EUA quebram gelo, Rússia descongela

(Por M. K. Bhadrakumar, in Velho General, 24/10/2022)

O secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, fez uma viagem secreta aos EUA na semana passada em meio a temores de uma grande ofensiva russa na Ucrânia

Em meio a conversas entre os ministros da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, do Reino Unido, Ben Wallace, e o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, além de homólogos da UE, parece começar a surgir a possibilidade de um encontro entre Putin e Biden.


O outono termina e o inverno começa no momento do solstício de dezembro. Mas e se o Equinócio Vernal chegar? Nestes tempos de mudança climática, tudo é possível. Há sinais sutis. Os pássaros no quintal estão cantando, borboletas e abelhas estão retornando. Como alguém pode perder isso?

Está bastante claro agora que foi a guerra na Ucrânia que atraiu o secretário de Defesa britânico Ben Wallace a Washington em uma visita secreta na terça-feira da semana passada. Wallace se encontrou com o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan, seguido de reuniões no Pentágono, no Departamento de Estado e nas agências de espionagem.

Seguiram-se dois comunicados de imprensa da administração Biden – transcrição da reunião Sullivan-Wallace e uma declaração do presidente Biden, fixada na saída de Liz Truss como primeira-ministra do Reino Unido, reafirmando a aliança anglo-americana. A coisa impressionante foi que nenhuma das declarações cuspiu fogo. No entanto, os EUA e a Grã-Bretanha estão no meio de uma guerra que, segundo Biden, está se aproximando do Armagedom.

Ao retornar a Londres, Wallace não perdeu tempo para fazer uma declaração sobre a Ucrânia na Câmara dos Comuns, na quinta-feira. Embora não esteja diretamente relacionada à sua visita a Washington, a declaração de Wallace irradiava de suas consultas com altos funcionários dos EUA.

A declaração aderiu amplamente à narrativa triunfalista ocidental da guerra na Ucrânia no sentido de que “a campanha terrestre da Rússia está sendo revertida. Está ficando sem mísseis modernos de longo alcance e sua hierarquia militar está se debatendo. Está lutando para encontrar oficiais subalternos para liderar as fileiras.”

No entanto, no final, Wallace mudou abruptamente de rumo, expressando apreciação pela forma como o ministro da Defesa russo, Sergey Shoigu, lidou com o “engajamento potencialmente perigoso” em 29 de setembro entre um avião espião da RAF RC-135W Rivet Joint “em patrulha de rotina” sobre o Mar Negro, que “interagiu” com dois caças russos Su-27 armados quando um dos jatos russos lançou um míssil nas proximidades do avião britânico “além do alcance visual”. Wallace mencionou a importância crucial de manter as linhas de comunicação abertas para Moscou (aqui está o registro Hansard).

Significativamente, um dia depois, o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, fez um telefonema para Shoigu, o primeiro contato desse tipo em mais de cinco meses. Aparentemente, Austin e Wallace têm em comum a opinião de que é hora de retomar as conversas com Moscou.

transcrição do Pentágono apenas disse que Austin “enfatizou [para Shoigu] a importância de manter linhas de comunicação em meio à guerra em andamento contra a Ucrânia”.

De fato, Austin também teve o cuidado de informar seu colega ucraniano Oleksii Reznikov sobre sua ligação inicial com Shoigu e “reiterar o compromisso inabalável dos EUA em apoiar a capacidade da Ucrânia de combater a agressão da Rússia.

“O secretário Austin também destacou o apoio contínuo da comunidade internacional na construção da força duradoura da Ucrânia e na salvaguarda da capacidade da Ucrânia de se defender no futuro, conforme demonstrado pelos compromissos de assistência à segurança assumidos por aliados e parceiros na mais recente reunião do Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia em 12 de outubro. Os dois líderes se comprometeram a manter contato próximo”, anunciou o Pentágono.

Curiosamente, dois dias depois, no domingo, foi a vez de Shoigu fazer uma ligação para Austin. Mas desta vez, a transcrição do Pentágono esclareceu que “o secretário Austin rejeitou qualquer pretexto para a escalada russa e reafirmou o valor da comunicação contínua em meio à guerra ilegal e injustificada da Rússia contra a Ucrânia”.

