituindo as melhores e mais combativas forças que são posteriormente encaminhadas para a reserva;

•            Tentar sobreviver o máximo de tempo possível, para que, contados os números e a esperança média de sobrevivência em combate, o regime “Banderista” possa aguentar-se até ao verão.

Porquê o verão? questionarão alguns. Alguns até lhe chamarão primavera. Mas, atentando ao ritmo a que vão as coisas, não será na primavera que as forças armadas, que hoje albergam todo o tipo de representações da extrema-direita mundial, receberão as tão prometidas quanto desejadas armas. Arma, as quais, uma vez mais, adiarão o final do conflito, celebrarão a morte de mais dezenas de milhares de soldados dos dois lados, mas, principalmente, soldados ucranianos. Contudo, não deixarão de encher os bolsos aos que mais lucram com todo este conflito.

Enquanto “poupam” as melhores tropas para a ofensiva que os EUA preparam já desde o outono, a juventude e a classe trabalhadora do país é arrancada às suas vidas, para intervir numa guerra que não queriam. Hoje, para além de uma lei que impede os jovens de 17 anos de saírem do país, o regime banderista requereu às suas embaixadas em todo o Ocidente, para que identifiquem cidadãos ucranianos nos respectivos países, que estejam em idade de combater, os aliciem e encaminhem para os inúmeros campos de treino que já existem nos países da NATO.

Para além de já terem surgido entrevistas de jornalistas ocidentais com jovens ucranianos com 16 anos, em pleno teatro de guerra, surgem também os relatos, segundo os quais, em alguns países, o assédio perpetrado pelos agentes, ao serviço das embaixadas ucranianas, roça a ilegalidade. Gostaria agora de ouvir onde andam os tais que tanto se preocupavam com as alegadas “esquadras chinesas”.

De referir que, neste caldeirão de recrutamentos, ao contrário dos “fugitivos” ucranianos, os mais efusivos e motivados recrutas são os representantes dos mais variados grupos e facções da extrema-direita mundial. Estão bem documentadas as representações dos saudosistas de Mussolini, com as suas bandeiras da República de Salo, aos representantes do Estado Islâmico. O regime de Zelinsky constitui hoje uma celebração viva do 3.º Reich, na sua versão transnacional e transcultural. Um autêntico carnaval do fascismo, do nazismo e do ódio que o move. O que os une não é mais do que um misto de dinheiro e ódio. Não existe qualquer intuito libertador ou emancipador: apenas o dinheiro dos nossos impostos que lhes paga os soldos e o ódio aos russos. Ódio que é instigado e posteriormente usado como motor de guerra.

Se, muitos dos representantes deste ódio, junto do povo ucraniano, já se contam entre os inúmeros cemitérios construídos, é do estrangeiro que se alimenta hoje o regime de Zelinsky, para poder fazer face ao serviço que lhe foi encomendado: instigar, alimentar e arrastar uma guerra em nome da NATO e em representação dos interesses estratégicos dos EUA. Foi o próprio Biden que, na sua visita “surpresa” (surpresa só para quem estivesse a dormir), veio dizer que “não sairemos da Ucrânia”. Nós sabemos…

Enquanto os “músicos” (pronto, eu chamo-lhes mercenários, não há problema) são obrigados a carregar camiões de corpos humanos deixados a apodrecer pelas tropas afetas ao regime banderista, para os deixar – por razões de salubridade e humanidade – à entrada dos postos avançados do inimigo, na Assembleia Geral da ONU, percebemos a razão pela qual estes desgraçados têm de continuar a morrer, não aos milhares, não às dezenas, mas já às centenas de milhares.

Numa mostra de total insensibilidade que confirma que quem não chora a morte de 900.000 iraquianos mortos numa guerra “inventada”, também nunca choraria a desgraça de centenas de milhares de ucranianos, russos ou outros; a votação da resolução condenatória da intervenção russa constituiu mais um momento de celebração da guerra e da sua continuidade. Pudemos ouvir os líderes ocidentais dizer que “a federação russa tem de ser derrotada” porque eles querem e “a Ucrânia está a ganhar a guerra”, mesmo que esteja em farrapos. Nem um só piscar de olhos, fôlego ou olhar que denunciasse uma qualquer compaixão, o receio de uma escalada que nos mate a todos ou o mais ínfimo ou envergonhado desejo de paz e harmonia. Nada, vezes nada!

