Dois inimigos do futuro

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 24/08/2024)

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Continuamos a perder terreno para a viabilidade de um futuro habitável pela Humanidade inteira. A dúvida persistente é a de saber qual dos dois maiores inimigos do futuro o irá golpear primeiro e com mais contundência. Eles são, respetivamente, o colapso ambiental e climático, e a guerra termonuclear generalizada. A raiz de ambos é a mesma: o declínio universal de uma racionalidade crítica e prudencial nas elites.

Comecemos pelo primeiro inimigo. No passado mês de junho, a temperatura média à superfície do planeta aqueceu +1, 5.ºC, relativamente à média homóloga do período de referência pré-industrial (1880-1920). Isso significa que as conferências anuais do clima se transformaram numa paródia trágica, mascarando o cinismo e a hipocrisia da maioria dos seus participantes decisivos, vindos da política e dos negócios, escoltados por alguns crédulos de vistas curtas.

No que respeita à ameaça existencial da crise ambiental e climática, estamos em roda livre. Até o verniz da UE se desfez, quando rasgou o Pacto Ecológico e degradou o projeto europeu, para se humilhar na condição de aguerrido escudeiro dos EUA no Velho continente.

Apesar de estarmos apenas no princípio (o atual aumento da temperatura média mundial de +1,2.ºC, pouco é comparado com os +3.º- 4.ºC a que poderemos chegar nas próximas décadas), as calamidades meteorológicas extremas causam centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados anualmente (não poupando até os aristocratas do capital, como se viu no naufrágio de um iate de luxo na Sicília, afundado em dois minutos por uma tromba de água).

O segundo inimigo do futuro, o belicismo, parece-me ser o mais imediatamente perigoso. Desde logo por impedir as políticas de cooperação económica e ambiental entre grandes potências e blocos – as únicas que poderiam contribuir para minimizar a entropia ecológica e climática.

Tem crescido, também, a trivialização das armas nucleares e a redução do cuidado quanto às suas consequências, como se está a verificar na temerária invasão ucraniana da Rússia, com o uso generalizado de armas ocidentais.

O mais inquietante é saber que os EUA aprovaram em março um novo manual de uso das armas nucleares (Nuclear Employment Guidance) – que apenas um punhado muito seleto de dirigentes conhece – desenhado para cenários de guerra contra múltiplos potenciais inimigos, nomeadamente, China, Rússia e Coreia do Norte.

Seria desejável que os EUA ocupassem o seu indispensável lugar na mesa de um novo diretório, para a governação pacífica deste planeta atribulado. Washington parece, contudo, preferir afiar a espada, na vã tentativa de ressuscitar a sua breve e já desaparecida hegemonia unipolar.

4 pensamentos sobre “Dois inimigos do futuro

  1. Haverá sempre haver “negacionistas” se continuarem a usar as alterações climáticas para nos ir ao bolso. Mas aqui há outros problemas.
    Quem nega a existência de alterações climáticas divide se em dois grupos. As grandes empresas poluentes que querem continuar a manter os negócios como antigamente e não querem gastar dinheiro a alterar os seus modos de produção e as pessoas para quem a vida já é complicada que temem que os queiram obrigar a “viver como os cromagnon”.
    As restrições sociais a pretexto da COVID permitiram também cortar pela raiz as actividade dos activistas climáticos e as suas grandes manifestações e greves estudantis.
    Depois há aqui outro problema. As populações mais poluentes do Hemisfério Norte estão se nas tintas para as alterações climáticas porque elas até lhes estão a dar jeito.
    Na Alemanha conheci muitos idiotas muito satisfeitos porque nós últimos anos os Invernos teem sido bem mais amenos e no Verão já vai havendo noites que permitem ir beber uma cerveja na esplanada.
    O mesmo nos países nórdicos nce o aumento das temperaturas permite até melhores produções agrícolas.
    Este olhar só para o nosso umbigo só pode dar merda mas o racismo também ajuda um bocadinho.
    Querem eles lá saber se as populações do Sahel estão a morrer a sede e a fome.
    Querem eles lá saber se a Grécia, que afogaram em miséria, derrete com verões ainda mais tórridos do que de costume e e devastada por secas e incêndios.
    Querem eles lá saber se o cenário e o mesmo nos países a quem chamaram PIGS, nos anos da troika.
    Nos Estados Unidos os poluidores do Norte querem lá saber se tornados, secas e fogos cobram todos os anos dezenas de vidas a Sul.
    Ou se os furacoes cada vez mais devastadores matam na América Central e no Sul do país.
    Querem lá os ricos do Norte saber se as monções na Índia estão mais poderosas ou se na Indonésia não para de chover.
    A China também não está inocente nisso de poluir e chegou a poluir mais que os Estados Unidos, o que vale o que vale tendo em conta que a sua população e três vezes maior.
    Mas arrepiou caminho apostando em energias renováveis em vez de apostar em ir ao bolso das pessoas.
    E, por coincidência, foi desde que a China começou a apostar em formas menos poluentes de produção que começou a haver ainda mais gente a negar as alterações climáticas.
    A China, ao contrário da Alemanha e dos países nórdicos tem boas razões para acreditar em alterações climáticas. Não tem nada a ganhar com elas se for açoitada, como já começa a ser, com secas devastadoras nuns lados e chuvas e tufões devastadoras noutro.
    Quando em Julho de 2020 houve inundacoes que cobraram centenas de vidas na Alemanha uma criatura disse com toda a candura “estamos a espera que isdo suceda num país pobre, não aqui”.
    E enquanto as alterações climáticas forem um problema dos países pobres, onde vive gente escura, vamos continuar a aquecer enquanto os sociopatas que nos desgovernam procuram nas alterações climáticas apenas pretextos para nós irem aí bolso.
    Enquanto coisas destas não se repetirem na Alemanha, nos países nórdicos e no Norte dos Estados Unidos vamos continuar a aquecer.
    Enquanto as alterações climáticas forem um problema do Sul e derem jeito ao Norte estamos todos tramados.
    Só vao acordar quando o mar lhes chegar aos joelhos.
    E por essa altura onde é que já estaremos nos.

