No reino do vale tudo, vale tudo

(Francisco Louçã, in Expresso, 22/12/2018)

LOUCA3

O que há de novo na extrema-direita é que o seu espaço político não é saudade do império, mas a globalização madrasta e as vítimas da austeridade


De surpresa em surpresa, a extrema-direita cresce na Europa. Desde Trump, esse movimento tornou-se um dos protagonistas da política. Tem base social, imaginário e tecnologia. E torna-se viável em Portugal, para choque de muitos.

EXCEÇÃO PORTUGUESA?

A extrema-direita tem entre nós uma raiz histórica, há anos houve gente suficiente para votar Salazar como a figura do século XX. Mas tentativas de fazer renascer uma política fascizante logo após a revolução de 1974, mesmo quando Spínola, Champalimaud e outros apareciam a liderar e a financiar os seus grupos armados, tinham sido goradas pela infâmia. Absorvidos pouco depois em partidos tradicionais, essa direita readaptou-se, alguns chegaram a ministros, todos fizeram pela vida. E assim foram passando os anos.

Quatro décadas depois, é uma outra extrema-direita que emerge. O que há de novo é que o seu espaço político não é saudade do império, mas a globalização madrasta; não é o delírio ideológico, mas o esvaziamento democrático. O seu impacto é entre vítimas da austeridade. E essa novidade faz sistema: esses populistas dirigem hoje uma parte maior da população mundial do que os governos dos partidos tradicionais.

Tem sido muito discutida a maravilha tecnológica que abriu as oportunidades da expansão universal a este discurso de ódio. É um facto que as redes sociais constituem uma forma notável para definir uma atmosfera em que se respire pavor e, sem esta tecnologia, a extrema-direita não conseguiria criar o seu universo próprio, e precisa dele para se tornar eleitoralmente viável. Ora, a tecnologia do discurso do ódio é eficaz se tiver quem acredite nele. A questão é que há gente para isso, alguns dos que sentem como a promessa deslumbrante de um mundo de néon abalroa a realidade do salário baixo, da filha desempregada, da biografia gasta no comboio para os subúrbios, tudo o que a austeridade agravou. Se os donos do país se exibem em desfalques, se governantes sorumbáticos explicam que cumprem ordens de uma capital distante, ou se a vida anda para trás, como se diz em bom português, esta tensão torna-se explosiva.

A MANHA DOS ‘COLETES AMARELOS’

Ora, se a esquerda não responde a esta violência estrutural e não mobiliza o povo para soluções, o espaço político é ocupado por qualquer discurso de ódio. Entra então a canalização da frustração com a invisibilidade — Macron falou de “gente que não é nada” e Clinton dos “deploráveis” — contra algum alvo vulnerável, os ciganos, as mulheres, os funcionários públicos, os homossexuais.

Em Portugal, a operação ‘coletes amarelos’ já permitiu à extrema-direita constituir listas para a campanha subterrânea pelo WhatsApp. O segundo passo é encontrar o discurso certo para assustar mas não demasiado. Com as sondagens a descobrirem que pode haver uma surpresa no terreno propício das europeias (em que Marinho e Pinto teve 7%, mesmo que logo depois desbancasse para quase nada), a extrema-direita, que já tentou no passado inúmeros protestos do “milhão” contra “os políticos”, tem pela primeira vez na sua mão a possibilidade de conjugar o ressentimento nas redes sociais com algum discurso religioso ou apocalíptico que prometa tudo e o seu contrário. Em Espanha, isto só resultou eleitoralmente quando dissidentes do principal partido da direita se apresentaram para esse discurso. Já lá estamos.

AGORA, O POVO

Para o país, a resposta é a mais difícil. A começar pelo espaço e pelo imaginário: se esta nova extrema-direita encapuzada imita a mobilização popular na rua, que a esquerda ocupe a rua de cara lavada; se promete mundos e fundos, que a esquerda consiga o mais trabalhoso. Assim, para vencer esse populismo do ódio, a disputa essencial está e estará entre a esquerda e quem impede a solução para a habitação que falta, a punição dos desvarios financeiros, o direito de quem trabalha, o rigor dos representantes e a soberania da nação.

