O problema da direita face ao PS: Tweedledee e Tweedledum

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/06/2019)

Pacheco Pereira

(Excelente metáfora e excelente texto do Pacheco Pereira. A verdadeira causa das coisas é que, ao centro, o PS e a direita são iguais, no essencial. Portugal, provavelmente, atrasou-se uma década no processo de “pasokização” dos socialistas, devido ao efeito da Geringonça que se está a esgotar, como se vê agora com a Lei de Bases da Saúde. Os eleitores vão começar a perceber que, no essencial, Mr. Dee e Mr. Dum não se distinguem. As próximas eleições podem ser já uma verdadeira caixinha de surpresas.

Comentário da Estátua, 22/06/2019)


No quarto capítulo do Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol, Alice está perdida num bosque e a noite aproxima-se. Encontra o par Tweedledee e Tweedledum, a quem pede ajuda. Mas estes não são capazes de a ajudar porque estão envolvidos num conflito qualquer. A querela é sobre uma ninharia e, quando estão preparados para se batalhar por essa ninharia, aparece um corvo negro e fogem cada um para o seu lado. Vamos admitir que Alice representa os portugueses, comparação que é um elogio aos portugueses. E que Dee é o PS, e Dum o PSD e o CDS, ou vice-versa, comparação que não é um elogio para ninguém. E que o “corvo negro” é a “crise” ou o Diabo. Olhemos pois, a esta luz sombria, a célebre “crise da direita”.

Há “crise da direita”? Há e faz parte da “crise de regime”. Por que razão a direita é ineficaz, quer na versão moderada de Rio, quer na versão agressiva de Cristas, quer nos micro-partidos da Aliança, da Iniciativa Liberal, ou do Chega!? Porque são como os dois Tweedle: iguais. Alice distingue-os só porque um tem escrito Dee e outro Dum no colarinho. O facto de se guerrearem também é irrelevante, porque percebe-se que são tão iguais que estão sempre a pegar-se um com o outro. Iguais no fundamental, peguilhentos no acessório. Tweedledee e Tweedledum.

Veja-se em detalhe essa igualdade. Quais são os dois aspectos mais estruturantes da política nacional? O “rigor orçamental” e o “cumprimento das regras europeias”. Na verdade, são uma e a mesma coisa, só que as “regras europeias” não são europeias, mas apenas as dos países que assinaram o Tratado Orçamental. O descalabro dos serviços públicos, o caos na saúde, o mau funcionamento da administração pública, a gestão dos restos orçamentais, a quebra do investimento público, a alta carga fiscal, tudo isto depende do principal, mas não é o principal, é o acessório.

Como é que, no contexto do poder e da oposição, alguma vez a oposição, apenas criticando a performance da situação e não as suas opções de fundo, pode alguma vez ser alternativa? E como é que a direita pode fortalecer-se quando do outro lado há um partido, um primeiro-ministro e um ministro das finanças que fazem de forma mais consequente a mesma política que eles fariam? Sim, porque a política do “rigor orçamental” e do “cumprimento das regras europeias”, é não só de direita, como representa o núcleo duro da política de direita por essa Europa fora, que teve e tem o beneplácito dos socialistas. Tweedledee e Tweedledum.

A haver alteridade de política, ela devia manifestar-se no principal, nas causas, e não no acessório ou na gestão dos efeitos do principal. Porém, muito significativamente, estes aspectos centrais e causais são os menos discutidos no debate político entre o PSD, o CDS e o PS. Por uma razão muito simples, todos estão de acordo com os pilares da política que é seguida por Costa-Centeno e participam do “consenso europeu” sobre o qual o Presidente zela. Tweedledee e Tweedledum.

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A partir desta igualdade essencial, o discurso da diferença procurado pela direita manifesta-se em mil temas que, desdobrados em mil questões, são a agenda comunicacional e política, mas nenhum permite uma crítica de fundo, que comece na raiz e depois passe para o resto da árvore. E, acima de tudo, há também um problema de legitimidade: o Tweedle sem poder não está inocente das principais opções que decorrem do “rigor orçamental” e das “regras europeias”. As políticas que agora revelam os seus efeitos perversos começaram quando o Tweedle que agora protesta tinha poder, e o que agora tem poder não o tinha à altura. A saúde está mal com Costa-Centeno? Paga-se o preço dos cortes de Passos. Os serviços públicos não funcionam com Costa-Centeno? Começou tudo nos anos da troika com o PSD e o CDS a governarem. Os impostos são altos? Pergunte-se a Passos, Portas e Cristas? Tweedledee e Tweedledum.

