No apagar das luzes, Biden livra filho de acusações e escala intervencionismo global

(Eduardo Vasco, in Diálogos do Sul, 06/12/2024)


Para além do nepotismo de Biden, o Deep State busca entregar a Trump um país atolado em guerras e assim garantir os lucros da indústria bélica estadunidense.


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Após a vitória de Trump, Joe Biden e o Deep State aceleraram freneticamente um processo de escalada do intervencionismo mundial. Permitiram que Zelensky utilizasse os ATACMS em território russo e, não por coincidência, pouco depois Zelensky declarou que poderia aceitar um congelamento na guerra sob a condição de que a OTAN praticamente ocupasse a Ucrânia.

Concomitantemente, no mesmo dia em que começou a vigorar o cessar-fogo entre Israel e Hezbollah, terroristas apoiados pelos Estados Unidos iniciaram a maior ofensiva em anos na Síria. E o episódio mais recente: a tentativa de autogolpe militar na Coreia do Sul. Essa escalada ocorre em três pontos nevrálgicos das tensões bélicas internacionais, todos adjacentes à Rússia.

Os comandantes do establishment americano não aceitam de modo algum que Donald Trump possa colocar em prática as suas ameaças de reduzir o papel dos EUA – inclusive militar – pelo mundo. São muitas as declarações de preocupação com essa possibilidade.

O que o imperialismo americano precisa é manter as suas posições, que lhe garantem a hegemonia geopolítica global por meio da exploração das nações que ele subjuga com sua presença militar, de inteligência e seu poderio econômico.

O caso Hunter Biden

Outra medida tomada por Biden, embora não seja tão relevante e impactante como as outras, chamou a atenção pelo nepotismo escancarado ao perdoar seu próprio filho, Hunter Biden, por duas acusações criminais contra ele. E Hunter é um personagem envolvido justamente com o regime ucraniano.

De 2013 a 2018, Hunter Biden arrecadou cerca de 11 milhões de dólares como advogado e membro de conselhos, incluindo empresas ucranianas e chinesas envolvidas em investigações de corrupção. Em 2020, Hunter revelou ser alvo de uma investigação federal sobre impostos. Ele foi aconselhado a corrigir sua declaração fiscal devido a uma renda não declarada de US$ 400 mil da Burisma, empresa ucraniana acusada de suborno. A análise de seus dados revela gastos excessivos com luxos e vícios, enquanto enfrentava dificuldades financeiras, incluindo dívidas fiscais e pessoais.

A Burisma, uma empresa de gás que nomeou Hunter para uma lucrativa cadeira no conselho, tinha como uma de suas representantes a Blue Star Strategies, uma empresa de lobby administrada por democratas. Em agosto, foi revelado que Hunter buscou ajuda do governo americano (através do embaixador em Roma) para o estabelecimento de contratos da Burisma na Itália em 2016.

As investigações levantaram questões nos Estados Unidos sobre ética e segurança nacional, uma vez que empresas estrangeiras poderiam usar esses vínculos para obter influência. Hunter afirma que cooperou integralmente com as investigações e nega ilegalidades, destacando que usou seus ganhos para pagar dívidas e sustentar a família.

Conexões financeiras e biotecnológicas

Republicanos, especialmente no Senado, exploraram o caso para investigar possíveis conexões financeiras entre Hunter e o presidente, mas, até agora, não encontraram provas conclusivas. Hunter enfrenta críticas por seu histórico de dependência química, que ele mesmo admite ter influenciado seus gastos e decisões financeiras.

O diplomata ucraniano Andrei Telizhenko, que trabalhou na embaixada da Ucrânia nos EUA a partir de 2015, também foi funcionário da Blue Star, a empresa de lobby da Burisma. Em entrevista ao Grayzone, ele acusou a família Biden de estar envolvida em esquemas de corrupção pessoal na Ucrânia. Curiosamente, Telizhenko foi alvo de sanções pelo Departamento do Tesouro dos EUA por “ter se envolvido direta ou indiretamente, patrocinado, ocultado ou de outra forma sido cúmplice de influência estrangeira em uma eleição nos Estados Unidos”.

Os democratas e os serviços de inteligência dos EUA – como, aparentemente, o próprio Tesouro – tentaram deslegitimar as denúncias contra Hunter Biden, tachando-as de simples “desinformação russa”. Mas depois apareceram novas informações, ainda mais preocupantes, sobre o envolvimento de Hunter Biden com os ucranianos. Em março de 2022, a Newsweek repercutiu uma acusação do governo russo, de que Hunter Biden era sócio de um fundo de investimentos, Rosemont Seneca, que financiava dezenas de laboratórios biológicos por toda a Ucrânia.

