A UE caminha sonâmbula para a anarquia

(Por Thomas Fazi, in a Viagem dos Argonautas, 08/10/2022)

Biden é o Padrinho… 🙂 Este excelente texto tinha que ser acompanhado por um excelente cartoon – in Resistir, 09/10/2022

Todos os olhos podem estar postos nos resultados das eleições italianas desta manhã, mas a Europa tem problemas muito maiores nas suas mãos do que a perspetiva de um governo de direita. O Inverno está a chegar, e as consequências catastróficas da crise energética europeia autoimposta já estão a ser sentidas em todo o continente.

À medida que os políticos continuam a elaborar planos irrealistas de racionamento energético, a realidade é que o aumento dos preços da energia e a queda da procura já fizeram com que dezenas de fábricas numa gama diversificada de indústrias intensivas em energia – vidro, aço, alumínio, zinco, fertilizantes, químicos – cortassem na produção ou encerrassem mesmo, provocando o despedimento de milhares de trabalhadores. Até mesmo o New York Times pró-guerra foi recentemente forçado a reconhecer o impacto “paralisante” que as sanções de Bruxelas estão a ter sobre a indústria e a classe trabalhadora na Europa. “Os elevados preços da energia estão a atacar a indústria europeia, forçando as fábricas a cortar rapidamente a produção e a colocar dezenas de milhares de trabalhadores em licença”, relatou o New York Times.

Os cortes na produção de zinco, alumínio e silício (que representam uns espantosos 50% da produção) já deixaram os consumidores das indústrias siderúrgica, automóvel e da construção europeia a enfrentar graves carências, que estão a ser compensadas por remessas da China e de outros países. Entretanto, as fábricas de aço em Espanha, Itália, França, Alemanha e outros países – mais de duas dúzias no total – estão a começar a abrandar ou a parar completamente a sua produção.

A indústria de fertilizantes, que depende fortemente do gás como matéria-prima chave, bem como fonte de energia, está em dificuldades ainda maiores. Mais de dois terços da produção – cerca de 30 fábricas – já foi interrompida. A importante empresa química alemã BASF encerrou temporariamente 80 fábricas em todo o mundo e está a abrandar a produção em mais 100, uma vez que planeia novos cortes de produção, dependendo do que acontecer aos preços do gás. Para piorar a situação, as sanções da UE também limitaram as importações de fertilizantes russos.

A diminuição do fornecimento de fertilizantes está também a ter um efeito de arrastamento dramático sobre os agricultores europeus, que estão a ser forçados a reduzir a sua utilização de nutrientes chave. Isto significa preços mais elevados para uma menor produção, e as consequências são inevitavelmente sentidas muito para além das fronteiras da Europa, provocando potencialmente uma escassez alimentar global.

Mas a escassez de fertilizantes não é o único problema enfrentado pelos agricultores europeus. Em toda a Europa do Norte e Ocidental, os produtores de vegetais estão a ponderar a suspensão das suas atividades devido aos custos energéticos paralisantes – em alguns casos dez vezes superiores aos de 2021 – necessários para aquecer as estufas durante o Inverno e manter as colheitas refrigeradas, para além do aumento dos custos de transporte e embalagem. O grupo da indústria das estufas Glastuinbouw Nederland diz que até 40% dos seus 3.000 membros já se encontram em dificuldades financeiras. Isto ameaça ainda mais o abastecimento alimentar – e levará certamente a preços ainda mais elevados dos alimentos que, juntamente com o aumento das contas de energia, é provável que leve milhões de europeus à pobreza. Por outras palavras, a crise europeia da energia e do custo de vida está em vias de se transformar numa crise humanitária.

No Reino Unido, prevê-se que 45 milhões de pessoas enfrentem a precaridade energética até Janeiro de 2023; como resultado, “o desenvolvimento de milhões de crianças será prejudicado” com danos pulmonares, stress tóxico e desigualdades educativas cada vez mais profundas, à medida que as crianças lutam para acompanhar o trabalho escolar em lares gelados. Perder-se-ão vidas, alertam os especialistas. Entretanto, no distrito alemão de Rheingau-Taunus, as autoridades realizaram uma simulação do que tal apagão significaria para elas, e os resultados são chocantes: mais de 400 pessoas morreriam nas primeiras 96 horas. E isto num distrito de apenas 190.000 habitantes.

