Um OE pousou num galho reflectindo sobre a sua existência

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 19/02/2016)

quadros

João Quadros

Nunca um Orçamento do Estado foi tão profundamente avaliado. Já quase não se discutem números. Discutem-se intenções. Paradigmas. O bom e o mau. O Yin e o Yang de Centeno. O ego e superego do Orçamento. A análise psicanalítica do OE. Temos de deitar o Orçamento do Estado num divã. Não precisamos de Schäuble, precisamos de Freud.


Para a direita, ou o Orçamento do Estado tem dupla personalidade ou são eles que a têm. Tão depressa é o Orçamento despesista, anti-austeridade orientado pelo Partido Comunista, como é o Orçamento que tira aos que menos têm, que sobrecarrega de impostos um povo que precisa de um alívio de austeridade. O PSD , talvez por vício, vê-se constantemente obrigado a fazer um rectificativo às críticas ao Orçamento do Estado.

Não tenho uma opinião concreta em relação a este Orçamento do Estado. À primeira vista, gosto. A primeira impressão é muito importante e eu simpatizo sempre com quem causa má impressão na Comissão Europeia. Não vou dizer que metia todas as minhas acções do BES, da PT e do Banif no fogo por este Orçamento. Há tantos imponderáveis. Desde o preço do petróleo a um mau olhado do Paulo Rangel.

 Mesmo que a realidade venha a dar em pouca coisa, a proeza é como lá se chegou. O “não consegue” acaba quando se faz uma cruz na lista e passa ao que fica por conseguir. Do ponto de vista económico, estou enamorado pelo OE como nas antigas canções de amigo. Não me enrolava com ele. Mas quero-lhe bem. É uma cena platónica. Movida pelo meu ódio platónico ao que é hoje a UE.

Se me sinto seguro (independentemente dos mercados, a que deixei de ligar desde que também não me ligaram nos meus anos)? Não.

Por princípio, tenho medo de ministros das Finanças. Para começar, juntam duas das coisas de que tenho mais pavor: ministros e finanças. É como um Lobizombie. Ou um Zombielobo. Uma coisa é ser, por exemplo, ministro do Ambiente. Pronto, é ministro, mas o Ambiente é uma coisa boa. Com Finanças, não dá. Por isso, questiono o que move e quem é essa gente que quer ser aquilo. Há ali maldade ou loucura. É como escolher a especialidade de proctologia dentária.

Peço desculpa por este desabafo, mas quero que o leitor tenha consciência de que o meu medo pode interferir com a clareza e justiça do meu raciocínio. Posso assim desabafar e dizer que o Centeno não me dá total confiança. Não é o que diz, é a postura com que diz. Centeno tem cara de indivíduo que anda no centro comercial à procura de informação, urgente, sobre onde são os WC, mas que não tem coragem para perguntar onde são. É esse ar que me assusta. Ele parece aflito e aflito para não dizer a ninguém que está aflito.

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2 pensamentos sobre “Um OE pousou num galho reflectindo sobre a sua existência

  1. Gostava de ter escrito este texto porque penso que ele reflecte aquilo que tipos como eu, que não gostam de finanças, pensam seriamente sobre o OE, a CE e o Centeno ! Parabéns ao seu autor que, aliás, têm-nos prendado com outros textos de igual calibre !

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