Procura-se um “artilugio” (geringonça) para Espanha

(Ferreira Fernandes, in Diário de Notícias, 29/04/2019)

Ferreira Fernandes

A entrada no Parlamento espanhol da extrema-direita (Vox, de nenhum deputado passou para 24) foi impetuosa. Mas, pelas vítimas deixadas à porta, essa vitória foi feita à custa do PP, que durante décadas partilhou o poder em Espanha, à vez, com PSOE. Agora, o PP caiu para metade dos seus votos tradicionais e ficou só a um punhado mais de deputados, 66 contra 57, do partido que lhe disputa a mesma área política, o Ciudadanos, de centro direita.

Quer dizer, na sociologia de votantes, o Vox existia dentro do PP mas ao autonomizar-se, radicalizando a direita, só conquistou uma ala dos seus e tornou o todo muito mais fraco: a soma do PP com o Vox (nem 100 deputados…) é muito inferior ao patamar mínimo a que o partido unido por Aznar e Rajoy habituou os espanhóis. O lema do Vox, a “reconquista”, com a sua evocação de cruzada franquista, prometido pelo líder radical Santiago Abascal ficou aquém das esperanças de uns e dos medos de muitos mais.

Assinale-se, então: o Vox está nas Cortes Gerais com um grupo forte mas sem o papel determinante que se esperava dele. De imediato só se antevê o que ele fará à direita espanhola: o PP, acicatado por duas forças montantes nas suas bermas, os moderados do Ciudadanos e os extremistas do Vox, será capaz de resistir à tenaz? Se a deriva da base militante e de votantes do PP for para o Vox é porque algo correu mal nas consequências do resultado das eleições deste domingo. Com veremos adiante.

Estas eleições acabaram por não dar, como aliás se esperava, um resultado impositivo: o PSOE ganhou destacado, mas precisando de pactuar para governar. O líder Pedro Sánchez já tinha um historial razoável de dado como acabado mas, de novo, ressuscitou. A surpresa foi a jornada ter-lhe dado a possibilidade do livre arbítrio. Com 123 deputados, PSOE fica a 51 da maioria absoluta e tem de fazer arranjos com outras forças. Espécies diferentes de arranjos…

A solução aritmética mais fácil é pactuar com Ciudadanos (57 deputados) e, até, fazer uma coligação (fórmula rara nos costumes espanhóis). Houve recentes conflitos entre Sánchez e Albert Rivera, naturais entre líderes que disputam áreas políticas que se atropelam (do centro-esquerda ao centro direita). Mas são ambos moderados e, sobre a questão política essencial da Espanha contemporânea, a sobrevivência da unidade do país, estão próximos. Ontem, na festa da vitória, os adeptos socialistas gritaram várias vezes um “não!” rotundo contra o Ciudadanos, e Sánchez respondeu-lhes: “Compreendi-vos.” O que diz pouco ou quase nada se tiver, mesmo, de ser…

Outra soma possível é o PSOE juntar-se ao Podemos (42 deputados), cujo líder, Pablo Iglésias, que tem amaciado as suas posições mais radicais, disse ontem estar disposto a fazer uma “governo de esquerda” com os socialistas. Problema maior, a soma dos dois partidos (165) precisa de pozinhos de outros partidos… À partida seria um problema bicudo porque a tal maioria absoluta (176 deputados) só seria possível obter-se com os deputados da ERC (15), independentistas catalães, cujo líder Oriol Junqueras está a ser julgado no processo da recente tentativa de secessão da Catalunha. Seria complicado ao PSOE aliar-se aos independentistas e daria um grande jeito ao Vox para uma próxima tentativa na “reconquista”…

No entanto, na segunda volta para a aceitação do novo Governo pelos deputados, com abstenções dos independentistas (pouco interessados em dar força ao Vox), bastará uma maioria simples de “sins” contra “nãos” para investir Pedro Sánchez como primeiro-ministro. Enfim, com algum engenho será possível conseguir um “artilugio”, como se diz geringonça em espanhol.


