Os dois sinais de Costa

(Francisco Louçã, in Expresso, 31/08/2019)


A grande surpresa da entrevista de António Costa ao Expresso foi a sua imperícia. Que o PS definiu este tripé — exigir maioria absoluta, elogiar o PCP, atacar o Bloco — e não sai dele, isso não é novidade. Mas o primeiro-ministro costumava reservar para si um papel apaziguador e até vagamente de Cupido, com o doce “aceito namoro, casamento não”, deixando a Carlos César a função de matador contra o Bloco e a Ana Catarina Mendes a nada subtil exigência de uma maioria “absolutamente expressiva”. Não creio que esta duplicidade tão exibida tenha resultado, a crer nos resultados das eleições europeias, mas pelo menos evitava a Costa o desagradável papel do político ingrato, imagem que ele quer evitar a todo o custo. Agora, ser o experiente primeiro-ministro a atear a fogueira em que arderam as suas próprias opiniões, reduzindo a entrevista às cinzas de uma intriga politiqueira, uma “trica” como ele explicou no terceiro dia das suas justificações sucessivas sobre o mau passo, isso é surpresa.

Nervosismo eleitoral? Sondagens mal digeridas? Esgotamento do discurso dúplice? Arroubo de sentimentalismo, como sugere Marques Mendes? Não sei e, na verdade, importa pouco. Mas os dois sinais deixados na entrevista devem ser lidos com cuidado.

PISAR A PARCERIA

O primeiro sinal é o que vai ser o mantra da campanha eleitoral: vem aí uma crise, isto está mal na Alemanha, na Amazónia, nos Estados Unidos, em todo o lado, e por isso o PS quer maioria absoluta e não quer discutir com os partidos de esquerda soluções de governo e, muito menos, políticas concretas, dado que aqueles têm uma agenda social e se podem tornar demasiado exigentes quanto aos serviços públicos e ao investimento. Esta procissão ainda vai no adro e logo se verá como é enunciada. Mas é aqui que o PS corre os maiores riscos, se foge o bicho pega e se fica o bicho come: pedindo poder absoluto, lembra a sua última maioria e traz Sócrates para a campanha, o que, para os organizadores da campanha, é o mesmo que convidar o demo para a ceia de Natal; se não exige maioria, arrisca-se a não conseguir a dramatização que espera que lhe dê os votos hesitantes. A escolha está feita, vai ser mesmo clamar pela maioria absoluta e correr todos os riscos.

O ataque de Costa ao Bloco, sendo um favor eleitoral para este partido, só pode ser explicado por tal escolha. Pisar os parceiros dos quatro anos passados invoca algum calculismo e acentua a perceção da insegurança criada pela maioria absoluta, pelo que a resposta de Costa e da sua equipa será o anúncio de um apocalipse iminente na economia mundial.

Como é que a sua putativa maioria absoluta responderia a isso, é ainda um mistério e até desconfio que nunca será esclarecido. Para esta estratégia, é melhor um eleitorado assustado do que um que saiba que menu de medidas quer aplicar a tal maioria absoluta, se as exportações diminuírem e as contas externas ficarem em risco graças a uma recessão. Como a única resposta que é aceite na zona euro é a austeridade, é melhor nem falar nisso, pensam por certo os ideólogos do PS. É todo trôpego, quero a maioria mas nem pensem que vos digo para quê.

O ABRAÇO DO URSO

O segundo sinal são as frases que, pelo contrário, demonstram uma estratégia mais fria, as que se referem ao PCP, sob o manto diáfano de elogios desbragados. Esses elogios não resultam de uma história de devoção mútua, que é aliás uma confabulação, injusta para o socialista (social-democrata desde muito jovem, como ele próprio explica com graça), que lutou sempre pelas suas cores contra o PCP, e falsa para o PCP, que tratou da sua vida. Não, este elogio do primeiro-ministro tem uma leitura que não é de um estado de alma. É uma estratégia explícita: apresentar o PCP como um partido cordato e manejável. Fá-lo por duas razões também evidentes. A primeira é friamente instrumental, sugerindo um contraste com o Bloco, que seria rebelde. A segunda é criar uma ponte com o eleitorado do PCP, ou pelo menos limitar a sua área de expansão potencial. Essa estratégia foi prosseguida meticulosamente ao longo do último ano, nas negociações do Orçamento, nos debates quinzenais, até na Lei de Bases da Saúde quando, com algum descaramento, o Governo assegurava (falsamente, ao que se sabe) que tinha o acordo do PCP para incluir na lei as parcerias público-privado. Não foi uma efervescência da entrevista ao Expresso, tem pelo menos um ano que esta manobra é prosseguida meticulosamente.