Ora, estes números podem estar sobrestimados, mas o governo local não pode dar-se ao luxo de os ignorar. De facto, Gerd Landsberg, director-geral da Associação Alemã de Cidades e Municípios, exortou os residentes a armazenarem água e alimentos para 14 dias. Gerd Landsberg diz que a Alemanha não está “de forma alguma” preparada para tal cenário.

O que é importante compreender é que esta não é uma crise temporária em que tudo o que precisamos de fazer é ranger os dentes durante o Inverno, após o que as coisas voltarão ao normal. A realidade, como o Diretor executivo da Shell deixou claro recentemente, é que se os governos europeus insistirem em dissociar a Europa do abastecimento russo, o continente enfrentará escassez de gás “suscetível de durar vários Invernos”. É uma verdade amarga, mas simplesmente não há alternativa a curto prazo ao gás da Rússia. De facto, a Comissão Europeia prevê que os preços do gás e da eletricidade “permaneçam elevados e voláteis até, pelo menos, 2023”.

Dito de forma simples, se se mantiver no seu rumo atual, a Europa está a ter pela frente anos de contração económica, inflação, desindustrialização, declínio do nível de vida, empobrecimento em massa e escassez – e isto sem ter em conta a perspetiva aterradora de um confronto militar direto com a Rússia. Como pode alguém pensar que a Europa pode sobreviver a isto sem mergulhar na anarquia?

A loucura da situação torna-se ainda mais evidente  quando consideramos que, na sua tentativa de reduzir a sua dependência do gás russo, a UE está a aumentar a sua dependência dos fornecimentos de países como a China e a Índia – que, ao que parece, estão simplesmente a revender à Europa gás que vem da… Rússia (a um preço mais elevado, claro). Se a vida das pessoas não estivesse em risco, tudo isto pareceria uma piada de mau gosto.

É verdadeiramente um sinal da fraqueza dos políticos europeus que, apesar da proximidade do precipício, ninguém se atreva a afirmar o óbvio: que as sanções têm de acabar. Não há simplesmente qualquer justificação moral para destruir o sustento de milhões de europeus simplesmente para  dar uma lição a Putin, mesmo que as sanções estivessem a ajudar a atingir esse objetivo, o que claramente não estão.

E assim, de forma bastante deprimente, a única voz da razão parece ser a do primeiro-ministro da Hungria, Victor Orbán. Há semanas que ele e outros membros do seu governo têm vindo a alertar sobre a calamidade económica que a Europa enfrenta. “As tentativas de enfraquecer a Rússia não tiveram sucesso”, disse ele recentemente. “Pelo contrário, é a Europa que poderia ser posta de joelhos pela inflação brutal e pela escassez de energia resultante de sanções”. Esta é uma afirmação de facto, não uma simples opinião. Mas ninguém parece querer ouvir.

Em resposta, os tecnocratas em Bruxelas estão a provar ser tão insensatos quanto são os dirigentes  nacionais. Não só a delirante abordagem da UE à Rússia é uma das principais causas da presente crise, como a sua liderança continua a deitar gasolina na fogueira. Ainda este mês, Josep Borrell, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, disse que “a estratégia contra a Rússia está a funcionar e deve continuar” – e prometeu novas sanções.

Pior ainda, a UE não está sequer a fazer nada para ajudar a amortecer os efeitos da crise que ajudou a criar. Depois de abandonar a ridícula proposta de limitar apenas o preço do gás russo – o que teria levado ao corte imediato deste último – Bruxelas está agora a ponderar um limite a todas as importações de gás, o que até o Ministro de Estado alemão para a Europa advertiu que poderia levar a uma grave escassez.

