Emérito Coelho

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 04/03/2016)

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 João Quadros

Em tempos, Santana Lopes, após ser PM, quando lhe perguntaram o que ia fazer, disse: vou andar por aí. Passos decidiu que, depois de ser PM, ia andar por todo o lado.


Passos faz inaugurações, visita escolas, fábricas e exposições. O mesmo Passos que desapareceu dos cartazes de campanha nas legislativas, agora, é omnipresente. No fundo, Passos ainda se julga PM. O ex-primeiro-ministro parece a ex-namorada que ainda continua a ir visitar os “sogros”. O pin de Portugal é o sinal do seu estado de loucura – acabou, filha, desanda.

Passos vai ter de ser operado para remover o pin de Portugal. O uso do pin, com a nossa bandeira, tornou-se uma teimosia. Quanto mais insistirmos que é ridículo usar aquilo, mais ele o vai usar. Quem tem filhos adolescentes, sabe do que estou a falar. Aposto que o ex-PM nem tira o pin no banho. Pode sofrer mas não o vão apanhar sem o último símbolo do que já foi. Se, por acaso, lhe cai o pin, é como se lhe tivesse caído uma lente de contacto – “Ninguém se mexa! Caiu-me o pin. Não o pisem, a não ser que estejam descalços”.

Eu acho que Passos deve ter uma gaveta cheia de pins de Portugal. Não ia arriscar perder o que tem e, de manhã, ir para a rua sem ele. Não pode ter só aquele ou já estaria enferrujado e Passos podia picar-se, apanhar tétano e ficar com um sorriso forçado.

Resumindo, o ex-líder do PàF vê-se como uma espécie de Dalai Lama, neoliberal, que continua a ser o líder do governo tibetano no exílio após a invasão do país pelos comunas da China. Ou um Bento XVI que não se confina a Castel Gandolfo e que usa aqueles sapatos vermelhos Prada, que só o verdadeiro Papa pode usar e que, quando pode, gama o Papamóbil para ir sair. Passos sente-se um PM emérito mas por pouco tempo.

No fundo, Pedro tem esperanças em poder voltar ao Governo após intervenção de Marcelo. Sonha fazer o XXII Governo constitucional, chamar-lhe XX-B e voltar a empossar Calvão da Silva. Está por tudo. Reza à Comissão Europeia para que chumbem o OE. Admite assumir Governo sem se submeter a novas eleições, porque não é bom para o país andar sempre em eleições, meses depois de ter proposto alterar a Constituição para se poder ir outra vez a eleições. Na verdade, o ex-PM não consegue aceitar a realidade. A realidade e Passos sempre foram cão e gato.

A series of fortunate events

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 26/02/2016)

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João Quadros

 

O OE 2016 foi, finalmente, aprovado. Pela primeira vez na democracia portuguesa, um OE foi aprovado com os votos favoráveis do PCP, BE e PEV. A geringonça ganhou o Paris-Dakar.


 

O PAN absteve-se (mas propõe alterações em reunião com PS na quarta-feira) – foi uma abstenção canina. Fez-se história no Parlamento, esperemos que tenha um final feliz.

Após a aprovação do OE, os juros de Portugal caíram em todas as maturidades. E isto tudo sem usar o PIN de Portugal. Se o PSD e o CDS têm votado a favor, estávamos com juros negativos, abaixo da Alemanha. Espero, ardentemente, uma metáfora de Cristas sobre juros que descem após aprovação de OE chumbado pelo seu partido. Qualquer coisa como “a geringonça fez chover de baixo para cima”.

Num momento histórico para a esquerda, não podiam faltar as citações de cantores revolucionários como Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Jorge Palma e outros. Parecia o festival do Avante ou a futura tomada de posse de Marcelo. Foi estranho ver as bancadas responderem com citações. A “este é o primeiro dia das nossas vidas”, dito por Centeno, respondia João Almeida com: “Ai Portugal Portugal”, de Jorge Palma. Nunca Jorge Palma foi citado por alguém que se embebeda com bombons de ginja. Não foi agradável. Parecia que os deputados estavam a usar as letras, a poesia, dos nossos maiores artistas como os miúdos usam as cartas de poderes.

