As contradições UE-EUA e o Plano de Paz de Trump para a Ucrânia

(Angeles Maestro, in Resistir, 24/11/2025)


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Vinte e quatro horas após a divulgação do Plano de Paz de Trump para a Ucrânia, Zelenski dirige uma mensagem ao seu povo na qual praticamente anuncia que os EUA lhe deram um ultimato:   “ou a perda da dignidade ou o risco de perder um parceiro fundamental; 28 pontos complicados ou um inverno extremamente rigoroso”[1]. Do conjunto da mensagem deduz-se que “por mais difícil que seja”, pior seria não aceitá-la.

Nesse sentido, a divulgação de informações, precisamente agora, sobre a corrupção da cúpula do poder na Ucrânia, incluindo Zelenski, quando é um facto bem conhecido há anos, serviu como chantagem política para inclinar a vontade da cúpula de Kiev para o acordo.

Sobre a posição da Rússia, não há nenhum mistério. As suas linhas vermelhas são as que foram apresentadas em Istambul em 2022 e que vêm sendo repetidas desde então como objetivos inegociáveis da Operação Militar Especial:   proteção da população do Donbass e de outras comunidades de língua e cultura russas, e desmilitarização, neutralidade e desnazificação da Ucrânia. Tudo isto no âmbito da garantia da segurança da Rússia, cercada militarmente de forma progressiva pela NATO desde o desaparecimento da URSS em 1991.

Apesar do silêncio cauteloso do Kremlin perante a proposta, ou precisamente por isso, é evidente que o plano responde ao acordado entre Putin e Trump no Alasca, na sua reunião do passado mês de agosto.

Tanto então como agora, nem a Ucrânia nem a UE participaram nas negociações; foram colocadas perante factos consumados.

O acordo coloca a UE numa situação especialmente complicada, na medida em que o eixo central da sua política gira em torno do prolongamento da guerra na Ucrânia “até ao último ucraniano”, ao mesmo tempo que se arma até aos dentes para uma guerra da NATO contra a Rússia dentro de poucos anos. Na realidade, um dos eixos dessa estratégia é injetar quantias colossais de dinheiro público na indústria armamentista, tentando assim paliar a desindustrialização que assola a UE. O outro é a militarização e a intensificação da repressão de alguns povos que começam a rebelar-se contra o desemprego crescente e a deterioração das suas vidas, e a apontar com greves gerais contra a economia de guerra.

Para justificar tal loucura, foi lançada uma propaganda de guerra sufocante baseada na demonização da Rússia. Ainda ontem, Andrius Kubilius, Comissário da Defesa da UE, afirmou que “em dois ou três anos, a Rússia poderia atacar aeroportos espanhóis e afetar gravemente o turismo”[2]; e há dois dias, o Chefe do Estado-Maior da França declarou que a população devia preparar-se para ver os seus filhos morrerem na guerra contra a Rússia[3].

Não há dúvida de que o Plano de Paz na Ucrânia é um poderoso torpedo na linha de flutuação da UE. A queda das cotações na bolsa das empresas de armamento reflete a gravidade da situação. A Comissão Europeia e os seus governos ficam sem o argumento central de que “a Rússia vai atacar-nos a todos”, com o qual justificavam a prioridade absoluta da “segurança” acima das pensões, dos serviços públicos, do trabalho ou mesmo da vida dos jovens.

Mas que razões há para os Estados Unidos terem pressionado decisivamente a Ucrânia para a implementação de um Plano de Paz que, em linhas gerais, aceita os objetivos fundamentais da Rússia?

Certamente nada tem a ver com o suposto pacifismo de um Trump disposto a ganhar o Prémio Nobel da Paz no próximo ano.

As razões são as seguintes:

A primeira é a constatação da vitória retumbante da Rússia na frente de batalha, apesar das enormes quantidades de armamento, instrutores militares e tropas especiais fornecidas pela NATO. Contra esta evidência, o regime de Kiev e a UE têm inventado “vitórias”, repetidas como papagaios pelos meios de comunicação social. Precisavam dessas mentiras, os de Zelenski para continuar a receber dinheiro, e a UE, para justificar essas mesmas transfusões de armas e fundos públicos.

A segunda é que os EUA, imersos numa crise económica gravíssima, não podem continuar a manter, às custas do orçamento público, o apoio militar e económico a uma guerra que não só não lhes convém, mas que, como veremos mais adiante, contraria os seus interesses. Por outro lado, o negócio do seu complexo militar-industrial está bem assegurado com uma UE que já se comprometeu com Trump a comprar armas em grande quantidade à indústria militar norte-americana. Se as usam ou não, não é problema seu.

A terceira é a que provavelmente pressionou mais diretamente para acabar com o conflito o mais rapidamente possível. Trump, tal como os governos da UE, é o terminal político dos interesses das grandes multinacionais. A diferença é que os EUA têm a capacidade de subjugar a UE e impor os seus objetivos.

Uma vez garantidos os lucros das grandes empresas de armamento norte-americanas com os orçamentos europeus, os grandes fundos de investimento preparam-se para se lançar sobre a Ucrânia.

Alguns, como a Blackrock, para a “reconstruir”. Lembram-se do Iraque?

Outros são proprietários de grandes extensões de terras na Ucrânia, cuja exploração não se coaduna bem com a guerra. Neste relatório[4], “são identificados muitos investidores de destaque, entre os quais o Vanguard Group, a Kopernik Global Investors, a BNP Asset Management Holding, a NN Investment Partners Holdings, propriedade da Goldman Sachs, e a Norges Bank Investment Management, que gere o fundo soberano da Noruega. Vários grandes fundos de pensões, fundações e fundos universitários americanos também investiram em terras ucranianas através da NCH Capital, um fundo de capital privado com sede nos Estados Unidos.

Grandes multinacionais como a Bayer-Monsanto, a Cargill ou a Dupont têm grandes interesses na produção de sementes, pesticidas e fertilizantes.

Por fim, os EUA e a Ucrânia assinaram em julho passado um acordo para a exploração de minerais estratégicos por empresas americanas. Para esse fim, foi criado um Fundo Comum de Investimentos, com dotações económicas de ambos os países, destinado a favorecer os investimentos de empresas americanas. Este acordo sobre “terras raras”, fundamental para os EUA, serviria como “reembolso” dos milhares de milhões de dólares transferidos por Washington para a Ucrânia.

Os dados anteriores explicam claramente que a fração dominante da oligarquia imperialista considera que, atualmente, é mais interessante explorar os recursos ucranianos, para o que precisam que os mísseis russos parem de cair sobre as infraestruturas ucranianas, do que continuar a guerra.

O seu representante político, a administração republicana, também desempenhou o papel de eliminar possíveis concorrentes europeus, como a Polónia, interessados numa suposta divisão da Ucrânia.


[1] Mensagem de Zelenski ao povo: Este é um dos momentos mais difíceis da história da Ucrânia
[2] as.com/actualidad/politica/la-advertencia-del-comisario-de-defensa-de-la-ue-rusia-puede-lanzar-drones-sobre-los-aeropuertos-espanoles-f202511-n/
[3] www.france24.com/es/francia/20251120-frente-a-los-alcaldes-de-francia-el-jefe-del-estado-mayor-prepara-a-la-poblaci%C3%B3n-para-la-guerra
[4] www.oaklandinstitute.org/sites/default/files/files-archive/takeover-ukraine-agricultural-land.pdf

Ver também:
O plano de paz completo de Trump, com 28 pontos, entre a Ucrânia e a Rússia‘Tentáculos por toda parte’: Bancos, empresas e terras da Ucrânia nas mãos de gigante financeira dos EUA

[*] O autor é dirigente da CNC, Espanha.

Fonte aqui

3 pensamentos sobre “As contradições UE-EUA e o Plano de Paz de Trump para a Ucrânia

  1. Um dos grandes motivos para o plutocrata cor-de-laranja não ir muito com a cara do Zelensky é precisamente o nível de corrupção que este permite e “gere” no Estado e nas corporações ucranianas. Quando este lhe “facilitou” o “acordo das terras raras”, pensando que assim comprava e solidificava o apoio tácito norte-americano ao esforço de guerra e da economia ucraniana. Um pacto em que a Ucrânia alienava os seus recursos para manter um regime descontrolado, ineficiente, corrupto no curto e médio prazo, conseguindo tempo, e quiçá armas e ogivas de ataque em profundidade, além das anti-aéreas defensivas, e aviões-caças bombardeiros, etc.
    O problema é que na ideia do Grande Irmão cor-de-laranja, esse acordo servia para ressarcir o investimento já feito, inclusive pela administração anterior, desprezada pela actual e usada como bode expiatório, quando é apenas e só a outra face da mesma moeda (o dólar, neste caso, literal e figurativamente).
    Trump não suporta Zelensky precisamente pela quantidade de dinheiro que conseguiu açambarcar internacionalmente, e também poder, sobretudo interno, mas também a projecção e admiração internacional) que este conseguiu ganhar, graças a toda a lavagem cerebral e da sua imagem que tem sido feito, a propaganda desenfreada, as operações de charme, as aparições em parlamentos nacionais e europeus, as visitas e as recepções de estado, etc – uma enorme máquina de propaganda a funcionar para ele, até na RTP, onde teasers são passados com glorificações de tal figura). É por isso que Trump começou a inverter essa situação, negando os ambicionados Tomahawks e armas de ataque de médio e longo alcance, exigindo ser ressarcido com o tal acordo de terras raras, querendo que a UE compre as armas que vão entregar à Ucrânia à indústria militar norte-americana, e ainda gaste fortunas a comprar gás liquefeito à sua indústria petro-química. De repente, o dinheiro deixou de fluir para a Ucrânia, a expensas dos americanos e europeus, e passou a fluir para a América, à custa dos europeus, e indirectamente dos ucranianos (até que se possa explorar a Ucrânia, que está numa fase terrível de perdas militares, infra-estruturais, energéticas, populacionais, económicas, financeirass, políticas, reputacionais, etc…).
    Um pouco de psicologia e de interpretação de todas estas encenções revela muitas das motivações de todos estes actores políticos.
    Quanto aos europeus, andam perdidos, pensando numa forma de ainda conseguirem retirar algo de “construtivo” de todo o seu desnorte, alienação e ambição desmedida, mas a inconsciência é tanta que o mais certo é continuarem a perder, cada vez mais submetidos aos desmandos do Grande Irmão cobiçoso e ganancioso. Quem pagará a factura? Todos, menos os “bem intencionados” dirigentes ocidentais… noutros tempos, outro galo cantaria. Mas agora dominam a comunicação social (ou melhor, esta é dominada pelos mesmos que orquestram as políticas seguidas pelos “grandes líderes”, que também eles são promovidos ou persguidos pelas cúpulas financeiras oligárquicas, corporativas, maçónicas, belicistas…
    …mais triste que isto tudo, é ver tanto patego a dançar a música desta gente, a cantar as cantigas com que são manipulados e enganados. Se não fossem tantos, seria mais fácil conter e até inverter tanta falta de carácter e estupidez humana.

    • A toda esta manobra de Trump, que deixou de assinar “cheques em branco” à ordem de Zelensky (e da apregoada “defesa comum” europeia, ou “garantias de segurança”) para passar a recebê-los ele, assinados pelos “grandes líderes” europeus (UE, RU e Ukr), von der Leyen anuiu e ainda encaixou as tarifas alfandegárias comercias que o hiPOpoTamUS cor-de-laranja impôs à UE, e com maior alívio ao RU (o “pequeno irmão” anglo-saxónico mais velho). Ou seja, de uma assentada, Trump cortou uma enorme fatia de despesa, e passou de enviar armamento e material de guerra a “fundo perdido” para vender o apoio militar futuro, ao persuadir a UE a acordar um investimento avultadíssimo em armas americanas (ou ficava apeada e desarmada, tendo que comprar armas noutro lado qualquer, não havendo hipótese de as comprar nem à Rússia nem à China por imposição da NATO), para o futuro, e ainda ser pago pelo que foi enviado antes, com o tal “acordo das terras raras”, que cobre ainda os financiamentos feitos, além do material. Sobre o dinheiro do Rearm Europe que é também um “Refund America” (encapotado), e o RU com os tais drones para a “muralha europeia” (Portugal gastará centenas de milhões de euros em ambas as “joint-ventures” com os “grandes irmãos”), ainda se somam centenas de milhares de milhares de milhões para os combustíveis fósseis americanos, muito mais caros e poluentes que o que os russos forneciam. E a cereja no topo do bolo, as supracitadas tarifas comerciais que não tiveram reciprocidade europeia. Estão a perceber como o dinheiro, a riqueza e a paz dos europeus foram capturados, gradualmente, por toda esta camarilha NATO, ou é preciso um desenho? Para muitos pategos, talvez nem com ilustrações lá cheguem… um grande esquema, em que muito poucos enriquecem, e mais uns quantos recebem umas comissões e umas migalhas por colaborarem – propagandistas, facilitadores, corrompidos, pseudo-jornalistas… como se costuma dizer, “follow the money”. Alguém vai ficar com o bolo, mas quem o pagará são os que vão ficar sem direitos, sem liberdades, sem salários e sem reformas… e não vai ser apenas a população da Ucrânia a suportar esses custos, e esperemos que os martirizados pela guerra não se estendam aos restantes países europeus, queva “corrupção endémica” já grassa, e “a Europa ou parte, ou flexibiliza-se”… já dizia a Sollérias, e o Cotrim Fingimento…
      Há uns que encantam e aldrabam pategos, e depois há quem os tope à distância… o resto? São pategos, senhor… e de súbito transformam-se em úteis idiotas… pensam que é milagre e que é da sua própria cabeça, mas depois estão sempre a levar com a “irrealidade” da situação. E não conseguindo encaixar, encetam a fuga para a frente. O problema é que estamos todos a andar pata trás. Quando será que acordam para a vida?

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