Os erros do Ocidente e o caminho para a paz: o que Putin disse à imprensa internacional

(In Blog Contracultura, 11/06/2024)

 As relações entre a Rússia e o Ocidente, a situação na Ucrânia e os problemas regionais foram discutidos na reunião do Presidente russo Vladimir Putin com os correspondentes das agências noticiosas internacionais organizada pela TASS, que decorreu na semana passada.

Porque o pensamento do líder russo é constantemente adulterado pela imprensa corporativa, o Contra faz um breve resumo das questões levantadas durante a reunião, que durou mais de três horas e incluiu dezenas de perguntas.

Erros dos EUA

Putin afirmou estar certo de que a política dos EUA em relação à Rússia permanecerá inalterada, independentemente do resultado das próximas eleições presidenciais. De qualquer forma, Moscovo “trabalhará com qualquer presidente eleito pelo povo americano”.

O líder russo disse estar surpreendido com o facto de “não apenas na esfera da política internacional, na política interna, mas também na política económica, a actual administração [norte-americana] comete erros sucessivos, de forma rápida e generalizada”. “Por vezes é até surpreendente observar o que está a acontecer”, acrescentou.

Falando sobre o julgamento do ex-presidente dos EUA Donald Trump, Putin disse que o ex-presidente está a ser perseguido por razões políticas, e este facto destrói a liderança imaginária de Washington na esfera da democracia e até mesmo o sistema político do país.

Comentando as alegações de suposta interferência da Rússia nos assuntos internos dos EUA, o presidente disse que Moscovo “está a observar tudo à distância”. “Nunca interferimos nos processos políticos internos dos Estados Unidos e nunca o faremos”, afirmou.

Falando sobre a Ucrânia, disse que Washington não se preocupa com o país e o seu povo. “Ninguém nos Estados Unidos se preocupa com a Ucrânia. O que lhes interessa é a grandeza dos EUA, não estão a lutar pela Ucrânia ou pelo povo ucraniano, mas pela sua grandeza e liderança. E não podem, em circunstância alguma, permitir que a Rússia tenha sucesso, porque acreditam que, nesse caso, a liderança dos EUA será prejudicada. É esse o objetcivo do que os EUA estão a fazer”, afirmou.

Putin descreveu a decisão de Washington de utilizar o dólar americano como instrumento de sanções como um grande erro, porque mina a confiança na moeda americana.

UE sem lógica nem coragem.

Segundo o inquilino do Kremlin, a Rússia e os países da União Europeia seriam capazes de resolver os problemas existentes nas relações bilaterais, mas os líderes europeus não têm coragem e confiança para defender os seus interesses nacionais. Como resultado, o bem-estar dos cidadãos europeus está actualmente em risco.

Falando sobre a Alemanha, Putin disse que esta República Federal nunca foi um país totalmente soberano após a Segunda Guerra Mundial, mas a sua economia é uma força motriz para a Europa e, se a Alemanha começar a “espirrar e a tossir”, “todas as restantes economias europeias vão ficar doentes”.

Como exemplo, mencionou a França, cuja economia está agora “à beira da recessão”.

A Gazprom sobreviverá à recusa da Europa em consumir gás russo e “comprar gás natural liquefeito que vem do oceano a preços exorbitantes”, disse Putin, acrescentando que não vê “nenhuma lógica formal” nas acções da Europa. “Não quero ofender ninguém, mas a formação dos decisores no Ocidente, incluindo na Alemanha, deixa muito a desejar”, afirmou.

O Ocidente tem de tolerar os delírios de Kiev e esconder as baixas.

Putin acredita que os Estados Unidos vão tolerar o líder ucraniano Vladimir Zelensky até à Primavera de 2025, mas que depois ele será substituído. O Ocidente já escolheu “vários candidatos” para o substituir, segundo o inquilino do Kremlin.

No entanto, o Ocidente ainda precisa que Zelensky “tome certas medidas”, como reduzir a idade de mobilização, antes de se livrar dele. Na opinião de Putin, a campanha de mobilização da Ucrânia mal serve para substituir as baixas e os EUA insistem em reduzir a idade de recrutamento para 18 anos.

