Breve história do Processo Marquês escrita no dia em que faz 10 anos

(José Sócrates, in Diário de Notícias, 21/11/2024)


(Independentemente da culpabilidade de Sócrates – que não sabemos ainda se existe ou não, pois ainda não foi julgado e, por isso, só podemos ater-nos a presunções -, há duas condenações que podem já avançar: 1) A justiça em Portugal que, em dez anos não conseguiu chegar a uma conclusão; 2) A “democracia” em Portugal que tem vivido e avançado montada em golpes de “lawfare” cada vez mais óbvios e despudorados, como aconteceu com o último governo de Costa.

Estátua de Sal, 21/11/2024)


Sucintamente, a história pode ser assim contada. Durante 10 anos, o Estado português levou a cabo a mais formidável campanha de difamação contra um cidadão inocente que alguma vez teve lugar em Portugal: negou o direito de defesa, vigarizou a escolha do juiz do inquérito, violou o segredo de justiça e rejeitou a presunção de inocência.

Anotemos brevemente os factos. Só os factos, por favor. O Estado português começou por manipular a distribuição do processo e fraudar a escolha do juiz. Não realizou o sorteio que a lei exige e transformou o inquérito num jogo viciado – uma jaula de ferro com o juiz de um lado e o procurador do outro.

Depois, nomeado o juiz e já seguros de si, deram início ao vendaval de violência e de abusos que durou os quatro anos de inquérito. O procurador ordenou a detenção no aeroporto, que foi transmitida em direto nas televisões. Em seguida, o juiz decretou prisão preventiva, alegando perigo de fuga, quando o visado estava a entrar no país, não a sair. No despacho escreveu assim: “Tal promoção, (a de prisão preventiva) a pecar não será por excesso.” Exatamente assim, com estas palavras.

O Sistema Judicial ratificou, o jornalismo aplaudiu e a política calou-se perante a barbaridade. A partir daí seria uma luta solitária.

Há várias formas de contar a história do processo. Uma delas é a da mentira.

Mentiram tanto, e mentiram durante tanto tempo, que se transformaram eles próprios na Mentira, com M grande.

Mentiram quanto ao “TGV”, mentiram nas “casas da Venezuela”, mentiram na “Parque Escolar”, mentiram na “OPA da Sonae”, mentiram em “Vale do Lobo”, mentiram quanto à “proximidade a Ricardo Salgado”, mentiram no “apartamento de Paris”, mentiram na chamada “fortuna escondida”. A espiral demoníaca da mentira e da violência funciona por retroalimentação – mais mentira implica mais violência, e mais violência necessita de mais mentira.

Dez anos depois, a decisão instrutória, (que está em vigor, embora sob recurso), considerou que nenhuma das acusações tem mérito para subir a julgamento. Todas elas eram “fantasiosas” ou “especulativas” ou “incongruentes”. Nenhuma tem fundamento. E, por favor, prestem atenção a este detalhe – a decisão judicial não diz respeito à ausência de provas, mas de indícios.

Vejamos agora de outro ângulo. A história do processo é também a história da vertiginosa e contínua mudança na acusação.

Em 10 anos, o Estado fez três acusações diferentes. A primeira acusação foi apresentada em setembro de 2017 com uma alegação principal de corrupção para ato lícito.

Quase quatro anos depois, como já referi, a decisão instrutória destruiu toda a acusação. Nesse momento nasceu uma segunda acusação – o juiz Ivo Rosa transformou o alegado testa de ferro em corruptor ativo e mudou o crime: agora já não é corrupção para ato lícito, mas corrupção sem ato.

Três anos depois o Tribunal da Relação derrubou esta segunda acusação, considerando-a ilegítima, ilegal e baseada numa “alteração substancial de factos”. Nesse mesmo ano, nesse mesmo tribunal, nasceria, então, a terceira acusação – invocando um “lapso de escrita”, o tribunal considerou que, afinal, a verdadeira acusação é de corrupção para ato ilícito.

Portanto, e em síntese: 10 anos e três acusações diferentes de corrupção – a primeira para ato lícito, a segunda sem ato, a terceira para ato ilícito.

A crónica do processo é a da metamorfose da acusação – derrubada uma, nasce outra; derrubada a segunda, nasce uma terceira. Vale tudo para salvar a face do Ministério Público. Vale tudo para alargar os prazos de prescrição. Vale tudo para manter o processo vivo – “Se não foste tu, foi o teu pai”. Nunca terá fim.