Depois de tantos passos nestes três anos, a política vai decidir-se na disputa de mudanças estruturais que possam levar à democratização da vida. Não vale a pena esperar por algum consenso para tanto, já se sabe que de quem manda só ouviremos que o Natal é todos os dias. É com os de baixo que a esquerda ganha ou perde.


O melhor negócio do mundo

Só há no mundo um negócio melhor, dizia Isabel Vaz, então dirigente da Espírito Santo Saúde (hoje dirigente da Fosun), e é o das armas. Mas o da saúde é apetitoso. A saúde é um maná porque a procura é indiferente ao preço, dado tratar-se de uma necessidade básica: pagaríamos o que quer que fosse pelo tratamento dos nossos familiares, se não houvesse um sistema público e gratuito. E essa é a explicação para a mobilização de tantos interesses em torno da definição de uma nova Lei de Bases da Saúde.

A saúde privada não seria, aliás, um problema, se fosse de adesão estritamente voluntária, caso esse negócio não estivesse instalado a cavalo do Estado e tendo como premissa a degradação do sistema público. Essa é a particularidade do debate atual: os privados não estão a reclamar o seu direito ao negócio, que não tem qualquer limitação, podem construir os hospitais e clínicas que quiserem desde que cumpram os requisitos legais; estão a exigir que o Estado lhes pague esses hospitais ou lhes entregue os hospitais públicos. Por isso mesmo, precisam das parcerias público-privado para recrutarem pessoal médico e administradores e constituírem o seu poder onde ele tem que estar, instituindo uma renda paga pelo Estado. O exemplo de Braga é esclarecedor: os Mellos querem continuar a gerir o hospital desde que o Estado pague mais €50 mIlhões. O próximo passo seria criarem cursos privados para a formação de médicos.

BELEM1

A forma como se movem estes interesses é de antologia. O anterior ministro nomeou uma socialista que foi assessora da Espírito Santo Saúde para dirigir a comissão que proporia a nova Lei de Bases. Personalidades do PS, PSD e CDS, junto com alguns empresários da saúde, iniciaram uma campanha por uma lei que proteja o privado (um elogio a Henrique Monteiro, um dos seus signatários, por ter anunciado a sua declaração de interesses num artigo recente). E, quando o Governo apresenta outra proposta, a pressão é tal que o Presidente toma a posição inédita de anunciar a sua preferência pelo modelo de Maria de Belém (foto) e por um acordo PS-PSD (que, aliás, não foi condição para aprovação da presente Lei de Bases e é uma exigência sem fundamento constitucional).

A procissão ainda vai no adro, embora o Governo tenha escolhido um debate apressado, depois de se ter atrasado com jogos internos. Devia ter começado a preparar a sua proposta há dois anos, quando Arnaut e Semedo, cuja lei me parece adequada, lhe comunicaram a sua iniciativa. Agora, Costa apresenta a sua lei como uma recuperação do serviço público, apesar de, como revelado pelo Expresso, ter imposto na 25ª hora uma alteração essencial para proteger os privados. Então, para os defensores do serviço público, a escolha passa a ser entre umas boas frases que deixem o sistema intocado e degradado ou um plano exigente de recuperação do investimento e da estrutura do SNS, que será caro, apoiado numa lei que faça o que diz. Quem conhece os hospitais saberá escolher.


O sucesso argentino do FMI

Macri, um dos rostos da recuperação da direita na América Latina, ocupa a Presidência da Argentina desde janeiro de 2016 e, em dois anos, conseguiu fazer disparar a dívida em moeda estrangeira de 35% para 60% do PIB. Tanto bastou para uma crise de pagamentos em abril deste ano, o que o levou a pedir a intervenção do FMI.

O FMI aprovou um empréstimo de 50 mil milhões de dólares, o maior da sua história, com as condições do costume: redução da despesa primária, corte de rendimentos, corte de gastos sociais, um programa de privatizações. O sucesso estava garantido, e a organização previa em junho deste ano que em 2018 e 2019 a economia cresceria 2%. Tudo ia correr bem, a solução funciona. Quatro meses, o FMI reviu as suas próprias previsões e anuncia que espera que em dois anos o PIB regrida 6,5%, uma dura recessão. Os realistas dirão que se uma receita não funciona uma e tantas vezes, repeti-la não trará resultados diferentes.

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