“Você obteve uma vitória. Aproveite a vitória”

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 17/04/2024)

Israel terá de incorporar no seu cálculo estratégico o facto do Irão de hoje não ser o mesmo Irão de há duas décadas. Fica a esperança de o conselho de Biden a Netanyahu prevalecer.


Disse o presidente Joe Biden ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no rescaldo da operação militar iraniana em território israelita, em 13-14 de abril, procurando dissuadir Israel de retaliar. Afinal Israel intercetou 99% dos drones e mísseis lançados pelo Irão. Simultaneamente, Biden foi dizendo a Netanyahu que os EUA não apoiarão uma resposta israelita a Teerão.

Telavive tem procurado insistentemente envolver os EUA numa derradeira campanha militar contra o Irão. O ataque à soberania iraniana através da ação militar contra as instalações diplomáticas de Teerão em Damasco tinha esse objetivo. Telavive sabia que estava a pisar uma linha vermelha intolerável à luz do direito internacional para qualquer Estado; sabia o que estava a fazer. Foi uma ação deliberada, esperando que uma resposta iraniana demolidora viesse colocar os EUA a seu lado num ataque massivo ao Irão. Parece que os planos de Telavive não se irão concretizar.

A resposta militar iraniana foi calibrada tendo o Irão informado previamente os EUA e os Estados vizinhos da região da realização da operação, com cerca de 72 horas de antecedência, procurando assim obviar baixas civis. O Irão pretendia atacar os alvos militares que considerava terem estado envolvidos no ataque israelita de 1 de abril, em Damasco: as bases aéreas de Nevatim e de Ramon, ambas no sul do país, e os radares e meios de defesa aérea israelita nos montes Golã, o que conseguiu com sucesso.

Os danos provocados a Israel foram considerados pelo New York Times “relativamente limitados”. A comunicação social israelita manifestou-se no mesmo sentido, pairando no ar o desincentivo a uma retaliação. Baixas civis volumosas dariam a Israel um excelente pretexto para retaliar. Não foi o caso. Telavive não foi encostada à parede como foi Teerão com o ataque do dia 1 de abril. A resposta iraniana não pisou linhas vermelhas. Washington ajudou Telavive a deter o ataque iraniano, mas parece que não a ajudará a atacar o Irão. A concretizar-se, essa falta de apoio representará uma derrota para Netanyahu.

Houve quem pensasse, entre eles eu, que com o ataque a Israel, o Irão tinha caído na armadilha montada por Telavive. Sabe-se hoje, que Teerão geriu com destreza a escalada da violência, mostrando a sua força sem ir demasiado longe na resposta, não dando pretexto para a uma reação militar israelita ou mesmo americana. Embora os EUA neguem, sabemos que foram informados da operação pelo Irão, assim como Israel através da Arábia Saudita e dos Emiratos Árabes Unidos, que lhes transmitiram os planos de ataque para que pudessem proteger o seu espaço aéreo.

Não interessa a Washington nem a Teerão uma guerra generalizada e sem controlo no Médio Oriente. Farão o que está ao seu alcance para a evitarem. Os EUA receiam que Israel possa não estar a ter em conta as potenciais consequências negativas de uma resposta. Afinal, os EUA têm cerca de 30 mil soldados relativamente vulneráveis na região, em particular na Síria e no Iraque, que não ficarão incólumes no caso de uma ação militar norte-americana contra Teerão. Se tiver de escolher entre os seus interesses e os de Telavive, Washington não terá dúvidas na preferência.

As chancelarias europeias tão silenciosas quando as instalações iranianas em Damasco foram atacadas saíram da hibernação para condenarem o Irão que, em última análise, atuava em legítima defesa ao abrigo do Art.º 51, da Carta das Nações Unidas, algo que não fizeram quando as instalações consulares em Damasco foram destruídas.

