A comunidade de inteligência dos EUA como propulsora do colapso

(Por Dmitry Orlov, In Blog Resistir, 24/07/2018)

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Nos Estados Unidos de hoje, o termo “espionagem” não é muito utilizado a não ser em alguns contextos específicos. Ainda há conversas esporádicas sobre espionagem industrial, mas quanto aos esforços dos americanos para entender o mundo além das suas fronteiras, eles preferem usar o termo “inteligência”. Isso pode ser uma escolha inteligente ou não, dependendo de como se olham as coisas.

Em primeiro lugar, a “inteligência” dos EUA está vagamente relacionada com o jogo da espionagem, como tem sido tradicionalmente praticado, e ainda é, por países como a Rússia e a China. A espionagem envolve colectar e validar informação estratégica vital e transmiti-la apenas aos tomadores de decisão pertinentes do seu lado, mantendo-se de facto a colectá-la e validá-la às ocultas de toda a gente.

Em eras passadas, um espião, se descoberto, tentaria ingerir uma cápsula de cianeto; Nos dias de hoje, a tortura é considerada não-cavalheiresca e os espiões que são apanhados esperam pacientemente serem permutados numa troca. Uma regra não escrita e de bom senso sobre trocas de espiões é que são feitas silenciosamente e que os libertados nunca se intrometem outra vez porque isso complicaria a negociação de futuras trocas de espiões. Nos últimos anos, as agências de inteligência dos EUA decidiram que torturar prisioneiros é uma boa ideia, mas elas têm torturado sobretudo pessoas inocentes, não espiões profissionais, forçando-os por vezes a inventar coisas tais como a “Al Qaeda”. Não existia tal coisa antes de a inteligência dos EUA popularizá-la como marca entre os terroristas islâmicos.

Mais recentemente, os “serviços especiais” britânicos, que estão como uma espécie de Mini-Me para o Dr. Evil, que é o aparelho de inteligência dos EUA, consideraram adequado interferir com um de seus próprios espiões, Sergei Skripal, um agente duplo que eles retiraram de uma prisão russa numa troca de espiões. Eles o envenenaram utilizando um produto químico exótico e tentaram atribuir a culpa à Rússia com base em nenhuma evidência. É improvável que haja mais trocas de espiões britânicos com a Rússia e os espiões britânicos que trabalham na Rússia provavelmente receberão boas cápsulas de cianeto à moda antiga (uma vez que o supostamente super-poderoso Novichok que os britânicos mantêm no seu laboratório “secreto” em Porton Down não funciona bem e só é fatal em 20% dos casos).

Há uma outra regra não escrita, de senso comum, acerca da espionagem em geral: seja o que for que aconteça, ela precisa ser mantida fora dos tribunais, porque um processo de descoberta em qualquer julgamento forçaria a acusação a divulgar fontes e métodos, tornando-os parte do dominio público. Uma alternativa seria manter tribunais secretos, mas como estes não podem ser verificados independentemente quanto ao seguimento do processo devido e das regras de evidência, eles não são de muito valor.

Um padrão diferente aplica-se a traidores. Nestes casos, enviá-los aos tribunais é aceitável e serve a um alto propósito moral, uma vez que aqui a fonte é a própria pessoa em julgamento e o método – traição – pode ser divulgado sem danos. Mas esta lógica não se aplica a espiões profissionais decentes que estão simplesmente a fazer o seu trabalho, mesmo que se tornem agentes duplos. De facto, quando a contra-inteligência descobre um espião, a coisa profissional a fazer é tentar recrutá-lo como um agente duplo ou, se isso não der certo, tentar utilizar o espião como um canal para injectar desinformação.

Os americanos têm feito o melhor que podem para quebrar esta regra. Recentemente, o advogado especial Robert Mueller acusou uma dúzia de operacionais russos a trabalharem na Rússia de hackearem o servidor de correio do Comité Nacional Democrata (DNC) e enviar os emails para a Wikileaks. Enquanto isso, dizem que o referido servidor não está em parte alguma (foi extraviado), se bem que as marcações de hora (time stamps) nos ficheiros publicados na Wikileaks mostrem que foram obtidos copiando-os para uma pen drive ao invés de enviá-los pela Internet. Assim, isto foi uma fuga, não um hack, e não poderia ter sido feito por ninguém a trabalhar remotamente a partir da Rússia.

