Porque é que Trump não é Napoleão

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 09/03/2026)


Para entender o salto qualitativo da catástrofe em curso no Médio Oriente e o processo que a pode transformar numa catástrofe global é preciso recuar no tempo. Ao dar prioridade ao assassinato dos líderes religiosos e sobretudo ao líder supremo, Ali Khamenei, Israel e os EUA transformaram esta guerra numa guerra religiosa. A guerra é entre o Islão e a versão sionista do judaico-cristianismo global. De todas as religiões que foram derrotadas pelo cristianismo ocidental, o Islão foi a que mais duramente sentiu a derrota. Começou no século XI com as Cruzadas, continuou com a chamada Reconquista do Al-Andalus nos séculos XIV e XV e culminou com o fim do império Otomano depois da Primeira Guerra Mundial. Tal como o cristianismo está hoje dividido entre o catolicismo e o protestantismo, o Islão está dividido a vários níveis, mas sobretudo entre o xiismo e o sunismo. O poder religioso islâmico está menos concentrado que o poder judaico-cristão. Ninguém no Islão ocupa o lugar ou tem o poder do Papa católico. Mas, por outro lado, o conceito de religião é diferente nos dois mundos em confronto. Desde as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII e do Iluminismo Ocidental do século XVIII, ocorreu no cristianismo ocidental o processo de secularização. Ao contrário do que geralmente se pensa, o secularismo não significou a separação entre a religião e o Estado. Antes aprofundou as relações entre uma e outro, dando-lhe um novo sentido. O secularismo foi o processo através do qual se sacralizou o poder terrestre ao libertá-lo da sacralidade do poder celestial a que estava antes submetido. Com isto, a religião tornou-se um recurso estratégico para o Estado, um instrumento eficaz de dominação, como o colonialismo bem demonstra.

Este entendimento do secularismo iluminista tem em Napoleão a sua mais completa formulação. Ao iniciar a sua expedição ao Egipto em 1 de Julho de 1798, Napoleão, um jovem general de 29 anos, fez uma declaração aos egípcios surpreendente a muito títulos. Nessa declaração diz ele: “Qadi, shaykh, shorbagi, dizei ao vosso povo que nós somos verdadeiros muçulmanos. Afinal não fomos nós que destruímos o Papa que dizia só faltar fazer a guerra com os muçulmanos?” Parece uma contradição mas não é, como bem demonstra Mohamad Amer Meziane.[i] Para Napoleão, a religião é um recurso estratégico. Se no Egipto a religião da maioria é muçulmana, o Estado deve respeitar isso como política de dominação. O que Napoleão critica não é o Islão, é o poder político dos mamelucos, o poder que ele quer reservar para si. Os egípcios têm todo o direito a viver segundo a sua religião, um direito que o Estado deve respeitar. O Profeta Muhammad, longe de ser o Anticristo da cúria romana, fora apenas um legislador, uma posição que Napoleão pode agora ocupar. As relações subterrâneas entre a sharia (lei islâmica) que Napoleão conheceu no Egipto e o code civil de 1804 merecem um estudo profundo.

A declaração de Napoleão era, pois, uma mistura de mentira e de verdade. Os mamelucos foram derrotados na Batalha das Pirâmides (embora esta tivesse lugar a 15 quilómetros das pirâmides) três semanas depois de Napoleão desembarcar em Alexandria. Mas o verdadeiro objectivo de Napoleão era exercer o poder a partir da compreensão da cultura egípcia que era muito mais ampla e antiga que o Islão, tal como no Irão a cultura persa é muito mais ampla e antiga que o Islão. Para atingir os seus objectivos, Napoleão trouxe consigo na expedição 500 civis que na maioria eram cientistas, incluindo 150 biólogos, mineralogistas, linguistas, químicos, matemáticos, etc. Apesar da derrota que sofreu logo a seguir à vitória na Batalha da Pirâmides – a destruição da sua armada por parte do Almirante inglês Horatio Nelson –, Napoleão instruiu os seus cientistas (em geral, tão jovens como ele ou mesmo mais jovens) para continuarem o seu trabalho e reconstruir o material perdido com os recursos locais. Foi assim que o artista e engenheiro Nicholas-Jacques Conté inventou o lápis moderno, feito de grafite, o crayon Conté.