Em matéria de cinismo, Telavive não ficou atrás das chancelarias europeias. Depois dos discursos inflamados sobre a inutilidade das Nações Unidas e dos ataques às suas agências em Gaza, Israel veio pedir uma reunião do Conselho de Segurança para considerar a Guarda Revolucionária Islâmica uma organização terrorista. De notar que o Conselho de Segurança se recusou a reunir depois do ataque israelita de 1 de abril.

A narrativa das 99% interceções é útil para convencer a opinião pública da não necessidade de retaliar, sobretudo a israelita. Os danos foram limitados e as baixas em vidas humanas quase nulas, como tal não se justifica uma resposta. Tanto a imprensa israelita como a norte-americana afinaram diapasões e coordenaram o alinhamento das mensagens. Não obstante essa narrativa ganhadora, os altos-comandos israelitas deverão estar tremendamente preocupados.

Sabem que a operação iraniana não foi “fogo de artifício”. A bem escalonada defesa aérea israelita não foi capaz de deter os misseis hipersónicos lançados por Teerão. Não terá sido muito confortável ver mísseis iranianos sobrevoar o Knesset tornando evidentes as vulnerabilidades da melhor defesa aérea do mundo. Perante as imagens em circulação na internet, Telavive não teve outro remédio se não reconhecer os danos procurando, no entanto, minimizá-los. Só uma das bases aéreas foi atingida por sete mísseis hipersónicos.

Independentemente do que se disser, o Irão demonstrou capacidade para contornar o poderoso e avançado sistema antimíssil israelita. Os mísseis hipersónicos iranianos foram capazes de nulificar o avançado radar AN/TPY-2 de banda X norte-americano estacionado em Har Qeren, no deserto do Negev, com a missão de detetar os lançamentos de mísseis iranianos e transmitir os dados às baterias israelitas Arrow e David’s Sling, e às americanas THAAD que tinham por missão proteger locais sensíveis, incluindo a cidade de Dimona onde se encontram as instalações nucleares israelitas e as bases aéreas de Nevatim e Ramon, de onde terão partido as aeronaves que atacaram o consulado iraniano. Há evidência de que os mísseis balísticos hipersónicos iranianos não tiveram praticamente oposição. Não há provas de que um único tivesse sido abatido.

Parece incontornável ter de reconhecer que um sistema de radares de vigilância funcionando em proveito de defesas antimísseis extremamente sofisticadas, reforçadas pela ação do Reino Unido, França e Jordânia foram impotentes face ao ataque iraniano, não conseguindo proteger os locais acima mencionados. A isto acresce o facto de, segundo várias fontes, o ataque iraniano ter custado cerca de 30 milhões de dólares, enquanto o conjunto das interceções teria, segundo algumas estimativas, rondado os 1,3 mil milhões de dólares.

Israel estará a planear um ataque “doloroso” ao Irão, mas sem provocar vítimas evitando que se desencadeie uma guerra regional. Benjamin Netanyahu terá pedido às Forças de Defesa de Israel a elaboração de uma lista de alvos aos quais os EUA não levantariam objeções. O gabinete de guerra pretende encontrar uma forma de retaliação que não seja bloqueada pelos Estados Unidos.

Apesar das pressões de muitos líderes ocidentais, a resposta israelita parece inevitável, não se sabendo quando, como e onde irá ocorrer. O formato dessa resposta não é claro. Numa conversa telefónica com o secretário norte-americano da defesa, o ministro da defesa israelita Yoav Gallant disse: “não há outra alternativa senão ripostar contra o Irão… Israel não pode permitir que sejam disparados mísseis balísticos contra o seu território sem uma resposta”.

Por sua vez, o Irão declarou que responderá “dentro de segundos” a uma retaliação de Israel. O presidente da comissão parlamentar de segurança do parlamento iraniano Abolfazl Amouei, declarou que o Irão está preparado para usar “uma arma que nunca usou antes” se Israel prosseguir com o seu planeado ataque retaliatório.