Além disso, é um exercício de futilidade para um responsável dos EUA indiciar cidadãos russos na Rússia. Eles nunca serão julgados num tribunal dos EUA devido à seguinte cláusula na Constituição Russa: “Art. 61.1 Um cidadão da Federação Russa não pode ser deportado para fora da Rússia ou extraditado para outro Estado”. Mueller pode reunir um painel de académicos constitucionalista para interpretar esta frase, ou pode apenas lê-la e chorar. Sim, os americanos estão a fazer o melhor que podem para quebrar a regra não escrita contra o arrastamento de espiões a tribunais, mas o seu melhor está muito longe de ser suficiente.

Dito isto, não há qualquer razão para acreditar que os espiões russos pudessem ser impedidos de hackear o servidor de correio do DNC. Provavelmente funcionava com Microsoft Windows e esse sistema operacional tem mais buracos do que um edifício no centro de Raqqa, na Síria, depois de os americanos terem bombardeado aquela cidade reduzindo-a a escombros, com muitos de civis de permeio. Quando questionado sobre esse alegado hacking pela Fox News, Putin (que trabalhara como espião na sua carreira anterior) teve dificuldade em manter a cara séria e claramente desfrutou do momento. Ele destacou que os emails hackeados ou extraídos numa fuga mostravam um padrão claro de irregularidades: funcionários da DNC conspiraram na Primária Democrática para roubar a vitória eleitoral a Bernie Sanders, e depois de essa informação ter vazado eles foram forçados a demitir-se. Se o hack russo aconteceu, então foram os russos que trabalharam para salvar a democracia americana de si própria. Então, onde está a gratidão? Onde está o amor? Ah, e por que os perpetradores do DNC não estão presos?

Uma vez que existe um acordo entre os EUA e a Rússia para cooperar em investigações criminais, Putin sugeriu interrogar os espiões acusados por Mueller. Ele até sugeriu que Mueller participasse do processo. Mas em contrapartida ele queria interrogar os responsáveis americanos que podem ter ajudado e incitado um criminoso condenado com o nome de William Browder, o qual deve cumprir uma sentença de nove anos na Rússia a partir de agora e que, a propósito, doou copiosas quantias de seu dinheiro mal ganho para a campanha eleitoral de Hillary Clinton. Em resposta, o Senado dos EUA aprovou uma resolução a proibir russos de interrogarem responsáveis dos EUA. E ao invés de emitir um requerimento válido para que os doze espiões russos fossem entrevistados, pelo menos um responsável dos EUA fez o pedido absurdamente fútil de que ao invés eles fossem remetidos para os EUA. Mais uma vez, qual a parte do artigo 61.1 que eles não entendem?

A lógica dos funcionários dos EUA pode ser difícil de acompanhar, mas só se aderirmos às definições tradicionais de espionagem e contra-espionagem – “inteligência” no linguajar dos EUA – que é providenciar informações validadas com o objectivo de adoptar decisões informadas sobre os melhores meios de defender o país. Mas tudo isso faz perfeito sentido se abdicarmos de tais noções estranhas e aceitarmos a realidade que podemos realmente observar: o propósito da “inteligência” dos EUA não é produzir ou trabalhar com factos, mas simplesmente “fazer merda”.

A “inteligência” que as agências de inteligência dos EUA fornecem pode ser tudo excepto inteligente. De facto, quanto mais estúpido melhor, porque seu objectivo é permitir que pessoas pouco inteligentes tomem decisões pouco inteligentes. Na verdade, eles consideram os factos como prejudiciais – sejam eles acerca de armas químicas sírias; ou conspirações para roubar as eleições primárias de Bernie Sanders; ou armas iraquianas de destruição em massa; ou o paradeiro de Osama Bin Laden – porque os factos exigem precisão e rigor ao passo que eles preferem habitar no reino da pura fantasia e do capricho. Nisto, seu objectivo real é facilmente discernível.