 E se as leituras ocidentais à votação revelam, uma vez mais, toda a falácia da comunicação que todos os dias nos forçam a ouvir, houve um país que os deixou mesmo muito preocupados. Se choveram as parangonas a dizer “o Brasil condenou o Kremlin”, nem tão pouco os EUA ficaram contentes com a posição. Todos sabem que “o mundo” não é a maioria da humanidade e “a maioria” não aplica as sanções, e muitos votam mais por jogo de cintura do que por convicção.

Esta posição de Lula da Silva já era conhecida e, a meu ver, o que faz a diferença no final, não é a condenação da guerra nem os jogos de cintura que dele já conhecemos. De uma forma ou outra todos os seres humanos justos têm de a condenar. Condená-la pelo que é, pelas suas causas e não pela propaganda desabrida. No final, o que conta, são duas coisas ainda mais fundamentais e que jogam com a matéria, e não com as ideias, que possam ser repetidas até à exaustão como “o mundo está com a Ucrânia”, leia-se, “está com a NATO”. Trata-se, primeiro, da adesão às sanções, e a este respeito, o Brasil permanece firme na rejeição do isolamento do seu parceiro BRICS+; em segundo, o fornecimento de armas, e, também aqui, Lula deu uma resposta de mestre, lembrando que um ser que se diz pacifista e democrata, não combate países, nações, culturas ou civilizações: combate a fome e a miséria.

Pelo que representa Lula da Silva no mundo inteiro, e, a este respeito admitem-se sempre reflexões em torno da ligação entre discurso e realidade das suas políticas concretas, o que é um facto é que o presidente brasileiro é um exemplo para todo o Sul Global, mas não só, também para muita da esquerda europeia e americana, com especial incidência naquela que mais dói ao Império: a penetração do “Lulismo” junto do que hoje se classifica como “esquerda liberal identitária” é muito grande. Se a aceitarmos como “esquerda”… claro.

Ora, quando jogada esta pretensão de Lula em tornar-se um obreiro pela paz, com a proposta chinesa de acordo de paz, com as pressões da Turquia, adicionadas às informações de Bennet, ex-primeiro ministro Israelita que referiu terem sido os EUA que bloquearam os acordos de paz, no final de março de 2022, à data já redigidos… Tudo somado, onde fica o inferno, por mim caracterizado na primeira parte do artigo e, todos os dias, a toda a hora e em “modo de guerra” comunicacional, repetido até à exaustão pela comunicação social corporativa dominante?

Com o que sabemos hoje, apenas quem interpreta a política ao nível do jardim-de-infância ou da pré-primária, ainda pode considerar – com honestidade – que o problema dos EUA e dos seus braços (UE, o político; NATO, o militar) é a proteção da Ucrânia e do povo ucraniano. Aliás, só a esse nível se pode considerar esta uma guerra entre dois países eslavos e não entre a federação russa e os EUA (com os seus tentáculos, claro).

As palavras de Sholz, a esse respeito, dizem tudo: “ainda não é tempo de paz”!

É assim que se comportam aqueles que se consideram Donos Disto Tudo: não é o sofrimento humano que determina a urgência da resposta; é a defesa dos seus egoístas, autocráticos e discricionários interesses! E a Alemanha sabe, melhor do que ninguém, que exército ajudou a formar para se destruir a si própria.

Acolhendo um grupo de aprendizes ucranianos para serem formados na construção de blindagens, fez questão o governo alemão de afixar nas paredes dos dormitórios o seguinte aviso: “Atenção, a exibição de imagens alusivas ao fascismo e ao nazismo é proibida na Alemanha, podendo dar pena de prisão e multa”.

Mas quem se lembraria de colocar um aviso destes numa formação em Portugal? Ou em Espanha? Ou mesmo na Alemanha?

Acho que diz tudo deles… Mas diz ainda mais destes, da sua hipocrisia e desfaçatez!

O fascismo e o nazismo são produto e instrumento do capitalismo e do imperialismo!

Não nascem e prosperam no vácuo. Vejam o que disse Pompeo, ex-secretário de estado de Trump, sobre o aumento de tropas dos EUA em Taiwan: “é um começo”!

Sholz tem razão. Não é tempo de paz, é tempo de luta! Sob pena de, qualquer dia, serem os nossos filhos a terem de enfrentar quatro horas de esperança de vida, em nome de interesses que não apenas não lhes dizem respeito, como são contraditórios aos seus interesses.

Já acontece, está a acontecer e por obra dos mesmos interesses!

