Interesse nacional e “soberania limitada”

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 28/12/2024)

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Na sua primeira visita oficial como presidente do Conselho Europeu, António Costa rumou a Kiev. Foi oferecer a Zelensky o apoio incondicional da UE. A seu lado seguiu a nova responsável da CE para a Política Externa, Kaja Kallas. Costa esteve reunido com duas personalidades que comungam da tese de que a NATO se deve envolver num confronto direto com a Rússia, como se isso não tivesse como resultado inevitável transformar o conflito da Ucrânia numa guerra nuclear de aniquilação.

Costa, infelizmente, não está só. O anterior PM português, com o apoio da maioria esmagadora do Parlamento e do Presidente da República, é o rosto do maior fracasso histórico em matéria de Segurança Nacional. Como diria Talleyrand, não se trata só de um potencial crime contra a segurança física de quase 11 milhões de pessoas vivendo em Portugal, mas de um erro trágico que assinala o plano inclinado em que a III República mergulhou.

O momento, aparentemente, mais alto da carreira política de Costa, coincide com o momento mais baixo e perigoso de toda a História portuguesa.

A guerra, por ser um desafio existencial, revela a fibra dos indivíduos e a inteligência estratégica dos Estados e seus líderes. Durante mais de meio milénio, Portugal foi uma potência imperial, europeia e ultramarina. Até 1974, a soberania de Portugal confundia-se com a defesa desse império geograficamente disperso. Pombal, D. Carlos I, Afonso Costa ou Salazar, deram respostas diferentes aos desafios do seu tempo, mas o objetivo era comum: orientar-se pela bússola do interesse nacional.

Foi nessa ótica que Portugal precisou de aliados tendo em vista o serviço que eles prestassem a esse interesse, em troca de contrapartidas equilibradas. Em 1762, fomos empurrados para a Guerra dos Sete Anos pelo ultimato de Madrid e Paris, mas a Inglaterra acorreu em nosso auxílio, com sete mil homens e o nosso maior reformador militar de sempre, o conde de Lippe. O mesmo sucedeu em 1807, com as invasões napoleónicas, que tiveram a contrapartida da formação do Exército anglo-luso comandado por Wellington. Os EUA substituíram o papel de Londres nas últimas décadas do Estado Novo.

Há meio século que Portugal deixou de ser um império colonial. O seu interesse nacional mudou, embora a aliança militar com os EUA, no âmbito da NATO, tivesse prosseguido. Os fundadores da III República, e em especial Mário Soares, colocaram a integração europeia como o novo desígnio nacional. Uma união de Estados soberanos, visando um modelo de democracia tendencialmente federal. A nossa Constituição de 1976 aponta como alvo: “(…) a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.” (CRP, art. 7.º).

O que a guerra na Ucrânia revelou, contudo, foi o culminar de uma perigosa metamorfose do papel dos EUA na política mundial. Desde o final da Guerra Fria, os EUA têm perseguido uma hegemonia em que o soft power é sacrificado – perante inimigos e aliados – ao primado do poderio militar.

Em 2003, na invasão americana do Iraque, ainda houve resistência por parte de Paris e Berlim. O mesmo, em 2008, quando o eixo franco-alemão, para não hostilizar a Rússia, recusou a intenção americana de integrar a Ucrânia na NATO.

Contudo, hoje, a UE foi totalmente capturada por uma NATO de postura expansiva e ofensiva. O seu projeto de militarização da economia europeia, que com Trump acarretará um verdadeiro imposto pago à indústria bélica dos EUA (talvez de 4% do PIB agregado), significa que o sonho europeu de Portugal foi sequestrado por uma sinistra versão Ocidental da “soberania limitada”. Os EUA, recuperaram essa prepotência de Brejnev face aos países do antigo Pacto de Varsóvia, aplicando-a brutalmente na UE. Veja-se a humilhação continuada da Alemanha e o cancelamento recente das Eleições Presidenciais na Roménia.