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3 pensamentos sobre “Procura-se um “artilugio” (geringonça) para Espanha

  1. A Espanha mostra assim as vantagens de um sistema multipartidário e, ao mesmo tempo, o perigo dos sistemas bi-partidários que durante décadas (séculos até) dominaram as grandes potências Britânicas e Americanas.
    A extrema-direita não está a ressurgir coisa nenhuma, facto que já estou cansado de realçar. A mensagem desse grupo de falhados, sejam espanhóis, portugueses ou australianos é sempre a mesma, está mais que comprovada no que toca à sua inutilidade e já cansa, a mim e a toda a gente com mais de um par de neurónios.
    A extrema-direita está sim a perder a vergonha. Vergonha de insultar qualquer um que não seja uma cópia química daquilo que os nabos consideram o “cidadão padrão” da comunidade lá do sítio. Talvez porque, graças à esquerda ironicamente, há mais tolerância mesmo com os mais parvinhos da nossa sociedade e eles, como parvinhos que são, confundem isso com confiança política.
    É impressão minha ou todos os “governos” de extrema-direita existentes até hoje não têm passado de um longo acidente rodoviário desde a sua incepção?
    Agora, ao contrário dos Americanos e Britânicos limitados a escolher entre Tories e Labour, Democratas e Republicanos, os espanhóis colocaram a extrema-direita na caixinha minúscula e insignificante de onde esta nunca sairá. Ao contrário de envenenar os partidos mais moderados de direita, como aconteceu nestes dois exemplos que referi, em Espanha a extrema-direita foi “obrigada” a correr sem ajudas. Ora um partido formado por perdedores, liderado por um perdedor-nato e só atraente para o tipo de pessoas desesperadas por uma desculpa para a sua inutilidade social dificilmente consegue reunir apoiantes fora deste círculo de irrelevância (felizmente) tão diminuto. Resultado, os 24 deputados que representam, e justamente diga-se, a minoria menos inteligente de espanhóis vai ter de lutar com a sua verdadeira força (que é próxima de nula) ao invés de ir corromper outros. Resta assim aos restantes partidos manter esta minoria de tansos em cheque, algo muito mais fácil de fazer a um grupinho de 24 analfabetos do que tendo estes misturados com o resto.
    Na minha opinião, o partido Republicano nos EUA e os Tories no Reino Unido assinaram o seu pacto suicida quando se deixaram infiltrar por este tipo de escumalha. Quando Trump abandonar a Casa Branca (que o terá de fazer eventualmente, nem que seja depois de morto) e o Brexit se resolver, independentemente da direção, os partidos conservadores Americanos e Britânicos terão anos, décadas até, destinados a vaguear no deserto ideológico político.O PP pode estar triste pelos resultados de ontem mas quando o Vox inevitavelmente implodir sob a sua própria estupidez (basta ver o que se passa na Hungria, Itália, EUA e UK. Será lógico assumir que os extremistas espanhóis são mais inteligentes que os outros? Duvido…) ao menos não os vai arrastar para a fossa de onde nunca deveria ter saído.

  2. Sorry!: tem toda a lógica que faça companhia ao Ferreira Fernandes, o Velhinho entre as carinhas larocas, isto.

    ______

    Nota, além do la-la-la pueril. Se quiser enfim tagarelar sobre a #vergonha em que vosotros/as transformaram o DN, diga-me.

    […]

    a. Já o DN afundou 32%, para 4275 exemplares por edição.
    b. o DN perdeu 67%, tendo agora 1300 assinantes online.
    c. …

    https://www.publico.pt/2019/04/30/sociedade/noticia/vendas-banca-publico-crescem-mercado-queda-1870995

    • Adenda. Na caixa de comentários do Público, entretanto.

      Margarida XXXXXXX
      Lisboa
      Há 44 minutos

      Só 1300 pessoas hoje leem o DN? Está completamente moribundo.

      Nota, ainda. Lembram-se diro, pás?

      _______

      A propósito do fim do Diário de Notícias

      (Pacheco Pereira, in Sábado, 01/07/2018)

      RFC diz:
      Julho 1, 2018 às 7:43 pm

      Nem mais, Manuel G.

      _____

      Alguém me sabe dizer se o Rui Santos no Tempo Extra também vai criar um daqueles contadores que, de vez em quando, nos lembram quantos dias é que DN se aguentou moribundo antes de morrer?

      https://estatuadesal.com/2018/07/01/a-proposito-do-fim-do-diario-de-noticias/

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