A proposta também não tem em conta um facto básico: não são os exportadores de energia que estão a aumentar o preço do gás; este último está hoje ligado ao preço a que o gás é comercializado em mercados comerciais virtuais, como o TTF em Amesterdão, onde especuladores têm vindo a aumentar os preços durante meses, obtendo enormes lucros. Além disso, no mercado liberalizado de hoje, que se baseia no chamado preço de custo marginal, o preço final da energia é fixado pelo combustível mais caro necessário para satisfazer todas as exigências – neste caso, o gás. Isto significa que à medida que os preços do gás sobem, também a eletricidade, mesmo que mais barata, contribui para a mistura total.

Assim, se a UE levasse a sério a questão dos preços da energia, dissociaria o preço do gás dos mercados comerciais especulativos e reformularia o sistema de preços de custo marginal. Mas isso iria contra a ideologia fundamental dos tecnocratas europeus: a ideia de que os preços deveriam ser fixados pelos mercados. De facto, a UE estava entre os mais fervorosos apoiantes, contra o conselho de Putin, (n.t. – explicado num artigo da CNBC americana) da mudança de negócios de gás de preço fixo a longo prazo para um sistema em que o preço é fixado por mercados comerciais virtuais.

Dada a improbabilidade de uma reforma radical, o que fará Bruxelas a seguir? Muito provavelmente contentar-se-á com soluções mal cozinhadas – tais como um teto sobre o excesso de receitas feito pelas centrais elétricas que não são de gás e um imposto excepcional sobre os lucros excedentários – bem como com aquilo que faz melhor: aplicar a austeridade. Entretanto, o BCE, em vez de anunciar uma nova ronda de compras de obrigações para proporcionar aos governos o dinheiro de que necessitam para proteger os cidadãos e as empresas da subida dos preços do gás e da energia, começou a reduzir os seus programas de flexibilização quantitativa e a subir as taxas de juro, fazendo com que o spread entre as obrigações do governo a 10 anos emitidas pela Itália e Alemanha se alargasse aos seus níveis mais elevados desde que a pandemia começou. Isto poderia facilmente precipitar uma nova crise da dívida, que é a última coisa de que a Europa precisa.

Sem o apoio dos bancos centrais, os governos da UE têm sido essencialmente deixados à sua sorte. Mais uma vez somos recordados do que significa para os países do euro terem abdicado do poder de emitir o seu próprio dinheiro; não é coincidência que o Reino Unido por si só tenha alocado mais que 50% do que foi reservado pelo conjunto da UE.

Isto já está a conduzir para políticas que remetem para as costas dos outros os custos da resolução dos nossos problemas (beggar-thy-neighbour): países, como a Alemanha, que podem contar com os mercados financeiros para angariar o dinheiro de que necessitam para ajudar os cidadãos e as empresas, e nacionalizar ou socorrer os serviços públicos de energia em dificuldades, irão inevitavelmente ultrapassar os países mais fracos que já enfrentam dificuldades nos mercados obrigacionistas, como a Itália. De facto, isto já está a começar a acontecer, uma vez que cada vez mais países se envolvem no que só pode ser descrito como protecionismo energético.

Em teoria, a segurança do gás na Europa é regida por um regulamento adotado em 2017, que torna obrigatória a solidariedade entre os países europeus. Mas os países da UE nem sempre cumprem essas regras quando confrontados com uma crise de aprovisionamento. Assim, por exemplo, o jornal italiano La Repubblica noticiou recentemente que a Itália tinha recebido uma notificação escrita da EDF, empresa pública estatal francesa, relativa a uma potencial paragem de dois anos nas exportações de energia como parte dos planos de poupança de energia da França. Um porta-voz do Ministério da Transição Ecológica italiano confirmou mais tarde a reportagem do jornal, embora tenha sido negada pela EDF. Do mesmo modo, a Croácia e a Hungria anunciaram ambos que tencionam implementar medidas para limitar as exportações de gás natural para os países vizinhos. Enquanto a Noruega, que suplantou a Rússia como a maior fonte de abastecimento de gás da UE, obtendo lucros gigantescos à custa de preços de gás mais elevados, recusou-se assim a apoiar um limite de preços nas suas exportações de gás.

