A censura como modelo de governação apresentado em Davos

(Por Pierre-Alain Depauw, in ReseauInternational, 31/01/2024, Trad. Estátua de Sal)

Em Davos, os dirigentes da Nova Ordem Mundial anunciaram uma nova era de censura daquilo a que chamam “desinformação”.


Uma das conclusões a que chegaram os campeões da Nova Ordem Mundial, na sua recente reunião no Fórum Económico Mundial de Davos, é que têm de combater aquilo a que chamam “desinformação”. Por outras palavras, querem acabar com as informações e opiniões críticas às suas teses sobre temas como o aborto, a ideologia de género, a soberania das nações, as pandemias passadas e futuras, etc.

Censura para “restabelecer a confiança”

Em resposta ao crescente ceticismo da opinião pública em relação à agenda globalista, o Fórum de Davos designou a sessão deste ano como “reconstruir a confiança”. Ao longo do evento, vários oradores reiteraram que o que consideram ser “desinformação” está a corroer a confiança nas instituições internacionais e que os líderes mundiais têm a obrigação moral de a combater.

O inimigo de Davos: aqueles que defendem “os valores da família ou a preservação das nossas tradições”.

Tirana Hassan, directora executiva da Human Rights Watch, associou o atual “clima de desinformação” ao autoritarismo. Tirana Hassan disse que “os sinais de alerta [do autoritarismo] aparecem… com conceitos como a proteção dos valores familiares ou a salvaguarda das nossas tradições” e que o público deve prestar muita atenção. “Tendem a ser egoístas, manipuladores e quase sempre prejudicam as pessoas e restringem os direitos humanos”.

Hassan acrescentou: “Outro exemplo é quando os direitos das mulheres estão a ser atacados… os governos dizem às mulheres… se podem ou não engravidar… na Florida, a censura educativa onde os estudantes são proibidos de aprender sobre a identidade sexual e de género”.

“Desinformação e COVID-19 – Informações estratégicas”

O Relatório de Davos sobre os Riscos Globais 2024 cita a desinformação e a falta de informação como os maiores riscos globais a curto prazo. O Fórum lançou uma iniciativa intitulada “Desinformação e COVID-19 – Inteligência Estratégica” que promoveu o discurso dominante sobre a resposta à pandemia.

Meredith Kopit Levien, Presidente e Directora Executiva do The New York Times, afirmou que “o Google fez verdadeiros progressos na forma como as coisas são indexadas”, o que significa que é eficaz a gerar e a promover o “tipo certo” de conteúdo para o topo da classificação das páginas de resultados de pesquisa, enquanto a “informação indesejável” é empurrada para baixo, tornando-se muito difícil de encontrar. Muitos utilizadores sabem disso, especialmente no contexto da Covid, quando tinham de percorrer dezenas de páginas do Google para aceder a conteúdos dissidentes.

A missão de controlo do discurso está também a ganhar peso na UE. No seu discurso, Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, afirmou que “para a comunidade empresarial global”, a principal preocupação nos próximos dois anos não são os conflitos ou o clima. “É a desinformação e a desinformação. Os valores que nos são queridos online também devem ser protegidos online”, afirmou Von der Leyen. Estes valores incluem o acesso ao aborto e a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que estão entre as prioridades da UE nos fóruns de direitos humanos da ONU em 2024.

Vera Jourová, Vice-Presidente da Comissão Europeia responsável pelos valores mobiliários e pela transparência, afirmou que a UE está “concentrada em melhorar o sistema para que as pessoas obtenham as informações correctas”. Vera Jourová saudou as capacidades de verificação de factos online e disse que a Europa “tem todas as grandes tecnologias de que precisamos para combater a desinformação”.

Durante os debates, Von der Leyen e Jourová também discutiram a Lei dos Serviços Digitais, uma proposta legislativa da UE que estabelece regras para regular as plataformas e serviços online em toda a UE. A lei inclui uma secção sobre “mitigação de riscos, como a manipulação e a desinformação”. A partir de 17 de fevereiro, a lei deverá ser vinculativa para todas as entidades reguladas e os Estados-Membros da UE terão de criar coordenadores dos serviços digitais.