– Ai deitaste um megatron com poder de lava?! Toma lá um Sacarleton Donix de fumos de gelo.

Foi uma espécie de discussão no trânsito usando letras de canções em vez de insultos básicos. Fez muita falta uma parte da letra de José Mário Branco sobre o FMI. A aprovação do OE de 2016 foi um momento histórico sob vários pontos de vista, excepto o de Portas, que não apareceu.

A esquerda unia-se, numa “coligação impossível”, para aprovar um OE “sem acordo entre as partes” previamente “chumbado por Bruxelas”. O OE passou todas as pragas do Egipto. É como se todos velhos do Restelo tivessem feito zero no cartão do bingo da desfortuna. A azia dos comentadores era indisfarçável. O Orçamento do Estado de 2016 fez as acções da farmacêutica da Kompensan galgar a bolsa.

Era suposto que uma série de desagradáveis eventos acabasse com a história do trio. Mas não foi assim. Desde um acordo numa folha de papel que se desfazia com o toque, ao olhar mortal de chumbo de Aníbal, passando pela trituradora de alternativas da Comissão Europeia e acabando no terror dos mercados, a geringonça galgou tudo. Eu vendia a geringonça à NASA. Citando o Armstrong, o que não é da música, foi um pequeno passo para a humanidade.

 

Um OE pousou num galho reflectindo sobre a sua existência

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 19/02/2016)

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João Quadros

Nunca um Orçamento do Estado foi tão profundamente avaliado. Já quase não se discutem números. Discutem-se intenções. Paradigmas. O bom e o mau. O Yin e o Yang de Centeno. O ego e superego do Orçamento. A análise psicanalítica do OE. Temos de deitar o Orçamento do Estado num divã. Não precisamos de Schäuble, precisamos de Freud.


Para a direita, ou o Orçamento do Estado tem dupla personalidade ou são eles que a têm. Tão depressa é o Orçamento despesista, anti-austeridade orientado pelo Partido Comunista, como é o Orçamento que tira aos que menos têm, que sobrecarrega de impostos um povo que precisa de um alívio de austeridade. O PSD , talvez por vício, vê-se constantemente obrigado a fazer um rectificativo às críticas ao Orçamento do Estado.

Não tenho uma opinião concreta em relação a este Orçamento do Estado. À primeira vista, gosto. A primeira impressão é muito importante e eu simpatizo sempre com quem causa má impressão na Comissão Europeia. Não vou dizer que metia todas as minhas acções do BES, da PT e do Banif no fogo por este Orçamento. Há tantos imponderáveis. Desde o preço do petróleo a um mau olhado do Paulo Rangel.

 Mesmo que a realidade venha a dar em pouca coisa, a proeza é como lá se chegou. O “não consegue” acaba quando se faz uma cruz na lista e passa ao que fica por conseguir. Do ponto de vista económico, estou enamorado pelo OE como nas antigas canções de amigo. Não me enrolava com ele. Mas quero-lhe bem. É uma cena platónica. Movida pelo meu ódio platónico ao que é hoje a UE.

Se me sinto seguro (independentemente dos mercados, a que deixei de ligar desde que também não me ligaram nos meus anos)? Não.

Por princípio, tenho medo de ministros das Finanças. Para começar, juntam duas das coisas de que tenho mais pavor: ministros e finanças. É como um Lobizombie. Ou um Zombielobo. Uma coisa é ser, por exemplo, ministro do Ambiente. Pronto, é ministro, mas o Ambiente é uma coisa boa. Com Finanças, não dá. Por isso, questiono o que move e quem é essa gente que quer ser aquilo. Há ali maldade ou loucura. É como escolher a especialidade de proctologia dentária.

Peço desculpa por este desabafo, mas quero que o leitor tenha consciência de que o meu medo pode interferir com a clareza e justiça do meu raciocínio. Posso assim desabafar e dizer que o Centeno não me dá total confiança. Não é o que diz, é a postura com que diz. Centeno tem cara de indivíduo que anda no centro comercial à procura de informação, urgente, sobre onde são os WC, mas que não tem coragem para perguntar onde são. É esse ar que me assusta. Ele parece aflito e aflito para não dizer a ninguém que está aflito.