Há um plano de emergência para o vírus da crise económica?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/03/2020)

Daniel Oliveira

Com milhões de pessoas fechadas em casa um pouco por toda a China e a atividade económica reduzida ao mínimo, a fábrica do mundo está fechada. Só como exemplo, Shandong, cidade que acolhe refinarias responsáveis por um quinto das importações de crude chinesas, está praticamente parada. Monstros comerciais e industriais estão paralisados. Os efeitos económicos vão ser colossais. O Japão (os Jogos Olímpicos estão em risco), a Coreia do Sul e grande parte da Ásia estão a ser fortemente afetados. Pensem noutras crises, como a causada pela implosão do mercado imobiliário nos EUA, e facilmente perceberão que é pouco ao pé do que se pode avizinhar. Uns idiotas, na Europa, nos EUA e em Portugal, chegaram a especular sobre as vantagens económicas da crise na China. Não lhes ocorreu que antes de cá chegarem os clientes perdidos pela China viria o próprio vírus.

Esqueçam a Ásia. Pensem na Europa. Em Itália, em estado de sítio e fechada. Na Alemanha lenta, em Espanha em pânico. Imaginem o efeito de milhares e milhares de pessoas em quarentena, de empresas a meio gás, das escolas e universidades fechadas, da redução do consumo. Toda a economia europeia disfuncional. Prolonguem isto por meses. Imaginem que impacto terá na economia.

Esqueçam a Europa. Fiquem só em Portugal. Nem precisam de pensar em tudo o que vai funcionar pior ou na despesa pública que será necessária para travar o vírus. Ainda pouco aconteceu e a pressão política (ou aproveitamento político, depende do ponto de vista) já começou. E é quando isso acontece que se tomam decisões absurdas e irracionais para acalmar jornalistas e opiniões públicas mais impressionáveis.

Mas esqueçam a economia em geral. Pensem apenas no turismo, em que baseámos grande parte da nossa recuperação, apesar de tantos avisos sobre a enorme fragilidade dessa escolha. Bastaria um atentado para deitar tudo por terra, disse-se. Não nos lembrámos de um vírus. Não precisam de grande esforço para imaginar nada. A Bolsa de Turismo de Lisboa foi adiada para maio. Querem maior sinal do que vai acontecer do que o que é dado pelo próprio sector? Só nos resta rezar para que isto passe antes do verão.

Acho que já perceberam o meu ponto. Vem aí uma crise económica. Como anunciam as bolsas em queda a pique, vem aí uma brutal crise económica. Enquanto tentamos travar o vírus com os instrumentos que temos, sacrificando a economia em nome de vidas ou da segurança – escolha mais do que compreensível –, há quem tenha o dever de preparar a ressaca económica do coronavírus. A Europa já deu sinal de que será tolerante com derrapagens orçamentais que resultem do combate à epidemia. Não vos digo que é pouco. Digo-vos que é nada. Que é quase um insulto.

A Europa tem de preparar uma resposta coletiva a isto, não deixando de novo, como fez com a crise de 2008, cada um sozinho a enfrentar, com instrumentos naturalmente diferentes, a crise que se avizinha. Para descobrir, no fim, que se tivesse agido a tempo teria evitado uma crise à escala continental.

A metáfora do esforço coletivo para conter o vírus é excelente para não repetir os erros de 2008. Não se deixa instalar o pânico, esperando que a maleita destrua os que têm menos defesas. Faz-se um esforço coletivo para conter a epidemia. A Europa tem de começar já a discutir um plano europeu de relançamento económico. Para estar preparada quando a crise chegar. Não há segundas oportunidades. Se cometerem os mesmos erros de 2008 podem esquecer o projeto europeu. Os fantasmas que nos atormentam há mais de uma década tomarão de vez o poder. Comecem já, antes que seja tarde.

Portugal começou, e é caso para dizer que a receita é a de sempre: reduzir obrigações fiscais das empresas, que virão depois a ser pagas pelos contribuintes em IRS, facilitar o lay-off, levando a perda de um terço do salário dos trabalhadores abrangidos e rigorosamente plano nenhum para animar a economia. Como de costume, quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Talvez volte a falar desta sina.


5 pensamentos sobre “Há um plano de emergência para o vírus da crise económica?

  1. E o que é que devia estar a ser feito e não está?
    Gosto muito de ouvir ou ler críticas, mas gosto muito mais que quem as faz adiante soluções ou, pelo menos, alternativas.

    • http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=44488

      Os números são para a Austrália, mas qualquer coisa como isto:
      «Investing in green transition public infrastructure would be an ideal way to create sector-specific demand which will deliver long-term benefits, help the ailing construction sector and tie up funds for several years.
      The stimulus package also has to include a temporary injection of spending which could require anything from 1 to 3 per cent of GDP extra being sustained as long as the crisis is predicted to impact (tapered to approximate the trajectory of the disease impacts).
      One recent estimate is that real GDP in Australia will fall by 8 per cent as a result of this crisis. If that was realistic then the fiscal stimulus will have to be more than 3 per cent of GDP, on top of the 2 per cent required to redress the existing slack.
      Initiatives that would fall into this type of intervention would include one-off cash injections to low income groups as an example.»

    • Mudar de vida? a) Reduzindo os bens pessoais ao estritamente necessário? Dois ou três pares de sapatos por ex? e não 10 ou 20? Meia dúzia de camisas? em vez de 20? Automóveis de cilindrada limitada? b) E como compensar os postos de trabalho perdidos? Como manter a Zara que multiplica roupas e acessórios sem fim para o mulherio?
      De um dos Arroja (economista) em tempos: Portugal tem uma economia feminina.
      Devaneios de deformação profissional, com costela franciscana e leituras de Gaurama (dito Buda), talvez.

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