E uma hora depois de receber a ligação de Shoigu no domingo, Austin entrou em contato por telefone com Wallace “para reafirmar a relação de defesa EUA-Reino Unido e a importância da cooperação transatlântica. A conversa de hoje foi uma continuação de sua discussão no Pentágono na semana passada, que cobriu uma ampla gama de prioridades compartilhadas de defesa e segurança, incluindo a Ucrânia”.

Presumivelmente, o nevoeiro da guerra está se adensando. Ou, possivelmente, Austin ficou com a pulga atrás da orelha, pois Shoigu no domingo também fez ligações para três outras capitais da OTAN – Paris, Ancara e Londres – onde discutiram a situação na Ucrânia “que está se deteriorando rapidamente” e Shoigu transmitiu “preocupações sobre possíveis provocações da Ucrânia com o uso de uma ‘bomba suja’” (aqui).

É importante ressaltar que a transcrição britânica disse que Wallace reiterou a Shoigu o “desejo do Reino Unido de diminuir esse conflito … e o Reino Unido está pronto para ajudar”.

É perfeitamente concebível que tudo isso possa ser as preliminares de um encontro entre o presidente Biden e o presidente Putin à margem da cúpula do G20 em Bali, na Indonésia, nos dias 15 e 16 de novembro, o que parece cada vez mais provável.

    Mas há também o pano de fundo de uma enorme construção militar russa na região de Kherson, no sul da Ucrânia, na direção de Nikolaev (e, possivelmente, Odessa). Ao contrário dos relatos da mídia ocidental, a imagem real é que no lado ocidental do Dnieper, os russos podem ter estabelecido uma grande presença de tropas, na casa das dezenas de milhares, com apoio logístico que mantém a linha de frente totalmente suprida e as forças de reserva apoiando. A linha de defesa russa está supostamente endurecendo em toda a frente de Kherson com a implantação de armamento, blindados e carros de combate.

    O prefeito de Nikolaev (também conhecida como Mykolayiv) Oleksandr Syenkevych, um oficial ucraniano, ordenou a evacuação da população civil da cidade enquanto o bombardeio russo continua. Ele disse a Christian Amanpour que os tanques russos já estão nas proximidades do aeroporto da cidade (aqui).

    Evidentemente, as coisas estão caminhando para uma grande escalada em meados de novembro. A captura de Nikolaev abre caminho para que as forças russas avancem em direção a Odessa 110 km a sudoeste. O controle de Nikolaev e Odessa significaria o controle da costa do Mar Negro da Ucrânia e a negação do acesso aos navios de guerra da OTAN baseados na Romênia e na Bulgária.

    Evidentemente, apesar da narrativa triunfalista da mídia ocidental, o quadro geral está se voltando contra o eixo EUA-Reino Unido. Wallace e Sullivan teriam ponderado sobre isso, com certeza.

    Mais uma vez, as rachaduras estão aumentando no sistema transatlântico, à medida que os países europeus percebem que foram vítimas da grande estratégia de hegemonia dos EUA. Há uma amargura crescente de que as companhias petrolíferas americanas estão obtendo lucros inesperados.

    A próxima visita do chanceler alemão Olaf Scholz à China é uma declaração maciça a favor da globalização, desafiando a estratégia de “dissociação” do governo Biden da China. Isso sinaliza uma mudança sutil e um retorno ao pragmatismo na política da Alemanha para a China. Dados oficiais mostram que o comércio China-UE superou US$ 800 bilhões pela primeira vez em 2021 e o investimento bidirecional ultrapassou US$ 270 bilhões em termos cumulativos. Nos primeiros oito meses de 2022, o comércio bilateral atingiu US$ 575,22 bilhões, um aumento de 8,8% e o investimento da UE na China aumentou 121,5% em relação ao ano anterior, para US$ 7,45 bilhões.

    A fadiga da guerra também está se tornando uma realidade convincente. A UE prometeu 1,5 bilhão de euros para a Ucrânia, mas por quanto tempo ela pode carregar esse fardo anual quando suas próprias economias estão em recessão? A economia do Reino Unido está à beira do colapso.

    Depois, há o fator “X”: sabotagem dos gasodutos Nord Stream. Putin não teria apontado o dedo para os EUA sem evidências corroborativas. O Kremlin disse na sexta-feira que a “verdade” por trás das explosões do mês passado nos gasodutos Nord Stream “certamente surpreenderá muitos nos países europeus se for divulgada”.