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Defender “esta” Europa, para nosso azar!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 10/02/2023)

Na reunião que levou este súbito multimilionário – agora 50% mais rico do que no início do conflito que opõe a NATO à Federação Russa, de acordo com os últimos Pandora Papers -, foi possível ouvi-lo afirmar que “é esta Europa que defendemos no campo de batalha”.

Perante o regozijo do batalhão composto por funcionários, capatazes e outros quadros intermédios do aparato político-corporativo que compõe a cúpula do poder da EU – encabeçado pela sua zelosa CEO Úrsula Von Der “Lata” -, o comediante sem graça proferiu o seu vulgar discurso, como sempre carregado de chavões propagandísticos, tão mais vazios quanto mais cheios estão os seus bolsos, devido ao papel execrável que desempenha.

Confrontado com a insuficiência de recursos e apoios para fazer face à sua defesa “desta” Europa, o comediante lá vai assumindo uma tónica catastrofista que não joga minimamente com o tom triunfalista de quem dizia, em Setembro passado, que não perderia mais um metro quadrado que fosse para o inimigo.

Em passo acelerado para completar a destruição do terceiro exército que a NATO lhe coloca ao dispor (o 1.º foi logo no primeiro mês; o 2.º foi no verão passado; o terceiro está a ir agora), e insistindo na chacina de centenas de milhares, às mãos de um exército que decidiu provocar e combater, o comediante promovido a presidente, pelos poderes oligárquicos pró-ocidentais, desdobra-se em reuniões pedindo tudo o que dispare qualquer coisa, velho ou novo, funcionando ou não.

Lembro que a derrota do exército privado que tem ao seu dispor, montado com o dinheiro dos impostos dos europeus e americanos, longe de ser inesperada, era há muito anunciada. Só uma avaliação arrogante, auto-indulgente, imbecil e realizada por gente seguidista sequiosa de agradar aos seus chefes, poderia levar alguém a pensar que a Federação Russa é um país susceptível de se deixar vencer no campo de batalha. Tal como os EUA ou a China, a Rússia é um daqueles colossos orgulhosos da sua pátria e história, que prefere perder milhões dos seus filhos a sucumbir a um qualquer poder estrangeiro. A história demonstra-o à saciedade.

Foram e são muitos os que o disseram desde o início, foram e são muitos, os que hoje o passaram a assumir, foram e são muitos os que disseram que a retirada de Kharkiv, não era uma derrota da Rússia, era o início do fim do exército da NATO na Ucrânia. A retirada tática de Kherson, apresentada pela Ucrânia como vitória, para além das dezenas de milhares de soldados mortos, que se esmagaram, em vagas sucessivas contra o muro defensivo então montado, representou o ponto em que, o lutador, assenta bem os pés no chão, para passar ao assalto final. Na imprensa corporativa quase ninguém o constatou…

Hoje, perante os avanços diários da Rússia em toda a frente, começa a ser indisfarçável o tom derrotista, que denuncia o desespero. Foi esse desespero que o comediante levou a Bruxelas. O que faz todo o sentido, pois ao fazê-lo, assume-se finalmente por conta de quem esta marionete mandou para guerra centenas de milhares de jovens, filhos da classe trabalhadora, enquanto os seus fugiram para “esta” Europa, que lhes franqueou as portas, entrando por elas adentro todo o tipo de representantes das estruturas sociais criminosas que são características de um dos países mais corruptos do mundo. “Esta” Europa recebeu-os de braços abertos! Os trabalhadores ficaram a combater e a morrer por “nós”! É o conto que agora nos é contado!

Mas que Europa diz o comediante defender, no campo de batalha?

Coloca-se a questão de se saber se a Europa que é defendida no campo de batalha será, sequer, uma Europa que valha a pena ser defendida. No fundo, devemos perguntar se esta Europa, não será tão indefensável, quanto o mandatário belicoso contratado será incapaz de a defender. Se não estarão, os dois, bem um para o outro.

Começamos logo pela própria escolha do campo de batalha – o território ucraniano -, como sendo o terreno escolhido para a defesa “desta” Europa. Esta escolha representa, em si mesma, a imagem da razão última, pela qual, “esta” Europa não pode, não deve, nem sequer merece ser defendida! É que não foi “esta” Europa quem escolheu esta batalha; não foi “esta” Europa quem escolheu este campo de batalha! “Esta” Europa não escolhe, decide ou produz, por vontade própria, muito menos, dos seus povos. “Esta” Europa é apenas um instrumento de vontades alheias. Merkel e Hollande bem representam “esta” Europa quando confirmaram o papel execrável que lhes foi encomendado, e que tão honrados se sentiram em cumprir, mesmo contra a vontade dos povos europeus, ucraniano e da Federação Russa.