Independentemente do que possa vir a acontecer, a ação militar iraniana em território israelita não tem precedentes e já fez história. Pela primeira vez, o Irão levou a cabo um ataque em solo israelita a partir do seu território, em vez de recorrer apenas aos seus proxies para atacar Israel.

A resposta de Telavive tem mais a ver com o precedente criado pela ação iraniana, pela afirmação de Teerão como potência regional, inspiradora dos seus seguidores, algo que Telavive não quer aceitar, do que propriamente com os danos causados. Israel terá de incorporar no seu cálculo estratégico o facto do Irão de hoje não ser o mesmo Irão de há duas décadas.

Esperemos que o conselho de Biden a Netanyahu prevaleça em detrimento da opinião daqueles que no gabinete de guerra em Telavive defendem um ataque demolidor e que se recusam a aceitar as novas realidades estratégicas. Fiquemos com a esperança uma vez que não temos certezas.


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E depois do atentado terrorista em Moscovo?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 04/04/2024)

O facto da Ucrânia albergar terroristas que cometeram atos terroristas em território russo contra cidadãos russos confere a Moscovo o direito de ir atrás desses terroristas.


As opiniões dividem-se sobre quem terão sido os mandantes do ataque ao centro de concertos Crocus, em Moscovo, no dia 22 de março, que causou a morte de 133 civis. Quando se esperava que desse as condolências e se disponibilizasse para cooperar com as autoridades russas, a embaixada norte-americana em Moscovo centrou a sua ação em ilibar Kiev de qualquer envolvimento, atribuindo de imediato a responsabilidade ao Estado Islâmico – Korasan (EI-K), não tinha decorrido ainda uma hora desde o início do ataque,

Noutro sentido foi a posição russa. Passados quatro dias, na sequência da reunião do Comité de Investigação criado para averiguar a ocorrência, Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança da Rússia, e Alexander Bortnikov, diretor da agência de informação interna russa (FSB), vieram apontar o dedo a Kiev introduzindo um dado novo e incontornável no debate.

Segundo este último, “a ação foi preparada pelos próprios radicais islâmicos e, claro, facilitada pelos serviços especiais ocidentais [leia-se norte-americanos e ingleses], e os próprios serviços especiais ucranianos têm uma ligação direta a esta situação”.

Os analistas e a comunicação social dividem-se em dois grupos, consoante o campo em que se situam.

Um grupo associa-se à posição norte-americana e afirma que: a Ucrânia não tem a ver com o ataque, atribuindo exclusivamente a responsabilidade ao IS-K; os russos foram informados pelos norte-americanos do ataque, mas foram negligentes; Putin precisava de um pretexto para escalar a crise na Ucrânia.

O outro grupo aproxima-se dos argumentos russos considerando que: os serviços de inteligência ucranianos e de países estrangeiros estão envolvidos, referindo-se aos norte-americanos e ingleses; e a embaixada norte-americana não teria partilhado informação suficiente sobre a ameaça pendente.

O facto de não nos encontrarmos em condições para apontar o dedo seja a quem for, não nos permite descartar qualquer possibilidade, não por uma questão de dúvida sistemática, mas porque há factos que não podem ser desconsiderados e devem, por isso, ser introduzidos na análise.

Alguns analistas referem que o ataque terrorista estava para ocorrer no dia 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, um feriado muito importante na Rússia. A ter sido nesse dia, uma semana antes das eleições presidenciais russas, o efeito político teria sido demolidor. A forte presença policial terá desincentivado o ataque.

Outras fontes referem que o principal impedimento para a realização do ataque nessa data terá sido a demissão de Victoria Nuland, uns dias antes (5 de março). Alguém de peso no Departamento de Estado terá ficado muito preocupado com a gravidade das suas declarações, ao anunciar publicamente uma atribuição de verbas adicional para que Putin viesse a ter “nasty surprises”. Apesar dessa contrariedade, e à revelia de Washington, os ucranianos terão decidido avançar, mesmo tendo a operação deixado de fazer sentido.