    A conclusão é que Austin quebrou o gelo na quinta-feira em consulta com Wallace e com a aprovação de Biden. Em tom conciliatório, a Casa Branca também divulgou uma declaração extraordinária de Sullivan nesta sexta-feira expressando agradecimento pela “votação rápida e unânime em apoio à resolução do Conselho de Segurança proposta pelo México e pelos Estados Unidos, de impor medidas de sanções e responsabilizar os atores que estão minando a estabilidade no Haiti”.

    Na verdade, não é incrível que a Rússia tenha votado a favor de uma resolução dos EUA impondo sanções contra mais um país do Sul Global?

    Com as eleições de meio de mandato logo à frente e a quase certeza da candidatura de Donald Trump ao segundo mandato como presidente, a própria bússola de Biden será redefinida. O discurso de Biden na Sala Roosevelt na sexta-feira sobre redução do déficit projetou a historicidade de sua “visão econômica”.

    Basta dizer que quando Shoigu mencionou a “bomba suja” da Ucrânia a três ministros da OTAN na Europa, ele estava apenas ecoando o que alguns americanos pensativos têm dito ultimamente, a saber, que o interesse vital dos EUA em evitar a guerra com a Rússia com armas nucleares “pode em breve colidir com os objetivos estratégicos de guerra da Ucrânia – ou seja, a recuperação total da Crimeia e do Donbass”, como Patrick Buchanan, o influente ideólogo do Partido Republicano, escreveu na revista American Conservative no fim de semana.

    Com certeza, há uma lufada de aromas frescos e suaves no ar. Ele pressagia um início de primavera? Mas para ser o advogado do diabo, qualquer suspensão da grande ofensiva russa neste momento pode agitar um ninho de vespas em Moscovo. Talvez, isso também faça parte do plano de jogo anglo-americano.


    Publicado no Indian Punchline.


    *M. K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira por 30 anos no Serviço de Relações Exteriores da Índia. Serviu na embaixada da Índia em Moscou em diversas funções e atuou na Divisão Irã- Paquistão-Afeganistão e na Unidade da Caxemira do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Ocupou cargos nas missões indianas em Bonn, Colombo, Seul, Kuwait e Cabul; foi alto comissário interino adjunto em Islamabad e embaixador na Turquia e no Uzbequistão.


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    Marcelo Rebelo de Sousa – Um perfil escondido (2)

    (Carlos Esperança, in Facebook, 26/10/2022)

    Depois da agradável surpresa de um PR inteligente, culto e simpático, sucedendo a dez anos de um empedernido e azedo salazarista, Marcelo começou a arruinar, no segundo mandato, a imagem do primeiro. Já gastou o cabedal de simpatia que mereceu.

    A irrefreável tendência para comentar tudo, do futebol à política, da canoagem à poesia, das vacinas à economia, dos incêndios às inundações, das decisões políticas aos autores, dos OE à conduta das oposições, só se contém perante eventuais fugas de informação da sua Casa Militar, na decisão conjunta do PM e PR para a nomeação do alm. Gouveia e Melo para CEMA, e notícias de pedofilia eclesiástica.

    Ao contrário dos beija-mãos ao Papa e aos bispos, exibe uma postura arrogante com os políticos, quiçá ressabiado da derrota na Câmara de Lisboa, do epíteto de Balsemão e das acusações deste, de ser delator das decisões dos Conselhos de Ministros para os media, mestre na intriga e na dissimulação, nas pretensas idas à casa de banho.

    O homem que chamou Lelé da Cuca ao dono do semanário que o nomeou diretor, para se desculpar com um teste aos revisores e lhe revelar, depois, que o considerava como pai, é quem escreveu a Marcelo Caetano o elogiá-lo: “Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades «soaristas»1.