Como defender “esta” Europa, numa batalha em que actua como mero fio condutor de um poder que não é seu? De um poder que não lhe pertence? De um poder que não controla, mas que, ao invés, por ele é controlada?

A Europa que o comediante diz defender é uma Europa sem ligação à vida real, não passando de uma superestrutura desconectada da vida dos povos que a compõem, apenas funcionando, entre ambos, uma ténue ligação unidireccional, posicionada de cima para baixo, estabelecida pelos órgãos de propaganda institucional a que chamamos imprensa. Se a imprensa transmite aos povos as pretensões dessa Europa, manipulando e construindo o consentimento social necessário (o que Noam Chomsky escreveu sobre isto!), tão pouco esta Europa admite que os povos, resistentes ao consentimento construído, possam ter uma voz no desenho e aplicação das suas ações. Não é a eles que esta Europa responde.

Esta Europa responde mais acima, como um qualquer director corporativo responde ao seu CEO, ou este, aos seus accionistas, aqui transformados na elite oligárquica que financia, emprega, enriquece e suporta, como funcionários bem qualificados – nas universidades e colégios mais caros que só o dinheiro pode comprar –, os directores que compõem “esta” Europa.

A Europa que muitos, enganadamente, pensam ver defendida nos campos de batalha do leste europeu, e que ontem o comediante disse defender, é a Europa que decidiu, sem qualquer discussão democrática, fazer todos os estados membros (com excepção da Áustria e Hungria) entrar em guerra com a Federação Russa. Num total desprezo pelas estruturas representativas nacionais, a cúpula da Comissão Europeia, um organismo sem base democrática, decide, em nome dos povos europeus, enviar biliões de euros de material bélico ofensivo que, directamente, nos coloca em guerra com os alvos finais de tais armas.

Não contente, é esta mesma Europa que decide que os nossos países, uma vez mais, sem qualquer discussão democrática, passem a ser usados como campos de treino para mercenários e emigrantes ucranianos, nesses territórios, colocando-nos como agentes directos do armamento, treino e envio de forças para o campo de batalha.

Esta Europa, sem ouvir o povo português, arrastou o nosso país para a guerra! Claro que, esta Europa é também a mesma Europa que no seu âmago tem governos que não a comprometem, que não a questionam, ou lhe impõem limites. Esta Europa é a Europa da desconsideração das soberanias, da independência e liberdade dos povos para decidirem do seu destino.

Acresce que, comportando-se como meros tentáculos “desta” Europa, como miúdos bem comportados numa escola militar com medo de umas reguadas do professor, os governos nacionais “desta” Europa são os mesmos que não dizem uma palavra sobre o facto de, principalmente, a partir 2014, sabermos que a Ucrânia é um país dominado por milícias paramilitares – agora transformadas em tropas regulares – de extrema-direita, e de se inspirar na doutrina, nos símbolos e na prática, na odiosa ideologia de Bandera, bem visível na profusão da simbologia nazi por todo o país.

E se silenciar isto tudo é extremamente complicado para gente – como Santos Silva que diz querer combater a extrema-direita -, esta Europa é a mesma que, enviando cada vez mais biliões de euros dos nossos impostos, nos diz, ao mesmo tempo, que temos de suportar o aumento das taxas de juro e a perda das nossas casas. Esta Europa, que o comediante diz defender no campo de batalha, convive optimamente com o crescente número de homens e mulheres sem-abrigo, que povoam as pontes e arcadas das nossas cidades mais ricas, enviando tanto mais dinheiro para a guerra, quanto mais o nega para o investimento público necessário, em habitação, saúde, segurança social ou educação.

E se, quando aprovam os inúmeros pacotes de “ajuda”, para uma guerra que visa proteger, não “a” Europa, mas “esta” Europa, não há défice que resista, quando se trata de responder aos graves problemas sociais que crescem de dia para dia, lá vem o Eurogrupo – mais uma estrutura oligárquica não eleita que manda nos ministérios das finanças –, dizer “cuidado com o défice”.

E não havendo défice que resista, também não há cativação ou contenção orçamental que não seja removida quando se trata de pagar biliões à Pfizer (cujos contratos se recusam a divulgar), construir altares megalómanos ou premiar os grandes grupos económicos com isenções e incentivos de toda a espécie, enquanto promovem a desregulação do trabalho, a precariedade e a manutenção dos salários em níveis inaceitáveis. É este o tipo de governo que vive “nesta” Europa.