Os cientistas instalaram-se no palácio de Hassan Kashef no Cairo, e o cronista egípcio Abd al-Rahman al-Jabarti, que fez uma crítica arrasadora à declaração de Napoleão,[ii] não pôde deixar de expressar a sua admiração pela imensa biblioteca e pelo ambiente científico que Napoleão tinha criado:

“Os administradores, astrónomos e médicos viviam nesta casa, onde guardavam um grande número dos seus livros, com um guardião a cuidar deles e a organizá-los. E os estudantes entre eles reuniam-se todos os dias, duas horas antes do meio-dia, num espaço aberto em frente às prateleiras de livros, sentados em cadeiras dispostas em filas paralelas diante de uma mesa larga e comprida. Quem desejasse consultar algo num livro pedia os volumes que quisesse e o bibliotecário trazia-lhos. Depois, folheava as páginas, examinava o livro e escrevia. Durante todo esse tempo, mantinham-se em silêncio e ninguém perturbava o seu vizinho. Quando alguns muçulmanos vinham dar uma vista de olhos, não os impediam de entrar. Na verdade, traziam-lhes todos os tipos de livros impressos, nos quais havia todo o tipo de ilustrações e mapas dos países e regiões, animais, pássaros, plantas, histórias dos antigos, campanhas das nações, contos dos profetas, incluindo imagens deles, os seus milagres e feitos maravilhosos, os acontecimentos dos seus respectivos povos e coisas que confundem a mente”.[iii]

Menos de dois meses depois de desembarcar, Napoleão criava o Institut de l’Égypte (22 de Agosto de 1798), seguindo o modelo do Institut de France, ao qual ele pertencia, e na sessão do dia seguinte propôs os seguintes tópicos de investigação: 1) Como podem ser melhorados os fornos de pão? 2) Como pode ser purificada a água do Nilo? 3) Os moinhos de vento são práticos para o Cairo? 4) É possível fabricar cerveja no Egipto sem lúpulo? 5) As matérias-primas para a pólvora estão disponíveis no Egipto? 6) Qual é o sistema jurídico no Egipto e que melhorias desejam os cidadãos? Assim nascia uma nova área de conhecimento imperial: a egiptologia. Centenas de livros com milhares de ilustrações se foram publicando nas décadas seguintes.

Comparação possível entre Napoleão e Trump

Que comparação é possível entre o brilhante jovem militar Napoleão e Trump, um velho político, condenado por corrupção e provavelmente actuando sob chantagem da revelação dos seus crimes sexuais constantes dos Epstein files ou refém de sociedades secretas? Estamos num tempo propício às teorias da conspiração. São patentes os propósitos imperiais tanto de Napoleão como de Trump.

Napoleão queria destruir as rotas comerciais do império britânico com o extremo Oriente, enquanto Trump quer destruir as rotas comerciais e o acesso aos recursos naturais por parte da China. Terminarão aqui as semelhanças? Penso que não. Embora seja futurologia, é provável que Trump venha a ser derrotado, tal como o foi Napoleão, e que a derrota ocorra igualmente num curto espaço de tempo. No caso de Napoleão foram três anos.

Mas as diferenças imperiais são mais evidentes. No caso de Napoleão, as rivalidades imperiais ocorriam no seio da Europa, entre a França e a Inglaterra. Eram duas potências ocidentais com interesses em dominar o Oriente. No caso de Trump, a rivalidade é entre o Ocidente e o Oriente que, entretanto, criou condições para poder rivalizar com o Ocidente e até vencê-lo. Napoleão simboliza o imperialismo iluminista de uma burguesia europeia ascendente que pode aprender com o mundo não europeu a fim de melhor o dominar e dominar-se. A secularização do Estado napoleónico no Egipto é mais consistente que a do Estado francês.

Trump simboliza o imperialismo reaccionário de uma burguesia ocidental decadente que se vai apercebendo do seu irreversível declínio em relação ao Oriente. Por isso, o Oriente só pode ser dominado por via da destruição. O Ocidente nada tem a aprender do Oriente; o seu pânico é que o Oriente tenha já aprendido demasiado do Ocidente. Napoleão mandou cientistas, Trump manda bombas. Napoleão quis conhecer, Trump quer destruir. Napoleão sabia que não sabia (era um ignorante esclarecido), Trump não sabe que não sabe (é ignorante da sua ignorância). Os cientistas de Napoleão maravilhavam-se com a grandeza dos monumentos que encontravam, os comparsas de Trump vêem nas Trump Towers o apogeu da grandeza.