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Geração Ronaldo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/01/2024)

Uma das possíveis formas de emprateleirar gerações — de “fazer” História — é recorrendo à taxionomia, a ciência que se ocupa da organização de grupos de seres vivos com base nas suas semelhanças e diferenças.

A taxionomia histórica tem recorrido a uma classificação dos seres humanos por gerações: geração dos babyboomers, os do pós Segunda Guerra, e depois há para todos os gostos: geração X, Y, Z, alfa, millennialwoke, de 70, aqui em Portugal até a ‘geração rasca’. Eu tenho a minha tabela privativa, que inclui a geração da ‘cena’ — termo que integra a novilíngua, revelador da diminuição drástica do vocabulário destas novas espécies geracionais, que acabarão a falar com os polegares nos ecrãs tácteis, prevejo, sem qualquer drama — dos alunos, ou de um aluno ou de frequentador ou frequentadores da Universidade Católica que agarrou ou agarraram num jornalista do jornal Expresso e o retiraram preso por braços e pernas da sala onde o doutor André Ventura, chefe do partido Chega, ia proferir uma conferência sobre a sua visão do mundo.

A ‘cena’ motivou várias reações, todas virtuosas. Os meninos da Católica tinham todo o direito de ouvir o doutor Ventura em confissão privada, os jornalistas devem preocupar-se com outras coisas. Houve quem criticasse os meninos desta geração: eles não têm valores e não respeitam a democracia, nem a transparência. E porque não convidaram os chefes do partido comunista, ou do Bloco de Esquerda? Ou alguém que tivesse a ideia de que apenas o trabalho produz riqueza, de que o sucesso não é ser senhor doutor ou engenheiro, ou CEO, ou ter um diploma de Mestre em Negócios — um MBA — Master of Business Administration — uma ferramenta vendida em propinas pelas Business Schools, escolas especializadas em áreas de negócio e gestão, em sacar umas verbas do Estado para criar uma start up, ou um unicórnio que morrerá como as alforrecas à beira mar, deixando um carro de topo de gama ao jovem de sucesso.

A ‘cena’ dos jovens futuros doutores da Católica, do doutor Ventura e do jornalista do Expresso não surge do nada. A filosofia do Ocidente valoriza o ‘devir’ através de uma lógica que nega o ‘Nada’. Nega o ‘Nada’, tomado e reconhecido enquanto abcesso encrustado nos processos de secularização e racionalização da história ocidental. A negação do nada foi resolvida com a invenção de um Criador e uma narrativa, a do Génesis, que faz do Criador uma personagem, um ser existente, Deus. Este Criador arranjou um emprego temporário, terá sido o primeiro trabalhador precário, e durante seis dias criou o universo do qual se tornou um CEO bárbaro, moderno, que esteve a ponto de eliminar as suas criaturas com um dilúvio, e a quem impôs um drástico regulamento, em forma de tábuas de dez mandamentos, entregues a um delegado, Moisés, no Monte Sinai, que começa por exigir que as suas criaturas amem o seu criador acima da todas as coisas e apenas a ele!

É esta a conceção do mundo — a ideologia — da Universidade Católica, dos seus mestres e alunos e, logicamente, dos convidados a formá-los. É significativo que ninguém entre os docentes da Universidade Católica tenha informado a atual geração de alunos da existência de uma antiga organização que se chamou Juventude Universitária Católica, a JUC, um organismo da Ação Católica, que juntamente com a Juventude Operária Católica, a JOC, e a Juventude Escolar Católica, a JEC, transmitiam aos jovens, além da fé num ente metafísico, juiz e acolhedor de hóspedes eternos num paraíso, valores terrenos de solidariedade e de justiça social . Os atuais jovens universitários da Católica trocaram a JUC pelo Chega! O tempora o mores — “ó tempos! ó costumes!” Cícero, Catilinárias.

Uma das causas apontadas para ‘cena’ da Católica — Ventura — Jornalista — remete para a sociologia, para a origem social dos alunos, crias de famílias abastadas, ou pelo menos dispostas a investir na educação dos filhos para eles virem a pertencer à elite que “saca fundos e manda nos negócios” e tem no doutor Ventura um exemplo vivo e encarnado do sucesso. André Ventura é um São Paulo para a comunidade dos alumni da Católica, alguém que se converteu às virtudes do sucesso, que renegou as origens e se apresenta como um fanático da nova religião. O Chega é uma moda entre a juventude, que tanto integra os suburbanos de epiderme tatuada, os dos jeans rasgados, como os rostos pálidos de blazer e calça creme. Por detrás encontram-se velhas raposas que salivam ao apreciarem estes jovens candidatos a Faustos, a vender a alma a troco de promessas de riqueza.

