Perguntem ao Marcelo

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 19/07/2019)

Ivo Rosa

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Pelo altíssimo prestígio conquistado na academia e na prática profissional, pelo longuíssimo protagonismo adquirido na política e na comunicação social, até pela aristocrática iniciação ao poder supremo recebida no berço cujo círculo se fecha ao ter chegado a Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa talvez seja o português-lúcido-residente-em-Portugal que está em melhores condições para identificar tentativas, goradas ou consumadas, de judicialização da política e de politização da Justiça. Podemos admitir que haja quem se equipare a ele nessa capacidade; não admitimos, nem com a imaginação à solta, que haja quem o supere.

Quando Armando Vara foi condenado a 5 anos de prisão efectiva pelo Tribunal de Aveiro – num processo onde não se encontraram provas de ter recebido qualquer verba de Godinho nem provado em tribunal ficou que este obteve qualquer benefício ilícito atribuível a Vara – Marcelo explicou o que se tinha passado: Marcelo e os factos jurídicos. Uma das formas de descrever a radicalidade da pena, a mais económica, seria ter dito que estávamos perante uma aberração judicial. Logo a seguir, seria dizer que Vara foi vítima de um suplício a mando de procuradores e juízes da República Portuguesa. Marcelo optou pela versão longa, tendo apresentado dois argumentos com que despachou o assunto em clima de festa. No primeiro, instituiu que “opinião pública” é o mesmo que “opinião publicada”, equivalência de imediato usada para estabelecer um nexo causal com a violência e carácter inaudito da condenação. Vara ia preso porque quem controlava a opinião publicada fez campanha para tal e os juízes foram volúveis ou cúmplices, lê-se à vista desarmada no seu subtexto. O segundo argumento fica como uma jóia retórica da melhor filigrana sofística, esse debochado exercício de apontar para uma intangível suposta tendência de valorização dos crimes contra o património para se justificar terem dado 17 anos e meio ao sucateiro (em ordem a se poder dar 5 anos de choça a Vara, né?) num caso onde os valores pecuniários aludidos são ridículos. A coisa termina com uma lição de moral, a moral dos mais fortes, em que Marcelo expressa a sua excitação e gozo com o castigo “exemplar” dado a Vara e outros pois tal iria atingir politicamente Sócrates e o PS.

Parece, então, de acordo com as doutas palavras daquele que se tornou “o mais alto magistrado da Nação”, que os juízes elaboram decisões também em reacção ao que encontram na comunicação social e que, supostamente, valorizam como retrato do sentir e querer da população. Tal não é necessariamente um mal, bem pelo contrário. A Justiça não é uma teologia, não é uma matemática, antes uma sociologia e uma hermenêutica. Deve ser, tem de ser, um sistema axiológico aberto ao presente e ao futuro. A Justiça subjaz como dimensão política fundadora e garante da coesão da comunidade. Por exemplo, há muito tempo que um escândalo, cada vez menos surdo, percorre a sociedade ao sabermos das argumentações usadas pelos tribunais portugueses para aumentarem o sofrimento e a injustiça a tantas vítimas de violência doméstica e de abusos sexuais. Nacos de prosa gongórica e aviltante quando não lunática, com a assinatura de ilustríssimos juízes, têm aberto a boca e os olhos de espanto e raiva a milhares ou milhões de cidadãos. Começar a assistir a mudanças nos critérios morais, psicológicos e antropológicos aplicados nos julgamentos de crimes desse foro, admitindo-se pela primeira vez na jurisprudência aspectos que deviam ser óbvios há séculos – como o de a eventual passividade da vítima não ser manifestação de consentimento, antes e muito provavelmente ser o efeito do pânico ou uma estratégia de sobrevivência – têm de ser celebrados mesmo que venham com vexante atraso histórico. O corolário é ambivalente, no entanto, pois se a influência mediática é bondosa quando corrige perversões e abusos judiciais, pela mesma dinâmica poderá suscitá-los nessa porosidade constatada. Uma Justiça que fosse apenas, ou que fosse alguma vez, o reflexo dos apetites e ódios da turbamulta seria a exacta negação da soberania e da liberdade.

Parece, então, que Marcelo Rebelo de Sousa é o português em Portugal a quem nos temos de dirigir para fazer a seguinte pergunta: na sua opinião de especialista em Direito e como cidadão que jurou defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa, isto do actual processo de linchamento em curso de Ivo Rosa pelos impérios comunicacionais da direita deverá saltar das capas da Cofina, dos títulos do Observador e do Expresso, dos textos do Público, e consumar-se em agressões físicas no meio da rua pelos populares mais voluntaristas?