Se isto vai ter um efeito eleitoral facilitando a votação no PS ou prejudicando o PCP está ainda por ver. Teve esse resultado nos processos eleitorais desde 2015, mas é tudo menos certo que agora se repita, estas eleições têm outro alcance. Há no entanto um impacto que merece atenção: estes elogios desvalorizam o sentido do discurso do PCP e pretendem torná-lo estranhamento ambíguo. Sempre que Jerónimo de Sousa enunciar a sua crítica dura ao Governo, às suas alianças com a direita na lei laboral, às insuficiências do programa económico ou à submissão às regras europeias, Costa responde, com condescendência, qualquer coisa como “eu adoro a confiabilidade do PCP”. O subtexto é poderoso, sugerindo que o discurso crítico é um biombo e que, no fundo, o PCP não constitui uma alternativa e é por isso apreciado em São Bento.

A estratégia condescendente, ou de urso de peluche, é prejudicial para toda a esquerda por isto: divide em vez de unir, cria animosidade partidária, recusa discussões centradas sobre objetivos sociais e, acima de tudo, pretende enfraquecer um dos pilares importantes das respostas das esquerdas. Como aqui abundantemente defendi, continuo a pensar que medidas de esquerda exigem a ação tanto do Bloco como do PCP. São precisos os dois conjugados para melhorar a relação de forças com o Governo. E, se a estratégia do urso de peluche resultar, os custos sociais serão profundos, em particular nos riscos de desagregação sindical ou de marginalização de sectores sociais que se reconhecem numa longa história política. Se é isto que fica da entrevista, é outro sinal de alarme.


A Amazónia condenada

A desflorestação da Amazónia foi metodicamente prosseguida por vários governos: de 1998 até 2005 foram mais de 15 mil km2 por ano (Fernando Henrique Cardoso), mas entre 2003 e 2005 subiu para 25 mil km2 por ano (Lula). Em 2019 ainda estamos longe desses números, mas o que é ameaçador é uma aceleração vertiginosa (em julho, a desflorestação foi três vezes mais do que ano passado, de 1800 km2) e, sobretudo, o impulso político por Bolsonaro a este saque. Agora, destruir a Amazónia tornou-se um programa de Governo. Na última década, a destruição desta floresta foi maior do que a área de França.

Ao contrário, na União Europeia, entre 1990 e 2015, a reflorestação abrange uma área equivalente ao tamanho de Portugal (mas Portugal não ajuda nessa estatística). Só que a Amazónia é particularmente vulnerável por dois motivos. Tem recursos minerais. E há a pressão da soja: na guerra comercial de Trump contra a China, a exportação de soja norte-americana para o mercado chinês está a fechar-se. Assim, a China pressiona outros eventuais exportadores e o Brasil é o maior. A Amazónia é a vítima da ganância e das guerras comerciais.


Quando não é defeito é feitio

Na anterior Comissão Europeia, foi um escândalo dos antigos: terminado o mandato, os comissários fizeram-se à vida e foram bater à porta de amigos e conhecidos. Um foi para a ArcelorMittal, outro para a Volskswagen, outro aterrou no Bank of America. A comissária da concorrência, Neelie Kroos, foi para a Uber. Durão Barroso, sabendo dos pormenores da crise financeira, foi para presidente do Goldman Sachs e por lá anda. Diz que esperaram os dezoito meses de recato que a lei exige antes de se fazerem aos negócios (agora a exigência subiu para esplendorosos dois anos).

Por isso, a iniciativa do atual comissário Gunther Oettinger, que está no cargo desde 2010 e agora tutela o orçamento, é um truque muito esperto. Ainda no seu posto, quais dois anos de espera, já criou uma empresa de consultoria política em Hamburgo, que vai dirigir quando sair das funções dentro de dois meses. Ninguém o pode acusar de servir um interesse económico. Servirá todos os que lhe pagarem.

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