    É ainda o mesmo que na entrevista telefónica à jornalista Alexandra Tavares-Teles, na revista Notícias Magazine, recordando, ‘como viveu o 25 de Abril’, refere a resposta que deu ao pai, influente ministro da ditadura, depois de este lhe ter dito que Marcelo Caetano lhe garantira que vinham a caminho de Lisboa tropas fiéis ao governo: «Disse-lhe o que sabia. ‘Não, pai, não vêm forças nenhumas, não pensem nisso, isto está a correr rapidamente. Acabou.’». E, quando a jornalista lhe perguntou: «De onde vinha essa certeza?», respondeu com aquela candura que usa na intriga e nos afetos:

    – O António Reis [militante e dirigente político ligado ao PS] tinha-me avisado da proximidade do 25 de Abril com alguma precisão. E embora o meu pai fosse dos membros do governo teoricamente mais bem informados, percebi, naquele momento, que, de facto, estava muito pouco informado. Penso que ele terá transmitido a informação a Marcello Caetano e que este terá respondido: “Esse Marcelo Nuno só traz más notícias. Isso são coisas do contra». 2

    Não sei o que mais admirar, se a insensatez do jovem político António Reis, a devoção filial de Marcelo ao ministro fascista, a denúncia da Revolução ao Governo ou a traição à (in)confidência do amigo. Aliás, era interessante saber quando foi «aquele momento», o da indiscrição de António Reis a Marcelo Nuno e o da delação ao governo, através do [pai] ministro de Caetano. Felizmente, Marcelo Caetano não o levava a sério.

    Marcelo não é só o hipócrita que, na apoteose da fé, deixou numa cama o sacramento do matrimónio indissolúvel e levou para outra as hormonas e o adultério3. Foi também, e é, o artífice das soluções mais reacionárias que a direita democrática tomou em Portugal.

    Foi contra o SNS, lutando depois contra a universalidade, alegando o seu caso, injusto, pois podia e devia pagar a saúde, e tinha direito à gratuitidade. Com Guterres pensou o referendo que atrasou a legislação que aprovou a despenalização da IVG. Este Marcelo, que lava mais branco o passado do que qualquer detergente as nódoas, é o mesmo cujos preconceitos pios preferiam a morte de mulheres cuja vida perigasse com a gravidez, a gestação obrigatória das vítimas de violação e das grávidas de um feto teratogénico.

    Esteve sempre, nos costumes, do lado mais reacionário, tal como na política. Veja-se:

    Marcelo Rebelo de Sousa, José Miguel Júdice, Santana Lopes, Manuel Durão Barroso e António Pinto Leite surgiram no início de 1984, organizados, para fazerem regressar ao poder, por via democrática, a velha política, sob o pseudónimo de “Nova Esperança”, e foram decisivos em dois congressos do PSD, em 1984 [Braga] derrotando Mota Amaral com Mota Pinto e, especialmente, em 1985 [Figueira da Foz], na improvável ascensão à liderança partidária do obscuro salazarista Cavaco Silva, derrotando João Salgueiro.

    Marcelo não foi apenas líder do PSD, foi sempre o defensor das posições que são hoje minoritárias na sociedade portuguesa, por mais anestesiada e aturdida que se encontre.

    Depois de dez anos de Cavaco, a reintegrar pides e a gozar os pingues fundos europeus conseguidos com a adesão à UE por Mário Soares, podia pensar-se que Marcelo teria o remorso cristão e democrático, e reincidiu na vivenda de Ricardo Salgado, juntando ao casal do anfitrião, o seu, o de Durão Barroso e o de Cavaco, para preparar a primeira candidatura vitoriosa de Cavaco a PR.

    Nunca ninguém o confrontou sobre a posição que tomou quando Eanes defrontou o gen. Soares Carneiro, ex-diretor do presídio colonial de S. Nicolau e que, após a derrota, em afronta aos militares de Abril, Cavaco reintegrou no ativo e promoveu a CEMGFA. Foi essa afronta à democracia e à legalidade que levou o PR Marcelo a atribuir a Cavaco o mais elevado grau da Ordem da Liberdade? Foi uma ofensa aos mártires da ditadura.

    Marcelo, que aceitou ser presidente da Fundação Casa de Bragança, saberia que o cargo era incompatível com a ética republicana e a presidência da República? Pode agradar à populaça, mas não serve a democracia.

    Tenho por este PR o respeito mínimo a que o Código Penal me obriga; julgo-o capaz de quase tudo e com uma agenda perigosa. Vejo nele um perturbador da governabilidade e das relações interpartidárias, por obsessão dele e não por desconfiança minha.