Uma Europa que nos censura a comunicação social que não se limita a reproduzir os comunicados da NATO, Casa Branca ou G7, que persegue nas redes sociais e pratica a ideologia do cancelamento, contra todos os que têm a coragem de denunciar a sua corrupção moral, material e política.

Numa Europa em que, desde 2002, os salários cresceram em média 0,3%, mas os 1% mais ricos se apropriaram, no mesmo período, de mais de metade da riqueza produzida – enquanto assistimos a uma degradação, sem precedentes, das condições de vida -, ainda temos de assistir a uma escalada belicista, que pode acabar em nuclear, e que vem provocando a destruição e deslocalização da industria europeia, para engordar a elite de um país, que não se encontra neste continente, mas noutro.

Não, quem conhece a História e sabe que a Europa se reconstruiu, no pós-guerra, maioritariamente por ação da energia e matérias-primas baratas vindas da URSS e, mais tarde, da Federação Russa, processo iniciado na “guerra fria”, não pode acreditar que é a Rússia quem quer destruir o modo de vida europeu, quando tanto lucrava com ele. Quem destrói o modo de vida europeu é quem promove uma Europa, “esta” Europa, das divisões, dos blocos e das sanções.

E, quem promove “esta” Europa da pilhagem dos povos, dos seus próprios povos, é quem se diz português, espanhol ou italiano, mas tem o sonho de estudar nas melhores universidades americanas e inglesas, dando voz a um complexo neocolonial, de que, o que é estrangeiro, é que é bom. E fazem-no, sabendo que, só por ali, e mesmo só por ali, acedem à cúpula de poder “desta” Europa. Pois é “só por ali” que recebem os ensinamentos que os amestram como bem-comportados – e acríticos – moços de recados. O selo de qualidade dos “melhores” colégios, das mais “prestigiadas” universidades anglo-saxónicas e das mais bem-sucedidas corporações, equivale a uma mordaça, acompanhada de palas nos olhos. Faz… mas nunca questiones. E se questionares, nunca o faças acima… E, acima de tudo, nunca, mas nunca, questiones a narrativa! A narrativa constitui o fio condutor da acção… Apenas da acção. Porque o pensamento, “nesta” Europa, não existe! Uma vez mais, arrepiante a precisão de 1984 de Orwell!

A Europa que o comediante diz defender no campo de batalha, é uma Europa que só pode ser ali defendida, porque é “esta” Europa! Fosse outra Europa, a “nossa” Europa, e não haveria sequer necessidade de a defender. Porque os povos nunca querem guerra. E quanto mais vejo o regozijo daquela cúpula europeia com a revelação de que “estamos todos em guerra”, mais me convenço disto mesmo. Quem quer a guerra, nunca é quem nela morre!

Ora, por ser o que é, “esta” Europa não merece defesa possível. A “Europa” do comediante não é a Europa dos europeus, é a Europa dos grandes interesses.

Não admira, portanto, que apenas gente como ele, corrupta, vende-pátrias, traidora dos seus povos irmãos, traidor da sua língua (este traidor foi criado e cresceu a falar russo, perseguindo agora no seu país quem agora o fala), considere estar ali a defender tal Europa.

“Esta” Europa, é a Europa que nos oprime, é a Europa que nos mente, que nos censura e que nos desrespeita todos os dias. É a Europa que faz a guerra em vez da paz, que promove a discórdia ao invés da fraternidade, que divide para reinar!

O comediante está certo! É “esta” Europa que ele defende! Para azar do seu povo e do nosso!

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O casamento de sonho

(Hugo Dionísio, in Canal Factual, 03/02/2023)

As ondas de paixão que unem os centros do poder neoliberal e neoconservador à cúpula do poder leal ao regime ultranacionalista ucraniano, encontram muitos pontos em comum, que tornam possível um casamento com potencial altamente destrutivo para o povo pacífico e trabalhador daquele país. Povo, martirizado por um regime belicista e com uma ideologia odiosa, que merece toda a solidariedade, devida a todos os povos do mundo.

Um dos mais importantes dotes a cumprir, para a consecução da união “amorosa”, está bem traduzido na recente reforma laboral do país, que Michael Hudson comparou – não sem razão – à do próprio Pinochet, o que nos permite caracterizar aquele regime não apenas como reminiscente da pior das versões fascistas – o nazismo -, como prossecutor da doutrina do choque neoliberal, inaugurada pelos Chicago Boys de Milton Friedman, religiosamente praticada por Thatcher e agora transposta para o país do leste europeu com a manifesta oposição do seu povo trabalhador.

