Robles em três andamentos

(Vários, in Facebook, 28/07/2018, selecção da Estátua de Sal)

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(Este alarido todo faz-me sorrir: exige-se à esquerda, para ser coerente, que seja espartana. E tem-se como “normal” que a direita, para ser coerente, seja ávida, implacável no saque, sovina na acumulação. Sempre assim foi na luta política, e sempre assim foi o pensamento dos direitolas: a esquerda que coma moral ao pequeno almoço que nós comemos ovos estrelados…

Aqui deixo três reflexões sobre o tema Robles.

Comentário da Estátua, 28/07/2018)


 Andamento I

O PSD, ao exigir a demissão de Ricardo Robles, está a reivindicar o exclusivo da especulação imobiliária?

(António Pavão Nunes, 27/07/2018)


 Andamento II

Eu, se fosse ao Robles, oferecia o prédio e pronto. Calava-os a todos. E, por aí, quem tiver dinheiro no banco e for de esquerda, acho por bem que o doe, a bom doar, aos banqueiros. E, por agora, chega.

Volto daqui a dias, quando novo escândalo se levantar, talvez quando o Correio da Manhã, ou o Público, ou o Expresso, ou o Observador, ou a SIC, ou qualquer outro pasquim em papel ou de pantalha, descobrirem Jerónimo de Sousa a jantar no Tavares Rico, Catarina Martins a passear-se de Lamborghini, Cristas a ressonar sob as arcadas do Terreiro do Paço, Passos na fila da sopa do Sidónio.

Os ricos, de esquerda, se os houver e quando os houver, que paguem a crise e apaguem os chiliques dos justiceiros, as indignações dos moralistas de pacotilha, as irritações da matilha que por aqui pula e avança como passarinho estrafegado entre as mãos de uma criança. Que venham mais casos e casinhos alimentar a populaça e apelar à arruaça. Força na verga e forca na esquerda. A de caviar, de Veuve Cliquot, de Armani e de Chanel.

(Manuel Cruz, 28/07/2018)


 Andamento III

A mana Robles deve ‘tar LIXADA’. E com razão, não é para menos. Eu, também, ficava. Com quem ela se meteu para fazer investimento imobiliário.
Da próxima, ela que venha ter comigo, sobretudo se puder voltar a meter mais 600 mil para as obras (que eu não tenho nada para meter no prego que dê para esses trocos).

Na zona que é, e olhando para o imóvel, até faço saltar perdigotos (vocês é que não conseguem ver nem apanhar com eles). Aquilo ali dava uma selfie do caneco para um hostal ou um apart-hotel micro daqueles todos coquetes de algum grupo ou investidor com dedos na testa (e massa gold no bolso ou banca que banque) — que não é o meu caso.

O prof Duque recorda esta semana que o multiplicador geral em Lisboa deve andar em 2 — compraste por 250 (ou gastaste o montante) podes vender agora por 500. Atendendo à zona, provavelmente, o multiplicador seria 4 em relação ao milhão gasto. Parece que os mais de 5 milhões que a agência glutona queria não pegaram.

Eu tenho o azar de não ter uma mana expatriada endinheirada, pois um multiplicador de 4 já me dava um jeitaço para a reforma. Antes que a especulação termine e eu volte a ter de vender por menos do que gastei. Não tenho vocação para arrendar e ter rendas (mesmo sem serem as das eléctricas e dos concessionários de pontes, etc.) — ó mano Robles isso só dá chatice. Não se meta a senhorio, mesmo exeeeeeemplaríssimoooooo, que isso só vai render-lhe chicana política; vá por mim, que seu amigo sou.

Mana Robles, lá onde estiver, estou consigo. Porra de azar. Já devia saber: negócios com políticos não dá (1- uns porque podem acabar na choldra e levar-nos na cauda, 2- outros porque pregam como frei Tomás e os invejosos saltam logo em cima e para os jornais e TVs, é um maná).

Quanto aos críticos que andam aí à solta como perdigueiros em cima do mano Robles , o problema deles é dor de cotovelo. Mano Robles releve.

