O golpe na Venezuela deve ter resistência

(Craig Murray, in GlobalResearch, 24/01/2019, Tradução Estátua de Sal)

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A Venezuela teve eleições. Juan Guaido nunca foi um candidato presidencial. Apesar do enorme financiamento e interferência da oposição e da CIA durante anos, já que as grandes companhias do petróleo tentam recuperar o controlo das maiores reservas do mundo, Nicolas Maduro foi democraticamente reeleito em 2018 como presidente da Venezuela.

O golpe, agora em curso, é ilegítimo. Eu opus-me à acção de Maduro para substituir a Assembleia Nacional eleita. Às vezes, leio de novo coisas que escrevi no passado e penso que estava errado. Outras vezes acho que o artigo estava certo, mas um pouco superficial . Ocasionalmente, fico orgulhoso, e estou orgulhoso da minha análise sobre a Venezuela, escrita em 3 de agosto de 2017. Acredito que ainda está válida:

A política revolucionária de Hugo Chavez foi fundada em dois princípios muito simples:

1) As pessoas não deveriam morrer de fome em favelas terríveis no país do mundo mais rico em petróleo.

2) A CIA não deveria controlar a Venezuela.

Ao longo dos anos, Chávez acumulou conquistas reais na melhoria dos padrões de vida dos pobres e no fornecimento de instalações de saúde e educação. Era muito popular e tanto ele quanto seu sucessor, Nicolas Maduro, obteve vitórias eleitorais muito expressivas. Maduro continua a ser o presidente democraticamente eleito.

Mas o sonho tornou-se azedo. Particularmente, caiu na tendência das economias de planeamento central de não fornecer as mercadorias que as pessoas querem nas prateleiras das lojas, e na corrupção que acompanha a centralização. Esta corrupção certamente que não é pior que a corrupção de direita que substituiu, mas isso não diminui a gravidade da sua existência.

Qualquer revolução afasta sempre uma elite existente que é, por definição, o grupo mais educado e mais articulado da população, com mais acesso a recursos, incluindo o acesso à comunicação social – e ao apoio secreto da CIA, que continuou em ritmo crescente. Chávez não resolveu esse problema da maneira que Robespierre, Stalin, Trotsky ou Mao teriam feito. Abraçou a democracia, deixou-os existir – e em grande parte deixou-os manter os seus milhões em offshore privados e, assim, o seu poder, permaneceu intocado.

Assim, Inevitavelmente chegou o dia em que os fracassos económicos e administrativos quebraram a solidez do apoio dos pobres à revolução. A direita, então, intensificou a sua oposição através de uma campanha liderada por bilionários corruptos, que a comunicação social ocidental ocultou ter recorrido a assassínios e a violência.

O problema do milenarismo revolucionário é que seu fracasso em alcançar a utopia é visto como um desastre pelos seus apoiantes. Maduro deveria ter aceite a mudança, que é a natureza da vida, que as marés políticas vão e voltam, e ceder o poder à oposição vitoriosa no parlamento, mantendo os princípios da democracia e esperar que a maré voltasse atrás – mesmo correndo o risco de a A CIA não lhe dar a segunda oportunidade. Em vez disso, ele recorreu a uma solução constitucional que dilui a democracia, um precedente que deliciou a direita que, a longo prazo, tem mais a temer da população. Dada a extrema violência da oposição, estou menos inclinado a ver as detenções como inquestionavelmente uma questão de direitos humanos, do que alguns alegados grupos pró-ocidentais de direitos humanos. Mas receio bem ser verdade que Maduro tenha saído do trilho democrático. Deve dizer-se, sem rodeios, que ele errou, por mais difíceis que tenham sido as circunstâncias. Eu condeno ambas as partes por se terem desviado das melhores práticas de direitos humanos e a tentativa de usar uma parte das instituições indiretamente eleitas (tribunais) para subverter o parlamento eleito.