O presidente russo não deu números exactos sobre as perdas da Rússia no conflito, dizendo apenas que são “certamente muito menores do que as da parte oposta”. “Quanto às perdas irrecuperáveis, o rácio é de um para cinco”, especificou Putin.

No entanto, disse que um total de 1.348 soldados e oficiais russos estão detidos como prisioneiros de guerra na Ucrânia, enquanto 6.465 militares ucranianos estão detidos na Rússia. Os países europeus e os EUA mantêm-se silenciosos sobre as baixas dos seus formadores e conselheiros na Ucrânia, acrescentou.

Os militares ucranianos não podem utilizar sozinhos as armas ocidentais de longo alcance, porque todas as decisões têm de ser tomadas pelos países que as forneceram, continuou o Presidente russo. “Como já disse, é necessária uma missão de voo. E, de facto, isso é feito por aqueles que fornecem essas armas: pelo Pentágono, no caso dos ATACMS, e pelos britânicos, no caso dos Storm Shadow”, explicou.

Desafiando as sanções.

Os países ocidentais planearam minar a economia russa num período de três a seis meses, mas tal não aconteceu, afirmou o líder russo, acrescentando que o objectivo que estabeleceu para que o país entrasse nas quatro principais economias do mundo foi alcançado.

É importante manter o ritmo de desenvolvimento, sublinhou Putin. Na sua opinião, a Rússia vai começar a produzir tudo o que precisa por si própria, sendo que a concretização desse desígnio “é apenas uma questão de tempo”.

Liberdade de expressão.

Comentando a repressão do Ocidente contra os meios de comunicação social russos, Putin afirmou que estes estão a transmitir a opinião russa e têm todo o direito de o fazer.

“Os países ocidentais dificultam o trabalho dos nossos jornalistas”, continuou o Presidente russo, afirmando que os jornalistas do seu país estão a ser intimidados, as suas contas bancárias estão a ser fechadas, os seus transportes pessoais estão a ser confiscados e isso está em contradição com a proclamada liberdade de expressão do Ocidente.

Caminhos para a paz.

O Presidente russo manifestou a sua esperança de que as relações entre a Rússia e o Ocidente, bem como no mundo em geral, progridam gradualmente em direcção à paz, em vez de uma escalada interminável de tensões e hostilidades.

Putin rejeitou os relatos de alegados planos russos para atacar a NATO, considerando-os absurdos. Ao mesmo tempo, falando sobre a doutrina nuclear russa, o Presidente afirmou que “se as acções de alguém ameaçarem a nossa soberania e integridade territorial, acreditamos que é possível utilizar todos os meios à nossa disposição”.

Putin sublinhou que a Rússia não tem ambições imperiais. O Presidente agradeceu a todos os delegados que participaram na reunião e pediu-lhes que transmitissem informações verdadeiras aos seus leitores.

Fonte aqui.

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Como a Rússia deixou de se preocupar e passou a amar as sanções

(António Gil, in substack.com, 10/06/2024)

 E se um dia esse amor se tornar contagioso?

 Nunca entendi a fé ilimitada do Ocidente nas sanções. A verdade é que nunca vi nenhum país vergado pelas ditas, pelo menos num passado relativamente recente. Cuba, Venezuela, Irão, Coreia do Norte vivem há décadas sob sanções ‘mutilantes’, um adjetivo simpático, introduzido na gíria do economês por cortesia dos anglo-saxónicos, esses grandes defensores dos Direitos Humanos. 

Seguiu-se a Rússia,  na extensa lista dos países sancionados. Os ‘génios’ que (pelo menos nominalmente) mandam no ocidente prometeram que os russos ficariam de joelhos numa primeira fase e logo a seguir revoltar-se-iam a tal ponto que no mínimo, espetariam a cabeça de Putin e seus ministros em várias estacas, ao longo de todo o perímetro do Kremlin.

Bom, ninguém sabe onde, nem como, nem porquê esses cérebros brilhantes adquiriram tal certeza. 

