Discutir economia política em Coimbra

 

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 31/01/2019)

abreu

(Este texto já o publiquei há poucas horas mas foi bloqueado no meu Facebook!!. Parece que há quem não goste da Estátua e das suas divulgações e partilhas. Assim, dupliquei o texto para o tentar colocar de novo no Facebook. Bloquear um texto sobre economia com um convite para um seminário de economia é ridículo. Mas os censores, sempre foram trogloditas!!

Estátua de Sal, 31/01/2019) 


Numa visita à London School of Economics no final de 2008, pouco tempo depois da eclosão da crise financeira, a Rainha de Inglaterra perguntou com alguma candura: “Como é que ninguém viu que estávamos a caminho de uma crise?”. Na realidade, a ideia de que estava a ter lugar uma acumulação insustentável de endividamento privado, cuja deflação traria consigo provavelmente uma recessão profunda, havia sido identificada e discutida por alguns. Era sobretudo no núcleo central da ciência económica, dominada pela teoria dos mercados eficientes, pela hipótese das escolhas racionais, pela abordagem dedutiva e pelo afastamento face à realidade política, institucional e histórica concreta, que dominava um “falhanço da imaginação colectiva” que tornara inimaginável a Grande Recessão.

Este confronto da Economia com a realidade das suas insuficiências não provocou rupturas paradigmáticas ou alterações de fundo. Em muitos contextos, acentuou-se até o estreitamento disciplinar desde essa altura. Mas a crise veio tornar especialmente evidente que a economia, uma ciência jovem com um conhecimento muito imperfeito do sistema complexo que constitui o seu objecto, não pode dar-se ao luxo de dispensar o pluralismo. Se quer ter esperanças de ser relevante e contribuir para o conhecimento e actuação sobre a realidade, deve cultivar e combinar as abordagens indutiva e dedutiva, a formulação de modelos abstractos e a análise dos contextos politicos e institucionais concretos, os métodos qualitativos e quantitativos, e o diálogo permanente com a história, a geografia, a sociologia e as outras ciências sociais.

Para procurar assegurar isto mesmo, inclusive ao nível da reconfiguração dos curricula universitários, surgiram nos últimos anos em Portugal várias iniciativas. Algumas das mais interessantes, como o Colectivo Economia Sem Muros, a partir da Nova-SBE, ou o Colectivo Economia Plural, a partir do ISEG, têm sido promovidas por estudantes – naturalmente, os primeiros interessados em assegurar a relevância da sua própria formação. E foi também neste contexto que germinou a criação da Associação Portuguesa de Economia Política, fundada em Janeiro de 2017 com o objectivo de promover o pluralismo e o pensamento crítico no estudo dos processos económicos, que são processos sociais ancorados em contextos concretos.

Como afirma a Declaração de Princípios desta Associação, a Economia Política pretende contrariar o estreitamento téorico e metodológico e entender as economias na sua complexidade e especificidade institucional, histórica e geográfica. Para isso, articula os esforços não apenas de membros que são nominalmente economistas, mas de muitos outros – geógrafos, sociólogos, cientistas políticos e outros – que se interessam pelos fenómenos e processos económicos e pelas dimensões da produção e reprodução material das sociedades. Tem vindo a crescer, contando actualmente com várias centenas de membros, e a organizar seminários, escolas de verão e inverno e outras actividades destinadas aos seus membros e à sociedade em geral.

Amanhã (6.ª feira) e Sábado (1 e 2 de Fevereiro), na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, terá lugar o 2.º Encontro Anual de Economia Política organizado por esta Associação, subordinado ao tema “Democracia, Desenvolvimento, Desigualdade”. Contará com mais de uma centena de comunicações em sessões plenárias e painéis sobre sobre temas tão diversos como a economia política do trabalho, políticas públicas, desenvolvimento e direitos humanos, financeirização e crescimento, entre muitos outros. E com certeza contará com muitos debates francos e interessantes.

Apareçam. Estão todos convidados.

Discutir economia política em Coimbra

 

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 31/01/2019)

abreu

Numa visita à London School of Economics no final de 2008, pouco tempo depois da eclosão da crise financeira, a Rainha de Inglaterra perguntou com alguma candura: “Como é que ninguém viu que estávamos a caminho de uma crise?”. Na realidade, a ideia de que estava a ter lugar uma acumulação insustentável de endividamento privado, cuja deflação traria consigo provavelmente uma recessão profunda, havia sido identificada e discutida por alguns. Era sobretudo no núcleo central da ciência económica, dominada pela teoria dos mercados eficientes, pela hipótese das escolhas racionais, pela abordagem dedutiva e pelo afastamento face à realidade política, institucional e histórica concreta, que dominava um “falhanço da imaginação colectiva” que tornara inimaginável a Grande Recessão.

Este confronto da Economia com a realidade das suas insuficiências não provocou rupturas paradigmáticas ou alterações de fundo. Em muitos contextos, acentuou-se até o estreitamento disciplinar desde essa altura. Mas a crise veio tornar especialmente evidente que a economia, uma ciência jovem com um conhecimento muito imperfeito do sistema complexo que constitui o seu objecto, não pode dar-se ao luxo de dispensar o pluralismo. Se quer ter esperanças de ser relevante e contribuir para o conhecimento e actuação sobre a realidade, deve cultivar e combinar as abordagens indutiva e dedutiva, a formulação de modelos abstractos e a análise dos contextos politicos e institucionais concretos, os métodos qualitativos e quantitativos, e o diálogo permanente com a história, a geografia, a sociologia e as outras ciências sociais.