Muita coisa não bate certo neste ataque. Os terroristas tiveram um comportamento nada consistente com as práticas dos seus correligionários suicidas do IS-K. Afinal, não eram motivados pelo martírio: mostravam mais interesse nos dólares do que no descanso eterno junto das 72 virgens; não transportavam consigo cintos com explosivos para se fazerem explodir; e deixaram-se prender.

Nesta síntese argumentativa, não podemos deixar de referir a ligação conhecida e pública da Ucrânia a vários grupos jihadistas. Alguns deles combatem em unidades constituídas, inseridas nas forças armadas ucranianas, na linha da frente contra as forças russas. Como se isso não bastasse, Kiev tem dado guarida a conhecidos comandantes terroristas.

Como diz o ditado popular, “não basta a mulher de César ser séria. Tem também de o parecer”. O general Budanov, chefe dos serviços de inteligência militar, anunciou publicamente, em fevereiro de 2024, numa entrevista, ser objetivo da Ucrânia atacar a Rússia na sua profundidade.

Este ataque em Moscovo segue-se à destruição de uma infraestrutura russa – o Nordstream – da mais elevada importância. Tudo se complicará caso se venha a provar ser verdadeira a pista ucraniana. A Rússia terá de apresentar publicamente provas inquestionáveis. Falamos nesta altura da ultrapassagem de duas linhas vermelhas, uma situação intolerável para o Kremlin.

Se, no primeiro caso, Moscovo não fez nenhuma acusação direta, agora foi muito explícito acusando a Ucrânia de mandante, apoiada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Isto significa uma alteração qualitativa do discurso que não pode ser desvalorizada. Afinal, o Crocus poderá vir a ser considerado como mais um ataque de uma série de ataques terroristas à Rússia.

Entretanto, fomos surpreendidos por uma inusitada entrevista à ICTV, um canal ucraniano de televisão privado, no dia 27 de março, dada pelo General Vasyl Malyuk, chefe do serviço de segurança ucraniano (SBU), em que falou abertamente sobre todas as operações contra a Rússia levadas a cabo pelos seus serviços, reivindicando sem necessidade alguma a autoria dos vários assassinatos perpetrados no interior da Rússia, contra personalidades russas pró-Kremlin, como Darya Dugina, Vladlen Tatarsky, Zakhar Prilepin, etc. Malyuk implicou diretamente a Ucrânia em ações de terrorismo.

Na sequência destas declarações, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia fez um ultimato à Ucrânia exigindo a extradição para a Rússia do general Malyuk e de outros suspeitos, que Kiev rejeitou. Sublinhe-se que esta reação de Moscovo tem lugar depois do atentado terrorista do dia 22 de março, e que não está diretamente relacionada com ele, mas sim com as declarações de Malyuk.

Isto coloca outro tipo de questões. Existem precedentes de países que invadiram outros pelo facto de albergarem terroristas, que cometeram atos terroristas nos seus territórios contra os seus cidadãos. A invasão norte-americana do Afeganistão prende-se com a não extradição de Bin Laden, o que foi considerado um ato de guerra.

Não é o caso da Ucrânia, porque as forças russas já se encontram em território ucraniano, mas tudo indica que caminhamos para um aumento significativo da escalada. O facto da Ucrânia albergar terroristas que cometeram atos terroristas em território russo contra cidadãos russos confere a Moscovo o direito de ir atrás desses terroristas.

A Ucrânia foi sujeita durante cerca de uma semana a ataques aéreos intensos e sistemáticos que se estenderam por todo o território, dirigidos fundamentalmente a infraestruturas energéticas. Ao contrário dos ataques do ano passado, dirigidos à rede de distribuição elétrica, agora foram às próprias centrais elétricas. Os efeitos estão a ser devastadores e a recuperação vai ser tremendamente morosa. Várias cidades estão às escuras.