Como chegámos aqui? Acredito que os alunos da Católica que convidaram o doutor Ventura para lhes iluminar o presente e o futuro nunca tenham ouvido falar de Paraménides, um filósofo grego que muito pensou sobre o Ser e o não ser. Perguntava o grego: Seria possível que coisa nenhuma viesse a ser alguma coisa? Pensar o nada é também pensar o Ser e pensar o Ser é também pensar o devir! Os alumni da Católica estão preocupados com o seu devir e o doutor Ventura e os seus “chegas” também (com o deles, claro).

Percebê-los exige perceber que o devir de cada um dos atores da ‘cena’ da Católica e do Chega não inclui o devir da sociedade. Eles, os ‘chega de carne tenra’ ou os ‘chega de coiro duro”, os ‘chega lingrinhas’ e os ‘chega barrigudos’ comportam-se como os marinheiros holandeses perante os “dodó”, as aves gigantes da família dos pombos, existentes nas ilhas de Maurício, no Índico, e que por não terem inimigos naturais não fugiam dos homens; estes, sem outras preocupações que não fosse alimentarem-se de boa carne obtida com facilidade, mataram-nos até extinguirem a espécie em menos de cem anos. Ou como os habitantes da Ilha da Páscoa, que destruíram todas as árvores para esculpirem deuses que lhes trouxessem chuva e boas colheitas, até a ilha se tornar inabitável. As propostas dos movimentos populistas como o Chega são deste tipo e têm esta sofisticação de raciocínio: a redução ao ‘Nada’ produz riqueza e boa vida aos que a souberem aproveitar. O vale entre os rios Tigre e Eufrates já foi fértil — o crescente fértil — a sua redução ao nada que é hoje o deserto teve por filosofia o sucesso imediato da exploração sem cuidar do devir, do futuro. Esta ideologia do ‘Nada’ teve uma aplicação próxima de nós com a política de Bolsonaro para a desflorestação da Amazónia! É ao ‘Nada’ onde o Chega quer chegar e é essa a ideologia do neoliberalismo que constitui a doutrina da Católica. Os novos dirigentes ocidentais, saídos de madrassas como a Católica e integrados em seitas como o Chega ou a Opus Dei conduzirão Portugal e o Ocidente segundo estes princípios. É fácil adivinhar o futuro.

Quanto aos ‘velhos chega’ sabemos de onde vêm, como sabemos de onde vieram os legionários do Estado Novo, não há qualquer novidade nem surpresa, nem necessidade de estudos muito aprofundados. Mas quanto aos jovens, aos que frequentam as universidades, em particular as juventudes das minorias privilegiadas. Que geração é esta? De onde vem? Os médicos, gente da ciência sobre os interiores dos seres, afirmam que somos o que comemos (e também o que bebemos, vamos lá). O que comeu e bebeu esta geração? Da experiência de contactos com ela, comeu maioritariamente hambúrgueres e bebeu colas. Eu fui cinco vezes a restaurantes da cadeia McDonald — sei que foram cinco e recordo os locais e as circunstâncias de dilema que me levaram a eles: ou um McDonald e uma cola ou nada! Ora, o nada no estômago é uma realidade e não uma questão metafísica.

O que mais me impressionou nos ditos restaurantes — há de outras marcas — nem foi o cheiro, nem a gordura a escorrer, nem a molhanga, nem a necessidade de abrir a boca como um hipopótamo para enfiar o nariz naquela bola de encher barrigas e nádegas e esvaziar cérebros, de aumentar os números da roupa até ao 5XL e a linguagem a umas trinta palavras, mas uma figura — um género de manequim em plástico colorido chamado Ronaldo — o palhaço Ronaldo, à porta e junto aos balcões. O palhaço Ronaldo representava nos ditos restaurantes o que a figura da Última Ceia representa nos lares católicos, ou uma natureza morta a reproduzir um pão entre os menos religiosos, ou até, em restaurantes mais rústicos, a decoração composta por enxadas, foices, até a canga de um animal que puxou arados. Imagens de uma realidade: comer resulta do trabalho, resulta da transformação dos produtos da terra em alimentos à custa do esforço humano. Comer é uma partilha. Ora, esta geração de jovens fãs do Chega, come abençoada por um palhaço com o nome de Ronaldo e come sozinha a comida retirada de um pacote ou embrulhada num papel!