Mas, ainda hoje, a Venezuela é muito mais uma democracia do que a Arábia Saudita, e é muito mais respeitadora dos direitos humanos do que Israel na sua terrível repressão aos palestinianos. No entanto, o apoio a Israel e à Arábia Saudita são pedras fundamentais da política externa daqueles que hoje são incessantes nas suas exigências de que nós, na “esquerda”, condenamos a Venezuela. A BBC deu maciçamente mais cobertura de notícias sobre abusos de direitos humanos na Venezuela no mês passado do que numa lista conjunta de países muito piores que eu poderia citar.

O abuso dos direitos humanos deve ser condenado em todos os lugares. Mas só atinge as manchetes quando praticado por um país que está do lado errado da agenda neoconservadora.

Qualquer um que acredite que a democracia interna de um país é o fator determinante para determinar se o Ocidente decide apoiar uma mudança violenta de regime naquele país, é um completo idiota. Qualquer jornalista ou político que faça essa afirmação é mais provável que seja um charlatão completo do que um completo idiota. Nos últimos anos, a posse de reservas de hidrocarbonetos é obviamente um fator importante nas ações de mudança do regime patrocinadas pelo Ocidente.

Na América Latina, no último século, a presença da democracia interna tem sido muito mais propensa a levar a uma mudança de regime externa do que a sua ausência, já que a manutenção da hegemonia imperialista dos EUA tem sido o fator determinante. Tal facto, combinado com as reservas de petróleo, explica duplamente as razões do atual movimento golpista.

É desanimador ver as “democracias” ocidentais a apoiar tão unanimemente o golpe na Venezuela. A UE, em particular, entrou em cena para apoiar Donald Trump no ato absurdo de reconhecer o fantoche corrupto do Big Oil, Guaido, como “Presidente”.

A mudança da UE para uma política totalmente neoconservadora – tão fortemente representada pelo seu incisivo apoio à violência franquista na Catalunha -, foi o que me levou a conciliar com o Brexit e a defender um relacionamento do Reino Unido com a União Europeia, estilo Noruega.

Quando eu estava no FCO (N.T – Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido), a regra do reconhecimento era muito clara e muito abertamente declarada – o Reino Unido reconhecia o governo que tinha “controlo efetivo do território”, quaisquer que fossem os atributos daquele governo. Este é um princípio muito bem estabelecido no direito internacional. Havia exceções muito raras envolvendo a continuação do apoio aos governos demitidos. O governo polaco, no exílio, antes de 1939, era o exemplo mais óbvio, mas, depois do nazismo ter sido derrotado, a Grã-Bretanha passou a reconhecer o governo comunista realmente encarregado, apesar da fúria dos polacos exilados. Eu próprio estive envolvido na questão do reconhecimento continuado do Presidente Kabbah, da Serra Leoa, durante o período em que ele foi derrubado por um golpe militar.

Mas não me ocorre nenhum precedente de reconhecimento de um presidente que não tem e nunca teve o controlo do país – e nunca foi candidato a presidente. Essa ideia do Ocidente, simplesmente tentar impor um líder adequadamente corrupto e obediente é realmente um desenvolvimento muito surpreendente. É também de espantar o comentário dos MSM (N.T. Mainstream media) e da classe política que parece não ver nenhum problema com isso. É um precedente extraordinário e, sem dúvida, levará a muitas e novas aventuras imperialistas.

Um pensamento final. O governo de direita do Equador tem sido um dos primeiros e mais ouvidos a apregoar as ofertas do Ocidente à Venezuela. O governo equatoriano tem conspirado com os Estados Unidos nos seus esforços para aprisionar Julian Assange, e neste exato momento conseguiu que funcionários do FBI e da CIA em Quito recebessem declarações falsas e maliciosas fabricadas pelo governo do Equador em colaboração com a CIA, sobre as atividades de Julian Assange na Embaixada em Londres.

Documentos do governo equatoriano já haviam sido produzidos em Quito e encaminhados para o MI6 e para a CIA bem como para o Guardian e o New York Times, pretendendo mostrar a nomeação diplomática de Julian Assange para Moscou em dezembro de 2017. Acredito que esses documentos falsos, muito provavelmente produzido pela CIA no Equador, devem ter influenciou o próprio governo deste país no caso Assange.

