(António Gil, in Substack.com, 27/12/2024)

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Sempre li TAMBÉM a imprensa corporativa ocidental. Creio que todos vós leitores intuem o que a palavra também, grafada com maiúsculas significa no contexto da frase. Em anos relativamente recentes, quando ainda estava na política activa no meu país – e sim, era ingénuo, mais do que hoje, pelo menos – achava útil conhecer o ponto de vista do inimigo. Que romântico eu era.
Um melhor julgamento levou-me a concluir isto: os media arregimentados e ao serviço do globalismo rolo-compressor não expressam o ponto de vista nem dos seus donos, nem dos seus escribas, nem de alguém que valha a pena mencionar (muito menos os seus leitores, isso é claríssimo).
Não há lá sequer pontos de vista, nem nenhum conteúdo sério. Não mais do que podereis encontrar num anúncio de um refrigerante, de um shampoo ou de um penso higiénico. Tudo aquilo é propaganda descarada, talvez até menos subtil do que a dos anúncios comerciais servidos nos intervalos dos programas televisivos mais populares.
Aquilo tudo não é mais do que aquilo que o poder financeiro deseja que o povão sinta, cada vez que lê ou vê ‘as notícias’: medo dos maus e uma adoração sem limites dos ‘mocinhos’, dos heróis da fita.
O roteiro é o mesmo de Hollywood e das séries televisivas de sucesso: primeiro há que mostrar um rol de atrocidades, algumas de facto revoltantes. Não por acaso, os filmes justiceiros mostram primeiro os maus, chacinando, humilhando as vítimas, cometendo injustiças de bradar aos céus.
O público, assim informado sobre tanta maldade, clama então por justiceiros. Estes aparecem depois: de início como criaturas algo misteriosas mas sempre determinadas a consertar tanta injustiça.
A trama evolui. Mas segue sempre um certo padrão de incerteza: vitórias temporárias dos maus, alternando com feitos notáveis dos bons. Até ao fim, os espectadores sabem que pode haver a qualquer momento uma reviravolta. Quando tudo parece decidido a favor dos heróis eis que (arrepio) os maus ainda dispõem de um fôlego inesperado e capaz de fazer as pessoas de bem recearem pelo fim daquilo tudo.
Quase, disse eu. No fundo, os espectadores sabem que não sairão defraudados: os bons têm de ganhar, que diabo! Foi para isso que pagaram bilhete, ou não? Brincamos?
Nenhum guionista profissional irá defraudar o público. É o ganha-pão deles, finais infelizes não estão no menu. Nem quem os escolheu (os produtores e realizadores dos filmes, bem como quem os financia) lhes permitiria tal coisa.
Sim, momentos de tensão e incerteza são necessários, bem entendido. As pessoas consomem mais pipocas e bebem mais venenos de refrigerantes para distrair os nervos. Mas nada de provocar indigestões com finais marados, ok?
E é isto que são atualmente os media que ‘reportam’ as guerras, os golpes de estado, as inúmeras desgraças que varrem o mundo: guionistas dos seus empregadores. Em momento nenhum eles podem sequer insinuar que o filme pode acabar mal, apenas apresentar alguns contratempos. Mas sempre eivados deste sentimento: no fim, os bandidos são exterminados e os bons vencem. Quando isso não acontece (vejam o caso do Afeganistão, o ‘filme mais recente’) desligam as luzes, as câmaras e a ação e vão filmar para outro lado. O público conclui que esse filme (o Afeganistão, a Líbia, tantos outros) não ficou concluído, apenas faliu por falta de orçamento.