Há o Ronaldo futebolista — mas não é desse, nem do seu exemplo que esta geração se alimenta ideologicamente. O Ronaldo futebolista fez-se à custa de esforço, de muito esforço para ser o mais rápido, o que salta mais alto, o que remata com mais força e precisão. O Ronaldo futebolista e o palhaço Ronaldo da McDonald são entidades antagónicas, apenas com o nome em comum. A geração da Católica é a geração Ronaldo palhaço. O doutor Ventura é o Ronaldo palhaço, o que diz à sua geração que os hambúrgueres são um alimento saudável, culinária de agrado geral, um negócio de sucesso, que as Colas são uma bebida regeneradora de órgãos vitais, que a seriedade no trabalho é para falhados — losers — ou para quem não consegue vender cabritos sem ter um rebanhoO palhaço Ronaldo dos hambúrgueres diz aos frutos da sua geração, aos fiéis do seu pastor Ventura o que eles querem ouvir: apanhem e abocanhem o que puderem, o mundo é dos que não pensam no devir.

A geração do Ronaldo palhaço, a que pertencem os da ‘cena’ que purgou o jornalista do Expresso do sermão do doutor Ventura na Católica é a do Nada. A geração para a qual nada que seja vantajoso para um indivíduo — ele próprio — possa causar angústia, desconforto ou problemas de consciência. A de que nada é impedido ao que consegue vender um palhaço que convence que a comida nasce atrás de uma máquina que exibe fotografias de comida e que fornece trocos. É a geração para a qual a relação de criação e destruição deve apenas estar subordinada ao lucro imediato. A geração Ronaldo tem como ícone nacional o doutor Ventura e como ícone mundial Donald Trump, com quem o palhaço Ronaldo tem semelhanças fisionómicas, aliás.

A geração Ronaldo acredita que é possível pensar e falar sobre o que, ao que tudo indica, não existe. Que assume como verdade afirmações que fazem sentido, mas não se referem a coisa alguma, como é o caso das ‘promessas’ do doutor Ventura. Vai acabar com a corrupção. Vai aumentar o ordenado mínimo. Vai fazer a banca pagar as rendas de casa. Vai tratar da saúde a todos os portugueses, os coxos vão começar a andar e os cegos a ver.

São afirmações tão verdadeiras como dizer que Sísifo, a figura da mitologia grega que subia e descia o monte carregando eternamente um barril de água se propôs afinal a subir ao monte Everest com uma caixa de refrigerantes ao dorso!

Todas estas afirmações fazem sentido, em geral. Possuem sujeito, verbo e estão gramaticalmente corretas. Todavia, qual é o seu grau de veracidade? Como pode uma afirmação ser verdadeira ou falsa se estamos a falar sobre coisas inexistentes? Como é suposto pensarmos sobre coisas que não existem no mundo real, mas que de alguma forma parecem existir nas nossas mentes, ou nas dos nossos pastores falantes? Para a geração Ronaldo e para Ventura, o seu guia, o Nada não existe. Tudo existe desde que seja afirmado. O púlpito, real ou virtual, é o local de criação de uma realidade: crê e salvar-te-ás! Ora o que faria um jornalista nessa sessão espirita sobre a transformação do nada num MBA? Rua! E só não foi merecidamente defenestrado por bondade ou porque as câmaras das TVs não estavam lá para transmitir o espetáculo que promove audiências.

Parte da razão pela qual conseguimos pensar, falar ou até imaginar coisas que não existem, é a linguagem. As palavras permitem-nos perceber conceitos e ideias, mesmo que estas não correspondam a nada, mesmo numa realidade empírica. O doutor Ventura, como Donald Trump, é mestre da linguagem que fornece um argumento sobre o que as audiências devem julgar como possível ou não. Quando falam de objetivos não realizáveis ou de realidades não existentes, colocam os fiéis a acreditar em mundos imaginários, mundos que podem ferir critérios verificáveis de realidade e verdade, mas que passam a existir nas suas mentes.