A feérica vantagem de termos Marcelo em Belém neste tempo em que múltiplos jornalistas usufruem dos direitos consagrados na sua carteira profissional para perseguirem, coagirem e ameaçarem um juiz evita ter de gastar uma caloria a explicar que quando o esgoto a céu aberto cola a Ivo Rosa o cognome de “juiz dos poderosos” tal é feito com um objectivo político: difamar e caluniar por antecipação o que esse juiz venha a decidir no respeito pela Lei e pelos direitos fundamentais dos acusados no processo “Operação Marquês”. Tal como, simetricamente, o cognome de “super juiz” tem como objectivo validar qualquer abuso que Carlos Alexandre tenha cometido ou venha a cometer no seu combate contra os “poderosos/corruptos”.Marcelo sabe tão bem o que está em causa que ele próprio se serviu desse código quando comentou a prisão de Vara, o qual descreveu como um “privilegiado” e congratulando-se por ter sido condenado sem espinhas.

Marcelo está tão sensibilizado para a cruzada contra os “poderosos” que ofereceu o 10 de Junho a um franchisado do Ministério Público, um fulano que ganha muito dinheiro a tratar inocentes como condenados, a explorar a devassa da vida privada através dos instrumentos policiais do Estado, a fazer campanha pela redução dos direitos e garantias dos arguidos e dos cidadãos, a achincalhar pessoal e profissionalmente quem esteja sujeito a um inquérito judicial e ele tope que seja um alvo político para quem lhe paga, a usufruir e justificar os crimes cometidos por magistrados e jornalistas.

Um presidente da comissão organizadora do 10 de Junho de 2019 que, antes e depois dessa altíssima honra de Estado, espalhou a imagem de ser a Assembleia da República um local muito mal frequentado pois é onde os partidos com mais votos se reúnem para criar leis cuja finalidade é permitir aos políticos enriquecerem através da corrupção.

Pois é, Marcelo não carece que o ajudem a perceber o que se está a fazer a Ivo Rosa. Nessa matéria, podíamos outrossim esperar receber lições de um mestre. E se ele, ao lado do sistema partidário e até do sindicato dos juízes, assiste calado e sorridente ao espectáculo, se o que faz a Cofina sem o mínimo vagido de repulsa ou tímido protesto por parte de quem se considera “imprensa de referência” fica instituído como práxis a ser seguida pelos restantes órgãos de comunicação social, a única dúvida que resta é relativa ao tipo e intensidade da pressão que será necessária para obrigar Ivo Rosa a trair a sua consciência, a abjurar a sua responsabilidade, a fugir da sua coragem. Ora, estando em causa o processo judicial mais importante da História democrática e cuja politização começou ainda antes de haver arguidos constituídos, nós podemos não o saber mas sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República e tudo, o zelador-mor pelo “regular funcionamento das instituições democráticas” e cujo dever implica pronunciar-se “sobre todas as emergências graves para a vida da República” que não só jogos da bola e acidentes de trânsito, sabe. Sabe-a toda.


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Desvairados

(In Blog O Jumento, 17/07/2019)

O pobre do Rui Rio não sabe o que propor, o Santana Lopes há muito o abandonou, os vice-presidentes que escolheu parece terem-no abandonado, o Morais Sarmento não se deixa ver. É evidente que o PSD já quase não existe e o CDS parece ter fechado para obras; até colocaram um outdoor apenas com um fundo azul informando os clientes de que estarão a preparar o futuro.

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Não admira que estejam a surgir freelancers a fazer oposição com o que podem. O bastonário da Ordem dos Médicos está promovendo uma campanha itinerante junto de todos os hospitais do país, propalando uma imagem desastrosa do SNS, uma verdadeira campanha publicitária a favor dos hospitais privados.

Se na campanha de Passos Coelho o centro das atenções foram as escolas privadas, parece que desta vez tudo se faz para destruir o SNS, levando a que os dinheiro públicos sejam canalizados para o setor privado. Depois de uma greve cirúrgica de enfermeiros financiada de forma duvidosas e que apenas resultou na transferência de doentes para os hospitais privados, parece que agora se assiste a um verdadeiro assalto ao SNS. O próprio Rui Rio apressou-se a dizer o que querem, que o SNS seja um serviço de encomendas ao setor privado.

Quem anda um pouco em baixo é a conhecida militante da extrema-direita chique do catedrático Passos Coelho, algo que se compreende, a rapariga tudo faz para impedir uma sindicância à sua Ordem, talvez por recear por eventuais rabos-de-palha, Agora encomendou uns pareceres a que atribuiu o estatuto de acórdãos do Constitucional, achando que os pode usar para desrespeitar a Lei.