    É preciso avisar a malta! É urgente impedir a presidencialização do regime parlamentar através do PR que se imiscui na exclusiva responsabilidade do Governo pela condução política do País e na do PM na condução do Governo.

    A CRP obriga o PR a respeitá-la e a defendê-la, o que não faz. O que a CRP não obriga é um cidadão a acreditar no PR, na honorabilidade da sua agenda privada, na brancura do seu passado, na honradez da sua palavra ou na isenção dos seus julgamentos.

    Às vezes tenho a vaga impressão, talvez injusta, de que o Palácio de Belém pode ser, à semelhança do que acontece no Brasil, no Palácio do Planalto, habitado por mesquinhos inquilinos que são incompatíveis com a verdade, independentemente do sufrágio que lhes abre as portas.

    1 (in «Cartas Particulares a Marcello Caetano», organização e seleção de José Freire Antunes, vol. 2, Lisboa, 1985, p. 353 via Abril de Novo Magazine)

    2 (In Notícias Magazine, 22 de abril de 2018, pág. 20, 3.ª coluna).

    3 Vocábulo da linguagem pia.


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    O Presente Distópico, o Futuro Ausente

    (Por Hugo Dionísio, in Facebook, 25/10/2022)

    Com a morte de Adriano Moreira tivemos o “prazer” de assistir ao pináculo da manipulação dos factos históricos, uma deturpação que só é possível no atual nível de concentração dos meios de relações públicas (apelidados de “comunicação social”) que, hoje, as oligarquias económicas têm ao seu dispor, mais do que nunca.

    Tal deturpação pôde ser acompanhada em direto na SIC, no “Jornal da Noite”, quando, após peça jornalística na qual se relembrava o facto – verdadeiro, confirmado, documentado – de Adriano Moreira ter mandado reabrir o campo de concentração do Tarrafal, a pivot Clara de Sousa, logo de seguida, mostrando uma urgência fora do normal refere qualquer coisa do tipo “como a verdade é que conta, quero corrigir a peça e dizer que não foi verdade que AM tenha mandado reabrir o campo do Tarrafal”. E mais não disse, e mais não acrescentou, nem prova, testemunho ou documento. Nada!

    Não é difícil perceber o que se passou. Perante a peça, verdadeira, que pretendia mostrar a suposta “complexidade” histórica de alguém que foi pilar da ditadura, alguém, de grande importância, terá telefonado para a régie e dito “que história é essa”? “Isso é um ultraje”, “ordeno que seja retirado”. Quem terá sido? Podem ter sido muitos, pois são mesmo muitos os que pretendem, ontem e hoje, o branqueamento do fascismo. Candidatos não faltam, de representantes da Nação, ao mais alto nível, a empresários e figuras do “regime”. O facto é que todos pudemos assistir, em direto, a um exemplo do mais atroz revisionismo histórico.

    Esse revisionismo é uma prática comum nos dias de hoje. AM assinou a portaria que reabre o “campo de trabalhos”, mas na capa do pasquim “I”, diz-se que AM foi uma “figura que ilustra a complexidade da história”. A “complexidade”. Quando a figura agrada aos canais de Relações Públicas (R&P) da oligarquia, o termo “tirania”, “ditador”, “carniceiro”, “torturador” e “campo de concentração” para políticos da oposição, em especial, comunistas, são substituídos por “complexidade”. Esta relativização e branqueamento, das personalidades muito caras à oligarquia, são conhecidos. Afinal, George Washington, um esclavagista, racista e xenófobo, é classificado como “um homem do seu tempo”, como se a esse tempo não houvessem já lutas contra a escravatura, a exploração e a tirania. O mesmo é feito em relação a muitas outras figuras, atuais e passadas, que no seu currículo juntam as mais torpes e vis agressões à Humanidade.

    Ao mesmo tempo encapotam estas “personalidades complexas” numa áurea de santidade intelectual que tudo desculpa, deturpação que só é possível devido ao controlo económico dos meios de construção da opinião pública.