A geração Ronaldo, que não é exclusiva da Universidade Católica, mas inclui muitos dos jovens formatados nos mitos do integrismo religioso, desde a Opus Dei aos movimentos evangélicos, de jovens que acreditam que o palhaço Ronaldo transforma arengas contra emigrantes em hambúrgueres e estes em maná de votos, mas não acredita que o futebolista Ronaldo possa marcar um golo sem bola, exige um VAR!


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Davos é um fóssil vivo de um império em guerra consigo e com os outros

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture, 28/01/2024)

O Fórum Económico Mundial dá-nos o privilégio excepcional de estudo que só os fósseis vivos nos podem dar.


O Fórum Económico Mundial dá-nos o privilégio excepcional de estudo que só os fósseis vivos nos podem dar. Representativo de uma era que podemos assumir como em processo de superação, senão materialmente, pelo menos na tendência observada, em Davos encontramos tudo o que é a ideologia neoliberal e supremacista ocidental, todas as suas potencialidades, falácias e as próprias causas da sua destruição. Como num fóssil vivo, em cada palavra, em cada expressão, tema ou conclusão, encontramos as razões fundamentais, pelas quais, a espécie não venceu, nem poderia vencer.

Davos fala-nos, sobretudo, de um problema de adaptação ao mundo real. A todo o momento, o Fórum Económico Mundial revelou, em toda a sua extensão, o ressentimento, a amargura e a desilusão, em relação a um mundo que revelou e insiste em revelar, cada vez mais teimosamente, não aceitar as premissas que fariam do neoliberalismo um sistema hegemónico duradouro e universal.

Nesse sentido, o Fórum de Davos constitui uma lição moral. Uma lição moral do ocidente à maioria global, numa espécie de choro recriminatório por esta não aceitar as soluções que tão “sábia e racionalmente” este tinha para transmitir; mas também uma lição de moral da maioria global ao ocidente, que esta aproveitou, em cada oportunidade, em cada exíguo momento de atenção dispensada, para transmitir as razões, pelas quais, o contrato proposto nunca seria aceitável.

Os temas escolhidos revelam, sobretudo, aquelas que são as grandes preocupações e desilusões do ocidente, bem como os que considera serem os pilares constitutivos de uma tentativa de regresso a um paradigma perdido. Um paradigma que, hoje, o ocidente sente escapar-se-lhe entre os dedos.

O primeiro tema é emblemático e diz muito do nível de desilusão: “Alcançando Segurança e Cooperação num Mundo Fracturado”. Se, por um lado, revela que o ocidente se sente inseguro, ao eleger a “segurança” como um dos pontos de partida da sua análise, por outro lado, revela também as dificuldades com que o ocidente se confronta quanto à imposição do seu modelo de “cooperação”, cada vez mais renitentemente aceite pelos países da maioria global. O resultado e a causa estavam bem espelhados no próprio tema, quando classificou o estado actual geopolítico como “mundo fragmentado”.

Neste “mundo fragmentado” encontramos o alfa e o ómega do discurso hegemónico. A recusa, cada vez mais explícita, por parte da maioria global, em aceitar os ditames da “nação indispensável”, “da nação liderante”, resulta, aos olhos desta gente como uma fragmentação, um vazio de poder. O sinal é evidente: os EUA continuam com dificuldades em encontrar o seu espaço no mundo, sendo que, tal dificuldade constitui um perigo imenso. Uns EUA nervosos, com crise de identidade e em estado de negação, são um perigo para si próprios, mas também são um perigo para os outros, para mais considerando todo o potencial destrutivo aos eu dispor. Ao eleger a “segurança”, quase podemos dizer que, lá no fundo, e sem nunca o assumirem, os EUA sabem de onde vem, realmente, o problema.