Acresce que um dos dois gémeos, não sei de Dee ou Dum, é mais simpático do que o outro, tira o dinheiro aos portugueses com impostos agressivos, mantém a desigualdade no mundo laboral, deixa o estado cair aos bocados, mas não insulta aqueles a que faz pagar por “viverem acima das suas posses”, distribui mais alguma coisa, e não quer fazer engenharia social como no tempo da troika-Passos-Portas. O outro Tweedle resmunga, “estragaste-me” o brinquedo, temos pois que batalhar. E batalham, batalham, fazem muito barulho, mas é uma fúria inconsequente. Tweedledee e Tweedledum.


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16 pensamentos sobre “O problema da direita face ao PS: Tweedledee e Tweedledum

  1. O maior falhado político da Democracia portuguesa ataca de novo segundo uma manhosa retórica e encenação literária e através de uma analogia simplória e infantilóide sem qualquer correlação com a complexidade e importância da acção política e da gestão actual da pólis. O Pacheco sem o querer dizer diz, à maneira de Jerónimo, mas sem baixar sua persona ao ditado popular, que PS e PSD são farinha do mesmo saco.
    E, partido dessa ideia partidariamente interesseira toca de igualizar e rasoirar pela mesma bitola a governação de Costa e de Passos nos quais as diferenças entre ambos são para Pacheco “ninharias”. E exemplifica como tais ninharias aquela de Passos insultar os portugueses por dizer que viverem acima das suas possibilidades. Para o falhado, Passos não insultou pelas brutais medidas que tomou contra os portugueses por ter ido “além da troika” como expiação de culpa mas sim, calculem, porque disse que andaram a viver além das posses; uma “inocente” ninharia.
    E desata em descrever medonhas igualdades como, “Sim, porque a política do “rigor orçamental” e do “cumprimento das regras europeias”, é não só de direita, como representa o núcleo duro da política de direita por essa Europa fora, que teve e tem o beneplácito dos socialistas. E, de seguida um e outro, são um só para o psd Doutor Pacheco. Aliás seguindo as suas próprias pisadas e imitando os bloquistas de que a UE é um Diabo esquecendo de passagem as divergências e tomadas de posição de Costa contra o que tem sido até aqui a actuação da actual direcção da UE e a actuação de Passos que foi sempre mais papista do que o papa ao lado do coxo alemão.
    De espantar é a adesão, de gente informada, a esta tese pachequiana vindo de alguém cuja política ideológica e prática foi sempre apoiar Cavaco e Durão e Passos (aqui com arrufos como a ninharia acima) e Durão que nunca foram mais que políticos que, além de corruptos, só governaram e legislaram para criar desiguladades sociais infernizando a vida da “gente banal” na expressão do “pensador” feito a marcelo no dia 10.
    E de espantar e deixar incrédulo qualquer democrata é alguém sentir regozijo pela próxima pasokização do PS e mais ainda sentir tristeza porque essa pazokização não se ter dado ainda e ter sido retardada por motivo da geringonça.
    Querer a pazokização do partido garante da Democracia e seu fiel de balança é, precisamente, querer não a pazokização do PS mas sim a do sistema democrático do país. Pois a pazokização in sítio deu no que deu tal qual em Itália, Inglaterra e todo o lado onde tal aconteceu ou caso semelhante.
    E, grande ingratidão da política, os partidos tipo Bloco em nada aproveitaram do facto.

    • Caro Neves

      Eu não quero e lamento a pasokização do PS. Mas olha, com a politica que está o PS a seguir aliando-se ao PSD em questões essencais, é para lá que vai, inexoravelmente. Pergunta ao César e ao Santos Silva e já agora ao Assis o que eles acham de repetir a experiência de uma outra qualquer Geringonça que eles fazem-te o desenho. Ora, quando o PS executa as politicas de pauperização dos serviços públicos tal como o Passos e o Gaspar fizeram, a única diferença é que o Passos o fazia com gosto, enquanto o Centeno alega que “não há dinheiro”. Esta última de aprovar o fim das taxas moderadoras e agora andarem para trás é a maior palhaçada da vida política portuguesa das últimas décadas. Se acham que é com “encostos à direita” que vão à maioria absoluta devem estar bêbados. Esse sim, é o caminho inclinado para a pasokização, não porque isso me agrade mas porque é a escolha que o PS está a fazer, sem que ninguém o empurre. Daí que, apesar do mau currículo do Pacheco que sempre invocas, o homem não deixa de ter razão no texto que escreveu.

      • Caro Estatuadesal,
        Se acha que o governo de Passo é o mesmo que o actual governo de Costa, excepto “ninharias”.
        Se valoriza a “pauperização” em detrimento do valioso aumento de rendimento das famílias, precisamente, daquelas que utilizam os transportes públicos e que é divido, exactamente, à maior medida social tomada nas ultimas décadas.
        Se não percebe que as “pauperizações” em todas as áreas não é mais, ou não é muito mais, que o coro da direita através dos mídia.
        Se não entende que com o slogan da “pauperização” está a ir atrás do Pacheco e da direita reaccionária a citar o PSD e o CDS, todos os jornais e Tvs, os doutores psd das “Ordens” de médicos e enfermeiros e alguns dos seus braços atrás dos arbustos que todos os dias detectam uma falta qualquer em qualquer departamento de qualquer hospital.