    Por sua vez, podemos ver o movimento inverso quando se tratam de personalidades que não agradam, mesmo nada, ao sistema oligárquico. Vejamos o caso, uma vez mais do “I” (este pasquim é mesmo de arrepiar), relativamente a Xi Ji Ping. Diz então que “encheu a liderança de homens fiéis”. Se não me apetecesse gritar, partia-me todo a rir. Então é só na China de Xi que os líderes se rodeiam de gente de confiança? Bem, então já descobri o problema que nos está a arrastar para a lama. Os líderes no Ocidente, das duas uma: ou não são líderes e não escolhem ninguém, e por isso estão rodeados de traidores, engraxadores, bajuladores e espiões; ou são líderes e escolhem mal os seus apoios, optando por gente de que desconfiam, sobre quem têm reservas e que querem destruir. O resultado de uma coisa destas só pode ser um: a degradação continuada das nossas condições de vida, causada por uma erosão constante das instituições democráticas, habitadas por gente em que não podemos confiar. Na forma são “democráticas”, mas, na verdade, são ocupadas por gente de confiança das oligarquias. Poucos partidos, em Portugal e na Europa, se podem orgulhar de ter nos seus órgãos verdadeiros representantes do povo. Gente cuja chegada ao poder depende, exclusivamente, dessa condição.

    E o facto é que eu acredito mesmo que, nas estruturas democráticas, se agrava, de facto, a tendência para esta erosão, na medida em que apenas em órgãos de base (e com pouco poder decisório) podemos encontrar gente cuja chegada ao local não foi determinada em função de interesses exteriores ao processo democrático. Quanto mais subimos, constatamos que, grande parte dos ministros (só para falar destes), de um país como o nosso, não é escolhida em função da confiança, lealdade e identificação para com a liderança saída das eleições de um partido, ou da Nação, mas em função da lealdade a outras instâncias de poder, muito mais abrangentes, mas, ao mesmo tempo, mais distantes dos interesses e ansiedades do povo.

    O ministro das finanças tem de ter a chancela do FMI, da UE, mas, sobretudo, dos interesses económicos mais poderosos. Nem que se tenha de ir buscar um ao estrangeiro, como se foi buscar Gaspar. O Primeiro-ministro, regra geral, tem de ser abençoado pelo G7, pelo Fórum de Davos e pelo Bilderberg. É essa a eleição que conta depois para a aceitação da figura pelos magnatas da comunicação social. António Costa, mesmo em 2015, já tinha ido ao beija-mão do Bilderberg. Medina também já lá foi, e isto diz muito de per se. O Ministro da Defesa só entra com a bênção da NATO. Nem se pense que não é assim. O mesmo para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que tem de passar pelo crivo da FLAD, da NATO, do G7. O Ministro da Economia, é ungido dos mesmos interesses que o das Finanças. Eis, por que razão, se chega ao ponto de naturalizar gente à pressa, como sucedeu no país de Z, ou de os ir buscar às universidades da Ivy League, como sucedeu com Álvaro Santos Pereira ou Úrsula Van Der Lata.

    É essa passagem pelas instâncias formativas do poder internacional que confere a legitimidade governativa e garante a defesa dos interesses, mantendo a aparência da alternância de poder. O líder não escolhe as linhas mais importantes do seu exercício; antes, só chega lá o líder que se acomoda, porque, no fundo, a sua liderança é apenas mediática. Mesmo do ponto de vista da atuação governativa, hoje, nos países do Ocidente coletivo, toda a governação está normalizada, dando espaço a muito poucas nuances. Desde a economia, às finanças, ao trabalho, em todas elas, a UE (Comissão), O Banco Mundial, o FMI, o BCE, o FED, OCDE, todas estas instâncias emitem, não apenas, as “recomendações”, como as “avaliações”. Na atribuição dos fundos, a UE emite as “condicionalidades”. Não cumpres a condicionalidade, não recebes o dinheiro. E quem não perceber que isto funciona mesmo assim, de forma a garantir a estabilidade governativa dentro dos parâmetros de interesse da oligarquia globalista neoliberal, então não percebe em que mundo vive e não está preparado para participar democraticamente. Hoje, um país como o nosso, nem o IVA pode alterar sem autorização exterior.