No entanto, embora lamentar tal “falta de solidariedade” entre os Estados europeus seja fácil, também é ingénuo. Afinal de contas, é simplesmente assim que o capitalismo funciona. Apesar de toda a conversa sobre “capitalismo global”, as nações individuais – ou melhor, as suas respetivas elites capitalistas – ainda estão envolvidas em competição entre si. Enquanto as classes dirigentes de países individuais estão mais do que felizes em colaborar na prossecução dos interesses do capital em geral à custa dos trabalhadores – basta olhar para a União Europeia – os seus interesses concorrentes ressurgem inevitavelmente em tempos de crise.

Na realidade, a UE, longe de encorajar a solidariedade entre países, torna a concorrência inter-capitalista ainda mais feroz, ao privar os países dos instrumentos económicos básicos necessários para lidar com choques externos. Não importa se o continente está a sofrer um colapso financeiro, uma pandemia global ou uma escassez de energia. Na Europa, as políticas de exportar os seus problemas para as costas dos outros não são uma exceção à regra – elas são a regra.

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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e o seu último livro, em co-autoria com Bill Mitchell, é Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017).


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Crise financeira: até o FMI teme o pior

(Yanis Varoufakis, in Outras Palavras, 07/10/2022)

Subitamente — e contra todos os prognósticos — o FMI, o xerife da ordem económica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.


Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.

Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?

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Três teorias surgiram sobre os motivos do FMI para se opor aos cortes de impostos do Reino Unido para os ricos. Uma delas é que o conselho do Fundo temia que a instituição tivesse dificuldade para arrecadar dinheiro suficiente, se Londres viesse a solicitar um resgate. Outra teoria, expressa pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, é que o FMI agora entendia que deveria mostrar imparcialidade em suas negociações com países ricos e pobres. “Quando há uma situação de crise ou políticas manifestamente irresponsáveis, é meio natural que o FMI faça algum tipo de registro”, disse Summers ao Financial Times, acrescentando: “Não acho que o FMI deva distinguir entre acionistas ricos e seus acionistas de mercados emergentes”.

Uma terceira teoria seguiu a lógica da conversão paulina, sugerindo que a declaração do FMI condenando as doações do governo Truss para os ultrarricos poderia marcar uma mudança radical na instituição sediada em Washington. De acordo com essa visão, o FMI estava percebendo que para salvar a ordem liberal internacional dos vários populistas autoritários ascendentes no mundo – como Donald Trump, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro – era preciso mudar sua missão para uma direção mais social-democrata.

Apesar de hipóteses interessantes, nenhuma dessas explicações se encaixa com a realidade à qual o FMI respondeu com a surpreendente declaração da semana passada. A noção de que Londres requererá um resgate grande demais para o FMI é absurda. A Grã-Bretanha é um país rico, que toma emprestado exclusivamente em uma moeda impressa pelo Banco da Inglaterra. Se o pior acontecesse, o Banco da Inglaterra poderia aumentar as taxas de juros para até 6% para estabilizar a libra esterlina e os mercados monetários. Uma taxa de juros nesse nível certamente demoliria o modelo econômico do Reino Unido dos últimos 40 anos, mas seria preferível a um resgate do FMI.

E tenho experiência em primeira mão que contradiz a teoria de que o FMI só agora, pela primeira vez, decidiu confrontar um país do G7 cujas políticas considera ameaçar a estabilidade financeira global. Em minhas negociações como ministro das Finanças da Grécia com o Fundo, em 2015, os principais funcionários foram abertamente contundentes sobre a rejeição do governo alemão de um plano de reestruturação total da dívida pública da Grécia; acusaram Berlim de minar a estabilidade financeira da Europa e, por extensão, do mundo.

Um ano depois, em uma conversa telefônica entre altos funcionários do FMI publicada pelo WikiLeaks, seu chefe europeu disse a um colega que o Fundo deveria confrontar a chanceler alemã Angela Merkel e dizer: “A senhora está diante de um dilema. Precisa pensar no que é mais caro: seguir em frente sem o FMI, ou escolher o alívio da dívida que achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo.” Nessa segunda teoria, o FMI agora deveria começar a agir em relação aos governos ocidentais da mesma forma que faz com os países em desenvolvimento.