Os russos também denunciaram o próprio governo dos Estados Unidos por estar por trás desses laboratórios, que seriam utilizados para pesquisar doenças que poderiam ser transmitidas para a população russa do Donbass. “Materiais recebidos nos permitiram traçar o esquema de interação entre órgãos do governo dos EUA e os biolaboratórios da Ucrânia”, disse à época Igor Kirillov, o chefe das tropas de defesa radiológica, química e biológica da Rússia. Ele adicionou que a Rosemont Seneca atraiu atenção devido a um suposto “relacionamento próximo” com os principais fornecedores para “biolaboratórios do Pentágono ao redor do mundo”. A USAID e a Open Society também estariam envolvidas.

Reconhecimento

Tulsi Gabbard, ex-congressista democrata e nomeada por Trump para ser sua diretora de Inteligência Nacional, reconheceu na época que os EUA financiavam laboratórios biológicos na Ucrânia.

Os casos ATACMS e Hunter Biden vieram acompanhados de uma série de medidas tomadas pelo presidente dos EUA de saída, relacionadas à guerra na Ucrânia. Dentre elas,

  • Informou ao Congresso planos de cancelar US$ 4,65 bilhões da dívida da Ucrânia, segundo a Bloomberg;
  • Solicitou secretamente ao Congresso um adicional de US$ 24 bilhões para reabastecer os estoques do Pentágono destinados à Ucrânia;
  • Intensificou as entregas de armas a Kiev, com um novo pacote de ajuda no valor de US$ 725 milhões, que incluirá possivelmente armas antitanque, minas terrestres, drones, mísseis Stinger, munições para os Sistemas de Foguetes de Artilharia de Alta Mobilidade (HIMARS) e munições de fragmentação para sistemas de lançamento múltiplo guiado.
  • Impôs sanções ao maior banco russo que ainda não havia sido designado, o Gazprombank.

Por um lado, o indulto de Biden a seu filho repete o nepotismo já visto quando Trump perdoou Charles Kushner (pai de Jared Kushner, casado com Ivanka Trump) por inúmeras acusações de evasão fiscal e outras ilegalidades, em 2020. Por outro, os republicanos fingem que não se lembram daquele caso e já se animam com a possibilidade de Trump utilizar o indulto de Hunter como desculpa para perdoar, por exemplo, os seus apoiadores que invadiram o Capitólio em 2021.

Contudo, a ação do atual presidente indica que é de importância fundamental para os Estados Unidos a manutenção da guerra na Ucrânia pelo fato de os empresários do país colherem enormes lucros com a dependência de Zelensky da ajuda militar. Não apenas as companhias que produzem e fornecem armas, mas de todos os ramos, tanto pela privatização das indústrias e bancos ucranianos quanto pela venda de terras onde existem abundantes riquezas naturais.

Soma-se a isso o aspecto geopolítico: a Ucrânia é um campo de batalha chave para a manutenção da atual ordem imperialista “baseada em regras” e dominada pelos Estados Unidos. O Deep State sabe que, se perder a guerra, o colapso da sua dominação mundial pode se acelerar, uma vez que a intervenção russa de 2022 já levou a grandes mudanças e contestações a essa dominação. Por isso, é preciso que o governo Biden termine deixando uma herança maldita para Trump, a fim de que ele não possa voltar atrás e fique preso às necessidades de guerras e intervenções do aparato do Estado americano.

Fonte aqui.

4 pensamentos sobre “No apagar das luzes, Biden livra filho de acusações e escala intervencionismo global

  1. Assino em baixo.
    Talvez isso tenha também a ver com o facto de os coreanos terem muito mais moderação no consumo de bebidas alcoólicas, antidepressivos e outros entorpecentes com que os europeus se vão enchendo.
    Com umas quantas jolas a bordo tudo parece uma boa ideia.
    E sim, uma lei marcial em nome da luta contra os ogres russos poderia parecer uma boa ideia para países que aceitaram estados de emergência a pretexto da COVID, que se suspendessem direitos de reunião e manifestação e um monte de outras aleivosias.
    Aleivosias que, por sinal, não se fizeram na Coreia do Sul e por isso nos entetinhamos a ver jogos do campeonato sul coreano. E nem por isso o COVID os matou como tordos.
    Mas em Portugal estivemos mais de ano e meio em estado de emergência e houve quem propusesse estado de sítio.
    Quando contestei algumas restrições de movimentos que eram só estúpidas como recolher obrigatório, nao se poder vender álcool no supermercado entre as 19 e as 20 horas ou não se poder ir ao banho de mar nos meses do Inverno quando ninguem lá vai não houve coisinha bonita que não me chamassem.
    Tivesse sido possível e teriam chamado os enfermeiros do manicómio para me trancarem lá dentro e me darem umas valentes cargas de terapia electroconvulsiva.
    Há efectivamente muita coisa a separar estas sociedades de pategos que uma sociedade como a da Coreia do Sul que sabe que a liberdade não é um bem adquirido mas tem de ser conquistada todos os dias.
    Mas agora até temos estado entretidos a endeusar o homem da CIA em Portugal como se fosse a ele e não aos militares de Abril que devemos a pouca democracia que ainda temos.

  2. É significativo o que aconteceu recentemente na Coreia. A Coreia é uma nação peninsular dividida em 2 países com 2 regimes políticos distintos pela linha do paralelo 38, e que mantém uma tensão permanente entre o Norte e o Sul, com um armistício que já dura quase 70 anos,
    O fascizóide do Presidente da Coreia do Sul, vendo-se em tribulações políticas internas, e aproveitando essa tal tensão permanente com os norte-coreanos (ali não só só 11 mil que serão 100 mil daqui a uns tempos, são vários milhões, e estão lá mesmo “às portas”, com um arsenal de ogivas e mísseis balísticos a postos e apontados), decretou a imposição da Lei Marcial, ou seja, Estado de Guerra, com impacto nas liberdades políticas e civis, restringindo-as e subjugando-as aos interesses, mandos e desmandos das altas patentes militares e das castas políticas e sociais que as incorporam ou são complementares.

    O que fizeram os partidos moderados e de esquerda no parlamento, assim como a sociedade civil sul-coreana? Opuseram-se veementemente quer votando em assembleia contra essa medida de imposição da Lei Marcial (que deve ter muito de influência Norte-Americana, pois a Coreia do Sul é um estado vassalo dos EUA, uma espécie de protectorado yankee no Extremo Oriente, desde a Guerra da Coreia), quer saindo à rua em manifestações e protestos da população civil. Não vergaram a mola, não foram em contos do vigário como a pategada por cá na Europa vai, bastando para tal mencionar 11 mil coreanos que ainda não se sabe bem se estão na Ucrânia e onde andam deixando todo o crédulo na propaganda ocidental em polvorosa, e obrigaram o Presidente a revogar a decisão, tendo o próprio Fascizóide inclusivamente pedido desculpa em declaação pública a toda a Nação, e dizendo que não iria fugir a qualquer julgamento nem a assumir a responsabilidade pelo seu erro, quando percebeu que ainda iria perder mais rápido o controlo da situação com a manutenção da Lei Marcial (Estado de Guerra) do que como estava antes de a proclamar.

    Por cá na Europa, onde campeia a camarilha política tão ou mais corrupta que a de Washington D.C. (seja democrata seja republicana, a camarilha política dos EUA é sempre corrupta, e o nepotismo já é uma imagem de marca do “farol das democracias e do mundo livre”), quanto mais não seja por venderem os próprios interesses nacionais e o bem-estar dos seus povos a troco das benesses e dos favorecimentos pessoais, a favor dos interesses políticos norte-americanos e das grandes corporações internacionais, que se auto-intitula como “moderada” mas forma o partido da guerra contra a Rússia até ao último ucraniano, custe o que custar e pague-se o que se tiver de pagar, mesmo com o descalabro quer na Ucrânia (militar, económico, social, político) quer na própria Europa (económico, social e político), bastaria por exemplo um Marcelfies ou um Almirante MarMelo cara de Tamboril decretar a Lei Marcial (Estado de Guerra) e a pategada toda, os papagaios e os propagandistas de serviço e restante camarilha política pseudo-“moderada” iam a correr lamber as botas ao Presidente da República e bater palmas como as focas amestradas, gabando as qualidades decisivas e a coragem do Grande Líder que o fizesse, e qualquer um que se opusesse seria considerado “radical”, “anti-patriótico”, “putinista” e até “(norte-)coreano”.