    Este sistema afasta, de forma inexorável, as grandes decisões em relação ao processo democrático formalmente em vigor. O procedimento é simples: despojar o sistema democrático de qualquer iniciativa ou proatividade. Daí que Cavaco Silva tenha, aquando da Geringonça, feito o rol de normalizações a que o governo teria de obedecer, e apenas com essa promessa ele o viabilizaria. Percebem agora? Não há autorização para sair do itinerário, admitindo-se apenas mudanças de pormenor.

    Mas, a isto chamam “democracia”. Já quando um líder eleito exerce o seu poder, não deixando quem está fora decidir por quem está dentro, cumprindo o que prometeu ao povo, o sistema tecnocrático que funciona para a oligarquia, apelida o dirigente de “ditador”.

    Se aqui se prende o Assange e o Snowden tem de fugir, é democracia, se o mesmo se passar na Rússia, é ditadura. Se aqui se controlam, à palavra, as redes sociais, é democracia, se for o governo chinês a fazê-lo para proteger a soberania nacional e o povo, de qualquer ingerência externa, é ditadura. Se Adriano Moreira reabrir o Tarrafal é “mentira” ou, quanto muito é “complexo”.

    Se os EUA tiverem um Guantanamo, campos de trabalhos forçados e a Inglaterra tiver inventado os campos de concentração nas suas colónias, são democracias, se a URSS mantém alguns goulags do czarismo, é uma tirania.

    Obrigar os empresários a cumprir sanções que levam sectores inteiros à falência, é proteger a democracia. Se um estado nacionalizar ou condicionar a entrada de privados em determinados negócios, de forma a proteger a sua soberania, é ditadura, e por aí adiante. Tudo em função da pretensão e do posicionamento relativo face ao poder estabelecido.

    E perante esta dualidade que nega a análise, o debate e castra o nascimento de alternativas reais que respondam aos interesses do povo, como é suposto em democracia, acusa-se quem tentar explicar o que se passa de conivência com o inimigo, num processo inquisitorial que visa calar, condicionar, desmoralizar e desacreditar quem tenta lutar contra esta maré auto suicida.

    E neste auto suicídio assistido, temos como assistente mor Van Der Lata. A história de Úrsula é tão escandalosa como obscura. Casada com Heiko Von Der Leyen, Director do laboratório americano Biotech Orgenesis, especializado em terapias celulares e genéticas, e detido pela… Pfizer, Van Der Lata comprou 10 vacinas desta farmacêutica por cada cidadão da UE, gastando mais de 70 mil milhões de Euros, uma parte dos quais terão necessariamente revertido em bónus para os seus bolsos, via marido.

    Para se perceber por conta de quem ela governa, vejamos que quando o Parlamento Europeu lhe pediu os contratos assinados com a Pfizer, estes foram fornecidos com mais de 99% das clausulas tapadas, por razões de “propriedade intelectual”. Ou seja, uma tecnocrata gasta mais de 70 mil milhões do nosso dinheiro, e nem os contratos podemos ler, porque ela o diz. O processo de contratação pública foi por ajuste direto, o que descansa ainda menos, quando os escândalos que fizeram esta sinistra figura sair da Alemanha, foram precisamente os escandalosos ajustes diretos. Mas Úrsula estudou na Ivy League, e tem os mais elevados pergaminhos que lhe permitem aceder aos mais altos pódios. Fossem os órgãos de R&P próprios de democracias, e os telejornais teriam de abrir com declarações da diretora da Pfizer para a UE, dizendo como a farmacêutica nunca chegou, sequer, a testar as vacinas em matéria de transmissão do vírus entre pessoas. Apenas testaram para imunização e sem placebo, como foi denunciado nos EUA e como obrigam as normas internacionais. E tal como mentiram nas máscaras, mentem no resto, seja por omissão, seja descaradamente, principalmente porque sabem que os tentáculos do seu “polígrafo” nunca são longos o suficiente para chegarem à sua própria casa.

    Para quem não percebe como se produz um estado de letargia, aceitação e até de autodestruição de uma população, veja-se o caso do país de Z, em que os 5 oligarcas mais ricos detêm, igualmente, todos os órgãos de R&P de grande tiragem. Só assim convenceriam uma parte importante do povo que os antes irmãos, passavam agora a inimigos a abater.