Isso nos leva à terceira, e mais interessante, das três explicações: para salvar a ordem liberal global do populismo de direita, o FMI está se tornando social-democrata, até mesmo “woke”: como alguns conservadores britânicos têm acusado. A verdade, temo, é menos heroica. O que aconteceu na semana passada é simplesmente que o FMI entrou em pânico. Assim como outras pessoas inteligentes do governo dos EUA e do Federal Reserve, seus funcionários temiam que o Reino Unido estivesse prestes a fazer com os Estados Unidos e o resto do G7 o que a Grécia havia feito com a zona do euro em 2010: desencadear uma crise financeira num incontrolável efeito dominó.

Nos dias que antecederam a declaração de “mini-orçamento” do governo Truss, o mercado de US$ 24 trilhões de bônus do Tesouro dos EUA, cuja saúde decide se o capitalismo global respira ou engasga, já havia entrado no que um analista financeiro chamou de “vórtice de volatilidade”, algo não visto desde o crash de 2008 ou os primeiros dias da pandemia. O rendimento do título de referência de dez anos do governo dos EUA aumentou acentuadamente de 3,2% para mais de 4%. Pior ainda, um grande número de investidores evitou um leilão de novas dívidas dos EUA. Nada assusta mais as autoridades do que o espectro de uma greve de compradores nos mercados de títulos dos EUA.

Para acalmar os nervos dos investidores, as autoridades defenderam-se com mensagens tranquilizadoras. Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve de Minneapolis, resumiu o estado de espírito assim: “Estamos todos unidos em nosso trabalho para reduzir a inflação para 2% e estamos comprometidos em fazer o que precisamos para que isso aconteça.” Este foi o momento em que o governo do Reino Unido decidiu anunciar a política fiscal mais expansionista da Grã-Bretanha desde 1972.

As autoridades norte-americanas não foram as únicas a se preocupar. Dias antes desse “evento fiscal” do governo de Londres, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico – um órgão estabelecido pela União Europeia após a crise de 2008-2009 – emitiu seu primeiro aviso geral, confirmando que os mercados financeiros da Europa haviam caído no vórtice de volatilidade que se originou nos Estados Unidos. Os fornecedores de eletricidade da Europa faliriam devido a compromissos com pedidos futuros a preços exorbitantes, a poderosa indústria manufatureira da Alemanha fecharia por causa da escassez de gás natural e a dívida pública e privada subiria rapidamente.

Um choque financeiro extra do Reino Unido tinha o potencial de causar enormes efeitos colaterais em toda a Europa e além. Se o mercado subprime dos EUA pôde empurrar os bancos franceses e alemães para a beira de um precipício em 2008-09, essa última onda de choque da anglosfera poderia causar danos semelhantes, especialmente se abalasse o mercado de títulos do Tesouro dos EUA.

Diante dessa crescente tempestade transatlântica, a decisão do FMI de intervir não foi surpreendente. O único enigma restante é por que o FMI apontou ou ultrarricos como beneficiários da desigualdade ampliada pelos cortes de impostos do governo Truss. Embora a força das circunstâncias tenha mudado de forma significativa, duvido que isso signifique o fim dos instintos neoliberais do FMI. Muito mais provável é o seguinte: o FMI percebeu que as políticas de geração de desigualdade pós-2008, que ajudou a aplicar, mergulharam o capitalismo do Atlântico Norte em um estado de estagnação que agora é instável, e teme que esse vórtice de volatilidade piore com as novas medidas, e que isso criasse desigualdade ainda maior. Se o FMI começou a não gostar da desigualdade, é apenas porque a vê como causadora de instabilidade sistêmica.

Após o colapso financeiro de 2008, os EUA e a UE adotaram uma política de socialismo para banqueiros e austeridade para as classes médias e os trabalhadores. Isso acabou por sabotar o dinamismo do capitalismo ocidental. A austeridade encolheu os gastos públicos precisamente quando os gastos privados estavam em colapso, e isso acelerou o declínio dos gastos públicos e privados. Em outras palavras, fez despencar a demanda agregada na economia.