Se uma ilha relativamente pequena como Cuba resistiu durante 3 gerações não só a sanções como a um feroz embargo, esperar resultados diferentes com uma nação imensa e plena de recursos é uma loucura selvagem, no mínimo. 

Não seria sensato pensar que o inverso aconteceria? Que as sanções reforçariam a economia russa em vez de a enfraquecerem? Muitas pessoas previram que assim sucederia. Afinal os russos poderiam produzir eles mesmos o que antes compravam, porque razão o não fariam? Recursos materiais e humanos não lhes faltavam, certamente. 

E entre os muitos que fizeram essa previsão, muitos nem sequer frequentaram uma escola superior de economia, não era necessário. 

Bastaria pensar assim: se eu quero muito comer bolo e vivo a milhas de uma pastelaria mas sei que tenho ovos, farinha, leite, chocolate, frutas e um forno, provavelmente poupo muito tempo e dinheiro fazendo-o eu mesmo em lugar de fazer uma longa e dispendiosa viagem e ainda ter de pagar pelo bolo. 

Com a vantagem de saber que nenhum ovo ou leite estragado entrará na confecção, coisa que não está assegurada quando compro um bolo numa pastelaria. 

Então a sério que isto é surpreendente? – Desde que começou a ser sancionada, a Rússia não parou de crescer economicamente, coisa que o ocidente colectivo não se pode gabar. Recentemente a Alemanha e o Japão ficaram para trás. 

E os EUA que se cuidem pois estão a cair continuamente e nem poderia ser de outra forma, sendo os maiores devedores do mundo. Contrair dívidas nunca foi uma boa ideia para enriquecer e se esse item entrasse nas contas, ninguém sabe para que lugar essa nação cairia. 

As sanções sempre foram utilizadas como arma geopolítica mas agora correm o risco de se tornarem um prémio em vez de um castigo. Talvez ainda vivamos uma época em que os povos supliquem aos sancionadores que os incluam na lista:

– Sancionem-nos, sancionem-nos, não se esqueçam de nós, que mal precisamos de vos fazer para merecer as vossas adoráveis sanções?

Fonte aqui.

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Os terremotos políticos na Europa apontam para mudanças geopolíticas

( Diego Fassnach, in AsiaTimes, 10/06/2024, Trad. Castor Filho in VK)

A rejeição do New Deal Verde e das políticas de apoio à guerra na Ucrânia nas urnas sugere uma mudança de maré na política europeia.


As eleições europeias enviaram ondas de choque por todo o continente, revelando mudanças significativas nos cenários políticos e assinalando potenciais mudanças na dinâmica geopolítica.

Os resultados foram particularmente tumultuosos para o presidente francês, Emmanuel Macron, e para os partidos verdes em toda a Europa, nomeadamente na Alemanha.

As eleições revelaram-se especialmente desastrosas para Macron e os seus aliados.

A coligação pró-europeia de Macron sofreu uma derrota severa, ficando muito atrás do Rally Nacional (RN), de extrema-direita, liderado por Marine Le Pen.

Com o RN garantindo 31,5% dos votos contra os 15,2% de Macron, o presidente francês foi obrigado a dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições parlamentares antecipadas, marcadas para 30.6.2024, com um segundo turno em 7.7.2024 visando contornar a crise política na França e a posição precária de Macron.

Resultados provisórios da eleição do Parlamento Europeu

Na Alemanha, os Verdes enfrentaram um revés substancial, perdendo parte significativa do seu apoio anterior.

O partido, que já foi um forte defensor de políticas climáticas agressivas e do apoio militar à Ucrânia, viu a sua percentagem de votos cair drasticamente para 11,9%, abaixo dos 20,5% nas eleições europeias anteriores.

Este declínio realça a crescente desilusão pública com o New Deal Verde e a agenda mais ampla de Davos, que muitos eleitores rejeitam agora.

Uma tendência notável ao longo destas eleições é a reação contra os líderes que apoiaram o envolvimento militar na Ucrânia.

Macron, um defensor veemente da entrega de armas ou mesmo da possibilidade de enviar tropas para a Ucrânia, viu-se no lado perdedor, à medida que os eleitores se opunham cada vez mais à continuação do conflito com a Rússia.