Para procurar assegurar isto mesmo, inclusive ao nível da reconfiguração dos curricula universitários, surgiram nos últimos anos em Portugal várias iniciativas. Algumas das mais interessantes, como o Colectivo Economia Sem Muros, a partir da Nova-SBE, ou o Colectivo Economia Plural, a partir do ISEG, têm sido promovidas por estudantes – naturalmente, os primeiros interessados em assegurar a relevância da sua própria formação. E foi também neste contexto que germinou a criação da Associação Portuguesa de Economia Política, fundada em Janeiro de 2017 com o objectivo de promover o pluralismo e o pensamento crítico no estudo dos processos económicos, que são processos sociais ancorados em contextos concretos.

Como afirma a Declaração de Princípios desta Associação, a Economia Política pretende contrariar o estreitamento téorico e metodológico e entender as economias na sua complexidade e especificidade institucional, histórica e geográfica. Para isso, articula os esforços não apenas de membros que são nominalmente economistas, mas de muitos outros – geógrafos, sociólogos, cientistas políticos e outros – que se interessam pelos fenómenos e processos económicos e pelas dimensões da produção e reprodução material das sociedades. Tem vindo a crescer, contando actualmente com várias centenas de membros, e a organizar seminários, escolas de verão e inverno e outras actividades destinadas aos seus membros e à sociedade em geral.

Amanhã (6.ª feira) e Sábado (1 e 2 de Fevereiro), na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, terá lugar o 2.º Encontro Anual de Economia Política organizado por esta Associação, subordinado ao tema “Democracia, Desenvolvimento, Desigualdade”. Contará com mais de uma centena de comunicações em sessões plenárias e painéis sobre sobre temas tão diversos como a economia política do trabalho, políticas públicas, desenvolvimento e direitos humanos, financeirização e crescimento, entre muitos outros. E com certeza contará com muitos debates francos e interessantes.

Apareçam. Estão todos convidados.

Davos e o resto

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 24/01/2019)

abreu

Todos os anos, por esta altura, boa parte da elite empresarial, financeira e política global desloca-se a Davos para discutir tendências, estabelecer contactos e trocar influências no encontro anual do Fórum Económico Mundial. Desde a sua primeira edição em 1988, e apesar dos esforços da organização para melhorar a imagem do evento, Davos tornou-se conhecido como uma cimeira plutocrática, um símbolo por excelência do carácter elitista e inacessível das estruturas de decisão do capitalismo global. Não foi por acaso que o Fórum Social Mundial, criado em 2001, surgiu em oposição e contraste explícitos face a Davos, até mesmo no nome.

É por causa deste mesmo simbolismo que a Oxfam, confederação internacional de ONGs de luta contra a pobreza, escolhe também esta altura para publicar a edição anual do seu relatório sobre a desigualdade no mundo, que chama a atenção para as enormes disparidades na distribuição do rendimento e riqueza entre a população mundial. O relatório da Oxfam baseia-se principalmente em dados produzidos por outras organizações, mas tem sobretudo o mérito de apresentar esses dados de uma forma facilmente apreensível, e inevitavelmente chocante, para o público em geral.

Entre outras coisas, o relatório deste ano assinala que cerca de metade da população mundial vive com menos de 5 dólares e meio por dia, ao mesmo tempo que o número de bilionários é maior do que nunca: 2208 indivíduos com um património líquido superior a mil milhões de dólares.

Talvez mais impressionante ainda é saber que se os 1% mais ricos da população mundial pagassem 0,5% a mais de imposto sobre o património, isso geraria receita suficiente para educar os 262 milhões de crianças que não frequentam a escola em todo o mundo, ou para proporcionar cuidados de saúde susceptíveis de salvar 3,3 milhões de vidas.

A desigualdade global é enorme, sexista (prejudicando desproporcionalmente as mulheres em todo o mundo), traduz-se em milhões de mortes evitáveis e assenta em grande medida na capacidade dos mais ricos pagarem menos impostos por vias lícitas e ilícitas.

As soluções apontadas pela Oxfam para combater a desigualdade são as que já conhecemos; não é preciso reinventar a roda nesta matéria. Passam por proporcionar educação, saúde e outros serviços básicos de forma universal e gratuita, dando especial atenção à melhoria da situação das mulheres e raparigas, e por assegurar que os indivíduos mais ricos e as empresas pagam a justa quota parte de impostos, acabando com os offshores e eliminando as oportunidades de evasão e elisão fiscais.

O principal problema com que a humanidade se encontra confrontada nos nossos dias consiste em assegurar a dignidade e a satisfação das necessidades de todos sem exceder as capacidades do planeta em termos de recursos e de equilíbrio dos sistemas naturais. O relatório da Oxfam, ao mostrar que o problema da pobreza e prosperidade globais é fundamentalmente um problema de distribuição, é mais um elemento que nos ajuda a perceber que não são realmente precisas soluções técnicas, nem se vai lá com actos individuais bem intencionados. É indispensável, em contrapartida, que se dê prioridade ao bem comum sobre a riqueza privada.