Ao mesmo tempo, a flexibilização quantitativa [quantitative easing] dos bancos centrais canalizou rios de dinheiro para o Big Finance, que o repassou para o Big Business, que, diante dessa baixa demanda agregada, o utilizou para recomprar suas próprias ações e outros ativos improdutivos.

A riqueza pessoal de alguns disparou, os salários da maioria estagnaram, o investimento desmoronou, as taxas de juros despencaram e os Estados e as corporações tornaram-se viciados em dinheiro grátis. Então, quando os bloqueios da pandemia sufocaram a oferta de bens e os auxílios governamentais aumentaram a demanda, a inflação voltou. Isso forçou os bancos centrais a escolher entre concordar com o aumento dos preços ou destruir os zumbis corporativos e estatais que eles alimentaram por mais de uma década. Eles escolheram o primeiro.

De repente, porém, o FMI viu a capacidade perdida do establishment liberal de estabilizar o capitalismo refletida no aumento da desigualdade econômica. Assim, a última coisa que os mercados precisavam, perceberam os tecnocratas do Fundo, era mais socialismo para os ricos. Mas seria preciso muita boa vontade para interpretar a reação de pânico do FMI como uma conversão sincera à redistribuição econômica e à social-democracia. Foi apenas uma advertência contra um ato de automutilação da elite.


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Bem-vindo à Terceira Guerra Mundial: Desfrute enquanto puder

(Por Declan Hayes, in Geopol.pt, 07/10/2022)

Graças à ganância, ao engano e à estupidez dos sátrapas da NATO, estamos onde merecemos estar, em vésperas da destruição.


Apesar do infeliz assassinato, alguns dias antes, em Sarajevo, do arquiduque Franz Ferdinand Carl Ludwig Joseph Maria da Áustria, Julho de 1914 foi mais calmo do que um rato em algodão, pois ainda ninguém se tinha apercebido dos horrores que se avizinhavam. O general Radomir Putnik, chefe do estado-maior do exército sérvio, estava a tomar as águas em Bad Gleichenberg, onde os austro-húngaros o prenderam prontamente. Helmut von Moltke, chefe do estado-maior da Alemanha, também estava de férias, tal como Erich von Falkenhayn, o ministro da Guerra do Kaiser. Embora houvesse alguma conversa de guerra na galante pequena Bélgica, os seus agricultores estavam mais preocupados com as suas colheitas e os seus habitantes estavam demasiado ocupados a trabalhar e a beber cervejas para se preocuparem com tais assuntos, apesar de, a 29 de julho, o primeiro-ministro belga Charles de Broqueville ter ordenado uma mobilização parcial do seu exército, apenas alguns dias antes de a Bélgica se juntar à guerra mundial que tinha começado um dia antes, quando a Áustria declarou guerra à Sérvia e desbaratou Belgrado antes mesmo dos sérvios terem tempo para considerar as suas exigências ultrajantes.

Oxalá pudéssemos regressar a essa belle époque, a era perdida dos intelectuais e artistas cosmopolitas do Velho Continente que morreram, como muitos mais, no sangue, no desgosto e no inferno na terra dos quatro anos seguintes. Mas, talvez, tudo o que tinha de morrer, como o que resta dele tem agora de morrer em resultado das exigências não menos escandalosas da NATO sobre a Rússia e sobre aqueles que falam russo.

Aqui, na Irlanda, de longe neutra, os tambores de guerra estão longe de ser mudos. Quando disse a uma celebridade muito conhecida como aceder à RT, ele teve medo de ser preso por se sintonizar a ela. Embora você possa acusar a sua aparente covardia ou, se preferir, a sua cautela, mas vivemos numa época em que Masha e Mishka são alvos legítimos e as obras de Tolstoi e Dostoevsky são incendiadas em Kiev.