A maior ameaça ao nosso interesse nacional não é externa. Só por estultícia se poderá temer uma invasão russa de Portugal. O risco existencial para a vida e a fazenda dos portugueses reside no imperdoável amadorismo estratégico-militar da nossa elite política.

Como já escrevi (DN, 11/02/ 2023), não seria preciso sair da NATO para evitar transformar o país num alvo direto em caso de guerra nuclear. Bastava cumprir as regras da NATO. O acolhimento de refugiados ucranianos e o apoio humanitário deveria ter sido acompanhado com o firme reconhecimento de que não temos qualquer obrigação de apoio militar a Kiev, pois o artigo 5.º da “defesa mútua” só se aplica a países-membros.

Tenho consciência de que a pressão de Washington seria enorme sobre Lisboa. Mas é para isso que servem a lucidez e coragem políticas.

Não encerrámos o nosso destino imperial, através de uma revolução democrática, para o sacrificar no altar da desmesura alheia. A promessa do 25 de Abril é de paz, prosperidade sustentável e cidadania plena. A Revolução dos Cravos não foi feita para acabarmos como metecos, ao serviço dos que trocaram o mundo real pela adoração do seu umbigo.

Fonte aqui

8 pensamentos sobre “Interesse nacional e “soberania limitada”

  1. Um texto interessante. Whale project escreveu também aqui um comentário muito verdadeiro que vale a pena ler! Quanto aos vassalos como o KKKosta e a KKKalas não passam de uns trastes desumanos que só pensam em dinheiro, em encher os bolsos…Era bem feita que lhe caísse uma arroba de moedas na cabeça quando fossem em peregrinação a KKKiev e víamo-nos logo livres deles de vez. Essa corja é tão, mas tão reles que nem um oreshik nas trombas merecem. Sofremos todos por causa da cobiça desmedida deles!! Lev Tolstoi tem um conto que se aplica muito bem a estes dois servidores dos poderosos que aqui deixo: https://labescritacriativa.wordpress.com/wp-content/uploads/2018/07/de-quanta-terra-precisa-um-homem-liev-tolstc3b3i.pdf
    Bom Ano a todos na medida do possível!!