Hoje, o Equador, em tempos recentes uma peça fundamental da revolução bolivariana, é simplesmente um fantoche da CIA, expressando apoio a um golpe dos EUA na Venezuela e trabalhando para produzir testemunhos falsos contra Assange. Assim, deixo o aviso para que não deem crédito ao próximo “furo” de Luke Harding, que sem dúvida emergirá desse processo.


Fonte aqui

8 pensamentos sobre “O golpe na Venezuela deve ter resistência

      • […]

        «Qualquer revolução afasta sempre uma elite existente que é, por definição, o grupo mais educado e mais articulado da população, com mais acesso a recursos, incluindo o acesso à comunicação social – e ao apoio secreto da CIA, que continuou em ritmo crescente. Chávez não resolveu esse problema da maneira que Robespierre, Stalin, Trotsky ou Mao teriam feito.», hum?!

        Nota. Ou isto está mal traduzido, Manuel G., porque não tem pileira nenhuma que um parágrafo assim tão trapalhão seja enxertado a martelo, ou, ó Craig!, estás a exibir mais uma ganda bebedeira n’A Estátua de Sal.

        https://pbs.twimg.com/media/Dxs56z0WoAAoWE-.jpg

        [Uns bandidos, hoje na imprensa burguesa, com as lérias do costume sobre o povo unido e essas merdas.]

          • Não te erices, Manuel G.

            Every revolution will always displace an existing elite who are by definition the best educated and most articulate section of the population, with most access to resources including media – and to CIA secret backing, which has continued throughout at an increasing rate. Chavez did not solve this problem in the way Robespierre, Stalin, Trotsky or Mao would have done. He embraced democracy, let them be – and largely left their private offshore billions, and thus their power, untouched.

            Qualquer revolução afasta sempre uma elite existente que é, por definição, o grupo mais educado e mais articulado da população, com mais acesso a recursos, incluindo o acesso à comunicação social – e ao apoio secreto da CIA, que continuou em ritmo crescente. Chávez não resolveu esse problema da maneira que Robespierre, Stalin, Trotsky ou Mao teriam feito. Abraçou a democracia, deixou-os existir – e em grande parte deixou-os manter os seus milhões em offshore privados e, assim, o seu poder, permaneceu intocado.

            Nota. Estão aqui, ressalvo o ou-ou, que eram dois, e que foi o que eu disse. Sou um menino bem comportado, como sabes, e não quis ferir susceptibilidades.

            ______

            Conheces este post, entretanto? Vi-o há bocado no Aspirina B, achei-o inspirado.

            Sócrates, vai a Évora
            24 Janeiro 2019 às 16:07 por Valupi

            Sócrates, vai a Évora. Vai dar duas caixas de robalos ao homem. O homem que é teu amigo e ex-camarada. E o homem que é teu ex-camarada e amigo dos nossos amigos da Operação Marquês. Uma chapada à chegada e outra à partida. Como fazem os amigos e os ex-camaradas.

            […]

            Que tal?

  1. Agradecer à Estátua pelos excelentes esclarecimentos que tem postado sobre a realidade na Venezuela. Também é serviço público. Que infelizmente o nosso governo – que até é suposto ser de esquerda – não acompanha. Enveredando por ser mais um estado fantoche da UE. Quanto ao nosso MNE, agora muito activo na questão Venezuela, quem o viu e quem o vê. Se ainda preciso fosse, mais uma prova que o poder corrompe mesmo. E ironia das ironias, posição que nem os portugueses na Venezuela agradecem. Muito pelo contrário. Como já vieram dizer hoje, aconselhando mais prudência nas posições publicas do governo português. Em contrapartida, déspotas acéfalos como Trump ou Bolsonaro…

  2. Maduro é um bom homem e pouco mais. Senão copiaria o exemplo do Presidente da Coreia do Norte,que afastou de vez, quem lhe queria morder as canelas…Pedia emprestadas duas ou três munições das que o coreano costuma fazer explodir no sub-solo e três ou quatro foguetes que lançaria para as águas internacionais do Atlãntico e do Pacífico…
    Até o poupa laranja lhe ia achar gracinha e estaria disponível para encontros onde ele. Maduro, entendesse!
    Quem muito se baixa logo chega ao que não lhe convém|

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