Napoleão significa a maior afirmação da secularização imperial. Significa uma mudança de regime (regime change) que visa fomentar a compatibilidade do governo eurocêntrico com a crença religiosa da maioria da população. Por isso, é necessário conhecer a cultura e a história do Egipto, aliás, muito mais antigas e brilhantes que as ocidentais. No caso de Trump, o regime change implica lutar contra as crenças religiosas, não só da maioria da população do Irão, como da maioria da população de todo o Médio Oriente. É por isso que se tem de afirmar como guerra religiosa. E ninguém pode protagonizar melhor essa guerra que um Estado religioso, o Estado judeu sionista de Israel e os seus aliados do sionismo judaico-cristão global. Este sionismo vê-se como o legítimo herdeiro das Cruzadas. Tal como então, o Islão, na sua origem, é tão ocidental quanto o cristianismo ou o judaísmo. O Islão é o Ocidente que o Ocidente judaico-cristão orientalizou. Por isso, o Islão é agora uma pequena parte do Oriente. O Oriente são as culturas ancestrais em relação às quais a cultura ocidental é, não só uma cultura recém-chegada, como tem as suas raízes nelas, na Pérsia, em Alexandria e na Casa da Sabedoria de Bagdade do século IX.

Guerras por procuração (proxy wars) e mudança de regime (regime change)

Por estarmos perante uma guerra religiosa, a estratégia das guerras por procuração inverteu-se. A guerra EUA-Irão é agora a guerra por procuração com vista à criação do Grande Israel. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Mas como o Grande Israel só pode nascer das cinzas do pequeno Israel, é de prever que o grande desastre em curso tenha ainda de ser maior. Note-se que desde 2024 já saíram de Israel mais de 170.000 pessoas. Com a intensificação da guerra, o pequeno Israel (com menos de dez milhões de habitantes) já se tornou demasiado grande para os israelitas que o abandonam.

A farsa do regime change revela-se agora com extrema crueldade. Não conhecemos nenhum caso de êxito da política do regime change. Êxito em termos do aumento do bem-estar das populações, o proclamado propósito do regime change. Em vez de aumento do bem-estar, temos visto destruição, fragmentação territorial e pilhagem de recursos naturais. Afinal, que regime change houve na Venezuela, se a “ditadura chavista” foi mantida no poder? O regime change foi apenas o disfarce para confiscar a política petrolífera da Venezuela. Uma vez obtido o confisco mediante a prisão do Presidente Nicolas Maduro e da sua esposa, mantidos como reféns, a “ditadura chavista” desapareceu.

Mas o Irão não é a Venezuela. Porque a guerra foi concebida por Israel como guerra religiosa com vista à criação do Grande Israel, não faria sentido prender o aiatola Ali Khamenei e levá-lo preso para Nova Iorque. Era preciso assassiná-lo e aos líderes religiosos que estavam com ele. O confisco dos recursos naturais e o bloqueio da China estarão sempre no horizonte, mas os caminhos para lá chegar terão de ser muito mais destrutivos.

Acresce que qualquer intenção mais credível de regime change implicaria tropas no terreno. Se tivermos em conta a população de Israel e a resistência do povo norte-americano a envolver a vida dos seus soldados em guerras distantes contra países que não podem conceber como constituindo uma ameaça à sua segurança, é de prever que esta guerra será perdida por Israel e, em consequência, será o fim do Estado de Israel. Mas, dado que a potência militar mais poderosa do mundo está envolvida nesta proxy war, é possível que a guerra regional evolua para uma guerra global. Se ainda haverá império norte-americano, ou mesmo mundo, depois dessa guerra – é uma questão em aberto.

Conclusão

Em face disto, angustia-me não poder concordar com a proposta de um grande historiador que muito admiro, Ilan Pappé. No seu último livro, Israel on the Brink (2025), admite a possibilidade da descolonização da Palestina e de uma nova coexistência entre o mundo judaico e o mundo muçulmano nas próximas décadas. Para isso ser possível seria necessário travar de imediato Netanyahu e Trump e todos os que se escondem atrás deles. Será possível?


NOTAS

[i] Des empires sous la terre. Paris: La Decouverte, 2021.

[ii] Cf. Boaventura de Sousa Santos, Se Deus fosse um activista de Direitos Humanos. Coimbra: Almedina, 2013.

