E se a Moderna gerir a Universidade do Porto?

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 30/04/2019, e comentário da Estátua)

O Grito do César: Isto não é a União Soviética!

(Parece que o grito do Ipiranga a favor das PPP na saúde e dos negócios privados subjacentes foi dado por Carlos César e seus apaniguados na bancada parlamentar socialista que ele lidera. Para César, a morte das PPP – ou seja, o Estado gerir o que é seu -, é equivalente a uma nefanda memória do colectivismo estalinista.

Espantoso. César quer menos Estado na gestão da coisa pública, mas quer mais Estado na hora de contratar todos os seus familiares, os amigos mais chegados, e se calhar até o cão lá de casa e o papagaio da família. Com menos Estado estariam, provavelmente muitos deles, a engrossar as estatísticas do desemprego.

O “Isto não é a União Soviética” podia ter sido dito por Nuno Melo, Cristas, Rio, Paulo Rangel, ou mesmo pelo André Ventura, e ninguém estranharia. Mas não, veio dos lados de Carlos César.

Perante tal, só me ocorre parafrasear Jesus Cristo: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que dizem”, e esperar que ainda haja algum bom senso e força política de António Costa que permita minorar estes perigosos estados de alma de César.

Em suma, dar a César o que é de César, dar a Costa o que é de Costa.

Comentário da Estátua de Sal, 30/04/2019)


“Isto não é a União Soviética”, terá sido o grito de guerra da equipa de missão criada por Carlos César para reeducar a ministra da Saúde, que num momento de fraqueza admitira que os hospitais públicos não devem ser geridos pelas empresas privadas que são seus concorrentes. Lembrada do que o Governo prometera a António Arnaut antes da sua morte, a ministra quis ser coerente com a noção de serviço público que um dia foi o orgulho da nossa democracia. Triste ilusão a dela.

Reposta em pouco tempo a normalidade das coisas, a lei apresentada pelo PS voltou a ser aquele monumento à sensatez que se esperava, garantindo abençoados dois mil milhões de euros por legislatura para pagar o serviço dessas abnegadas empresas, além de muitas outras bengaladas no sovietismo, desde a recusa da provisão de financiamento adequado até ao enterro da ideia peregrina da qualificação dos profissionais de saúde. Uma multidão de circunspectos analistas saudou este saneamento, lembrando como seria chocante que a lei não previsse a gestão privada dos hospitais públicos, coisa por demais óbvia.

Permitam-me no entanto sugerir que este programa de salvação da pátria está incompleto e que o sovietismo ainda anda por aí disfarçado em diversas obscenidades. Até confesso, contristado, que um desses terrenos em que medra o sovietismo é a universidade. E já houve oportunidades para acabar com tal vergonha, o problema é que mesmo no melhor pano cai nódoa: quando os mais austeritaristas dos meus colegas economistas da Universidade Nova de Lisboa foram consultados pelos programadores da troika na sua primeira vinda a Portugal, esqueceram-se de lhes propor um sistema de parcerias público-privadas para gerir as universidades públicas, a começar pela sua própria. Seria uma ótima solução de mercado, já se sabe que o privado é que é eficiente, e era um alívio para estudantes e suas famílias. Querem lá ver que os malandrins só não são neoliberais em casa própria, lembro-me de ter cogitado à época. Pois agora, neste tempo claro em que César se levanta para espadeirar contra o sovietismo, é preciso voltar ao assunto.

O povo rejubila com a descoberta do caminho para a liberdade e exige: queremos privados a gerir as instituições públicas da saúde, da educação, da segurança social. Isto não pode continuar a ser a União Soviética!

Quero por isso deixar à consideração de César e dos seus legisladores uma ideia que certamente lhes agradará e que seria a homenagem merecida à exitosa experiência da gestão privada dos hospitais públicos: avancemos denodadamente para a gestão privada das universidades públicas.

Era um sossego, uma paz de alma. Seriam umas centenas, que digo eu, uns milhares de milhões de euros bem empregados, tudo gente fina, estudante fardadinho, propinas adequadas, ensino temente, tudo como deve ser. Creio mesmo que era altura de entregar a Universidade do Porto à gestão da Moderna, a Universidade de Lisboa à gestão da Independente e a Universidade de Coimbra à Internacional. Uma lei do ensino que não reconheça e não estabeleça essa liberdade fundamental, que é o direito das universidades privadas gerirem as públicas, é a prova de que os tentáculos dos moscovitas ainda vergam a nossa pátria amada. César, acorde e ponha cobro a esta vergonha! E encha-se de coragem, vá mais longe, não deixe pedra sobre pedra no sovietismo.

Ora, pergunte-se também, e a segurança social, porque é que não há-de ser governada pelos fundos financeiros, que como se sabe são o auge da competência? Oliveira e Costa ou Dias Loureiro ou Duarte Lima, não estarão disponíveis para dar a mão à defenestração dessas bafiências moscovitas? O povo rejubila com a descoberta do caminho para a liberdade e exige: queremos privados a gerir as instituições públicas da saúde, da educação, da segurança social. Isto não pode continuar a ser a União Soviética!


5 pensamentos sobre “E se a Moderna gerir a Universidade do Porto?

  1. Lembro-me de uma frase de Carlos César nos seus princípios de vida em Lisboa: ” Em política temos de ser maquiavélicos”. Palavras para quê…está tudo dito esse são os valores pelos quais se rege.