(J Nascimento Rodrigues, 28/07/2018)


 

O feudo do reitor

(Daniel Oliveira, in Expresso, 28/07/2018)

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Daniel Oliveira

Os reitores andam muitíssimo irritados com a possibilidade de a investigação científica deixar de depender quase exclusivamente de precários. Nisso, não são diferentes de um qualquer empreiteiro ou dono de um supermercado. Como não se julgam empregadores, são apenas mais descarados. Nenhum sector do Estado depende tão estruturalmente da precariedade e em muitos centros de investigação ou faculdades até o trabalho administrativo ou de eletricista é feito por bolseiros, graças ao que pomposamente se chama “bolsa de gestão de ciência e tecnologia”.

Que muitos empresários se roam de inveja, nenhuma empresa de trabalho temporário lhes dará o que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) oferece às universidades e unidades de investigação: trabalho a custo zero para a entidade que dele beneficia, sem qualquer dever do empregador e descartável ao fim de poucos anos. E que usam e abusam como se fosse um favor que fazem ao mundo.

Quando, por causa do PREVPAP, o Governo decidiu que o Estado tinha de integrar trabalhadores precários e criou o decreto lei para o emprego científico (que transfere alguns doutorados com bolsas para contratos a termo), os reitores desdobraram-se em entrevistas e intervenções. Os dois grandes argumentos foram apresentados por António Cruz Serra, reitor da Universidade de Lisboa, aqui no Expresso: isto é um ataque à autonomia e ao mérito. Para quem dirige instituições cujo funcionamento depende de bolseiros e investigadores pagos pela FCT, o Estado serve para pagar mão de obra mas é dispensável quando impõe regras a cumprir. Quanto ao mérito, em 74% das contratações de docentes na Universidade de Lisboa (80% na Universidade de Coimbra) são selecionados doutorados da casa, através de “concursos com fotografia”. A endogamia é bem mais intensa do que nos verdadeiros concursos internacionais da FCT que levaram os bolseiros e investigadores precários às universidades e unidades de investigação.

Parte da aristocracia académica, representada pelos reitores, reage com horror à possibilidade de uma nova geração conquistar um décimo da estabilidade que ela garantiu para si. Seria interessante comparar a lista de artigos científicos do reitor Cruz Serra à data da sua contratação pelo IST (zero) com a de muitos dos bolseiros que ele não quer contratar. Ou procurar entre estes candidatos a um contrato a termo alguém com um currículo inferior ao que ele tinha com 18 anos de carreira docente (quarto publicações). Compreende-se a resistência à entrada de uma geração muito mais qualificada que anda a vida toda a penar de concurso em concurso.

Os reitores não estão a defender o mérito das suas instituições, estão a defender-se do mérito daqueles que, à margem da hierarquia, garantem a posição das universidades nos rankings, que muitas vezes dão aulas à borla e que tantas vezes fazem a investigação de que os instalados são coautores. O problema não são os custos. Quem vai bancar estas contratações é o Estado. O problema é que um vínculo laboral às instituições dá acesso à escolha de quem entra nos órgãos de gestão e aos processos de tomada de decisão. Talvez o verdadeiro receio dos reitores seja o de ver desmoronar os seus feudos, onde uns trabalham sem direitos e são avaliados e outros dissertam sobre o mérito.

Enquanto o Verão não chega

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/07/2018)

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Miguel Sousa Tavares

(Este texto do MST está dividido por tópicos, devidamente numerados. Nem todos os tópicos tem a mesmo valia para a Estátua. Assim, como o professor Marcelo, agora Presidente, já não pode dar notas, vou eu pontuar cada tópico de acordo com o meu grau de concordância.

Tópico 1 – Suficiente menos (à volta do 11). Tópico 2 – Um bom pequeno (à volta do 15). Tópico 3 – Um bom grande (16 sem dúvidas). Tópico 4 – Muito bom (Um 18 sem hesitação). Tópico 5 – Suficiente mais (Um 13 um pouco puxado).

