Davos e o resto

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 24/01/2019)

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Todos os anos, por esta altura, boa parte da elite empresarial, financeira e política global desloca-se a Davos para discutir tendências, estabelecer contactos e trocar influências no encontro anual do Fórum Económico Mundial. Desde a sua primeira edição em 1988, e apesar dos esforços da organização para melhorar a imagem do evento, Davos tornou-se conhecido como uma cimeira plutocrática, um símbolo por excelência do carácter elitista e inacessível das estruturas de decisão do capitalismo global. Não foi por acaso que o Fórum Social Mundial, criado em 2001, surgiu em oposição e contraste explícitos face a Davos, até mesmo no nome.

É por causa deste mesmo simbolismo que a Oxfam, confederação internacional de ONGs de luta contra a pobreza, escolhe também esta altura para publicar a edição anual do seu relatório sobre a desigualdade no mundo, que chama a atenção para as enormes disparidades na distribuição do rendimento e riqueza entre a população mundial. O relatório da Oxfam baseia-se principalmente em dados produzidos por outras organizações, mas tem sobretudo o mérito de apresentar esses dados de uma forma facilmente apreensível, e inevitavelmente chocante, para o público em geral.

Entre outras coisas, o relatório deste ano assinala que cerca de metade da população mundial vive com menos de 5 dólares e meio por dia, ao mesmo tempo que o número de bilionários é maior do que nunca: 2208 indivíduos com um património líquido superior a mil milhões de dólares.

Talvez mais impressionante ainda é saber que se os 1% mais ricos da população mundial pagassem 0,5% a mais de imposto sobre o património, isso geraria receita suficiente para educar os 262 milhões de crianças que não frequentam a escola em todo o mundo, ou para proporcionar cuidados de saúde susceptíveis de salvar 3,3 milhões de vidas.

A desigualdade global é enorme, sexista (prejudicando desproporcionalmente as mulheres em todo o mundo), traduz-se em milhões de mortes evitáveis e assenta em grande medida na capacidade dos mais ricos pagarem menos impostos por vias lícitas e ilícitas.

As soluções apontadas pela Oxfam para combater a desigualdade são as que já conhecemos; não é preciso reinventar a roda nesta matéria. Passam por proporcionar educação, saúde e outros serviços básicos de forma universal e gratuita, dando especial atenção à melhoria da situação das mulheres e raparigas, e por assegurar que os indivíduos mais ricos e as empresas pagam a justa quota parte de impostos, acabando com os offshores e eliminando as oportunidades de evasão e elisão fiscais.

O principal problema com que a humanidade se encontra confrontada nos nossos dias consiste em assegurar a dignidade e a satisfação das necessidades de todos sem exceder as capacidades do planeta em termos de recursos e de equilíbrio dos sistemas naturais. O relatório da Oxfam, ao mostrar que o problema da pobreza e prosperidade globais é fundamentalmente um problema de distribuição, é mais um elemento que nos ajuda a perceber que não são realmente precisas soluções técnicas, nem se vai lá com actos individuais bem intencionados. É indispensável, em contrapartida, que se dê prioridade ao bem comum sobre a riqueza privada.

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