Agora são esses contos infantis deliciosos da Rússia e os maiores dos grandes da literatura mundial. Depois foram os pastores alemães que tiveram de ser chamados de alsacianos, os dachshunds a serem agredidos, os açougueiros judeus que pareciam alemães a serem calcinados e os monáquicos católicos de Cork a banirem o grande estudioso celta Kuno Meyer, porque era alemão.

Os monárquicos católicos de Cork, aqueles repugnantes principescos que fizeram as suas fortunas armando a Marinha Britânica, não se foram embora. O ministro dos Negócios Estrangeiros irlandês Simon Coveney, um dos seus repugnantes, tem actualmente um lugar no Conselho de Segurança da ONU, que utiliza para insultar não só a Rússia, mas também os referendos que várias províncias ucranianas realizam para determinar se querem fazer parte da Rússia ou do Reich de alcatra de Zelensky.

Enquanto Coveney, tal como a abominável Coroa Católica de que faz parte, considera isto um abuso da democracia, eu considero-o, em relação aos precedentes irlandeses anteriores, como o próprio epítome da democracia ao estilo suíço e, de facto, da civilidade. Veja estes mapas para ver como os britânicos, com o seu bando de terror Black and Tan, entregaram a maioria (não Coroa) das populações católicas de Fermanagh, Tyrone, West Belfast, North Antrim, South Armagh e South Down a um bando de fanáticos anglicanos adoradores de rainhas que, quando não rebentavam católicos, também limpavam a área dos protestantes liberais ou de esquerda e do judeu estranho e arrogante.

Tal como com os católicos do Ulster, os odiosos príncipes de Cork entregues aos Black and Tans, os falantes de russo da Ucrânia oriental e meridional também não são filhos de um Deus menor. Também eles têm o direito de viver em paz e com dignidade e, como a NATO renegou deliberadamente em Minsk 1 e Minsk 2, têm razão em confederar com a Rússia para que possam desfrutar da paz que a NATO lhes nega. Nada de perus votando no Natal com esse lote.

Embora eu não discordasse publicamente dele em Kiev ou Cork por medo de ser amarrado a um poste de luz com as minhas cuecas estendidas à volta das canelas, o Reichsmarshall e chefe da Luftwaffe nazi Hermann Göring estava errado ao dizer que o povo não quer a guerra. Hoje em dia, grandes grupos de pessoas anseiam pela guerra, tal como os católicos da Coroa de Coveney rezaram por ela e recrutaram para ela em agosto de 1914. Há, como qualquer uma das famílias Coveney, Biden, Clinton, Zelensky ou Obama pode atestar, muito dinheiro a ser ganho com a guerra. E, como inúmeros criminosos de guerra americanos poderiam igualmente atestar, há aventura a ter, estrangeiros a serem assassinados, vidas e comunidades a serem destruídas e homens, mulheres, rapazes e raparigas a serem violados.

E depois há Hollywood, que ganhou mais dinheiro com o Vietname do que o que custou aos americanos pagar esse genocídio em particular. Tal como Black Hawk Down fez do abusador sexual infantil John Stebbins um herói e o American Sniper fez do assassino em série Chris Kyle um herói, também o faz a guerra na Ucrânia e o apocalipse que nos está a arrastar a todos para Hollywood uma oportunidade de retratar os mercenários americanos não como os vilões que são mas, como nos dizem Truss e Biden (Joe), os arautos da liberdade, da democracia e da tarte de maçã do Rato Micky como Hollywood os retrata.

O activo da CIA Matthew van Dyke daria um excelente herói de Hollywood, pois foi um mercenário de sangue frio contratado na Síria, Líbia e Iraque, tal como é agora um mercenário e, melhor ainda, um americano na Ucrânia. A transexual americana Sarah Ashton-Cirillo, que bombeia propaganda ucraniana de algum lugar dentro do Estado de Zelensky, poderia fornecer o interesse amoroso, até porque as notícias factuais não são coisa da América e nenhum americano está demasiado interessado em obtê-las, em qualquer caso.