  2. Tendencialmente, é certo, e mais devagar do que o (por mim) desejado, a liberdade do socialismo da (tecnicamente falida) agremiação sediada no Largo do Rato em Lisboa, vai empurrando este (tão nobre) conceito [que até já foi meta consignada na CRP promulgada em 1976, onde ficou plasmado que a então, mais representativa, quanto genuína, Assembleia Constituinte – porque eleita por mais de 91,5% dos Lusos votantes inscritos -, AFIRMAVA《…a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos
    fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito
    democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção
    de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.] pela ribanceira abaixo rumo ao abismo, mesmo sem que os autores do crime em marcha saibam da “chave da gaveta” onde o canalha (já finado e, que, por isto, se livrou de se sentar no banco dos réus para ser julgado pelo mártir Luso Zépovinho) O metera para se manter perto do “pote” – e também em obediência ao imperativo “centrista”. Coisas dos “Césares” lá da referida pré-falida agremiação, dir-se-ia. Como “augustas” são as actuais angústias que por lá perpassam e que o heroico POVÃO venezuelano vai impondo (escudado, é certo, já não nas “soviéticas” ajudas mas no respeito que o sofisticado quanto eficiente armamento russo – e porque não mencionar também as “chinesices” que os impressionantes “vasos de guerra” recentemente publicitados no ocidente podem encobrir) com o reafirmar, não só em dezenas de votações sucessivas, mas também (mais uma vez) nas ruas, o seu (teimoso) apego aos ditames da Revolução Bolivariana !!!….e agora, ó “augustos”, vão renovar as vossas descabeladas exigências dos 8 dias para o velho operário marcar eleições presidenciais na Venezuela, ou vão diligenciar em garantir asilo político aos vossos amiguinhos “gaidózecos” de merda que, se c@gando calças abaixo correm em busca de abrigo?!?!?….que vergonha, ó cesares&augustos&cia!!!!…… e, ó AC, põe-te em guarda, porque o legado que prometeste continuar quando na campanha para aumentares o “poucochinho” do TóZé Seguro pode já não suportar a crise de agonia em que se encontra e atingir a fase terminal, tal como vem acontecendo, há já 10 anos, ao idolatrado sistema capitalista!….

    E ao amigo Estátuadesal, parabéns pelo comentário. E seria injusto da minha parte, não o felicitar pela inteligência manifestada com a escolha dos bons autores: gostei do seu brilhante e ajuizado comentário que, se mo permitir, subscrevo, mas vibrei emocionalmente (de agradado) com a sua citação ao parafrasear o meu querido e saudoso Mestre Jesus de Nazaré (e não Cristo, como erradamente lhe chamou, ouso supor que por esquecimento motivado também, em parte, pelo uso mais generalizado desse apelido que o amigo Estátua usou)!… e devo confessar-lhe, com agrado, que me apraz registar algum desvio para a esquerda/razão que cogitei nas entrelinhas do seu comentário, e por ser assim, permita-me que aqui repita, para reflexão do amigo em particular, o que acima transcrevi da CR de 1976: 《A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos
    fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito
    democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção
    de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.》. É que me parece que não é só o prometido socialismo que tem vindo, cínica e covardemente, a ser atraiçoado pelos inquilinos do Largo do Rato (os cesares&augustos&cia como atrás os designei) que mantêm o desplante de continuar com o vocábulo na designação da agremiação!…

    Ao autor do artigo, o meu (também não menos saudoso) colega Francisco, eu teria algumas questões a lembrar-lhe, mas, como o amigo Estátua se deve recordar, não faz sentido, porque ele se recusa (por direito, que eu respeito) a comentar ou a responder a comentários de gente que faz uso do pseudónimo. Mas gostei de o ler, uma vez mais, e cumpre-me agradecer ao amigo Estátua o trazer aqui o texto dele pois, de outro modo, eu não o leria!…

    Abraços fraternos.

    25 de Abril SEMPRE!….
    Viva o 1° de Maio!… e,
    Proletários de todo o planeta UNI-VOS!!!….

  3. O texto de Louçã agrada-me profundamente, mas considero as suas ilações um pouco tímidas e limitadoras dos interesses dos investidores.
    Além das sugeridas privatizações seria de propor, até para dar satisfação às investigações feitas sob a égide de Alexandre Soares dos Santos, na sua Universidade, a privatização da Segurança Social. Para debelar as crises de roubos e fugas à disciplina castrense, privatizar os três ramos das forças armadas, antes que se ponham a roubar helicópteros e, quiçá, os famosos submarinos da lenda, podendo mesmo estes ser aproveitados para passeios no Tejo a incrementarem o nosso turismo.Com o fito de debelar os conflitos laborais e as confusões sindicais, privatizar o sistema jurídico português, com as suas extensões judiciárias e policiais, colocando o tribunal constitucional como agência de consultorias. A Presidência da República devia ser privatizada para melhor controlo dos gastos de representação. Os governantes deixariam de ser eleitos e seriam nomeados segundo os interesses dos negócios, e poderíamos ver grandes benefícios na transformação dos funcionários públicos, que deixariam de ter razão de ser como tais, em caixas de bancos e gestores de constas offshore. E, é claro, a Assembleia da República, seria a jóia da Coroa desta metamorfoses regeneradora, transformada em Bolsa de Valores dos interesses políticos e diplomáticos do país.

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