    E enquanto colapsa o mundo liberal nascido há 500 anos, na era mercantilista (o liberalismo é a ideologia do modo de produção capitalista na sua fase imperial), vítima das suas insanáveis contradições, reduz-se a submissão do Sul Global (e da maioria da Humanidade) ao bloco ocidental, ao passo que os EUA aceleram o processo de pilhagem que outros começaram há 500 anos, numa desesperada corrida para manter a sua hegemonia. E neste quadro, eis que em Portugal se apresenta o nascimento de um partido liberal como uma “modernidade”.

    Se um partido liberal já não era moderno há 200 anos, quando se deram as revoluções liberais em Portugal, país sempre atrasado nestas coisas, hoje é simplesmente anacrónico, apenas aceitável e explicável pelo elevadíssimo grau de ignorância política, histórica e ideológica dos quadros corporate, empregados da oligarquia, os quais, dominando muitas vezes a técnica de forma magistral, não consubstanciam tal domínio numa coisa que faz falta a todos: a cultura geral. Só assim se pode acreditar que “liberal” é moderno, precisamente quando em Inglaterra, nos EUA e um pouco por todo o Ocidente, colapsa o que conhecemos por sistema capitalista liberal.

    Prova da natureza absolutamente predadora deste sistema, e da forma como tal se agudizou, desta feita para os povos ocidentais – antes mais protegidos da pilhagem, pois era no Sul Global que mais tropelias se faziam -, em resultado das dificuldades crescentes de manutenção dos níveis de dolarização e de ocidentalização das estruturas financeiras, comerciais e produtivas internacionais (e a China é de facto uma ameaça inultrapassável para o mundo capitalista liberal), o que dificulta a recolha de “almoços grátis” de que a recente redução da produção de petróleo da OPEC+, contra as pretensões e Washington, é apenas um exemplo, assistimos, hoje, a um agravamento brutal da exploração entre portas.

    Se com a crise de 2008 tivemos um ataque à divida soberana, que submeteu definitivamente as economias de países como o nosso, às exigências dos “credores”; se veio o Covid-19 que representou um prémio absolutamente pornográfico para a indústria farmacêutica privada, principalmente a americana, como usual; hoje, temos de conviver com a especulação energética, a qual, em cima das restantes, leva os lucros a subirem ao mesmo ritmo que se agravam as nossas condições de vida.

    Que jeito deram as sanções e a guerra. Se eu não soubesse quem a provocou, diria que era oportunismo. Mas não é… é mesmo planeamento. O controlo monopolista dos canais de transmissão de informação torna possível todo o tipo de tortura social, por ser possível garantir, com elevada taxa de eficácia, que só se fala do que não se deve e não se fala nada do que se deve.

    Agora, tempos de inflação, um verdadeiro imposto sobre os pobres. E enquanto se agravam as nossas condições de vida, distraem-nos com o medo do desconhecido… quanto menos os canais de R&P falam do que se passa no mundo, maior o medo em relação à diferença… quanto maior a ignorância, maior a manipulação.

    O medo é uma arma poderosíssima… Mas nunca para o progresso. Apenas para o retrocesso. Eu desconfio sempre dos sistemas que apostam no medo, ao invés da confiança! Ler as resoluções do G7, da NATO, do FMI ou do Fórum de Davos é como ler um livro de H. P. Lovecraft. É aterrorizante! Ao invés, experimentem ler as resoluções dos BRICS, da SCO ou da EAEU… Os primeiros apresentam-nos o inferno… Os segundos falam em futuro compartilhado… Uns falam em conter, boicotar, sancionar, pressionar… Os outros em construir, partilhar, cooperar…. Diria que já o tivemos por cá, mas não mais… Hoje é só distopia, passadas as promessas cor-de-rosa pós muro de Berlim. Muitos muros se constroem à nossa volta desde então.

    E com este medo se cava, ainda mais, o fosso entre o presente e o futuro!

    Sem análise do passado (análise histórica) e sem projeção do futuro, fica apenas um presente distópico, inultrapassável e esmagador…. Há algo melhor do que isto para a letargia? Há algo melhor, para quem manda, do que um sentimento conservador assente em ideias como: “é melhor parar, porque ainda pode piorar”; “é melhor deixar como está, porque há quem esteja pior”? Este reacionarismo, situacionismo e conservadorismo, mesquinho e tacanho, visa colocar-nos em choque… Porque em choque é-nos impossível agir.


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