[iii] Bob Brier “Napoleon in Egypt” Archaeology, Maio/Junho 1999, Vol. 52, No. 3, 44-53, p. 48.

Fonte aqui

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A Terceira Guerra Mundial vai começar

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 27/02/2026)


Sinais geopolíticos indicam escalada de tensão entre EUA, China, Rússia e Irão.


Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, quando o cheiro da guerra estava no ar, um dos mais prolixos defensores da paz, o escritor Romain Rolland, Prémio Nobel da Literatura de 1915, escrevia que a urgência do momento já não permitia a circunspecção analítica da complexidade dos fatores que impulsionavam a guerra. A guerra podia começar a qualquer momento, antes mesmo de terminarmos as nossas reflexões. Posso estar redondamente enganado, mas sinto-me hoje a viver a mesma perplexidade que assombrou Rolland nos meses que antecederam o início da Primeira Guerra Mundial. Por isso, este texto desagradará aos meus leitores habituais. E, para complicar as coisas, eu desejo ardentemente estar enganado ao escrever, no que se segue, a iminência da guerra.

Ao contrário do que aconteceu nas guerras anteriores, menos gente no mundo pode declarar-se surpreendida quando as notícias da próxima guerra global rebentarem. É que os sinais são muito evidentes e são muito conhecidos. Tal como aconteceu com os impérios anteriores, o declínio do imperialismo norte-americano será lento e violento até que uma guerra precipite o seu fim. Em 1914, havia quatro grandes impérios: o alemão, o austro-húngaro, o russo e o otomano. Nenhum deles sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Restaram os impérios assentes em colônias (britânico, francês, italiano, japonês, português, holandês, belga e espanhol). Nenhum deles sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, embora agonizassem durante algum tempo (o português, até 1975).

Que impérios existem hoje? Se entendermos, por império, toda a unidade política de grande escala com um poder central que exerce o controle sobre povos distintos tratados discriminadamente em resultado de conquista militar, colonização ou pressão económica, podemos afirmar que hoje existem os seguintes impérios: EUA, China, Rússia, Israel e União Europeia. Pode surpreender incluir na lista Israel, porque a sua escala é menor. Mas em contrapartida é o país que mais diretamente assume as formas mais antigas de dominação imperial: conquista militar e colonização. Pode também surpreender que a União Europeia seja considerada um império. É um quase-império, um império em formação. Não o era na origem, mas tem-se vindo a constituir como tal à medida que aumenta a assimetria política entre os povos que a constituem (relações imperiais entre países supostamente iguais na partilha da soberania) e se prepara para agressões militares (ainda que justificadas como defesas militares). A nova rivalidade imperial pode definir-se assim: de um lado, EUA, UE e Israel; e do outro, China e Rússia. Cada grupo tem um líder que define uma estratégia colectiva. Na atualidade, os líderes são EUA e China.

Cada grupo imperial defende a ideia de multipolaridade enquanto isso convém ao seu fortalecimento. Continua a convir à China, mas deixou de convir aos EUA. É esta assimetria que vai conduzir à próxima guerra. Mas os rivais evitam enfrentar-se diretamente durante o maior tempo possível. Para isso, usam as guerras por procuração (proxy wars) com o objetivo de enfraquecer o rival. A primeira guerra por procuração é a guerra Rússia-Ucrânia, uma guerra encorajada pelos EUA para neutralizar um dos principais aliados da China – a Rússia. Enquanto precisar dos EUA para terminar a guerra com a Ucrânia, a Rússia não interferirá em qualquer outra intervenção imperial norte-americana.

A segunda guerra por procuração foi a guerra Israel-Palestina com o objetivo de consolidar a derrota histórica do Islão que remonta às Cruzadas. Devido a essa derrota, os países islâmicos têm estado sempre sob suspeita porque a sua lealdade às potências cristãs que historicamente os derrotaram é sempre vista como matéria de conveniência. O modo como eles se têm comportado perante a guerra Israel-Palestina mostra ao grupo imperial EUA-UE-Israel que o Islão está bem neutralizado. Com uma excepção, o Irão, o único Estado que se define como teocracia e que, como tal, vê a ferida da derrota histórica como permanentemente sangrando. O Irão não pode ser neutralizado. Tem de ser destruído. O mesmo se pode dizer de Cuba, mas Cuba não tem para a China ou para a Rússia a importância que tem o Irão.