Comentário da Estátua, 28/07/2018)


 1

Mário Centeno fez o favor de lembrar a quem anda esquecido que o Orçamento do Estado não é apenas um instrumento para servir os interesses dos funcionários públicos, dos professores ou dos interesses eleitorais do PCP, do BE e dos sectores do PS que não desejam perder o poder, inesperadamente conquistado há três anos. Perante a persistente insistência dos entrevistadores do “Público” (ai, que saudades do defunto “DN”!), Centeno disse esta coisa óbvia: o OE é para todos os portugueses. É para servir todos os portugueses, pois é financiado com o dinheiro de todos os portugueses que pagam impostos e, como todos os bens escassos, para ser administrado com um sentido de justiça e de prioridade que não pode ser determinado pela simples capacidade de influência de grupos de pressão socioprofissionais. A isto Centeno acrescentou outra coisa: que os sacrifícios que tantos pagaram na pele com a falência do Estado merecem o mínimo de memória e de respeito. Ou seja, não podem ter sido em vão e terem de ser repetidos em breve para satisfazer reivindicações sectoriais de grupos organizados. Não é só uma questão de finanças públicas, é uma questão de moralidade nas finanças públicas.


2

 Não é todos os dias que Portugal é manchete de capa do “The New York Times”, como sucedeu esta quarta-feira. Sob o título “A recuperação em Lisboa desafia os credores”, o artigo reflecte o que várias pessoas, eu incluído, escrevemos à época: que a célebre e tão louvada TINA (“There Is No Alternative”), a política de “empobrecimento criativo” imposta pela troika a troco do empréstimo de 78 mil milhões de euros, e tão entusiasticamente seguida pelo Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, era um desastre económico e uma crueldade social sem sentido. Tudo resumido, consistiu em fazer a economia pagar a falência do Estado, sem no entanto diminuir um euro ao endividamento deste. Devolvendo dinheiro às pessoas e às empresas, António Costa e Mário Centeno, reactivaram a economia e, com isso, aumentaram a receita fiscal, diminuíram o défice e, sobretudo, trouxeram de volta a confiança aos agentes económicos — o que, como qualquer aluno de Economia sabe, é o factor principal para a retoma. Não era assim tão difícil imaginar, desde que não se tivesse a cabeça formatada por um espírito de credor de mercearia.


3

Foi ontem à praça, tendo sido a entrega adiada, a Herdade da Comporta, a emblemática jóia da coroa do falido império Espírito Santo e talvez a última área na zona costeira portuguesa onde ainda será possível fazer qualquer coisa de qualidade — uma vez que deixar como está não faz parte do nosso ADN. Três concorrentes disputavam o bolo e só um, o princípe-jardineiro francês Louis-Albert de Broglie, apresentou um projecto que, no essencial preservava as características naturais do espaço, ocupando apenas 15% com construção. Se bem que sejam os credores quem tem o direito de decidir conforme a proposta que mais bem lhes pague, atendendo ao que está em causa, custa acreditar que o Estado e o adormecido Ministério do Ambiente não tenham uma palavra a dizer sobre o assunto. Eu atrevo-me a prognosticar, je ne sais pourquoi, que o vencedor será o consórcio formado pelo francês que anda a comprar e a lançar no mercado tudo o que é habitação de luxo em Lisboa e o casal novo-rico da moda, que afirma ter trazido o “conceito de luxury” para Portugal e que ameaça varrer com a classe média e mesmo média-alta da Avenida da Liberdade e do centro de Lisboa, pois aquilo é valioso de mais para eles. Ele, que grava no balcão do seu restaurante o nome dos clientes que mais gastam e que declara que o cúmulo do chique é ver uma mesa de russos acompanhar uns simples pregos no pão com garrafas de champanhe Crystal, a 550 euros a garrafa. Ela, que declara que têm “outros valores e princípios” que os falidos ex-donos da Comporta. A mim, tanto se me dá como se me deu: não gosto do “conceito Comporta”, não gosto do “conceito luxury”, e só há dias, por acaso, provei um golo de champanhe Crystal que me puseram à frente — e não gostei. Definitivamente, prefiro um prego com imperial.