As condições de “segurança” definidas pelos EUA, também estão omnipresentes em Davos, na qualidade de “espectador ausente”. Um mundo seguro é um mundo sem Rússia, país removido, autoritária e discricionariamente, do evento. Diz muito de um evento que se diz “mundial”, a remoção da maior potência nuclear e uma das duas maiores potências militares do planeta. Trata-se, também, do maior país do mundo em território, com maior diversidade/quantidade de recursos naturais, um parceiro estratégico de importantes países, que representam mais de metade da população mundial, como China, India e Irão; um líder tecnológico na área espacial, aeroespacial, nuclear, naval, militar; e um dos maiores produtores de alimentos e cereais do mundo. Falar em “segurança”, “cooperação”, “energia”, “natureza” e “clima” sem envolver a Rússia, só pode ser uma brincadeira de mau gosto. Mas, para os EUA e, logo, para Davos, um mundo “seguro” é um mundo sem contradição de qualquer espécie, daí que não vejamos nenhum dos renegados habituais, como Cuba, Nicarágua ou República Popular da Coreia. É a política externa dos EUA que nos diz, a todos, quem faz, ou não, parte do “fórum mundial”.

Mas este conceito de “segurança” é aprofundado com um acontecimento espectacular, nunca visto na história da diplomacia: falar de paz entre dois países, envolvendo apenas um deles. Não lembraria aos maiores ditadores da história, mesmo que fosse para fazer de conta. Com os EUA, quais luminárias da “democracia liberal”, nem para fazer de conta. Com efeito, e para sinalizar bem ao mundo que, para o Fórum Económico Mundial – desculpem, para os EUA – “segurança” significa “aceitar as condições unilaterais impostas e sem pestanejar”, o evento abre com uma conferência de imprensa que dá conta de uma reunião entre os Assessores de Segurança Nacional (a 4ª) para alcançar uma “paz justa e duradoura na Ucrânia”.

Uma “paz justa” que não é negociada, mas imposta; uma paz com “justiça” que não envolve negociações com um dos países envolvidos no conflito; quer-se “duradoura” uma paz que tenha sido construída à revelia do principal, e mais forte, dos interessados. Bem-vindos ao “quero, posso e mando”, que é responsável pela derrota do ocidente, como tão bem escreveu Emmanuel Todd no seu último livro “La Défaite de l’óccident”.

Claro que, alguém minimamente sério teria de se questionar sobre a credibilidade disto tudo. Como é suposto fazer cumprir um plano de paz que não é negociado, mas imposto, para mais, por quem não tem capacidade para o fazer. E aqui somos imediatamente chegados ao objectivo fundamental do WEF: continuar a vender a ilusão de um mundo impossível, dominado em toda a extensão pelo ocidente, e em especial, pelos EUA.

Reminiscente de uma era de “cooperação” em que, ou as nações aceitavam, ou eram imediatamente sancionadas, excluídas do comércio diplomático, político, financeiro, militar e até cultural, todo o discurso relativamente à “segurança”, “cooperação” é enquadrado num outro conceito: “refazer a confiança”.

Para os EUA e o ocidente colectivo, é tudo muito claro, a cooperação está em perigo porque “não existe confiança entre as partes”. Mas como em tudo o que envolve a doutrina hegemónica e as narrativas encomendadas, a análise nunca vai às últimas consequências; a análise nunca vai ao ponto de colocar o dedo na ferida. Afinal, fazendo-o, rapidamente o WEF perderia o seu efeito propagandístico e doutrinador. Talvez nem pudesse existir.

Não é, portanto, de admirar que um dos pilares teóricos do Fórum de Davos, deste ano, seja o “Barómetro da Cooperação Global 2024” em colaboração com a sempre expedita, competente e bem mandada Mackinsey. Segundo este “Barómetro” – e sobretudo considerando as palavras de Jane Harman (Freedom House, “pro-free trade”, “pro-free market” e “progressive” (falta saber em quê) e ex-congressista) -, a cooperação global está pelas ruas da amargura. É claro que, bem vistas as coisas, e olhando para os dados, percebemos que, em 2012, o índice de cooperação estaria nos 0,87, em 2020 (período definido como de referência), estaria nos 0,97 e, em 2022, nos 0,96. Ou seja, em 2012, período em que os EUA ainda chafurdavam impunemente na sua prepotência hegemónica, o índice de cooperação era inferior. Então, porque está mal agora?