Vejamos que, mesmo organizações ocidentais, sempre tão branqueadoras da ideologia fundadora daquele regime, foram obrigadas a reconhecer, nos seus comunicados, que “o governo Ucraniano pode usar a lei marcial e a invasão russa para atacar os direitos laborais”. Olhando agora para a extensão da “reforma” laboral e o epílogo do processo com uma carta de amor enviada às maiores corporações de Wall Street – (ver aqui) -, pelo próprio presidente comediante, é razão para nos questionarmos sobre o que unirá tais organizações ditas “democráticas” a uma figura corrupta (vide Pandora Papers) que recruta à força para a guerra, vende o país ao estrangeiro – Blackrock e Monsanto dominam hoje uma parcela enorme da propriedade rural e urbana do país -, e ataca os direitos dos trabalhadores, tornando-os carne para canhão, não apenas nos campos de batalha, mas também nas mãos dos oligarcas que sustentam o seu poder.

Diga-se, em bom rigor, que a tentação da “reforma” neoliberal das leis laborais nesse país já não é de hoje. A cada governo pró-ocidental e nascido de uma qualquer revolução laranja, lá vinha a tentativa de alteração e consequente destruição do património jurídico-laboral do país. Claro que, quando se sabe que a maior central sindical do país tem mais de 50% da população activa sindicalizada nas suas estruturas, bem se percebe que o ataque é aos sindicatos e à própria democracia que sem eles não vive. Para os que ficam tão chocados com os negócios que muitos países fazem com a China, em que esta constrói as infraestruturas e depois obtém benefícios de concessão, no caso concreto, o Fundo da Propriedade Estatal da Ucrânia anunciou a privatização do porto de Belgorod-Dnestrovsky em Odessa. A teoria é a de que o porto não era rentável e a receita nem para os salários dá. Até parece que por cá também não foram geridas, de forma tão danosa quanto criminosa, empresas públicas, apenas para justificar a sua privatização a baixo preço. Ora, se isto aconteceu em países como Portugal, imagine-se como é no país mais corrupto do mundo, nas palavras do próprio Bill Gates.  O facto é que estes fundos abutres ocidentais, não constroem nada, só pilham. Tudo baseado na corrupção, na aquisição com ganhos elevados para o erário público dos países “investidos” e sempre, mas sempre, em lógicas comunicacionais e argumentativas comprovadamente falaciosas. Se houve algo que ficou provado à saciedade, foi que a gestão pública, quando bem feita, não só é mais eficiente, como mais benéfica, para os utentes e para o país. Claro, não está ao dispor da pilhagem medieval, disfarçada pela aura da sofisticação financeira.

Para se ter uma ideia dos efeitos nefastos da “reforma” do passado Verão (como é diabolicamente maligna essa palavra “reforma”), cerca de 70% dos trabalhadores deixam de estar sob a protecção do Código do Trabalho. Nascida das entranhas das cúpulas neoliberais e propagandeada na Conferência de Lugano “Ukraine recovery”, um amplo festival de pilhagem, travestido de “privatizações, liberalização e transparência”, e bem relatado em aqui, no que toca ao trabalho, toda a acção se centra na criação de um regime paralelo que derroga a aplicação a todos os trabalhadores de pequenas e médias empresas, até 250 trabalhadores.

Estes, ao invés de contarem com os sindicatos, a contratação colectiva e o próprio código para regularem as suas condições, passam a “negociar” directamente com os patrões, numa lógica individual. Ou seja, como estabelece a lei em causa “em condições de igualdade”. Condições de “igualdade” que sabemos não existirem entre as partes, sendo precisamente por isso que nasceu o direito do trabalho.

Então, o que há de errado com o Código do Trabalho ucraniano? A bem dizer, nada, apenas não se coaduna às pretensões neoliberais em voga no Ocidente e tão bem conhecidas no nosso país. O Código do Trabalho é de 1971, ou seja, ainda do tempo da URSS, e embora tendo sido alvo de muitas alterações, mantém a matriz protectora do direito do trabalho, própria de um regime jurídico que visa proteger os trabalhadores e o seu direito ao trabalho. Basicamente, o código tem tudo o que tem um qualquer código laboral europeu mais protector: férias, despedimentos com justa causa, contratação colectiva, participação sindical, greve…

De 2000 em diante, sempre que a direita neoliberal e pró-ocidental estava no poder, foram várias as tentativas de afastar este Código do Trabalho, a última das quais em 2021. As massivas manifestações, à data, tornaram impossível a aprovação das leis propostas, tendo o governo recuado nas suas pretensões.

