O míssil Biden foi lançado sem regresso

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 22/11/2024)

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O redator dos discursos de Obama, Ben Rhodes, publicou em 2018 um livro de memórias sobre a sua experiência no gabinete presidencial (O Mundo Como Ele É, Random House). Uma longa crónica palaciana, povoada de observações sobre factos e pessoas. Na descrição de Joe Biden, então vice-presidente, Rhodes usa uma fórmula que hoje soa a profecia: em momentos críticos, na Situation Room, Biden poderia agir como um “míssil não-guiado” (unguided missile).

Foi isso mesmo que sucedeu com a sua decisão de autorizar o uso pela Ucrânia (com a assistência técnica inevitável de pessoal militar americano) dos mísseis balísticos ATACAMS contra alvos na Rússia. Para comemorar os 1000 dias de guerra, Kiev concretizou o primeiro ataque, e no dia seguinte, o fiel Keir Starmer autorizou os mísseis britânicos de cruzeiro, Storm Shadow para outro golpe em território de Moscovo.

Esta decisão coloca os EUA e a Grã-Bretanha, implicando por arrastamento a NATO, em estado efetivo de guerra com a Federação Russa, de acordo com a revisão da sua doutrina de uso de armas nucleares, apresentada em setembro e ratificada há dias por Putin. Para além do risco para as vidas de milhares de milhões de pessoas que esta mudança representa, ela atesta o grau de profunda degradação do sistema político norte-americano, transformado num perigo para a segurança global.

Em primeiro lugar, a decisão revela um total desrespeito pela promessa de “transição serena” prometida a Trump, numa recente reunião na Casa Branca. É conhecido que Trump não deverá alterar o apoio de Biden à política brutal e genocida de Israel, contudo, é manifesta a sua intenção de resolver a guerra da Ucrânia com o instrumento que a poderia ter evitado: seriedade diplomática.

Mesmo que a decisão tenha sido acicatada pelo secretário de Estado Blinken, não duvido que Biden parece ter saboreado a vingança de deixar a Trump um terreno ainda mais minado do que já estava. Com isso, terão sido também punidos os eleitores que nas urnas e nas sondagens repudiaram a continuação da guerra. Esta manobra de Biden foi efetuada, aparentemente, sem informar o Departamento de Defesa, que reiteradamente desaprovou esse passo.

O mais importante neste gesto, contudo, reside na alteração da postura estratégica nuclear de Washington. Na relação com a Rússia, como superpotência nuclear, acabou a doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD), que implicava, a todo o custo, evitar a situação de pré-guerra frontal ocorrida na Crise dos Mísseis de Cuba de 1962.

É assustador pensar que nos dois meses que lhe restam, Biden mantém intacta a sua “autoridade exclusiva” (sole authority) sobre o armamento nuclear dos EUA.

6 pensamentos sobre “O míssil Biden foi lançado sem regresso

  1. Mas uma coisa e certa. O pouco de consciência que resta em Biden esta a adorar isto tudo. O velho é um assassino sem entranhas, sem respeito pela humanidade e sem vergonha na cara. Apoiou todas as aventuras homicidas dos Estados Unidos e até dos seus bonecos, como o actual genocídio em Gaza e nos que teem o azar de ser vizinhos do estado genocida de Israel sem pestanejar.
    Ele não se importa de dar a cara porque o pouco que resta de consciência na sua senilidade concorda com o estado profundo. E um assassino, um psicopata.
    A sua carreira política foi de apoio a todos os crimes do império.
    Quanto tempo e que os russos vão aturar isto depende da capacidade das suas defesas anti aereas. Se elas conseguirem impedir grandes massacres de civis a paciência pode ainda durar muito.
    Se não isto pode correr muito mal.

  2. Biden é um velho caduco que não manda nada, e apenas uma marioneta do poder militar industrial americano, quem manda realmente não dá cara, mas não andarei muito errado se pensar que a Rand Corporation & Associados andam de mãos dadas com o Pentágono.
    Esta atitude de autorizar os misseis ATACMS não é inocente nem pensa na defesa da Ucrânia, o que pretende é continuar uma guerra que proporciona muito dinheiro à seita sionista que controla os EUA e a Europa,
    Resta saber até quando Putin e a sua equipe, estão com paciência para aturar esses desmandos dos americanos, franceses e ingleses.

  3. E pensar que tantos idiotas passaram 4 anos a bajular este senhor e sua política externa (ou seja, a política externa norte-americanas)… “Eles estarem a defenderem os nossos valores e a demo-cracia”…
    Cambada de pategos!

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