Três anos, seis meses e uns dias

(Virgínia da Silva Veiga, 04/05/2019)

Diariamente, recebia notícias de empresários compelidos a encerrar as suas empresas. Eram, em alguns casos, pessoas cujos negócios vinham de gerações, cuja vida fora dedicada às empresas, que nada mais sabiam fazer, cujas idades não permitiam já a esperança de lograr um emprego por conta de outrem, num mercado, aliás, arrasado pelo desemprego.

Choravam por si e pelos empregados que tentaram sustentar até ao limite de lhes pagar do próprio bolso, com as poupanças de uma vida. Gente que ficou sem nada, pessoas que tendo trabalhado vidas inteiras no mesmo local de trabalho o perdiam sem ter sequer onde buscar novo emprego.
Sem um cêntimo ao fim do mês, dívidas e mais dívidas. Trabalhadores despedidos das empresas falidas aceitavam poder trabalhar – ainda se aceita – por um terço dos vencimentos a que estavam habituados, empregos desqualificados a que nem imaginaram algum dia ter que recorrer. Carreiras destruídas, sem retorno.

Hoje agradecem ter trabalho, a bênção de um salário mínimo, agora qualquer coisa acrescido, sorrindo, mais que ao miserável e exíguo ganho, à convicção de que ainda há-de vir melhor. De caminho, eram muitos os que acorriam ao meu escritório, pessoas cuja vida era pautada por ser cumpridor, dilaceradas. Traziam as acções executivas quase sempre fora de prazo para deduzir qualquer oposição, de braços caídos, tolhidos de vergonha, a perder casas, já sem carros, vendido o ouro da família a preço de agiotas.

Instalava-se-lhes um desalento, uma mágoa, uma raiva vinda das entranhas de quem a tudo somava um complexo de culpa por, afinal – acreditavam – terem feito qualquer coisa de errado. “Eu devia ter feito de outra maneira”, “eu devia estar parvo”, “para que é que eu fui fazer isto ou aquilo”, “se não fosse ter …” . E davam as consultas de questões de direito em verdadeiras sessões de terapia, de ânimo, às vezes sem já saber o que dizer e, bem pior, o que fazer…. Chegada a noite, tardava-me o sono: chorava por mim ou por eles? – perguntei aqui. E eram também em mim muitas interrogações a que se somava a aflição de não parar de pensar nos casos, o que fazer, de como fazer, de como negociar, de como lhes criar qualquer condição que lhes retirasse, a muitos deles, a notória tendência para o suicídio. Como buscar em mim forças que também eu perdia.

A par, isso não precisava que ninguém me contasse, eram os arquitectos, os engenheiros, os meus colegas advogados, sobretudo os que ainda não tinham tido tempo de fazer carreira, com as rendas por pagar, as quotas às Ordens profissionais, as revisões dos carros, obviamente, os empregados … Sem um cêntimo de seu ao fim do mês, carreiras completamente destruídas. Sem um cêntimo e sem saber como, em que dia, o voltariam a receber, se algum dia recebessem.

E foi ver quem se despiu de si e foi pedir, a igrejas e instituições, o pão que jovens recolhiam nos bancos alimentares contra a fome. Uma sondagem da Católica revelava estarem a recorrer ao Banco alimentar 200 mil pessoas e acrescentava “a revelação mais dramática é de que existem quase cinco mil na fila de espera, metade dos que procuram comida ganha menos de 250 euros”. Os mais, eram mulheres, dando o corpo à pobreza envergonhada das famílias.

Três anos, seis meses e uns dias. É o tempo que decorreu sobre as eleições onde o País emergiu disto. E ainda não recuperou.


8 pensamentos sobre “Três anos, seis meses e uns dias

    • O que é que 4 anos de estancagem de hemorragia têm a ver com melhoria do país e da vida das pessoas quando em qualquer crise se perde mais do que o que se ganha?

  1. Graças a quem, vá, sejam sérias/os e honestas/os?!?!?!?….

    …a um velho operário metalúrgico que é só o eleito que há mais tempo se senta na AR!….

    … só que, “coitado”, é comunista, ou seja, é dos tais que comem criancinhas ao pequeno-almoço, matam os velhinhos com injecções atrás das orelhas!….

    … mas teve aquele rasgo, naquela noite, lá naquele lugar e o AC não chegou ao fim da sua (brilhante) carreira política!…..

    …e a história lusa registará!…..

  2. «Diariamente, recebia notícias de empresários compelidos a encerrar as suas empresas., …?

    Nota. Eheheheh, e a obra do José Sócrates entra onde? Então mas não foi exactamente nessa altura em que as bestas de carga portuguesas ficaram por cá a levar porrada dos tipos do PSD-CDS, enquanto viam os filhos irem bulir para os outros países, enquanto o animal feroz bazou para Paris e foi filosofar e viver à grande (à conta!), à grande e à francesa portanto!, até que o MP e o DCIAP o conseguiram acalmar durante uns tempos e enquanto o fulano esticava os nobres costados na choça d’Évora? E não foi depois de sair dali, como homem livre supunha-se, quando teve todas as oportunidades para finalmente se explicar, descobriu-se que, afinal, toda a sua estratégia de vitimização estava ao serviço das mentiras compulsivas que compõem a sua vida pessoal perante os seus próximos e outras dezenas, centenas ou milhares que o acompanharam na acção política? E os milhões de eleitores do PS, a existência do partido, significavam pouco mais que nada?

    Somos todos parvos, pázinha?

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