A fabricação desta terceira acusação merece ser contada. Foi assim: em 2024, três juízas consideram que a acusação inicial (aquela que foi apresentada em 2017) continha um “lapso de escrita “. Assim sendo, dizem elas, as alegações que indicavam crimes de “corrupção para ato lícito” deveriam ser lidas como querendo significar “corrupção para ato ilícito”. O erro era tão óbvio que o anterior juiz deveria ter corrigido.

Acontece que o “lapso” nunca foi referido durante toda a fase de instrução – nem nos interrogatórios, nem no debate instrutório. Nunca foi invocado pelo Ministério Público. Naquela sala do tribunal, durante três anos, ninguém ouviu falar daquele lapso.

Ainda mais: a 21 de Novembro de 2018 a equipa de procuradores entregou ao tribunal um documento destinado a corrigir “alguns lapsos de escrita”. Quinze páginas de lapsos, mas não esse. Não, nunca houve lapso de escrita algum. O lapso de escrita é a última mentira do Processo Marquês. A última fraude.

Finalmente, o tempo.

Dez anos de violência e de arbítrio. Dez anos de prisão na opinião pública. Dez anos em que o sistema criminal português se comportou como na ditadura, prendendo e difamando um inocente, enquanto escolhia o juiz do inquérito que melhor servisse o Ministério Público.

Nem presunção de inocência, nem direito de defesa, nem igualdade de armas – prazos imperativos para o cidadão; prazos meramente indiciativos para o Estado. Na verdade, os prazos de inquérito há muito que deixaram de indicar seja o que for, na medida em que deixaram simplesmente de existir, não por vontade do Parlamento, mas por vontade do Ministério Público, que decidiu apagar esse artigo do Código de Processo Penal. Diferentemente do que para aí dizem, a ameaça à separação de poderes vem da usurpação de funções do poder político pelo poder judicial, não o contrário.

No entretanto, o jornalismo cumpriu o seu papel. O jornalismo divulgou, o jornalismo justificou, o jornalismo branqueou – manobras dilatórias são as dos advogados, não existem manobras dilatórias do Estado. O adiamento dos prazos de inquérito, o adiamento dos prazos de instrução, o incumprimento de qualquer tipo de prazo pelo Estado é visto, pelo jornalismo, como a procura da “verdade material” ou como resposta à chamada “dificuldade em provar”, ou ainda como forma de ultrapassar a costumeira “falta de meios”.

Para o jornalismo português há sempre um qualquer fim social que justifica a selvajaria do Estado e a quebra das mais elementares garantias individuais. Para o jornalismo, o Estado nunca demora, só a defesa, só o advogado, só o cidadão tem interesse no atraso. A queixa por ausência de justiça em tempo razoável, apresentada em 2017, nunca foi julgada – mas nunca o jornalismo referiu este facto. Nunca. É como se não existisse. Se tens o atrevimento de te queixar de atrasos na Justiça, então justiça é que não obterás. Difícil imaginar maior perversidade.

A história do Processo Marquês não é a de um processo de direito comum, mas de um processo de exceção. O Processo Marquês nunca foi um processo judicial, mas uma armação política. A sua razão de ser nada teve a ver com justiça, mas com política – impedir a minha candidatura a Presidente da República e evitar que o Partido Socialista ganhasse as Eleições Legislativas de 2015. A única diferença face ao recente Processo Influencer é que, há 10 anos, não se esqueceram de escolher o juiz. A diferença que faz escolher o juiz.

Seja como for, neste momento, no Processo Marquês, não existe acusação (anulada em 2021), nem pronúncia (anulada em 2024) – mas a perseguição continua. A operação de lawfare segue à risca os procedimentos: manipularam a escolha do juiz, fabricaram acusações falsas e estapafúrdias, incumpriram todos os prazos e violaram o segredo de justiça, por forma a alimentar o jornalismo e fazer dele o seu principal aliado.

lawfare é assim: não se destina a ganhar um melhor lugar na mesa de negociações – é uma guerra de extermínio. Em Portugal dura há 10 anos.