4

Suponho que neste momento, em resultado das teses revisionistas em vigor, seja interdito o ensino de grande parte da nossa História nas escolas. Não se pode falar em Descobertas, pois afinal não descobrimos nada: já lá estava alguém antes de lá termos chegado (com excepção de Madeira, Açores, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, se não se importam…). Não se pode falar de colonização porque é sinónimo de exploração dos recursos naturais dos povos indígenas — mesmo quando nos pomos a pensar que, com excepção do pau-brasil, todos os ciclos de prosperidade agroflorestal do Brasil, por exemplo, ficaram a dever-se a plantas que levámos para lá: coqueiros da Índia, cana-de-açúcar da Madeira, algodão, tabaco, café, árvore da borracha. Não podemos falar do que construímos porque foi tudo resultado de trabalho escravo, a começar logo pela Escola de Sagres, que o Infante D. Henrique lançou apenas a pensar nas terras que os portugueses iriam descobrir, perdão encontrar, para povoarem de escravos. Portanto, não se ensina História às criancinhas porque isso seria envolvê-las numa deturpação ideológica para a qual não são chamadas. De caminho, em breve teremos de banir “Os Lusíadas”, essa epopeia poética nacionalista, onde se condensa toda a exaltação desse mal. E agora vêm “Os Maias”, cuja leitura fica ao critério das escolas — onde, aliás, esta e outras leituras, ditas obrigatórias, já eram aprendidas em textos resumidos ao alcance do nível de preguiça instalado na cabeça das criancinhas. “Os Maias”, caramba! O mais fácil, o mais sedutor, o mais actual romance da nossa literatura! Se nem ao Eça chegam, como poderão chegar um dia ao Camilo e descobrir como esta nossa língua, tão mal tratada nas escolas, nas televisões, no Acordo Ortográfico, nas redes sociais, nas novelas, já foi um dia uma língua de uma riqueza deslumbrante?

Nestes tempos do facilitismo irresponsável, pensei durante muito tempo que, pelo menos, haveria uma recompensa para os que fugissem à regra da facilidade e da alarvidade reinante: que o futuro pertenceria, não a quem tivesse mais canudos ou mais dinheiro, mas a quem tivesse mais conhecimentos e mais cultura. Todavia, olhamos para o mundo como ele está, vemos o triunfo dos que hoje mandam no mundo e somos forçados a perceber que já nem isso é uma esperança. Quando a maioria é formada na ignorância e é a maioria que escolhe quem manda, manda a ignorância.


5

Na mesma semana em que João Semedo foi a enterrar, Marcelo resolveu condecorar a título póstumo outro dirigente do BE, Miguel Portas, com a Ordem da Liberdade. Esforçando-me, não consigo recordar que actos tão relevantes deve a causa da liberdade em Portugal a Miguel Portas — pois que quando o Presidente condecora alguém, não o faz apenas em seu nome pessoal, mas em nome de todos os portugueses. Certamente tão afectuoso gesto não se terá ficado a dever ao facto de ele ter sido membro das juventudes comunista e trotskista, depois fundador do BE e depois deputado europeu: um percurso político como outro qualquer, incapaz de justificar a Ordem da Liberdade e, ainda por cima, no seu grau máximo, a Grã-Cruz — deixando-o num pedestal onde estão, por exemplo, Mário Soares e Salgueiro Maia.

Já João Semedo falava tão baixo quanto Miguel Portas falava alto. Conheci-o insuficientemente demais para dele falar com a legitimidade que falaram, e bem, pessoas mais próximas como Marisa Matias, Catarina Martins e Francisco Louçã. Conheci-o apenas o suficiente para perceber que podíamos ter tido o princípio de uma bela amizade, não tivesse a doença vindo interpor-se entre nós. Neste país que já consagrou alguns 5 mil comendadores em pouco mais de 40 anos de democracia, se eu pudesse, dava a João Semedo uma condecoração que não existe: a Grã-Cruz da Ordem da Humildade.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia