Europa, ao som da valsa

(António Guerreiro, in Público, 04/07/2025)


António Costa é o homem com qualidades para um cargo que é um conjunto de qualidades, mesmo que sem homem.


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Desde que saiu da província política portuguesa e, eleito presidente do Conselho Europeu, foi viver para a metrópole da União Europeia (a “cidade-mãe”, que é o significado de “metrópole” em grego), António Costa sofreu algumas transformações no seu aspecto e submeteu a deixis corporal a um controlo estético codificado pelo “monstro afável” de Bruxelas.

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“Sofreu”, neste contexto, não quer dizer que ele tenha sido o objecto passivo de uma acção violenta, não há sinais de que lhe tenham infligido sevícias para lhe tatuarem na pele as regras do bom europeu. Não, foi ele que voluntariamente e com sucesso exerceu uma disciplina do corpo e fez uma rápida aprendizagem do ethos (isto é, dos hábitos, dos comportamentos) que lhe corresponde: está mais elegante e os seus cabelos brancos parecem agora de uma alvura imaculada, sem pecado, entregues aos cuidados diários de um cabeleireiro escultor que, podemos imaginar, faz de conselheiro espiritual por método capilar; os fatos assentam-lhe no corpo como num manequim (graças certamente a um virtuoso costureiro, contratado para formatar o corpo europeu padrão) e até a cor da pele parece mais um bronzeado adquirido numas férias passadas numa ilha grega, ou num solarium de luxo, do que a pigmentação das origens. O seu inglês aprimorou-se e responde com grande competência às regras da eloquência treinadas pelos falantes do esperanto europeu.

Em suma, António Costa é o homem com qualidades para um cargo que é um conjunto de qualidades, mesmo que sem homem.

Esta é a imagem da Europa. Não é o Costa na imagem mas podia bem ser. Não lhe falta jeito para a vassalagem…

Não é necessário acumular mais provas, nem sequer mencionar que ele chegou ao posto cumprindo discretamente (outros o fizeram antes com muito menos pudor) um preceito com forte tradição, o do trânsfuga, para concluirmos que ele é o nosso homem em Bruxelas. Deixemo-nos pois, por agora, de subtilezas sobre os artifícios da grande construção burocrática que é a cabeça de uma União macrocéfala e de alma minguada, construída como um edifício “qui se tient par lui-même” (que se mantém, que se aguenta, por si mesmo), como dizia Flaubert, numa célebre carta a Louise Colet, do livro que desejava escrever: um livro sobre nada.

A alusão a Flaubert e à sua mais elevada aspiração a um livro sobre nada não deve servir para pensarmos que o nada para onde tende a União Europeia é um projecto grandioso à altura do programa literário de um Flaubert. O nada de Flaubert era uma forma eminentemente moderna da (i)legibilidade do mundo; o nada da União Europeia é a queda num puro vazio, no abismo da nulidade treinada em regras vestimentárias e em estilos de eloquência codificados.

Em boa verdade, em matéria de códigos e regras, a União Europeia está muito além desta sucinta descrição. E se no início deste texto há uma referência ao “monstro afável” foi porque achámos pertinente citar o título da tradução portuguesa, editada pela Relógio D’Água, de um livro do grande poeta ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, falecido em 2022, cujo título alemão é Sanftes Monster Brüssel (2011).

Aí, Enzensberger engendrou uma gentil metáfora para descrever com muita ironia e alguma comicidade toda a imaginação burocrática que se apoderou das várias instituições administrativas da União Europeia. O gentil monstrinho, entretanto, ganhou pose de anão sem grandes gentilezas e da sua grande cabeça não sai um pensamento que se veja. O seu destino fatídico ou, para dar um tom metafísico à coisa, a sua última destinação, é a burocracia, o seguidismo cego e a subserviência. E, a juntar a tudo isto, desenvolveu o complexo de fortaleza e de parque temático para proteger a velhice e a decadência e para oferecer visitas de férias e estadias aos ricos do novo mundo que adoram fazer viagens ao continente dos arquétipos.

“A União Europeia é um buraco negro? Uma zona na qual a matéria implodiu, provocando a concentração de uma enorme massa num espaço incrivelmente pequeno?”. Esta pergunta incómoda foi formulada por Robert Menasse, um escritor austríaco (muito espírito crítico e radical produziu a Áustria, desde há mais de um século, a par de outras coisas menos boas) que se tornou uma espécie de consciência crítica da União Europeia. Às vezes, ao domingo, ela cria o aparato de potência superior. Mas, escreve Menasse, “no resto da semana, na vida política quotidiana, não é senão o nome de uma ameaça perante a qual os chefes de Estado e dos governos enchem os peitorais e asseguram: ‘Não nos deixaremos devorar!’”. O monstro devorador tem um nome de código: “Bruxelas”, o buraco negro.

Ainda bem que nada disto se pode apreender na subtil metamorfose de António Costa, assim como em muitas outras metamorfoses precedentes. O nosso homem em Bruxelas arranjou-se para ir dançar a valsa nos salões de uma “Felix Europa” a que alguns têm direito.


8 pensamentos sobre “Europa, ao som da valsa

  1. “O seu inglês aprimorou-se”

    Subscrevo o post quase na íntegra, mas tenho de discordar na curta afirmação acima transcrita. Por mais que contorça língua e beiça, António Costa continua a taramelar o inglês como uma vaca espanhola.

  2. «Meus amigos, estou de regresso ao espaço de comentário. Conto com a vossa preciosa presença, a partir de agora, no canal NOW que será a minha nova casa. Sendo assim estarei convosco hoje, 07/07, a partir da meia noite.» – Major-general Isidro Morais, nas redes sociais.
    Não se esqueçam, pois, que o homem até subiu de divisão no mundo das televisões credíveis! Sempre a subir, só lhe falta, depois, passar a comentar e a fazer previsões no Borda d´Água!🥸

    • Grande Isidro Mortais, agora já não é propagandista da CNN, que está “muito à esquerda” *cof cof*, e é o canal dos “acordados”!
      Agora é figura de cartaz do canal de INformação mesmo às direitas, sem pruridos nem filtros, o canal dos visionários pategos NOW, que combina melhor com a proto-candidatura de inspiração de Extrema-Direita a Presidente da República portuguesa.

  3. E que dizer, então, a par de ter adoptado a língua inglesa, dos óculos de armação amarela que logo começou a usar, a fazer lembrar um papagaio da Amazónia, tudo para lhe dar um ar moderno e não o de um provinciano oriundo de um pequenino pais perdido muito para lá dos Pirinéus! Ui! 🥸

  4. Os russos não estão a lutar contra a Ucrânia mas contra todo o Ocidente personificado em armas e mais armas e enxames de mercenários que até da Austrália, Nova Zelândia e Brasil vão.
    A Ucrânia é a meca da extrema direita de todo o lado. E de todos os que odeiam a Rússia e querem a pilhagem total dos seus recursos.
    Isto não e uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia mas entre a Rússia e todo o Ocidente tendo como teatro o território da Ucrânia.
    A razão pela qual não vêem aí os russos e porque os russos não precisam disto para rigorosamente nada e não ganhavam nada em sustentar nos mesmo se, daqui a uns 10 anos, conseguirem destruir os exércitos mercenários que combatem na Ucrânia.
    Dizer que isto e uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia e uma falacia tão grande como dizer que há uma guerra entre Israel e o Hamas em Gaza quando o que há e uma agressão genocida de Israel contra toda a população de Gaza, Cisjordânia e sabe Deus quem mais.

    • Tudo bem, creio que hoje isso é sabido e assumido por todos, incluindo os líderes europeus e, obviamente, por António Costa.
      Contudo, o que se ouve por aí é que a Rússia não avança ou avança pouquechinho, que a este ritmo demoraria mais de 3 anos a tomar conta daquelas três regiões e, por ouro lado, os mesmos, dizem que a Rússia constitui uma ameaça para a Europa, que poderá invadir este ou aquele país. E é com base nesta pseudoameaça que ganham apoio para as somas astronómicas que querem afetar à guerra, sob a capa da “defesa” ou da “segurança”.
      Esta é, em meu entender, a contradição que importa desmontar, e dizer às pessoas, se a Rússia não consegue avançar e está a ter as perdas que tem, como é que irá invadir a Europa? Só podem estar-nos a mentir.
      J. Carvalho

  5. É óbvio que António Costa está feliz, vive feliz. Vê-se, todo aquele brilhozinho é o reflexo externo da felicidade que transborda. Mas não é o único. As outras duas, a Vonderleyen e a Kallas, também expelem felicidade por todos os poros. Digamos que António Costa, vítima do conluio PGR/PR, encontrou no Centro do velho mundo a paz, que o doce far niente (encontros aqui, sorrisos acolá) lhe proporciona.
    Os povos europeus é que não têm essa sorte. E os outros povos que sofrem as consequências da política europeia, por ação ou por inação, também se podem lamentar.
    Mas, o que é que isso importa para António Costa (o mesmo que não queria o cargo de PR porque não gostava de cargos não executivos) e para as suas damas de caminhada? Ele e elas sabem que acenando com o medo (vêm aí os russos ou estamos a ser invadidos por muçulmanos) os governos nacionais estão disponíveis para pagar.
    Até quando?
    Um dia, o povo vai perceber que não são os russos que lhe estragam a vida (os russos nem a Ucrânia conseguem levar de vencida) e que também não são os emigrantes que lhe rouba o emprego ou infesta a cultura, então, algo de novo surgirá, os burocratas de Bruxelas e as suas extensões nacionais irão sofrer um grande abanão, a ponto de os países abdicarem de ter burocratas tutores, pagos principescamente.

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