Depois das greves dos enfermeiros e dos professores esta gente deveria ter parado para refletir, pelos resultados das eleições europeias poderiam ter reparado que esta estratégia de fazer a vida dos portugueses num inferno, na esperança destes se virarem contra o governo não deu qualquer resultado, e até o PCP pagou caro o uso e abuso de um Mário Nogueira que já ninguém consegue ouvir.

A Fátima Bonifácio, lá do cimo da sua inteligência, achou que ela é que ia resolver o problema, a solução era virar os portugueses contra pretos, emigrantes e ciganos: o racismo e o medo é que iriam ajudar Rui Rio e Cristas. Decidiu lançar o mais execrável manifesto racista e xenófobo, tão execrável que deu mais uma machadada na direita. 

A verdade é que depois do que Passos Coelho fez aos portugueses e a instituições como o SNS, estas estratégias viram-se mais contra a direita do que contra o governo e os resultados das sondagens mostram isso. Palermas e incompetentes… por este andar é a direita que fica em estado de coma e nem os donos dos hospitais privados a salvam.


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Ursula: tudo está bem quando continua mal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/07/2019)

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Confesso que me comovi quando Pedro Marques pediu para “reconstruirmos a Europa dos nossos sonhos”. A política europeia tem a grandiosidade de uma grande ópera com a plateia vazia. Está lá toda a pompa e circunstância, só não faz grande diferença porque ninguém está a ver. Disse o ministro sem obra emprateleirado em Bruxelas: “Os europeus esperam nada menos do que cinco anos de redenção do projeto europeu depois de dez anos de crise e hesitação”. Os sinais de “redenção” não podiam ser mais claros na escolha de uma alemã que não era candidata e não participou na fraude encenada em que estiveram seis indivíduos que se fizeram passar por pretendentes ao lugar de presidente da Comissão Europeia. Mas ninguém pode acusar a União de não levar as suas fantasias até ao fim. Durante horas, jornalistas e deputados mantiveram um suspense interessante.

Não quero desmerecer os talentos pirotécnicos das instituições europeias. Antes de ser confirmada a nomeação, a senhora Ursula von der Leyen teve de mostrar as suas capacidades de contorcionismo. Não houve nada de bondoso que não defendesse. Vai acabar com a política criminosa para com os refugiados aplicada pelos países que, vetando Timmermans, abriram a porta à sua nomeação. Quer um subsídio de desemprego imposto pela mesma Europa que exigiu a sua redução nos países em crise.

E a mulher que passou à frente de todos candidatos, desrespeitando os deputados eleitos, jura que vai defender o direito de iniciativa do Parlamento Europeu. Tudo o que era impossível até esta terça-feira e continua impossível hoje será possível amanhã, por milagre de um discurso contraditório e convenientemente gasoso em tudo o que fosse difícil. Mas sempre muito verde, muito social, muito inspirador, muito Hino da Alegria.

Que não se pode deixar aqueles deputados à míngua de qualquer coisa que se pareça com política. De tal forma inspiradora que o obreiro da Frente Progressista para afastar o PPE da liderança da Europa lhe deu apoio ainda antes de Ursula falar.

O descaramento no desprezo pelo Parlamento criou mesmo problemas. Antes de ser confirmada a sua nomeação, Ursula von der Leyen teve de mostrar as suas capacidades de contorcionismo. Não houve nada de bondoso que não defendesse

A meio deste texto fiquei a saber que a candidata foi mesmo eleita. Suspiro de alívio. Imaginem que se confirmava o aviso de António Costa antes de ter dado o apoio à nova presidente e que os deputados se irritavam com a desvalorização de que foram vítimas? Imaginem que levavam a sério o apelo de “coragem” feito pela própria Von der Leyen? Era todo um edifício de aparências que desabava, obrigando quem manda a mostrar que manda, revelando assim aos crentes as mentiras da fé. Felizmente, está tudo bem. Houve um debate entre seis, venceu a sétima, os eurodeputados simularam o suspense para parecer que a escolha dos governos também foi sua e a senhora foi obrigada, durante umas horas, a prometer que tudo vai ser diferente do que está a ser. Todos cumpriram o seu papel. E isso é que interessa.

Claro que o descaramento no desprezo pelo Parlamento criou mesmo problemas. Mais por uma questão de poder do que por substância política. A eleição podia ter corrido mal. Para garantir que os deputados engoliam o seu orgulho sem dar muito nas vistas, Ursula von der Leyen teve de dizer a cada grupo político de que dependia a sua eleição o que cada um deles queria ouvir. Mesmo que fossem coisas contraditórias. Nos próximos anos, talvez nos próximos meses, confirmaremos a quem mentiu. Se seguir a tradição, os socialistas terão cumprido esse papel. A questão é saber se foram enganados ou se o quiseram ser.