Por esta razão estou convencido de que a guerra vai começar e o Irão será o centro dessa guerra. O problema é que o Irão é muito mais forte que a Ucrânia ou que a Palestina e por isso uma guerra por procuração contra o Irão terá consequências imprevisíveis.

Entre elas, a menos imprevisível é a generalização da guerra quando a China concluir que, com a derrota do Irão (que é muito provável), deixou de poder dispor dos recursos energéticos essenciais para a sua expansão. É preciso ter em vista que a China acaba de sofrer uma enorme derrota na Venezuela e que os países latino-americanos são para a China o que os países do Médio Oriente são para os EUA. A sua lealdade decorre da conveniência e, além disso, estão sob crescente pressão norte-americana para diminuir as relações com a China.

É, pois, muito provável que a Terceira Guerra Mundial comece. Como disse, os sinais são evidentes, mas isso não significa que não cause surpresa. É que tal como Cuba é o mesmo que Gaza, mas sem bombas, a Terceira Guerra Mundial pode começar por qualquer elo fraco do imperialismo EUA-UE-Israel. Suspeito que esse elo fraco seja o dólar como moeda de reserva mundial. A guerra começa com a perda do poder econômico à escala mundial e amplia-se com o colapso do capital financeiro assente no dólar. As bombas podem ser usadas como causas ou como consequências. Só assim não será se as reservas de ouro que os países têm vindo a acumular freneticamente o impedir. Duvido muito.

Nada podemos fazer para evitar a Terceira Guerra Mundial?

Podemos.

1 – Uma petição internacional, pedindo ao Secretário-geral da ONU, António Guterres, que se demita imediatamente ante a alta probabilidade da ocorrência da guerra e a impotência da ONU para a evitar.

2 – Ir para as ruas em defesa de Cuba e do Irão como fomos em defesa da Palestina.

3 – Organizar protestos em frente das embaixadas dos EUA, de Israel e das representações da UE.

4 – Considerando que o elo mais repugnante (ainda que não mais fraco) da tríade EUA-UE-Israel é Israel, boicotar Israel por via do movimento BDS.

Fonte aqui

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A hora de André Ventura não chegou

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 31/01/2026)


A ideia da fragilidade da democracia portuguesa assombra os democratas portugueses por várias razões.


André Ventura (AV) é o líder da extrema-direita portuguesa. Com alguma razão, diz que na segunda volta das eleições presidenciais (8 de fevereiro) é ele o candidato da direita tout court. De fato, na segunda volta os dois candidatos são ele e António José Seguro (AJS), antigo secretário-geral do Partido Socialista (2011-2014), que se apresenta como candidato do centro-esquerda, humanista, progressista. Muitos antigos dirigentes e conhecidos militantes da direita moderada têm manifestado o seu apoio a AJS, o que mostra que só formalmente e por um período curto AV se pode designar líder da direita. Dados os evidentes sinais de rejeição de AV, é muito provável que AJS ganhe as eleições e seja o próximo Presidente da República portuguesa.

Prognosticar que a hora de AV não chegou é relativamente fácil. As grandes questões são duas: a hora de AV ainda não chegou ou não chegará nunca? E se a resposta for a de que ainda não chegou, a segunda questão é: O que deve ser feito para que nunca chegue? Claro que esta última pergunta só é feita por quem, como eu, não queira que Portugal volte a ser governado pela extrema-direita. Foi apenas há 52 anos que Portugal pôs termo a um regime de extrema-direita que durou 48 anos. O grande líder desse longo e trágico período foi António de Oliveira Salazar, a personagem a que AV tem apelado, afirmando que “Portugal precisa de três Salazares”. Portanto, quem estiver de acordo com o que esta frase revela fará a pergunta oposta à minha: O que deve ser feito para que a hora de AV chegue o mais rapidamente possível?

A questão existencial

A questão de saber se a hora de André Ventura chegou ou não é uma questão existencial para os democratas portugueses porque, ao longo da sua mais recente carreira política e tendo em conta os dirigentes de que se rodeou ou que a ele se chegaram, AV tornou-se um perigo para a sobrevivência da democracia portuguesa.

No subconsciente coletivo dos democratas portugueses domina a ideia de que a democracia portuguesa é muito frágil e que pode ser facilmente destruída por qualquer pulsão autoritária. Aliás, é bem possível que AV esteja bem ciente desse subconsciente coletivo e jogue com ele. Sabe que com a sua demagogia assusta os democratas, mas, ao mesmo tempo, alimenta a pulsão autoritária que o pode levar ao poder.

