Cercado

(Daniel Oliveira, in Expresso, 05/09/2020)

Daniel Oliveira

Vi milhares de peregrinos nas imagens de Fátima, a 13 de agosto. Umas vezes distantes, outras menos. Em geral de máscara, outras com ela no queixo. Mas confio que todas as cautelas foram tomadas. E aplaudo a tentativa de regressar à normalidade. Se temos de aprender a conviver com o vírus, deveremos muito aos mais organizados que avançarem primeiro, com regras. Pela falta de rigor, desproporção e ausência de contraditório, aquilo que a comunicação social tem feito ao PCP nestas semanas tem um nome: campanha. Portimão prepara-se para receber o MotoGP e a Fórmula 1, onde se esperam dezenas de milhares de pessoas. Bebi copos em Famalicão, à uma da manhã, em bares a funcionar ao ar livre com autorização camarária. Apinham-se pessoas na Feira do Livro e em inúmeros festivais. E uma das grandes preocupações é que a realização da Festa do “Avante!” contribua para o fim do corredor aéreo com o Reino Unido, impedindo que o país receba festas bem regadas de turistas ingleses. Até tivemos partidos que organizam jantares semanais incumprindo as regras aos olhos de todos a exigirem conhecer o parecer da DGS. Há uma pandemia de hipocrisia nacional.

Há uma pandemia de hipocrisia nacional. Mas o PCP tinha o dever de conhecer o sentimento das pessoas

A suposta proibição dos festivais de verão, legalmente evitável através de uma coordenação com a DGS e que uma busca nas agendas culturais desmente, teve como objetivo ajudar os seus promotores, desobrigando-os de devolver imediatamente o dinheiro da bilheteira. Mas com a queda da procura e a vinda de muitos dos músicos irremediavelmente comprometida (pelo encerramento dos corredores aéreos e a alteração de agendas) a realização dos maiores festivais era inviável. A Festa do “Avante!” não depende de músicos estrangeiros, as pessoas não vão lá por causa do cartaz, e a militância, não oferecendo enchente, garante os mínimos.

Os festivais de verão nunca abririam as portas nas mesmas condições que a Festa do “Avante!” o fará. Porque nunca poderiam garantir a sua rendibilidade. É por isso, e não por qualquer tratamento diferenciado, que a Festa do “Avante!” se realiza e os grandes festivais não.

Muito menos o fariam com as regras que a DGS aconselhou ao PCP, um cruzamento das medidas para as praias, concertos e as mais apertadas limitações à vida noturna. Propõem-se até soluções contraproducentes, como a proibição de álcool depois das 20h e a não realização de eventos simultâneos, pensadas para evitar ajuntamentos onde eles já serão inevitáveis. Mas nem isto acalmou a excitação política.

Sendo o PCP um partido, o critério para a sua conduta é sempre político. Está há meses a falar da festa, enquanto os seus concorrentes debatem a resposta à crise e os problemas dos trabalhadores. E, neste fim de semana, até podem fazer tudo bem que bastará um pequeno deslize registado por um telemóvel e serão mais umas semanas de novela.

O cerco em que se deixou enfiar era previsível. O PCP tinha o dever de conhecer o sentimento das pessoas e como o medo é manipulável. Sujeitar-se a este assédio sem um propósito político — é uma festa, bolas! — é sinal de perda de contacto com o país, que era a sua principal qualidade no passado. Isso não lhe tira razão. Tira-lhe força. E um partido sem força pode meter a razão no bolso.


5 pensamentos sobre “Cercado

  1. O texto do Daniel desenvolve uma argumentação extraordinária: o PCP foi vítima de uma campanha de ataque político sob o pretexto da saúde pública que não faz qualquer sentido, mas o PCP já devia saber com o que conta e, portanto, devia ter-se precavido e cancelado a festa do Avante. No fundo, é como culpar uma vítima de violação por estar a usar mini-saia. “O que é que a gaja queria? Estava mesmo a pedi-las.” Espero que isto não seja o início de um novo estilo, em que o presidente é especialista e que deixou muitos seguidores no Expresso e na comunicação social em geral, de dar uma no cravo e outra na ferradura, que se lixe o pensamento, as ideias, a lógica, vamos ser “ponderados”, “equidistantes” e “sensatos”.

  2. Um Pais de ignorantes ( o pateta do Ricardo Araujo incluido – a mim não me engana) que não vislumbram que o problema não está no PCP cumprir ou não cumprir ( e parece que cumpriu) mas sim no aumento da densidade populacional na Amora de origem desconhecida eventualmente até de zonas infetadas desconhecendo-se depois qual a origem de qualquer foco .

  3. Ah grande Daniel! Com o pretexto de estares a denunciar uma „campanha“ contra o PCP, fazes a tua. Ou o que é isto: „ [O PCP] Está há meses a falar da festa, enquanto os seus concorrentes debatem a resposta à crise e os problemas dos trabalhadores.“ ? Olha lá, pá, haverá alguma outra força política neste país que mais debata os problemas dos trabalhadores e apresente respostas à crise que o PCP? Valha-te Zeus! A Festa do Avante! para o PCP é o resultado lógico da sua organização, disciplina, espírito de luta e… muita confiança no futuro. Os „meses a falar da festa“ é o resultado lógico da tua percepção do PCP pelos canais insalubres de televisões e expressos. Contributo limpo para a tua percepção saudável do PCP: O PCP vive sob campanha do grande capital e seus sevandijas vai em breve fazer 100 anos – resultado lógico da sua fidelidade à luta dos trabalhadores e à dignificação do trabalho. „Cercado“… cuidado com as projecções ou, diz-me lá como te sentes a trabalhar no folheto do Balsemão?
    +++
    Ao „Barnabé“ da „mini-saia“: Mesmo que uma mulher vá nua não dá direito a violação. Quanto ao PCP é um partido que já sabe há 100 (cem) anos com o que que conta, como um trabalhador consciente que entra numa empresa já sabe o que o espera e com quem pode contar.

  4. Sempre achei que a organização da Festa do Avante, aí por Abril/Maio, viesse a terreiro informar que este ano a Festa não ia realizar-se: OMS e DGS, recomendavam. Tal não sucedeu. Suponho que deliberações deste tipo ou outro, estão a cargo do Comité Central do PCP. Perante os resultados ao nível da aderência verificada e consequente abalo financeiro (gostava que fôssemos todos inteirados disso), mais o que adiante se constatará aquando das próximas eleições, leva-me a observar um facto que de há muito existe dentro deste partido e que é o seguinte: esse Comité Central está a cair de maduro. Façam favor de lhe darem uma injecção de vitalidade. Ponham-lhe os lugares vagos e a concurso aí pelo menos 50%.

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