    Quando se percebe que na Coreia do Sul existe mais consciência crítica e noção cívica, empoderamento democrático e verdadeira pluralidade política, do que em toda a Europa dominada pela mentalidade NATO, onde se quer impor (a convergência d)o pensamento único armamentista, belicista e militarista, percebemos que a auto-determinação europeia já não existe, a Europa enquanto bloco político agregado (União Europeia) é hoje um brinquedo da NATO (EUA) com menos independência política e democrática que um protectorado asiático. E isso não se pode explicar pelo tamanho dos oceanos que separam a América do Norte destes dois protectorados (o Pacífico, num caso, e o Atlântico, no outro). É mesmo por falta de capacidade da democracia europeia actual, pela acção política da UE (personificada em figuras como Ursula von der Leyen, Borrell, Charles Michell, etc e que vai prosseguir com Kallas, Costa, etc), e pelas inúmeras campanhas de propaganda e desinformação para iludir e manipular os europeus com base no medo, na especulação, e no seu empbrecimento, precarização e perda de direitos, capacidade económica e qualidade de vida.
    Parece que os Coreanos não vão em cantigas dessas…

    Quanto ao Hunter Biden e aos perdões do Jão Bindinho ao filho, imaginem que era o Marcelfies e o Dr. Nuno… mas tem sido tudo abafado e não chega a ser notícia, já o José Sócrates é cá um bandido que vou-te contar… entretanto andam personagens como o João Soares e o Poiares Maduro nas TV (entre muitos outros) a tecer elogios ao mandato do Jão Bindinho e ao hiPOpoTamUS que tem sido, e ao seu legado… como é que a Europa não há-de regredir e andar para trás, a ponto de a extrema-direita estar já a aproveitar as vazas para ir ganhando cada vez mais influência e poder? É muito político cobarde, corrupto, sabujo… é muito sociopata lambe-botas… é muita propaganda e desinformação… e é muita pategada junta.

  3. Do outro lado do bar do mudam as moscas.
    Sabemos nos e sabem todos os que levaram com as patas do State Americano.
    Não há Deep State nenhum. A essência do regime norte americano e sempre a mesma. Se alguém sair fora do texto leva um tiro nos cornos porque o que se exige e fidelidade e absoluta aos objectivos de domínio da “nação indispensável” sobre todos nós.
    Kennedy iniciou a guerra do Vietname e apoiou uma tentativa de invasão a Cuba por parte de partidários do ditador deposto que resultou no celebre fiasco da Baía dos Porcos.
    Mas não alimentou suficientemente as empresas de armamento promovendo uma grande corrida as armas por parte dos Europeus e irritou os supremacistas brancos ao ter tanta conversa sobre direitos civis das minorias étnicas. E ao ter feito mesmo alguma coisa quanto a isso.
    O resultado foi o competente tiro nos cornos.
    Mas a teoria de um Deep State vale o que vale. Sabemos quais são as empresas de armamento, o que produzem e quem manda nelas.
    Sabemos quem são os grandes oligarcas sionistas que asseguram que o apoio ao estado sionista de Israel continua quem quer que seja que ocupe a cadeira do poder nos Estados Unidos. Com mais ou menos boçalidade.
    Sabemos quem são os supremacistas brancos, os fundamentalistas cristãos, que defendem a família tradicional onde as mulheres e as crianças levam uns bons tabefes para ficarem na linha.
    Sabemos o que sabemos sobre um sistema educacional que fanatiza uma população na ideia de que a sua nação e excepcional e deve dominar os outros povos.
    Não sao Deep, estão bem a superfície e há que reconhecer que na realidade é toda essa gente que manda.
    Isso ficou certamente claro na Presidência Biden em que há que reconhecer que um homem que já em 2000, na campanha eleitoral, revelou grande depauperamento físico e intelectual não pode na realidade ter gerido nos últimos quatro anos um pais com a dimensão dos Estados Unidos.
    Não sendo contudo de duvidar que, tendo em conta o percurso do traste, o homem se tenha divertido com tudo isto a começar como quando insultou o homólogo russo.
    Não há Deep State nenhum, apenas um pais que gere apenas os seus interesses e se for preciso usar a força usa.
    Tudo em nome dos direitos humanos e da democracia.
    Em, tempos mais recentes, foi assim na Servia destruída por Clinton, foi assim no Afeganistão e Iraque, destruídos por Bush filho, foi assim na Libia destruída por Obama, foi assim na Síria, que tem território ocupado e petróleo roubado numa manobra que começou com Obama e continuou com Trump, sendo que enfrenta agora uma grande ofensiva de jihadistas com a bênção do senil.
    Ao longo da história os Estados Unidos devastaram dezenas de países, derrubaram governos, pintaram a manta.
    Mas só não soube quem eles eram quem não quis.
    Agora pinta los, e aos sanguinários que nominalmente os governam, como uns coitadinhos nas maos de um tenebroso Deep State, com todo o respeito, vão ver se o mar da choco.

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