Significa isto que AV seja fascista? Não. Significa apenas que as mudanças que diz querer levar a cabo e a retórica violenta com que as formula faz crer que ou deseja impor uma ditadura ou está conscientemente a correr o risco de soltar forças autoritárias que podem vir a impor a ditadura, inclusive contra a sua vontade. Por isso, o perigo de AV para a democracia é duplo: reside no que ele controla e no que ele solta e não controla.

De onde vem o subconsciente coletivo dos democratas portugueses?

A ideia da fragilidade da democracia portuguesa assombra os democratas portugueses por várias razões. Em termos estritamente quantitativos, Portugal da época pós-revolução francesa só há pouco tempo contabiliza mais tempo em democracia do que em ditadura. Há uma sensação de instabilidade que contraditoriamente aumenta com a estabilidade da democracia. Os últimos cinquenta anos da história portuguesa não têm precedentes em termos de convivência democrática. Em 1974, Portugal regressava à Europa de que partira no século XV e regressava a uma Europa que, graças a duas Guerras Mundiais, se tinha convertido num lugar seguro para a democracia e livre do vírus do fascismo. São três as razões principais pelas quais a energia ascendente e democrática se tem vindo a enfraquecer e com isso a assombrar o subconsciente coletivo dos democratas.

A Troika forever

A partir da crise financeira de 2011, algo começou a abalar os termos de referência da convivência democrática no contexto europeu. Portugal foi ferido na sua autoestima pela Troika (Comissão da União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) ao ser tratado como um país mal governado, incapaz de exercer eficazmente a sua soberania, ao contrário dos países mais desenvolvidos da Europa. Aliás, foi tratado por dois destes, a Alemanha e a Holanda (o Primeiro-Ministro Mark Rutte chegou a dizer “não se pode gastar tudo em mulheres e álcool e depois pedir ajuda”), com alguns laivos de racismo, do tipo daquele racismo insidioso que sempre tem dominado as relações entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. A tragédia agravou-se quando o novo Primeiro-Ministro, Passos Coelho, não só se propôs seguir o receituário troikiano, como decidiu aumentar a dose austeritária. Com um certo masoquismo, aceitava-se a punição e declarava-se a rendição. Era uma pulsão autoritária de tipo novo que adotava o miserabilismo salazarista de maneira anti-salazarista. Enquanto Salazar manobrava com o seu servilismo, Passos Coelho exultava com ele.

Desde então, Portugal nunca mais recuperou as energias ascendentes que tinham emergido com a revolução do 25 de Abril de 1974. Houve um momento de esperança no meio da tragédia. Durante a pandemia do coronavírus, Portugal foi um dos países que melhor procurou proteger a sua população. Fê-lo porque tinha ao seu dispor, ainda que já em crise, a grande arma democrática do pós-1974: o Serviço Nacional de Saúde, que durante um breve período foi considerado um dos melhores do mundo. Acontece que a pulsão democrática que se instaurara em 2011 impediu que se tirasse a única conclusão capaz de fortalecer a democracia: reforçar o SNS para o tornar mais robusto de modo a continuar a ser a expressão viva do que é um serviço público ao serviço de todos. Pelo contrário, a degradação do SNS agravou-se depois da pandemia e o fantasma da pulsão autoritária ganhou mais força.

Uma nova geração de políticos de centro-esquerda ou de direita dita moderada foi emergindo e, quase sem distinção, não se deram conta de que toda a austeridade é autoritária porque é sempre seletiva e atinge sempre aqueles que mais precisam de serviços públicos robustos. A miséria moderna nasce sempre de paredes meias com a opulência moderna. Não há pobres, há grupos e classes sociais empobrecidas porque há grupos e classes sociais enriquecidas. A geração Troika ficou conosco depois de a Troika externa ir embora. Assim se foram corroendo as expectativas democráticas dos portugueses.

Houve muitos mini-André Venturas antes do André Ventura. E mais virão depois dele. Estão a ser incubados tanto na Iniciativa Liberal como no Chega. São dois partidos gêmeos, uma vez que as propostas que qualquer deles propõe só podem ser implementadas em ditadura.