Apesar de alguns destes ataques terem tido lugar após o ataque terrorista em Moscovo, a sua conceção estava subordinada a um planeamento estratégico com vista à preparação de operações futuras. Não foram uma resposta ao ataque terrorista em Moscovo. A resposta a este último foi bastante modesta e limitou-se à destruição dos quartéis-generais das organizações da inteligência ucraniana em Kiev, assinalando Moscovo estar ciente de quem foram, para ela, os mandantes do ataque terrorista.

Encontramo-nos, pois, num momento de elevada expetativa estratégica. Depois de altos dignitários russos acusarem publicamente a Ucrânia, os EUA e o Reino Unido, o Kremlin tem obrigatoriamente de fazer qualquer coisa. Esse imperativo agrava-se após a entrevista de Malyuk, o ultimato para a sua extradição e a resposta negativa de Kiev. Se não fizer nada, o Kremlin desacredita-se internamente onde muitas vozes pedem que se arrasem os edifícios do poder ucraniano, e, externamente, dando razão àqueles que forçam a ultrapassagem das linhas vermelhas, porque os russos têm medo e vão conter-se.

Está por saber se os russos não falaram de mais. Veremos qual será a resposta de Moscovo. Haverá uma resposta massiva e demolidora ao alegado atrevimento de Kiev? Talvez por isso, começámos a ver o Presidente Zelensky a discursar a partir do bunker. Falta-nos saber o que o Kremlin e a Casa Branca andam a falar por detrás das cortinas e que nós não ouvimos.


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Afinal há um Clausewitz no corpo do sr. Quim

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 02/04/2024)

(Ó Quim, mas que grande malha… Deves estar todo dorido… Depois de ler com um sorriso prazenteiro o texto abaixo, veio-me à ideia o sábio provérbio popular: “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”. Pois é, ó Quim, espero que não estejas nos cuidados intensivos…

Estátua de Sal, 03/04/2024)


Descobrimos recentemente que o Sr. Joaquim Vieira (daqui em diante o Sr. Quim), um ensaísta da nossa praça, com trabalho longo na fotobiografia, algum dele com qualidade, se transfigurou em comentador televisivo de conflitos internacionais. Não conhecemos as posições dele sobre o Iraque (2003) ou a Líbia (2011), mas tem sido muito vocal no que respeita ao conflito na Ucrânia.

Entra em transe sempre que lhe vêm à mente os majores-generais Putinistas (já agora com letra maiúscula) contra os quais, utilizando a sua posição mediática não perde oportunidade para lhes mandar umas farpas descorteses, algumas roçando mesmo a ordinarice. O homem transforma-se quando alguém lhe diz “Ó Quim, os majores-generais Putinistas chegaram”. Fica descontrolado.

Passou de fugitivo à guerra do Ultramar para belicista. Pudera, nesses tempos era ele que ia bater com os costados na guerra, agora são os filhos dos outros. Aliás, estranho como não se alistou ainda para defender os valores das democracias liberais na Ucrânia.

O Sr. Quim utilizou o programa “O Último Apaga a Luz”, do passado dia 30 de março de 2024, na RTP3 (ver aqui, a partir do minuto 42) para fazer mais uma vez jus à sua preparação para debater estes temas e mimosear os majores-generais Putinistas. Soltou-se o Clausewitz que vive dentro dele, qual génio da lanterna mágica. Num ataque de generosidade, deu “às pessoas que estão lá em casa” oportunidade de serem iluminadas com a genialidade do seu pensamento sobre os atentados em Moscovo:

“O atentado islâmico em Madrid [referia-se ao ataque terrorista jihadista de há vinte anos. Não sabe distinguir entre jihadismo e islamismo, para ele é tudo igual] foi parecido com este [o do Crocus, em Moscovo]… A história da Ucrânia não tem pernas nem cabeça [a referir-se à possibilidade da Ucrânia ser responsável pelo atentado]… Eles [os terroristas] iam fugir para a Ucrânia [teria dito Putin]. Não, eles iam a fugir para a Bielorrússia. O presidente da Bielorrússia já o reconheceu. Na fronteira com a Bielorrússia repeliram-nos, não os deixaram entrar… Quando foram presos estavam muito mais perto da fronteira bielorrussa do que da fronteira ucraniana. Há aqui todo um conjunto de mentiras usados para justificar um pretexto, para justificar o massacre sobre a Ucrânia… E depois vêm os majores-generais putinistas falar nos indícios que apontam para a Ucrânia… O facto do Daesh ter reclamando o atentado não era para eles um indício. Isso não existia. Tudo isso era falsificado. Que aquilo era falsificado, que aquilo não correspondia. E depois há um que vem falar nos factos e os factos apontam todos para a Ucrânia… Eu gostava muito de saber porque é que o Exército português que está na NATO admite este tipo de oficialato. Quer dizer uma pessoa que está num Exército que tem determinados objetivos tem de aderir aos objetivos desse exército.”

Disse estas coisas, com uma bonomia delirante e sem noção das asneiras que manda da boca para fora. Não resisti a comentar, uma vez que não tive oportunidade para o fazer no local próprio. O Sr. Quim terá tomado Captagon em excesso e entrou em delírio guerreiro. Construiu uma história falsa sobre o que foi dito.

Devo confessar que não pude deixar de ficar bem-disposto quando o Sr. Quim, qual especialista espontâneo, teve o rasgo intelectual de comparar o atentado islâmico em Madrid com o de Moscovo. Marcou pontos! Deu-nos a oportunidade de julgar a pujança dos conhecimentos da pessoa. Ó Sr. Quim, o ataque em Madrid não foi um ataque islâmico, foi um ataque perpetrado por terroristas jihadistas. Islamismo e terrorismo jihadista são coisas diferentes.

Para o Sr. Quim a possibilidade da Ucrânia ser responsável pelo atentado não tem pernas nem cabeça. Para ele, digo eu, que que vive numa realidade paralela e sob o efeito de drogas duras, ou então está na mailing list dos conselheiros da Victoria Nuland”.

São públicas: as declarações do chefe dos serviços de inteligência militar ucraniana sobre a promessa de efetuar ataques na Rússia profunda; as palavras de Nuland sobre a atribuição de verbas suplementares para causar “nasty surprises” ao Sr. Putin; as declarações do general Malyuk chefe do inteligência ucraniana a assumir os assassinatos na Rússia de Daria Dugina, Vladen Tatarsky, Motorola, etc.

Para o Sr. Quim nada disto é estranho, aliás é muito normal, que ainda não tivesse passado uma hora do início do atentado e já os EUA ilibassem a Ucrânia.

Para o Sr. Quim não é estranho os EUA não terem conseguido até hoje identificar os autores da destruição do NordStream, mas saberem, sem qualquer hesitação e dúvida, que a Ucrânia não tinha nada a ver com o ataque. Tudo normal para o Sr. Quim. Nada a questionar. Mais normal do que isto é impossível.

Para o Sr. Quim devem ter sido os russos que destruíram o Nord Stream, e atacaram a central nuclear de Energodar. E que estiveram por detrás do ataque em Moscovo. Mais uma vez o Clausewitz saiu-lhe do corpo para iluminar o seu pensamento.

Para esta alforreca bem comportadinha, que engole sem pestanejar todas as tretas que lhe colocam à frente, os terroristas foram apanhados mais próximos da Bielorrússia e o presidente Lukashenko como é estúpido até declarou publicamente que os ia receber.

O Sr. Quim não deve ter andado nos escuteiros, nem foi à tropa porque notoriamente não sabe ler mapas da estrada. Isto lembra-me o Allan e Barbara Pease quando se interrogavam porque é que “elas não sabem ler mapas da estrada”. O que disse o Sr. Quim é factualmente falso. É um intrujão. Os terroristas foram apanhados a sul de Bryansk, na estrada que conduz á Ucrânia, tendo deixado a alguns quilómetros para trás a bifurcação que conduzia para oeste, na direção da Bielorrússia. É mentira que quando foram presos estivessem mais perto da Bielorrússia do que da Ucrânia. Mentiu em horário nobre sem contraditório.