        Então, caro Estatuadesal acho certo que ache que o Pacheco tem razão.

        • «Se valoriza a “pauperização” em detrimento do valioso aumento de rendimento das famílias, precisamente, daquelas que utilizam os transportes públicos e que é dEvido, exactamente, à maior medida social tomada nas ultimas décadas.», cito.

          […] «O passe é um incentivo a ir morar para o mais longe possível, para uma terra onde ainda não custe os olhos da cara viver, para uma terra que as pessoas mais privilegiadas não conheçam nem sejam obrigadas a ver.» – Miguel Esteves Cardoso.

          Nota, um. Perante o caso da compra em segredo de um duplex T4 no valor de 645 mil, em Lisboa, ou perante quem se passeia alegremente com a família entre os salões da CML e os do governo do PS, isto dá que pensar.

          Nota, dois (para ti). Toma lá, José Neves, que deverias dar graças ao Altíssimo por as pessoas terem atenção às milhentas bacoradas que escreves por aqui (n’A Estátua de Sal, por ali e acolá). É do excelente Miguel Esteves Cardoso, um dos tais que fazem par com «o Pacheco e da direita reaccionária a citar o PSD e o CDS, todos os jornais e Tvs, os doutores psd das “Ordens” de médicos e enfermeiros e alguns dos seus braços atrás dos arbustos», uff!, e que hoje por hoje, não por acaso, dá uma excelentíssima entrevista à Bárbara Reis no jornal da Sonae. Sobre Lisboa, e do que cá se passa, sabes nada, de Política portuguesa nada percebes, e olha que, apesar de não ter como ambição fazer de ti alguma coisa, pensa um bocadinho antes de (com quem vê mais longe, é o caso).

          https://pbs.twimg.com/media/D3P21QVWkAAzUDK.jpg

  2. > Na verdade, são uma e a mesma coisa, só que as “regras europeias” não são europeias, mas apenas as dos países que assinaram o Tratado Orçamental.

    Alguém precisa de reler os tratados de Roma, Maastricht e Lisboa. Ou pelo menos olhar para a quantidade de coisas no programa de Corbyn (e dos socialistas europeus para estas europeias) que são pura e simplesmente ilegais.

    • Pacheco. És um verdadeiro guru da politica ecdo viver à mama dela, seja na comunicação social tipo camaleão ou seja nos proprios partidos. Tão independrnte que és…

  3. Off.

    Da série “Alguém me sabe dizer se o Rui Santos no Tempo Extra também vai criar um daqueles contadores que, de vez em quando, nos lembram quantos dias é que DN se aguentou moribundo antes de morrer?” (especial Aspirina B)

    Franciscanismo ou segurismo?
    21 Junho 2019 às 16:06 por Valupi 1 Comentário, WOW!!!

    O nome das coisas
    20 Junho 2019 às 14:29 por Valupi 7 Comentários, SETE!!

    Citizen Karvalho
    19 Junho 2019 às 9:41 por Valupi 4 Comentários, QUATRO!

    Rui Esgoto
    18 Junho 2019 às 15:50 por Valupi 2 Comentários, QUANTOS?

    Exactissimamente
    17 Junho 2019 às 14:16 por Valupi 2 Comentários, SÃO QUANTOS MESMO, PÁ?
    (o link é o do elogio ao tal irmão desconhecido do Bastos, o Zé Pedro)

    Revolution through evolution
    16 Junho 2019 às 16:24 por Valupi 2 Comentários, DUQUES?!

    Crise na direita by Dilbert
    14 Junho 2019 às 12:19 por Valupi 1 Comentário, UI?

    Notas, três (state of the art).

    7 posts, 10 mil caracteres, 1500 palavras, 43 parágrafos e 160 linhas é este o labor semanal do queridinho Valulupi no seu Aspirina B (semana de 14/21 de Junho).

    21 comentários no total (1+7+4+2+2+2+2+1=21), o que dá a média impressionante de três comentários por postagem!

    Quem é mais lido, afinal? As tangas da Fernanda Câncio no DN? Os posts da firma Valupi, Tangas & C,ª, Limitada no Aspirina B (inclui as centenas de links para as fofuras da Fernanda Câncio, no site do DN)?

    DN e Aspirina B, autópsias.

    • Telegrama.

      José Neves, porreiro pá!, tens de passar URGENTEMENTE a MC do Aspirina B que só tu, com tanta esperteza e um estilo literário imbatível, pode salvar a socratologia lusófona que tanto custou a ganhar. Posso contar contigo?

      Assinado: José Sócrates, hoje.

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