O pensamento ao negro

(António Guerreiro, in Público, 01/02/2019)

Guerreiro

António Guerreiro

Sobre o racismo e o modo como ele se trafica clandestinamente ou às claras no entreposto português, não me vem nada à mente. É certo que sobre o assunto li nos jornais portugueses muitos artigos inteligentes, e outros menos, nas duas últimas semanas. E escutei comentadores, segui editorialistas, prestei atenção ao que diziam aqueles cuja opinião conta e por isso ela lhes está reservada: tudo gente sensata, inteligente e que defende em frases e palavras justas o que há de melhor para o país, para o ecumenismo universal e para a paz perpétua. Mas, para mim, esse fluxo de belas palavras e importantes asserções desaguou num litoral remoto. E o que permaneceu — envergonho-me de o dizer, mas todos nós temos momentos em que a moral se cala e deixamos de pensar em direitos e deveres — foram as palavras de um amigo meu, francês, que iniciou comigo esta conversa:

“Eu não sou racista, mas…”. Os três pontos não servem para transcrever o seu discurso, não traduzem nenhuma paragem ou hesitação. Eu é que tremi ao ouvir a frase e fiquei suspenso do que vinha a seguir, temendo o que iria acontecer depois à nossa bela amizade. E o que veio a seguir foi isto: “…mas acontece-me às vezes pensar racialmente. Não para participar numa querela das raças, entre a Esquerda e a Direita, mas porque para mim o sexo é uma questão de mestiçagem. Como Genet, eu também digo: ‘Eu, branco e rosa, sou um Negro’. Não por ser um inimigo da França, como foi Genet, ou de Portugal, mas porque a minha atracção pela diferença ‘racial’, e ponho a palavra entre aspas porque estou consciente de que ela é incorrecta, tanto em termos políticos como científicos, faz com que eu não consiga deixar de ter em conta a ‘diferença’ e o que há nela de incomensurável. Um branco, como eu, que ama um negro, que nunca teve amantes que não fossem estrangeiros e, grande parte deles, negros, alguém como eu para quem ser homossexual é uma maneira de ser estrangeiro, de ser preto, árabe, turco, etc., não pode deixar de pensar racialmente. E não pode deixar de rir do militantismo ingénuo e generoso. Serei escandaloso e imoral se disser que, para mim, a acção anti-racista pode vir acompanhada de um interesse erótico?”.

Nesse momento, interrompi-o e perguntei-lhe: “Mas o que entendes por raça?”. E ele respondeu-me: “Li em tempos, com muito proveito e grande emoção, um escritor francês que morreu em 1988, com 42 anos, de sida. Chama-se Guy Hocquenghem, foi um activista, um dos fundadores do FHAR, Front homosexuel d’action révolutionnaire, a ele se aplicariam com justiça estas palavras vindas de longe, de uma sabedoria antiga: ‘Morre jovem o que os deuses amam’. E ele, que fez o elogio da mestiçagem e se declarou francófobo, entendia por raça ‘o conjunto de traços que compõem uma visão do mundo, alguns dos quais são certamente genéticos’. Mas isto escreveu ele no Libération, em 1979, quando publicava artigos sobre a Nova Direita de Alain de Benoist e escrevia demolidoras cartas abertas a traidores e renegados, tais como Bernard-Henri Lévy e André Gluksmann, ao qual chamou ‘estalinista invertido’, uma categoria que vocês, em Portugal, também conhecem certamente. A luta que ele travou, às vezes contra representantes da boa consciência liberal que gritavam: ‘Vocês querem é pôr em vigor uma nova moral e negam a natureza em nome da ideologia’, não é uma história do passado, é ainda uma dilaceração do nosso tempo. Para ele, raças, classes, géneros, tudo devia ser integrado na mesma luta política. E quanto a raças, também eu, francês de ‘souche’, como diria um nosso ex-presidente, já fui racializado, não pelo lado do erotismo e do sexo, mas pelo lado do ódio: Uma vez, à noite, num sítio de engate, em Paris, fui insultado por dois jovens que me gritaram: ‘Race d’ep’. Sabes o que é? É race de pédé — raça de paneleiro — em verlan, isto é, no jargão que consiste em inverter as sílabas das palavras”.

Fiquei calado, sem resposta, ao perceber que os discursos anti-racistas estão muitas vezes cheios de puritanismo abstracto. E que se produz hoje mais pensamento straight numa jornada mediática do que a quantidade de metáforas que podiam ser ouvidas numa manhã do mercado de Les Halles, no século XVII.

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