  2. Seja como fôr, não há que esconder que somos responsáveis pelos nossos actos. Nenhuma propaganda pode servir de desculpa (quando muito e no limite, atenuante, e só perante os desprovidos de inteligência ou discernimento) para as opções que tomamos diariamente, e as prioridades dos cidadãos estão todas trocadas.
    Quando algumas semanas atrás referi a importância de reforçar os meios da protecção civil, dos bombeiros, do combate aos incêndios, para depois não estar a depender dos Canaidars estrangeiros de último recurso, ou para evitar o desgaste dos pilotos e operacionais a fim de evitar acidentes (nem tudo pode ser precavido), em vez de andar a alimentar a conversa das bazucas e dos tanques para a Ucrânia, porque lá é que se está a “defender os nossos valores e a democracia”, ninguém faria prever, poucos meses passados, os problemas com aeronaves (e a sua falta) que aconteceram entretanto neste país… quase seria necessário contratar os serviços de um profeta!
    A solução (e a raíz do problema) não mora lá longe nem tem de ser importada, seja onde for pré-fabricada. Compete-nos responsabilizar as “autoridades” pelas consequências das opções que chancelam, assim como estar atentos às nossas próprias opções.
    Se a solução apresentada é apostar na produção de tanques e bazucas para resolver os problemas da Humanidade, ao mesmo tempo que há uma crise climática de proporções potencialmente mundiais, que só serve como bandeira para causar alarme e introduzir “taxas ecológicas” sem nunca atacar as causas do problema a montante para o diminuir, então parece haver uma precipitação na auto-destruição mútua garantida, ou “assegurada”. Porque o Homem já provou o quão cruel é para os seus semelhantes, quanto mais para outras espécies (quantas já não extinguiu?) e para o ambiente que partilha com elas.

  3. O texto sobre os dois inimigos é particularmente acutilante, assertivo e vai ao fundo das questões. Por um lado, o agravamento acelerado de todos os problemas ambientais, maugrado alguns negacionistas, é acompanhado pela preocupante constatação de que os evidentes progressos tecnológicos e expansão das ditas renováveis, não só não contribui para reduzir os GEE, mas ainda viu a sua rapida expansão. Acresce que as grandes corporações até se têm banqueteado com o comércio das taxas de carbono para manter o business as usual. Por outro lado, o amigo americano continua altamente empenhado (ouçam a Kamala) em intensificar a sua corrida belicista por todo o mundo, com ainda mais novas bases (12 só na Finlândia), mais armamento (os fabricantes agradecem), mais provocações contra russos e chineses, mais sanções nunca contra os maiores assassinos e genocidas, ao mesmo tempo que cresce a repressão em países ditos democráticos contra toda a dissidência. Como se torna evidente, isto a continuar nessa senda suicidária, nunca pode acabar bem. É o que vai acontecer.

  4. Quando temos gente do Partido Os Verdes a apoiar a guerra generalizada está tudo dito.
    A aguerrida “Verde” alemã deve pensar que os tanques andam a água e que a sua produção se faz toda com energias limpas.
    Em resumo, a guerra na Ucrânia contribui certamente para nos lixar o clima mas isso não chateia nada quem nos quer ir ao bolso a pretexto de combater as alterações climáticas.
    O mar e traiçoeiro e por isso não ponho as maos no fogo sobre se foram as alterações climáticas as culpadas pela morte daquela gente ao largo da Sicília.
    Não as nego mas acho que anda por aí muito discurso de medo visando justamente ir nos ao bolso sendo que a mais recente moda e quererem obrigar nos a adquirir carros eléctricos.
    E de preferência carros caros e produzidos por um sujeito que dispensa apresentações. Os chineses são bem mais baratos mas vão ter tarifas obscenas para que compremos produto da Tesla.
    Já os carros produzidos na China mas pela fábrica da Tesla nao vao ter disso.
    Para esta gente faz sentido.
    Efectivamente no imediato o belicismo desta gente e mais perigoso pois uma gente que arma um genocídio em directo como em Gaza e Cisjordânia já provou que se esta nas tintas para a possibilidade de morte em massa.
    Quem nos transformou em cobaias de um veneno estasse nas tintas para a morte em massa do gado que somos todos nós. Porque para eles somos todos animais, não são só os palestinianos e os russos.
    Por isso instruíram Herr Zelensky a invadir território russo, numa manobra muito semelhante a que tentaram os nazis na Segunda Guerra Mundial quando ja só recuavam, onde mais uma vez perdeu uma quantidade obscena de armamento de todos os feitios e tamanhos pago por todos nós.
    Se a ofensiva resultasse e a Rússia partisse para a guerra total porque
    cair nas garras do nazismo não e opção agora como não foi máquina a que chama a Grande Guerra Patriótica esta gente ia estar se nas tintas.
    Ou teem bunkers muito bons que até simulam a vida boa a superfície ou já teem meios de se pirar para colónias em Marte e a gente não sabe.
    Mas que essa cambada devia toda era ir ver se o mar da megalodonte devia.

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