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12 pensamentos sobre “Breve história do Processo Marquês escrita no dia em que faz 10 anos

  1. Dá-me gozo visitar um blogue com comentários de gente que pensa. Um dos poucos onde consigo ler referências a um tipo de operação que é escamoteada, ou encoberta em todos os canais merdiáticos e que se designa por “Lawfare”.
    Como já foi referido, este tipo de operação conta com a participação imprescindível da merdia do “mainstream”.
    Daí, deixo uma pergunta (retórica, claro) que pode ajudar alguns pobres de espírito a tirarem a cabeça do balde de ração para ovinos:
    Todos concordamos que os políticos podem ser corruptos mas,…e os juízes?
    E os jornalistas?
    Já repararam que, depois da palhaçada da TSF, que andou a chorar porque não tinha dinheiro e ia ter que despedir uns pobres jornalistas (e concretizou), a insinuar que o governo xuxa os estava a estrangular, no intuito de sacar guita ao estado, de repente deixa cair o assunto no esquecimento?
    As pessoas creem mesmo que um grupo como o Global Merdia, que tem como acionistas tubarões que estão ligados a interesses tão dispares como Aeronáutica, Turismo ou Imobiliária, é uma fonte credível de informação e aceita ter nas suas fileiras jornalistas com coluna vertebral, ou não interferem na linha editorial para “levar a água ao seu moinho”?
    Como dizia, nas suas tiradas filosóficas, um engenheiro alcoólico que vivia no meu bairro, durante a minha infância em Arroios:
    “Ao qu’isto chegou!”
    E, acrescento que, infelizmente, não há volta a dar.
    Por isso, como “putinista” (até Socrático, se quiserem) que sempre fui acusado, a minha esperança é que a Rússia e o resto do mundo não ocidental/hegemónico rebentem (em certos casos literalmente, também)com esta desordem mundial, a ver se é possível um verdadeiro “reset” que não o do Klaus Schwab.

  2. «O Sistema Judicial ratificou, o jornalismo aplaudiu e a política calou-se perante a barbaridade. A partir daí seria uma luta solitária».
    Por onde andavam na altura os do «Manifesto dos 50», que, agora, tanto se mostram preocupados com o funcionamento da Justiça?
    Para os próprios «camaradas» de Sócrates, este era tido, politicamente, como uma «pedra no sapato», que haveria «sacudir» e para a direita o oportuno «bode expiatório» que lhe abriria o retorno ao poder!

  3. De tribunais tenho a pior impressão possível por razões de foro pessoal passadas com alguem muito próximo que não vêem ao caso.
    Mas esta aventura com a (in)justiça levou me a ter um certo respeito por quem lá cai seja culpado ou não.
    Um julgamento e um circo onde o procurador se entretem a enxovalhar o arguido desumanizando e pintando o sujeito como alguém que so ainda não percorreu as ruas estripando gente a laia de Jack o Estripador porque não calhou.
    E a noção de acusação que teem. Acusar para eles e denegrir, fazer diagnósticos demolidores em psicologia e até psiquiatria sem terem visto o arguido mais gordo e siga a banda.
    O desgraçado ouve de tudo e tem de ficar calado se não ainda vai preso por desrespeito ou o raio que os parta.
    Mas só falta dizerem lhe que e na realidade filho de Vladimir Vladimirovich Putin e não sabe.
    O juiz ao dar a sentença descaisse ao dizer que só não dá uma sentença mais dura por saber que a coisa pode muito bem ter pernas para se aguentar num recurso.
    Pensa que com uma sentença leve o desgraçado, farto de um circo de três anos a ser tratado como o mais íntimo dos malandros não vai recorrer.
    A porra e que tem razão.
    Claro que para muitos esse não quebrar ante uma máquina trituradora só e prova de que o desgraçado e um criminoso contumaz tal como pintado pelos doutos causidicos.
    E sim, nos últimos anos o lawfare tem sido usado para derrubar governos considerados impróprios e destruir reputações.
    No caso do último Governo de Costa foi lawfare a brasileira não que o Costa se tenha chateado muito com o tacho que lhe deram na Europa para compensar.
    A conta estamos a pagar nos com um governo que já escolheu os amigos a quem compensar e o povao que se amanhe.

  4. Vivemos no país dos senhores doutores, e dos Pategas justiceiros que não olham a meios para atingir os fins.
    Mas um dia calha-lhes a fava e aí já não vão gostar da brincadeira.
    Também é por estas e por outras que os jornais faliram e os tribunais têm a má reputação que têm (juízes, procuradores, advogados…)

  5. Quando Sócrates começou o seu governo cometeu um erro de base: meteu-se com o sistema judicial para tentar endireitar o único sector que nunca tinha sido mexido!!! Os juizes nunca o esqueceram…

  6. Independentemente das razões que lhe assistem ( ou não), uma coisa é certa: bate-se com galhardia! Basta isso para merecer o meu respeito.

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