O feudo do reitor

(Daniel Oliveira, in Expresso, 28/07/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Os reitores andam muitíssimo irritados com a possibilidade de a investigação científica deixar de depender quase exclusivamente de precários. Nisso, não são diferentes de um qualquer empreiteiro ou dono de um supermercado. Como não se julgam empregadores, são apenas mais descarados. Nenhum sector do Estado depende tão estruturalmente da precariedade e em muitos centros de investigação ou faculdades até o trabalho administrativo ou de eletricista é feito por bolseiros, graças ao que pomposamente se chama “bolsa de gestão de ciência e tecnologia”.

Que muitos empresários se roam de inveja, nenhuma empresa de trabalho temporário lhes dará o que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) oferece às universidades e unidades de investigação: trabalho a custo zero para a entidade que dele beneficia, sem qualquer dever do empregador e descartável ao fim de poucos anos. E que usam e abusam como se fosse um favor que fazem ao mundo.

Quando, por causa do PREVPAP, o Governo decidiu que o Estado tinha de integrar trabalhadores precários e criou o decreto lei para o emprego científico (que transfere alguns doutorados com bolsas para contratos a termo), os reitores desdobraram-se em entrevistas e intervenções. Os dois grandes argumentos foram apresentados por António Cruz Serra, reitor da Universidade de Lisboa, aqui no Expresso: isto é um ataque à autonomia e ao mérito. Para quem dirige instituições cujo funcionamento depende de bolseiros e investigadores pagos pela FCT, o Estado serve para pagar mão de obra mas é dispensável quando impõe regras a cumprir. Quanto ao mérito, em 74% das contratações de docentes na Universidade de Lisboa (80% na Universidade de Coimbra) são selecionados doutorados da casa, através de “concursos com fotografia”. A endogamia é bem mais intensa do que nos verdadeiros concursos internacionais da FCT que levaram os bolseiros e investigadores precários às universidades e unidades de investigação.

Parte da aristocracia académica, representada pelos reitores, reage com horror à possibilidade de uma nova geração conquistar um décimo da estabilidade que ela garantiu para si. Seria interessante comparar a lista de artigos científicos do reitor Cruz Serra à data da sua contratação pelo IST (zero) com a de muitos dos bolseiros que ele não quer contratar. Ou procurar entre estes candidatos a um contrato a termo alguém com um currículo inferior ao que ele tinha com 18 anos de carreira docente (quarto publicações). Compreende-se a resistência à entrada de uma geração muito mais qualificada que anda a vida toda a penar de concurso em concurso.

Os reitores não estão a defender o mérito das suas instituições, estão a defender-se do mérito daqueles que, à margem da hierarquia, garantem a posição das universidades nos rankings, que muitas vezes dão aulas à borla e que tantas vezes fazem a investigação de que os instalados são coautores. O problema não são os custos. Quem vai bancar estas contratações é o Estado. O problema é que um vínculo laboral às instituições dá acesso à escolha de quem entra nos órgãos de gestão e aos processos de tomada de decisão. Talvez o verdadeiro receio dos reitores seja o de ver desmoronar os seus feudos, onde uns trabalham sem direitos e são avaliados e outros dissertam sobre o mérito.

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