Reflexão – o jornalismo metido a esperto

(João Gomes, in Facebook, 13/07/2026)


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Há uma diferença fundamental entre informar e querer conduzir o pensamento do público. O bom jornalismo faz perguntas, procura respostas, confronta versões e apresenta os factos. O mau jornalismo acredita que já conhece as respostas antes de as ouvir e tenta enquadrar tudo aquilo que é dito dentro da narrativa que considera mais conveniente.

É precisamente aqui que, em muitas ocasiões, tenho a sensação de que alguns canais televisivos portugueses, em particular a CNN Portugal, se desviam da sua missão.

Convidam especialistas militares, antigos oficiais-generais, investigadores e analistas precisamente porque possuem conhecimentos que a maioria dos jornalistas não possui. No entanto, mal esses especialistas apresentam uma análise que não coincide com a linha dominante do canal, o jornalista deixa de ser entrevistador para passar a ser contraditor. Não procura compreender melhor a análise; procura desmontá-la, muitas vezes sem apresentar factos novos, apenas uma convicção. Então surge uma pergunta: se o jornalista já sabe a resposta, para que convida o especialista?

O contraditório é uma das bases do jornalismo. Mas contraditório não significa substituir conhecimento técnico por opinião. Significa confrontar uma análise com dados, documentos, declarações ou outras análises igualmente fundamentadas. Quando isso não acontece, a entrevista transforma-se num duelo entre quem estudou um conflito durante décadas e quem apenas conduz a emissão. Ora, o resultado acaba por ser mais grave do que parece.

Ao longo dos últimos quatro anos, a cobertura da guerra na Ucrânia tem sido, em muitos momentos, marcada por uma leitura predominantemente alinhada com a perspetiva política e estratégica da NATO. É natural que um meio de comunicação ocidental acompanhe de perto essa visão. O problema surge quando essa perspetiva passa praticamente a monopolizar a interpretação dos acontecimentos.

Entretanto, a realidade do terreno continua a impor-se. A Ucrânia demonstra capacidade para realizar ataques de longo alcance contra infraestruturas russas, recorrendo a meios fornecidos pelos seus aliados. Esses ataques existem e fazem parte da guerra. Mas, simultaneamente, o conflito terrestre continua a ser o fator decisivo. E é aí que se mede quem controla o território.

Uma guerra não se vence apenas pela capacidade de atingir alvos distantes. Vence-se, sobretudo, pela capacidade de manter ou conquistar terreno. A imagem talvez seja simples, mas ajuda a compreender o problema: imagine-se alguém que vê, dia após dia, a sua casa ser ocupada. Primeiro perde o quintal, depois a garagem, mais tarde um quarto, depois outro, e finalmente parte da varanda. Apesar disso, continua sobretudo preocupado em atirar pedras ao quintal do vizinho. As pedras podem causar incómodo. Podem até provocar alguns estragos. Mas não alteram o facto de a sua própria casa continuar a ser ocupada.

É esta diferença entre impacto mediático e realidade militar que nem sempre é explicada ao público com o equilíbrio necessário. O jornalismo não tem obrigação de favorecer a Rússia nem a Ucrânia. Também não deve favorecer a NATO nem qualquer outra potência. Tem apenas uma obrigação: ajudar os cidadãos a compreender a realidade.

Se uma ofensiva perde território, isso deve ser noticiado com a mesma evidência com que são noticiados os ataques de drones. Se uma operação tem êxito estratégico, deve ser explicado porquê. Se falha, também.

Porque uma sociedade bem informada toma melhores decisões do que uma sociedade alimentada por expectativas que os acontecimentos acabam por desmentir. O jornalismo deixa de cumprir plenamente a sua função quando privilegia a narrativa em detrimento da realidade observável.

Os cidadãos não precisam de comentadores que lhes digam aquilo que desejam ouvir. Precisam de profissionais que lhes expliquem aquilo que realmente está a acontecer, mesmo quando essa realidade contraria as preferências políticas, ideológicas ou emocionais de cada um.

No fim de contas, a credibilidade de um meio de comunicação não depende de confirmar aquilo em que acredita. Depende da capacidade de descrever os factos com rigor, de ouvir especialistas sem os transformar em adversários e de permitir que seja o público – e não a redação – a formar a sua própria opinião.

7 pensamentos sobre “Reflexão – o jornalismo metido a esperto

  1. E agora voando em turno do ninho das teorias da conspiração.
    Correm entre a fascistada um monte de teorias sobre o monstro Lindsey Graham ter sido envenenado pela Rússia, o Irão ao ambos.
    Ora, tendo o homem chegado de uma visita a Herr Zelensky não poderiam ter sido os nazis a manda lo para onde devia ter ido a nascença para terem um mártir?
    Afinal de contas, ao que parece o homem era um homossexual sem tomates para sair do armário e todos sabemos o que os nazis originais faziam a malta dessa.
    E como diz o Albarda-mos.
    Estes carolas, direitolas, farsolas não param.