Este sentimento ressoa para além da França, uma vez que os eleitores alemães também se afastaram dos partidos que defendem posições agressivas em relação à Rússia.

Os resultados eleitorais em França suscitaram discussões sobre potenciais mudanças políticas na Alemanha. Com a direita AfD (Alternativa para a Alemanha) e a recém-formada esquerda nacional BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht) a obter ganhos significativos, há uma pressão crescente sobre o governo alemão.

O apoio da AfD subiu para 15,9% e o BSW estreou com notáveis ​​6,1%. Ambos os partidos, conhecidos pelas suas políticas orientadas para a paz, capitalizaram o declínio da popularidade dos Verdes e da coligação governante.

À medida que a Alemanha enfrenta as próximas eleições regionais nas regiões orientais, onde a AfD e o BSW são particularmente fortes, a perspectiva destes partidos ganharem mais influência é cada vez maior.

Se a AfD conseguisse na Saxônia o mesmo resultado que obteve nestas eleições europeias, o partido estaria próximo da maioria absoluta e poderia formar o governo de uma regiao federal alemã.

Tal resultado poderia ameaçar a estabilidade do governo do Chanceler Olaf Scholz, conduzindo potencialmente a novas eleições nacionais.

Imediatamente após o resultado das eleições ter ficado claro no domingo, o secretário-geral da oposição CDU, Carsten Linnemann, apelou a Scholz para apresentar um voto de confiança ao parlamento, o que poderia levar a novas eleições se ele não receber tal voto da maioria do parlamento.

Os ganhos eleitorais da AfD e do BSW, ambos defendendo o fim do conflito na Ucrânia, indicam uma mudança geopolítica mais ampla.

Estes partidos, juntamente com figuras como o antigo presidente dos EUA, Donald Trump, enfatizam a diplomacia em vez de soluções militares.

Se estas forças políticas ganharem mais poder, a Europa poderá assistir a uma mudança significativa na sua abordagem ao conflito na Ucrânia e nas relações com a Rússia.

Os comentários recentes de Elon Musk no X refletem essa mudança de sentimento.

Musk questionou o retrato negativo da AfD, observando que as suas políticas não parecem extremistas.

Sua declaração sublinha a reavaliação mais ampla dos rótulos e alianças políticas à luz da evolução das opiniões públicas.

As próximas eleições estaduais na Alemanha Oriental poderão solidificar ainda mais estas tendências.

Com a AfD já a liderar nestas regiões, as suas potenciais vitórias poderão desmantelar a atual coligação governamental, provocando eleições nacionais antecipadas.

Tal cenário provavelmente reforçaria a influência dos partidos orientados para a paz e diminuiria o domínio dos defensores da guerra.

É também notável que a AfD tenha terminado no mesmo nível da CDU entre os eleitores jovens.

Anteriormente, os Verdes eram particularmente fortes entre os jovens.

Nas últimas eleições, os Verdes obtiveram 30% entre os eleitores jovens, mas desta vez esse número caiu para 12%. CDU e AfD obtiveram 17% entre os eleitores jovens.

Os terremotos políticos na Europa são mais do que apenas mudanças eleitorais; representam uma profunda reformulação das estratégias geopolíticas da Europa.

À medida que as estruturas de poder tradicionais enfrentam desafios, surgem novas alianças e prioridades.

O apelo à paz e a soluções diplomáticas, ecoado por figuras políticas europeias e americanas, poderá remodelar o futuro do continente e o seu papel na cena global.

As recentes eleições europeias destacam realinhamentos políticos significativos e mudanças geopolíticas emergentes.

A rejeição do New Deal Verde e das políticas de apoio à guerra, juntamente com a ascensão de partidos orientados para a paz, sugere uma mudança de maré na política europeia.

À medida que a França e a Alemanha navegam nestas águas turbulentas, os resultados influenciarão, sem dúvida, o panorama geopolítico mais amplo, com ramificações que se estendem muito para além do continente.

Fonte aqui.