Consequentemente, e perante as dificuldades, vem o Foreign Office Inglês (quem mais?) e, através de um programa financiado pelo UKAid, no valor de 180 milhões de Libras, não apenas estabeleceu os parâmetros da reforma como produziu uma estratégia política e de comunicação, que passou por partir a reforma em vários projectos mais pequenos e em usar a lei marcial para contornar os processos de consulta pública: um procedimento “altamente democrático”, portanto.

O resultado? Para além do que já referi atrás, ainda encontramos coisas como:

•            Contrato de trabalho de 0 horas;

•            Negociação individual com a possibilidade de afastamento do direito à liberdade sindical, à greve e à contratação colectiva, nas PME;

•            Desregulação dos horários de trabalho, férias, despedimento e categorias profissionais.

Na estratégia de comunicação podemos encontrar todo o tipo de chavões neoliberais: “a lei laboral é muito rígida”; “há que simplificar e facilitar o despedimento e a contratação”; “ a liberalização vai levar ao aumento do emprego e melhoria dos salários”; “a liberalização levará a postos de trabalho mais dignos”; “a rigidez da lei laboral afasta os investidores”; “ a lei é protectora, mas não é aplicada”, e por aí fora.

Esta “mãozinha” dada pelo padrinho Inglês Boris Johnson e a madrinha Úrsula, acaba com um casamento de sonho, declarado através de uma carta de amor às maiores empresas de Wall Street, em que o comediante sem graça apresenta o programa AdvantageUkraine e diz, entre outras coisas:

– O meu país tem muitos e bons negócios para quem quiser investir (daí a mão de obra barata);

– São 400 milhões em parcerias publico privadas (leia-se “teta”) e privatizações, incluindo da banca pública;

– Um projecto gerido pelo USAID (esta organização é a encarnação do mal) que ajudará os investidores a identificar as melhores oportunidades (leia-se, os EUA a pilharem a Ucrânia);

– Esta é a maior oportunidade de reconstrução desde a Segunda Guerra mundial (leia-se: paguem-me que eu dar-vos-ei tudo).

Não se conhecendo nenhum país que tenha saído mais rico e desenvolvido de um casamento deste tipo, pois o “dote” é extremamente caro e deixa a família da noiva (o povo) na mais absoluta penúria, até a OIT veio criticar o arranjo. Aliás, são as próprias organizações sindicais europeias e inglesas – com posicionamentos questionáveis sobre este conflito, para não correr o risco de exagerar – que vêm anunciar “o fim da democracia”. É o caso da organização inglesa “Opendemocracy” ligada ao Labour e ao TUC. São estes também que vêm reconhecer que, ao contrário dos tempos da URSS, hoje, os sindicatos ucranianos não têm qualquer participação na gestão das empresas. O que faz o tempo a estas cabeças!

Bem, dizer isto é manifestamente exagerado. Pois quer dizer que, das duas uma, ou consideram o regime ucraniano actual uma “democracia” e isso é preocupante, ou então andaram a dormir este tempo todo, desde o golpe de extrema-direita que apoiaram em 2014.

É que, todo este casamento começou a construir-se aí mesmo. O primeiro partido aniquilado – formalmente, claro – foi logo o partido comunista ucraniano, um partido que, por sinal – e não é para admirar – se opunha, e opõe (agora clandestinamente), à intervenção russa. Portanto, nem foi sequer um problema de ódio racial anti russo, foi mesmo um problema de ódio ideológico.

Depois seguiram-se os sindicatos, hoje mais ameaçados do que nunca, muitos encerrados e eliminados administrativamente, com as suas propriedades confiscadas. Neste caminho, nenhum partido de esquerda, do PC ao Partido Socialista sobrou. Foram mais de uma dezena os partidos extintos e, inclusive, encarcerados alguns dos seus líderes. Nem a Igreja ortodoxa se safou, numa perseguição religiosa baseada também no ódio racial.