  2. Há só uma pergunta que gostaria de fazer no meio desta repolhada toda.
    Achariam os donos disto tudo que não tinham lucros suficientes como estávamos antes?
    A comprar gás, petróleo e outros recursos da Rússia a um preço barato mas que também eles considerassem justo?
    Havia mesmo necessidade de arriscar todas as nossas vidas para destruir a Rússia e conseguir os seus recursos por pouco ou nada?
    Afinal de contas, já sao três. Responda quem souber.
    Diz se que a guerra contra a Rússia não começou há três anos mas há 10.
    Isso e verdade. Mas a guerra contra a Rússia começou antes. Começou ainda antes de Putin.
    Começou quando a Rússia estava a ser desgovernada por Ieltsin.
    A pilhagem era boa e farta mas os vampiros queriam mais.
    Vai daí trataram de armar jihadistas na Chechenia e Inguchetia.
    A total desarticulação do exército russo permitiu aos chechenos conseguir uma independência de facto mas como o que se pretendia era incendiar todo o Cáucaso e as províncias de maioria muçulmana a guerra não parou aí.
    Os jihadistas e quem os armava não se aperceberam que a mudança de poder no Kremlin poderia trazer mudanças ao nível da capacidade belica russa.
    Vieram então os tempos dos ataques terroristas brutais e que causaram centenas de mortos.
    Aquele que mais me arrepiou foi o ataque a escola de Beslan em que avós e netos foram tomados como alvos prioritários.
    Mais arrepiante que o próprio atentado, onde durante uma semana cerca de 1000 reféns na maioria crianças foram submetidas ao mais cruel terror, foram algumas tentativas de justificar o atentado.
    As alegadas atrocidades do exército russo na Chechenia justificariam isso tudo.
    Quando o sequestro terminou numa operação que custou 300 mortos pois que se percebeu que os terroristas matariam todos os reféns se tal não fosse feito houve, claro, muita gente que meteu o pau na intervenção das forças de segurança russas que teriam causado toda aquela mortandade.
    E engraçado que quando os israelitas matam reféns que deveriam libertar ninguém põe em causa tão maravilhosas forças de segurança.
    E até houve quem dissesse que estavam bem espelhadas as dificuldades da Rússia pois que as crianças resgatadas estavam todas magras.
    Eu só pensava em que azinheira teria toda essa gente batido com os cornos.
    A Rússia acabou por perceber que era mesmo preciso destruir a cúpula de jihadistas e foi isso mesmo que se fez. Os dirigentes chechenos que sobreviverem, o iniciante, Djokhar Dudaev já tinha sido morto no início do conflito que durou anos, foram para o exílio, onde acabaram por ser mortos depois de a Rússia ter tentado por todos os meios que fossem extraditados para ser julgados.
    Mas como se mantinha a esperança de haver mais alguém a querer seguir o exemplo chechenos era vital que os candidatos confiassem que lhes cobririamos as costas houvesse o que houvesse.
    E a morte dos sujeitos também nos permitiu começar a construir a lenda negra de Putin.
    E como a grande jihad feita pelas comunidades muçulmanas na Russia não saiu tratamos logo de partir para outra.
    Primeiro foi a Georgia a tentar matar as populações russofonas que lá havia. Foi aí que se viu que o exército russo já não estava desarticulado como na era Ieltsin. A Georgia era maior que a Chechenia mas nem deu luta. Em poucos dias os russos estavam as portas de Tiblissi, o povo também não se queria sacrificar e o Sacana Vil acabou por ter de fugir.
    Já a Ucrânia era perfeita. Uma longa estepe que já tinha servido de auto estrada para todas as nossas invasões.
    Uma população ocidental de mais de 30 milhões de habitantes assolada pela miséria mas acreditando que a culpa disso era daqueles malandros russos que ocupavam as terras a Leste.
    Muitos afundaram no mesmo nazismo que os levou a chacinar judeus húngaros e polacos e a serem os mais cruéis guardas de campos de concentração nazis.
    Daí o fanatismo que os leva a sacrificar se e que não se conseguiu arranjar naquela altura na Georgia nem em nenhum outro lado.
    Mas a Ucrânia era perfeita. Mao de obra abundante, fanatizada. Muito espaço para campo de batalha. Com as nossas armas, os nossos mercenários e as nossas sanções venceriam.
    E venceriam rapidamente. Nem outra coisa seria possível. Todos sabemos o que se dizia nos cafés e locais de trabalho no início da guerra. A economia russa ia ruir e Putin acabaria como o Czar.
    Quanto a Costa e só mais um traste e o menor dos nossos problemas.
    A Europa resta desaparecer economicamente e ficar ao lado de um vizinho poderoso que agora tem todas as razões do mundo para nos odiar.
    Claro que sendo o homem português e tendo muita gente acreditado nas suas boas intenções, a sua atitude de traste colocando nos todos em perigo toca nos de outra maneira.
    Uma coisa são as atoardas da Van der Pfizer, da Kallas, dos dirigentes polacos. Outra coisa e ver nos gente nossa, em quem confiamos, num papel destes.
    Eu tenho pelo menos o consolo de, por nunca ter acreditado na teoria do voto útil, nunca ter votado no traste.
    Mas quem acreditou no traste não se preocupe com isso. Estamos todos na mesma canoa furada pois que não me parece que nenhum de nós tenha dinheiro para comprar e equipar um bunker.

  3. Artigo extraordinário. Afinal eu estava certo quando me inscrevi no PS como simpatizante para votar contra este indivíduo, de nome A Costa!

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