  2. E também parece que e de hoje que o jornalismo faz destas.
    O Paulo Dentinho e outros na Líbia ou a cobertura do que se passou na Síria em que a coisa mais fofinha que chamavam a Assad era assassino e ditador.
    As reportagens do Expresso já em 2014 em zonas controladas pelo Estado Islâmico em que ate descortinavam comerciantes muito contentes porque agora pagavam menos impostos.
    E agora a branquear os corta cabeças que finalmente tomaram o poder no país.
    Essa gente até branqueou os talibãs com a conversa de que o povo do Afeganistão era medieval e por isso iria aceitar aquilo. Os talibãs só se tornaram os maus da fita apos o malfadado 11 de Setembro.
    E agora já pouco se fala deles pois que até se quer devolver a procedência os afegãos que para cá vieram para fugir deles.
    Como aliás se está a fazer aos sirios.
    Também quem lhes mandou dizer o que achavam que esta gente queria ouvir. Que estavam em fuga ao Assad.
    Claro que só tiveram vontade de fugir em massa ao malvado quando lhes caíram em cima gente que crucificava, decapitava e afogava gente em piscinas.
    Mas achavam que se tambem falassem mal do Governo do seu país seriam melhor recebidos.
    Não lhes escorreu que deposto o malvado levavam o competente pontapé no cu.
    E como os russos que estão na Alemanha. Muitos muito antes desta guerra e alguns até de antes do Putin estando ate já reformados. Sabem o que lhes convém e por isso toca a falar mal do Putin. Se algum dia houver a mudança de regime sonhada por esta gente verão o pontapé que levam.
    Mas esta e gente desbravando os caminhos do pão e da vida. Pode tomar decisões erradas. Muitas vezes podemos dizer “não sabem o que fazem”.
    Mas estes sujeitos sabem muito bem o que andam a fazer.
    Mas por isso podemos perguntar quando e que o jornalismo cumpriu a sua função e nunca foram um bando de aldraboes as ordens do dono do momento.
    Que grandes patranhas.

  3. Também já desisti há uns anos. Mas as vezes a televisão não e nossa e lá se leva com a pastilha.
    Boa malha. Temos de nos rir um pouco com isto.
    O que me arrepia e como e que esta gente dorme sabendo que está a mentir todos os dias.
    Tudo bem que as contas não se pagam sozinhas mas sempre podiam tentar arranjar um meio honesto de ganhar a vida.
    Não lhes saberá as vezes o pão a merda?

  4. Já desisti de ver comentário na TV…Porque não me informam não deixo que me desinformem
    O Major-General Agostinho Costa é convidado para comentar em directo na televisão. Cinco minutos antes de entrar no estúdio, Ana Sofia Cardoso corre até ele com uma folha de papel e diz:
    — Senhor General, só para alinharmos agulhas. Na primeira pergunta, o senhor diz que a Russia está beira do precipício. Na segunda, culpa o malvado do Putin por não aceitar a proposta da merda da carta de Zelensky. E na terceira, valida a minha vontade e desejo de derrota da Russia.
    O Major General, chocado, olha para o papel e diz:
    — Mas a minha investigação e observação dos factos mostra exactamente o contrário! Os dados são claros, a situação é que os avanços ucranianos se fazem em direcção a Kiev.
    A Ana Sofia Cardoso suspira, revira os olhos e responde, muito séria:
    — Ó Senhor General, por amor de Deus, não me venha agora foder o Alinhamento com Factos! A redacção trabalhou nesta merda a tarde toda!

  5. “Porque uma sociedade bem informada toma melhores decisões do que uma sociedade alimentada por expectativas que os acontecimentos acabam por desmentir. O jornalismo deixa de cumprir plenamente a sua função quando privilegia a narrativa em detrimento da realidade observável.”

    Já estou a ver os tais jornalistas (que são quase todos) a rasgarem as vestes por não cumprirem plenamente a sua função… E já agora, a sociedade a carpir mágoas por ter tomado más decisões – apesar de ignorar que tomou decisões…

    Excelente texto, mas de uma candura desnorteante!

  6. O problema e que estes artistas anunciam os ataques a território russo como se isso fosse a prova provada de que a Ucrânia ainda pode vencer esta guerra, aliás, vai mesmo vencer esta guerra.
    Os ataques a refinarias são um caso típico. Querem mesmo convencer nos de que a Rússia ficará sem combustível para continuar a guerra, vai por isso perder o território conquistado e ainda veremos mesmo os ucranianos a marchar em Moscovo.
    E só continuarmos a mandar para lá drones, mísseis, dinheiro e mercenários.
    Quem acreditar nisso anda a comer gelados com a testa.
    Em primeiro lugar porque as refinarias atingidas podem sempre ser reparadas.
    Em segundo lugar porque quando falamos na Rússia estamos a falar num país imenso, mas mesmo muito grande.
    Que se estende ao longo de nove fusos horários e por isso haverá sempre uma infinidade de refinarias em sítios que nenhum drone nazi pode alcançar.
    Podem provocar algumas falhas pontuais de abastecimento? Claro que podem.
    Mas não podem destruir tudo, não podem provocar danos irreversíveis, muito menos vencer a guerra recorrendo a estas táticas com muito de terrorista.
    Quanto a tentar convencer nos de que a Ucrânia pode vencer isto porque ainda consegue fazer terrorismo na região de Moscovo.
    Essa região fica demasiado perto da Ucrânia e provavelmente será cada vez mais um alvo prioritário a medida que os líderes nazis estão cada vez mais desesperados.
    Mas esta gente ainda nos tenta convencer que desesperados estão os russos por estarem a carregar no acelerador.
    Cada um acredita no que acredita mas a verdade e que cada vez dá mais nojo que andemos a pagar a Herr Zelensky que cada vez prova mais que e um reles nazi.
    Ou não andasse a glorificar gente que na Segunda Guerra Mundial andou a matar polacos como quem mata cães.
    O Governo polaco e um dos que começa a achar cada vez mais difícil justificar o seu apoio a gente dessa.
    Mas como o grosso desta gente não acorda teremos de continuar a pagar a Herr Zelensky enquanto ninguém lhe der um tiro nos cornos.
    Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.
    Raios partam a Ucrânia.

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