A verdade é que, olhando às várias formas de cooperação definidas (comercio e capital; clima e natureza; Inovação e tecnologia; saúde e bem-estar; paz e segurança), existem apenas duas que estão abaixo dos níveis de 2020: a saúde e bem-estar (pouco) e a paz e segurança (muito abaixo). E por aqui, percebemos, imediatamente, a grande preocupação e o que está por detrás da agenda, deste ano, do WEF, e o porquê do “problema” da Cooperação.

Uma vez mais, os EUA dão-nos uma lição da sua proverbial falta de vergonha: o que terá acontecido para a cooperação em segurança ter caído tanto, especialmente a partir de 2015? O que terá motivado tal falta de confiança? Qual o foi o país que, de repente, rasgou todos os tratados de não proliferação de armas nucleares que tinha com a Rússia? Qual foi o país que formou o QUAD, o Aukus, que expandiu a NATO para o leste europeu, afectando a confiança com dois dos principais pólos mundiais de cooperação militar: a China e a Rússia? Que país cujos dirigentes falaram, constantemente, em “derrota estratégica da Rússia”; “contenção da China” e “aniquilação do Irão”? O que terá isto a ver com a degradação dos níveis e confiança?

E na saúde e bem-estar? Quem é que utilizou o Covid-19 como arma de arremesso contra a China? Quem prolifera e proliferou laboratórios secretos de investigação biológica, especialmente à volta da Rússia e China? Como disse, os relatórios e análises do Fórum Económico Mundial têm uma virtude fantástica: todos estamos a ver quem é o culpado, mas eles insistem em nunca o apontar.

No único exemplo real de cooperação entre iguais, com respeito pela diversidade de cada um e com a capacidade de olhar para o que une, ao invés do que separa, sem imposições, autoritarismos, birrinhas e discricionariedades; num exemplo concreto de emancipação dos países em desenvolvimento e revelador da sua capacidade de cooperação, união e tomada do seu próprio futuro nas suas mãos; o WEF achou por bem apenas atribuir-lhe um secundaríssimo painel, em que a jornalista esteve mais preocupada em desenterrar diferenças e divergências, do que pontos de cooperação real. Refiro-me aos BRICS. Por aqui tiramos duas conclusões imediatas: o modelo de cooperação entre iguais, que os BRICS representam, não é valorizado, mas ostracizado, pelos EUA; os EUA e seus vassalos continuam à procura de “vender” um modelo neocolonial de cooperação. Cooperar, para os EUA é um jogo em que só um é que ganha, daí que o conceito de “coopetição” introduzido, seja perfeito: revela, em si, toda a intenção por detrás da tal “cooperação”, que é “competir” e aniquilar o opositor, fazendo-o acreditar que se está a “cooperar”. Acho demasiado a China ter comprado a coisa, mas, sabendo que os chineses jogam no longo prazo… esperaremos para ver.

Mas, então, porque razão o BRICS teve direito a um painel? Quer porque os EUA queriam demonstrar que não têm receio de projectos “menores” de cooperação, quer porque sucumbiram a alguma pressão da China e India, para o provar, o facto é que lá tiveram de o aceitar. Contudo, mostrando bem claramente o espaço que lhe atribuem no cenário das relações políticas globais. A ver vamos por quanto tempo mais conseguirão secundarizar este bloco de interesses convergentes.

Contudo, do lado de cá, a realidade insiste em impor-se e demonstrar que nada mudou, por mais narrativas que se criem. Um exemplo concreto? A negociação do acordo EU-Mercosul. Depois de acordada a versão provisória do acordo, eis que a EU faz chegar ao Brasil uma proposta final, contendo um anexo que prevê a aplicação de sanções aos países amazónicos, no caso de incumprimento das metas de protecção florestal amazónica. Tudo feito unilateralmente, sem ouvir os interessados. Eis o que significa “refazer a confiança”.