O Sr. Quim não percebeu que a Rússia não precisava deste atentado nem de fabricar pretextos para justificar fosse o que fosse, em particular aumentar os ataques na Ucrânia.

Vem falar do Daesh… ó Sr. Quim, não foi o Daesh que reivindicou o ataque, foi o IS-K. Ó Sr., o Daesh e o IS-K não são a mesma coisa. O último foi uma criação dos norte-americanos para combater os talibãs e os russos. Não reparou que o IS-K nunca atacou os americanos?! Depois do que está a acontecer no Médio oriente, da chacina de muçulmanos em Gaza vão escolher este momento para atacar os russos?! Para ele os maus são todos iguais… islâmicos, Daesh, IS-K. São maus, pronto!

Não causa estranheza ao Sr. Quim que os terroristas do IS-K não tenham cometido martírio, que estivessem mais interessados nos dólares do que no descanso eterno junto das 72 virgens, que não tenham levado cintos para se fazerem explodir, que se tenham deixado prender, etc. nada consistente com o que fazem os jihadistas que pertencem ao ISIS. Deve ser o impacto da geração “Z” nos jihadistas, que só o Sr. Quim vislumbrou. Nada disto lhe causa interrogações. É tudo normal, o que é natural porque o Sr. Quim está a meter-se em matérias que não domina e a dar o flanco.

A história que inventou não corresponde ao que foi dito, em particular por mim. Eu disse reiteradamente numa entrevista na CNN que as dúvidas que eu estava a levantar não significavam que estivesse a dizer que tinha sido a Ucrânia, ou que não tivesse sido o IS-K a cometer o atentado terrorista. Limitei-me a enunciar uma série de questões válidas na altura e agora, coisa que o recém autoempossado especialista em assuntos militares não faz, porque é um aldrabãozito confabulatório.

Já agora que me chama Putinista, apesar de não ter referido o meu nome, desafio o Sr. Quim a referir em que situação escrevi ou me pronunciei em defesa do regime de Putin. Basta uma. Não alinho é na desinformação em que o Sr. Quim não só alinha como promove.

Não posso deixar de assinalar ao iluminado ensaísta e foto biógrafo, sem o querer assustar, que o grupo dos “putinistas” se tem vindo a alargar. Num destes dias, Elon Musk publicou um post no seu mural do “X”, que corresponde na íntegra ao que tenho vindo a dizer há dois anos, e passo a citar:

“Foi um trágico desperdício de vidas para a Ucrânia atacar um exército maior que tinha defesa em profundidade, campos minados e uma artilharia mais forte, quando a Ucrânia não tinha blindagem nem superioridade aérea. Qualquer idiota poderia ter previsto isto [Penso que o Sr. Quim pode ser incluído na lista dos idiotas do Elon Musk]. A minha recomendação, há um ano, era que a Ucrânia se entrincheirasse e aplicasse todos os recursos na defesa. Mesmo assim, é difícil manter um território que não tenha fortes barreiras naturais. [quantas vezes eu disse isto]. Não há qualquer hipótese de a Rússia conquistar toda a Ucrânia, uma vez que a resistência local seria extrema no Oeste, mas a Rússia ganhará certamente mais terreno do que tem atualmente. Quanto mais a guerra se prolongar. Quanto mais tempo durar a guerra, mais território a Rússia ganhará, até atingir o Dniepre, que é difícil de ultrapassar. No entanto, se a guerra durar muito tempo, Odessa também cairá. Se a Ucrânia perde ou não todo o acesso ao Mar Negro é, a meu ver, a verdadeira questão que resta. Recomendo uma solução negociada antes que isso aconteça.”