Se a isto juntarmos as prisões arbitrárias, as punições e linchamentos públicos de cidadãos russófonos, ucraniano-russófonos, comunistas, ciganos e outros… Tudo bem documentado desde 2014. Dá para pensar no que anda esta gente a ler, para dizer que agora é que vai acabar a democracia. Fazia-lhes falta ler este artigo sobre a natureza do nacionalismo naquele país, o papel da CIA na sua promoção, as ligações entre Bandera e o nazismo e, por fim, a assunção da ideologia de Bandera pelo regime atual, como seu elemento identificativo e fundador – uma ideologia racista, xenófoba e intolerante. Está documentado e é assumido pelos próprios! Não há um único “democrata” que se preze que possa dizer: “não, eu não sei que o regime ucraniano se baseia na ideologia de Bandera!”. Notas, bandeira, hino e outros símbolos, têm consagrado o tríptico de Bandera! O que é preciso mais?  Já não chega de faz de conta?

O mais caricato disto tudo é chamar ditadura ao regime russo. Com limitações óbvias e conhecidas (mas nem sempre reportadas da forma adequada), a Rússia é, mesmo assim, um país que em todos os índices democráticos, sociais, culturais, corrupção e económicos tem uma performance bem mais simpática do que a do regime do comediante sem graça. Têm piada estas classificações fáceis, típicas da ideologia identitária e “woke” que o neoliberalismo injectou nalguns “democratas” e que os levou a trocar as questões do trabalho, pelas das minorias urbanas radicais e intolerantes. O que tanto jeito dá ao desesperado e decadente império! Conseguir desviar uma parte importante da luta pela emancipação humana, das questões essenciais como a desigualdade e injustiça material, as quais impedem a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, orientando as massas para questões que, sendo importantes, são apenas decorrentes das primeiras… foi de mestre! É equivalente a um assaltante conseguir colocar um cão de guarda a correr atrás da própria cauda, ao invés de o ter a correr atrás de si (hei-de voltar a esta comparação!). Eis o que fazem os ingénuos identitários “woke”, correm atrás dos problemas, ao invés de eliminarem o mal que os cria. Ao invés, até são apanhados na armadilha do apoio a “causas” que elas próprias entroncam na natureza dos problemas que dizem combater, como o caso da guerra no leste europeu, que opõe as duas maiores potências militares do planeta.

O desesperado e decadente império agora encontra-se em divórcio acelerado com a China e programa para 2025 a sua próxima batalha. Uma vez mais, uma batalha desesperada, uma perigosa fuga para a frente, que constitui uma tentativa de criar uma situação de caos mundial do qual os EUA – como na Segunda Guerra Mundial – voltem a emergir como única potência não destruída e com os meios para se apoderar – como sucedeu na Europa, Japão e Coreia do Sul – dos mais variolosos recursos desses países, a troco de uma “ajuda” que não podem recusar. Aliás, esse processo já está em curso, hoje e neste preciso momento, nas várias dependências neocoloniais identificadas como UE e G7.

Não obstante, já anda gente muito assustada com isto tudo, ao ponto de Pedro Sanchéz vir dizer que “é preciso falar mais de paz”, o novo primeiro-ministro checo vir criticar as sanções e apelar ao diálogo, a Croácia idem e Lula da Silva ter dado uma lição de humanidade a Mácron, o empregado da Mackinsey e dos Rothschild, quando lhe disse “a nossa guerra é contra a fome”. A de Macronette também deveria ser…. Devia.

Numa UE onde já não chegam as pontes e as arcadas para abrigar o povo que é atirado para a rua, continua a haver dinheiro para enterrar no buraco negro de Zelinsky e companhia. Que só serve para matar mais ucranianos. Dinheiro, esse, bem visível nos bólides de 200.000 euros que, com a matrícula ucraniana, rodam por Lisboa. Dá que pensar: o povo trabalhador é despojado dos seus direitos, para que alguém tenha carros e casas caras. Onde estão agora os defensores do povo ucraniano, com as suas bandeirinhas de Bandera?

Na cimeira UE-Ucrânia temos a celebração do casamento de sonho, de onde sairá a promessa de união na vida (dos EUA) e na morte (da Ucrânia), na saúde (dos EUA e NATO) e na doença (do povo ucraniano e europeu) e na riqueza (das elites oligárquicas e seus capatazes dos EUA/G7 e UE) e na pobreza (dos povos envolvidos).

Uma espécie de casamento por contrato, em que a noiva é arrastada a ferros, pelo pai (o comediante sem graça) que a deveria proteger dos agressores. O pai, neste caso, recebeu um dote bem guarnecido. Agora, alguém que apareça e diga que existe impedimento!

Voluntários? Foi o que pensei!

P.S. Para quem pretender uma informação mais detalhada sobre as alterações à legislação do trabalho na Ucrânia, ver aqui.

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