Mas em breve, tudo poderá ser discutível. Israel está a ajudar os azeris a aniquilar os arménios, cuja única esperança é a Mãe Rússia, a China está a ver que não consegue assistir a esta conflagração na esperança de ganhos inesperados, a Turquia e a Arábia Saudita são os intermediários de paz mais improváveis e, como os africanos e os latinos já viram que são os últimos na fila quando a NATO dispensa fertilizantes e outros bens de primeira necessidade, é melhor calçarem os seus sapatos de caminhada e migrarem para o seu lado de centenas de milhões de Estados ou, pelo menos, para onde há comida e alguma perspectiva de sobrevivência.

Aqueles bálsamos, calmos antes dos dias de tempestade de julho de 1914 regressaram, mas com infinitas mais ameaças do que o filme de terror mais assustador de Hollywood poderia conjurar. A Ucrânia verá o armamento russo e aliado de alta tecnologia contra a NATO e o armamento aliado de alta tecnologia e exércitos de mulheres e crianças fugir sem sequer a esperança de melhores dias para lhes trazer consolo. Embora ninguém admita querer nada deste caos e eu, que já vi tudo isto antes, certamente que não, este é o fim do nosso caminho, a todos aqueles que votaram em Trump, Biden, BoJo, Blair ou Truss impuseram-nos a todos.

E quando a guerra acabar e se o parlamento de Westminster ainda estiver de pé, os deputados trabalhistas levantar-se-ão e queixar-se-ão, como o fizeram em 1919, sobre os conservadores que fizeram fortuna com esta carnificina e os simplórios ouvir-lhes-ão, como o fizeram em 1919.

Mas a realidade é que aqueles que votaram em Trump e Biden, Blair, BoJo e Bush, Obama e Truss, Coveney e Zelensky, Hitler e Macron são tão culpados como aqueles professores alemães que encorajaram Erich Maria Remarque e os seus amigos a marcharem para a sua ruína em Verdun, Passchendaele e o Somme para saciar os egos dos kaisers, reis e czares, que reinavam no topo de toda aquela confusão, tal como os nossos próprios senhores de plástico kaisers, reis e czares na matança que nos visitaram a todos das suas montanhas de dinheiro em Washington, Kiev e Londres.

Se, como canta a Cher, eu pudesse voltar atrás no tempo, isso não faria absolutamente nenhuma diferença. A Rússia e a China deram à NATO o benefício da dúvida no Iraque e milhões de pessoas foram assassinadas, tal como na Sérvia. Idem na Síria e o mesmo novamente no Iémen e na Líbia, onde a NATO voltou a cometer todos os mesmos crimes de guerra que a NATO faz melhor. Desta vez, não há tempo para voltar atrás, não há mais segundas Tróias, não há mais segundas oportunidades e isso é Lucas 16: 27-31 falando, não eu, não Putin, não Xi e não mais ninguém.

Lucas não é o único a dizer-nos que os líderes da NATO não dão ouvidos aos conselhos dos vivos ou dos mortos. O almirante da Marinha Charles Richard, comandante do Comando Estratégico dos EUA, disse-nos que estamos de volta ao país do Dr. Strangelove, que “um conflito armado directo com um colega com capacidade nuclear” como a Rússia e/ou a China e com tudo o que isso implica é agora uma possibilidade real. O antigo POTUS Donald Trump declarou que o conflito ucraniano “nunca deveria ter acontecido”, até porque pode “acabar por ser a Terceira Guerra Mundial”. E mesmo o realista desonesto Henry Kissinger tem apelado repetidamente à prudência, mas tudo isso em vão.

Hoje é terça-feira, 28 de julho de 1914. O feno é salvo, os nossos tanques de cerveja estão meio cheios e os deles meio vazios, o Campeonato do Mundo aproxima-se e, graças à ganância, ao desastre e à estupidez dos sátrapas da NATO, estamos onde merecemos estar, na véspera da destruição. Embora esta confusão pudesse eventualmente acabar no regresso dos dias de halcyon de 27 de julho de 1914, para evitar a aniquilação nuclear, a NATO não só tem de ser feita de pestanejar como tem de ser totalmente desmantelada e dissolvida. Não prenda a respiração.


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