Quando eu falava das baixas ucranianas era acusado de propagandista do Kremlin. A insuspeita Elena Zelenskaya, esposa do presidente ucraniano Zelensky, publicou um texto disponível no site da presidência ucraniana, em que diz o seguinte, e passo a citar:

“Apenas um quarto dos inquiridos [ucranianos] afirma ter reparado em pessoas com deficiência em locais públicos. Na realidade, oficialmente, são apenas três milhões. E cerca de 300.000 foram acrescentadas nos últimos dois anos devido a invasões hostis.”

O seu ódio à Rússia deve vir-lhe dos tempos em que adorava o grande líder Mao. Esses preconceitos afetaram-no cognitivamente e impedem-no de perceber a natureza do presente conflito na Ucrânia, que não é um combate das democracias contra as autocracias. Até o Alto Representante da União Europeia para a política externa Josep Borrel já percebeu isso. O Sr. Quim anda a discutir regimes sem ter percebido ao final de dois anos que não se trata de uma luta entre regimes. Nada que eu não tenha vindo a dizer. E, passo a citar:

“Não podemos deixar a Rússia vencer esta guerra. Caso contrário, os interesses dos Estados Unidos e da Europa sofrerão enormemente. Não se trata apenas de generosidade. Não se trata de apoiar a Ucrânia porque amamos os ucranianos. Isto é do nosso próprio interesse. E é também do interesse dos Estados Unidos como ator global – um ator que quer ser visto como um parceiro responsável pela segurança dos seus aliados”.

O Sr. Quim integra o grupo daqueles que dizem que a economia da Rússia é fraca [mas sobreviveu a 13 pacotes de sanções durante uma guerra], que Putin é impopular [mas obteve 80% dos votos], que a Rússia está isolada [mas mais 32 países querem juntar-se aos BRICS], que as forças armadas russas são fracas, as armas são velhas e os soldados não têm formação [mas o Ocidente inteiro não as consegue vencer], mas ainda não percebeu que anda a ser endrominado por propaganda.

Uma nota final, que a prosa já vai longa para responder à ignorância e aos problemas cognitivos demonstrados pelo Sr. Quim quando refere aquele arrazoado impercetível sobre o Exército português que está na NATO e este tipo de oficialato. Não sabe do que fala. Já agora fique a saber que desempenhei dois cargos de Alta direção na NATO por eleição (não por nomeação), sempre respeitado pelos meus pares. Num deles, fui condecorado (muito poucos o foram) pelo presidente Karzhai do Afeganistão. Por isso, não aceito dichotes de alforrecas de pacotilha.

O que distingue os verdadeiros intelectuais é aquilo a que alguém chama consciência crítica. Observam o mundo com um olhar de oposição ou, pelo menos, com um olhar independente, nada devendo aos poderes instituídos.

O anafado e bem instalado Sr. Quim é daqueles ex-revolucionários maoístas que optou por se integrar no conforto do sistema. Como os cristãos-novos tem de ser mais papista do que o papa para ser aceite pelo establishment. O problema da subserviência passa a funcionar por reflexo condicionado.

Não me choca que o Sr. Quim por questões instrumentais – afinal tem de colocar o pão em cima da mesa – abraçasse o establishment para fazer carreira e o pensamento situacionista. Mas ó Sr. Quim, já está reformado, já não é preciso rejeitar a consciência crítica que desonesta e covardemente pinta por “idiotices”.

O Sr. Quim é um socializado, um pretenso senador de um cinzentismo acomodado, que se ilude a si mesmo. Assim fica mais fácil justificar a si próprio a sua submissão ideológica. Andará pelos cuidados paliativos e ainda procurará um reconhecimentozinho, uma sinecurazinha.

A intervenção do Sr. Quim no referido programa foi uma vergonha. Mentiu, mostrou ignorância. Dedique-se aos ensaios, vá à Torre do Tombo arranjar mais umas fotografias para o próximo livro, aquilo que sabe razoavelmente fazer, e deixe os outros em paz. Aconselho a que se despache porque o programa da metadona está em risco. Aproveite enquanto é tempo.

Fonte aqui


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