A idade de ouro salazarista

A segunda razão do específico subconsciente coletivo dos democratas portugueses é a insidiosa reabilitação do passado salazarista. Precisamente a partir da mesma altura da Troika, tornaram-se mais audíveis as vozes que visavam reabilitar o regime ditatorial, separando-o sutilmente da figura do ditador. Conhecidos cientistas sociais que há anos mantêm colunas de opinião semanais nos jornais de referência foram construindo a ideia de que o ditador Salazar foi um dos grandes estadistas portugueses do século XX. E fizeram-no recorrendo aos meios de comunicação cada vez mais capturados pelas forças políticas de direita de modo a inculcar essa ideia no subconsciente dos portugueses. A repressão, a censura, a tortura, a guerra colonial, a miséria foram desaparecendo do imaginário português sobre Salazar. A austeridade seletiva, que foi o seu modo de governar, foi subliminarmente substituída pela figura austera do ditador.

As realidades do país da época do salazarismo evaporaram da memória dos portugueses. Em 1970, eu estava a trabalhar para o meu doutorado na Universidade de Yale. No dia 31 de agosto escrevi no diário: “Uma notícia do NYT (New York Times) traz-me à realidade do país que deixei para trás: ‘auxílio americano a Portugal em queijo, leite e farinha (distribuído pela Caritas) vai ser suspenso: 350.000 crianças dependem dessa alimentação. Triste país o meu’. E dois dias depois, também no NYT: “crise da indústria de conservas de sardinha em Portugal: mais um foco de emigração do Algarve para Gibraltar”.

Isto não é o produto de trabalho sociológico, é apenas um registro jornalístico que põe a nu o que era Portugal em 1970, quatro anos antes da Revolução de Abril. A idade de ouro dos empresários da reabilitação do passado era afinal uma idade de fome e chumbo para a maioria dos portugueses que nela viviam e morriam.

A política do ódio, o nacionalismo excludente e a esquerda suicida

O fantasma que assombra o subconsciente coletivo dos democratas portugueses é alimentado por um terceiro fator. Consiste no modo como, no curto período de uma geração, o estilo de convivência que existia entre as diferentes forças políticas e entre os cidadãos se alterou profundamente. A cultura da exclusão tomou o lugar da cultura de inclusão. Isso ocorreu a muitos níveis. A desigualdade social, que era uma manifestação de injustiça, passou a ser uma fatalidade, uma culpa dos excluídos ou até mesmo uma condição da prosperidade coletiva. Um país com uma longa tradição de emigração assumiu-se como país anti-imigração. Um país com uma forte componente islâmica na sua cultura tornou-se islamofóbico. Uma cultura de fronteira propensa ao interculturalismo tornou-se xenófoba. Um país com uma baixa taxa de criminalidade e sem ameaças externas converteu a segurança na sua grande prioridade, reforçada pela subserviência ao bunker político de Bruxelas que inventou uma ameaça externa (a russofobia) para reinventar a sua sobrevivência enquanto classe política parasitária.

Esta energia descendente, porque destrutiva, consome as mentalidades e as relações sociais, sobretudo as juvenis, corrói os laços de solidariedade entre gerações, alimenta o narcisismo e transforma a egolatria na única forma de altruísmo. As forças políticas que sempre estiveram ao lado dos excluídos (classes de trabalhadores com trabalho e de trabalhadores sem trabalho, povos e populações discriminadas), que sempre propuseram a inclusão das grandes maiorias e que mais recentemente se tornaram mais sensíveis à discriminação sexual, racial e cultural, estão hoje reféns da política do ódio e da balcanização das consciências que ela produz.

Para que a hora de AV nunca chegue

Os três fatores que alimentam o subconsciente coletivo dos democratas portugueses são suficientemente evidentes para mostrar que os democratas têm de mobilizar-se para que a hora de AV nunca chegue. Devem estar conscientes de que se nada fizerem, essa hora chegará. Sem o disparo de um tiro. Os tiros virão depois e as balas entrarão tanto no corpo como na alma. Por agora, as forças de esquerda ainda não souberam identificar onde estamos. Se não soubermos onde estamos, nunca saberemos para onde vamos ou devemos ir. Torna-se evidente que para lutar contra a pulsão autoritária que hoje AV e amanhã a AV&Co representam é preciso ir contra a corrente. Ora, as esquerdas sempre foram na corrente da divisão. Enquanto não aprenderem a ir na contracorrente da união, os minutos da hora AV vão contando.

Fonte aqui

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