Se, o Barómetro da cooperação, nos diz muito do que pretende o Fórum Económico Mundial, não menos explícito é o “Relatório sobre os Riscos Globais 2024”. Aí encontramos a razão de viver de grande parte dos discursos pseudocientíficos que pululam pelo Fórum de Davos. O relatório deste ano aponta como principal risco o da “desinformação e informação errada”. A recente derrota ocidental na narrativa sionista, deve ter tocado todas as sirenes. Se lhe adicionarmos o facto de a maioria global não ter comprado a narrativa ucraniana… Não há dúvida de que, nos tempos que correm, o ambiente não está muito propício às falaciosas narrativas dos EUA. Sobre a forma de combate a esta “desinformação”, também estamos apresentados: no fórum falou-se de “educação”, na prática censuram-se as redes sociais; omitem-se buscas no google, controlam-se os meios de comunicação, censuram-se os meios de comunicação da Rússia e perseguem-se jornalistas como o Julien Assange.

O Fórum Económico Mundial revela-se de uma utilidade confrangedora para os críticos dos EUA: as soluções que aponta para o futuro, podem ser observadas, em tempo real, totalmente ao contrário, pelos EUA e seus vassalos. Quase como se, nos quisessem transmitir, indirectamente, o seguinte: “estão a ver esta medida? Os EUA e seus vassalos, fazem-na ao contrário”!

Mas, o resto dos temas são eles próprios reveladores das preocupações ocidentais: a carência de mão de obra em “criando crescimento e empregos para a nova era”, ao mesmo tempo que na União Europeia e nos EUA se impede a dignificação das condições de trabalho dos trabalhadores das plataformas informáticas e se descobre o escândalo, através do qual a Uber comprou o favor dos governos europeus e em que se usam as tecnologias digitais para suprimir postos de trabalho e degradar os salários; o domínio da inteligência artificial em “inteligência artificial como uma força motriz da economia e sociedade”, ao mesmo tempo que movem a guerra de semicondutores contra a China, para impedir este país, e os seus aliados, de atingirem a fronteira tecnológica, principalmente na área militar; o domínio da energia em “uma estratégia climática de longo-prazo, natureza e energia”, ao mesmo tempo que guerreiam pelo petróleo no médio oriente, tentam a internacionalização (ou será “ocidentalização”) da amazónia e a imposição e condicionalidades climáticas que impedem os países empobrecidos de se desenvolverem e afirmarem a sua soberania. Um autêntico cardápio de intenções maliciosas.

Para quem pretende dar uma lição ao mundo sobre o futuro, a elite globalista de Davos comete demasiados pecados, só explicáveis pelo seu proverbial complexo de superioridade. Desde logo, o da arrogância, ao partirem do princípio de que a elite ocidental tem algo a ensinar a quem quer que seja.

O supremacismo, bem presente quando vemos Klaus Shwab elogiar o louco Milei por trazer a “argentina de volta aos valores ocidentais”, demonstra o que é Davos, um pólo de propaganda da ideia civilizacional ocidental, mesmo que à custa de um país destruído e um povo na mais abjecta miséria. Por aqui, Klaus Shwab diz-nos: não importa que fiquem todos na miséria, contanto que venham em direcção “aos valores ocidentais”.

O cinismo é outra das características das elites globalistas, neoliberais ou neoconservadoras. Davos é um festival de doutrinação do resto do mundo, à custa do apagamento, do silenciamento e condicionamento do debate crítico dos problemas, apenas dando voz à narrativa ocidental. Por fim, o elitismo de quem se acha superior aos demais, também está bem presente na constituição dos painéis, esmagadoramente ocidentais, maioritariamente americanos e recorrendo, aqui e ali, a alguém do sul global, apenas para dar uma ideia de diversidade.

Debate aberto, crítica, confronto de ideias, argumentação e contra-argumentação, cooperação real, no verdadeiro sentido da palavra, reunindo o que une e afastando o que separa, tomando decisões em conjunto, ao invés de contra alguém, respeito pela diversidade étnica, cultural, ideológica, como uma visão verdadeiramente democrática pressupõe, respeito pelas crenças, tradições e características de cada povo, como deve uma visão universalista… Nada disso vimos em Davos.

Em Davos assistimos a um império em luta consigo (com a “desinformação”) e com os outros (“segurança”), incapaz de encontrar um lugar num mundo que se recusa a vê-los como superiores… Daí a tentativa de revestir o monstro com trajes atractivos, mas que se revela, mesmo assim, pela sua latente brutalidade…

Como em tudo… Em Davos vende-se o que ninguém quer comprar…. Daí o tanto marketing que se faz!

Fonte aqui.


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