Lamber ou não lamber… eis a questão!

(Por Abílio Hernandez, 04/03/2019)

Lamber ou não lamber…

De uma coisa não pode ser acusado o juiz Neto de Moura: de falta de coerência. Os dois já populares acórdãos sobre violência doméstica, inspirados no Código do Levítico, estão aí para o comprovar. Mas não é apenas em matéria de acórdãos e de sabedoria bíblica (reduzida, é certo, a um único livro do Velho Testamento) que o meritíssimo juiz é firme e hirto na sua coerência.

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Em resultado dos ataques que tem sofrido da parte de políticos e humoristas – ataques violentíssimos, como é notório, comparados com os casos de amorosos rebentamentos de tímpanos e singelas ameaças de morte apreciados por ele – Neto de Moura decidiu interpor ação contra os seus (na sua ótica) caluniadores e constituiu Ricardo Serrano Vieira seu advogado.

Mais uma vez, o juiz não podia ter sido mais coerente, pois parece ter escolhido uma alma gémea para a tarefa de lhe defender a honra. E porquê? Porque o distinto causídico já (alegadamente, claro) demonstrou o seu desconforto, quiçá (belo vocábulo), náusea ou mesmo repugnância por atitudes de mulheres conhecidas pelas suas ideias feministas, neste caso pertencentes ao grupo Capazes. E, num comentário colocado na página da sua esposa (calculo que ele se lhe refira por esposa e não mulher, mas não posso confirmá-lo), definiu as referidas feministas como “lambedoras de c…”.Ou seja, o grande dilema hamletiano “to be or not to be, that is the question” ganhou uma nova e inovadora versão jurídica sob a pena digital do Dr. Vieira: lamber ou não lamber c…, eis a questão.

Os tempos mudam e ainda bem que, como se vê, até mudam para melhor, porque se o dilema é este talvez muitos dos mais graves do planeta possam resolver-se tranquilamente, em privado, e não sob incómodos holofotes públicos.

Só não consigo perceber o comentário da esposa ao comentário do marido jurista. Foi um —————————————————————–>>

Habituado a interpretar textos, cogitei, cogitei e não consegui libertar-me de dúvidas. Na linguagem dos emojis, este significa riso, alegria, boa disposição. O que quereria então a esposa, de apelido Pissarra (curioso vocábulo, diria o ex-Presidente da Assembleia da República, João Bosco Mota Amaral), dizer com este sorriso rasgado ao marido desdenhoso das “lambedoras de c…”? A reação benigna de quem pensa “és mesmo parvo”? Um carinhoso incitamento, a chamá-lo à razão? Uma maneira gentil de dizer-lhe “nem sabes o que perdes”?

Os tempos estão mesmo a mudar, como canta o Bob Dylan. Mas ao meritíssimo juiz e ao seu distinto advogado, não aconselho nem o verso de Shakespeare, nem a harmónica do Prémio Nobel. Aconselho a ambos, vivamente, o divino Marquês de Sade e a sua “Philosophie dans le Boudoir”, traduzido em Português por “Filosofia na Alcova”. 

Podeis crer, digníssimos senhores, que se aprende muito!

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