O objectivo da inteligência estado-unidense é sugar toda a riqueza que resta para fora dos EUA e dos seus aliados e embolsar tanto quanto possível. Enquanto finge defendê-la de agressores fantasmas, esbanja recursos financeiros inexistentes (tomados emprestados) em ineficazes operações militares e sistemas de armas super-facturados. Onde os agressores não são fantasmas, eles são especialmente organizados para o objectivo de conseguirem alguém que os substitua a combater: terroristas “moderados” e assim por diante. Um grande avanço nesta arte tem sido a mudança de operações de falsa bandeira reais, à la 11/Set, para operações de falsa bandeira falsas, à la ataque químico de Gouta Leste na Síria (já totalmente desacreditado). A história de interferência eleitoral russa talvez seja o passo final nessa evolução: nenhum arranha-céu de Nova York ou criança síria foi prejudicado no processo de cozinhar essa falsa narrativa. E ela pode ser mantida vivo aparentemente para sempre apenas através do esforço furioso de numerosas bocas a palrarem. Trata-se agora de um esquema de pura confiança na fraude. Se diante disso ficar pouco impressionado com as suas narrativas inventadas, então você é um teórico da conspiração ou, na reavaliação mais recente, um traidor.

Trump foi recentemente questionado sobre se confiava na inteligência dos EUA. Ele tartamudeou. Uma resposta jovial teria sido:

“Que tipo de idiota é você para me fazer uma pergunta tão estúpida? Claro que eles estão mentindo! Eles foram apanhados a mentir mais de uma vez e, portanto, já não se pode mais confiar neles. A fim de afirmar que eles actualmente não estão mentindo, é preciso determinar quando é que deixaram de mentir e que não mentiram desde então. E isso, na base da informação disponível, é uma tarefa impossível”.

Uma resposta mais séria, atendo-se à matéria de facto, teria sido:

“As agências de inteligência dos EUA fizeram uma alegação ultrajante: de que entrei em conivência com a Rússia para falsificar o resultado da eleição presidencial de 2016. O ónus da prova cabe a eles. Eles ainda têm de provar seu caso num tribunal de justiça, o qual é o único lugar onde o assunto pode legitimamente ser resolvido, se é que pode ser resolvido de todo. Até que isso aconteça, devemos tratar sua afirmação como teoria da conspiração, não como um facto”.

E uma resposta dura e impassível teria sido:

“Os serviços de inteligência dos EUA fizeram um juramento de defender a Constituição dos EUA, segundo a qual sou o seu Comandante-em-chefe. Eles reportam-se a mim, não eu a eles. Eles devem ser leais a mim, não eu a eles. Se eles são desleais a mim, então isso é razão suficiente para a sua demissão”.

Mas nenhum diálogo prático com base na realidade parece possível. Tudo o que ouvimos são respostas falsas a perguntas falsas e o resultado é uma série de decisões falhas. Com base em inteligência falsa, os EUA passaram quase todo este século envolvidos em conflitos muito caros e, em última instância, fúteis. Graças aos seus esforços, o Irão, o Iraque e a Síria formaram um crescente contínuo de estados alinhados religiosa e geopoliticamente, amistosos em relação à Rússia, ao passo que no Afeganistão os Taliban estão a ressurgir e a combater o Estado Islâmico – uma organização que se constituiu graças aos esforços americanos no Iraque e na Síria.

O custo total das guerras até agora neste século para os EUA é de US$4.575.610.429.593. Dividido pelos 138.313.155 americanos que preenchem declarações fiscais (se eles realmente pagam algum imposto é uma questão demasiado subtil), isso equivale a pouco mais de US$33 mil por contribuinte. Se pagar impostos nos EUA, essa é a sua conta até agora para os vários “acidentes” da inteligência dos EUA.

As 16 agências de inteligência dos EUA têm um orçamento combinado de US$66,8 mil milhões e isso parece muito até que se perceba quão supremamente eficientes são elas: seus “erros” custaram ao país cerca de 70 vezes seu orçamento. Com um nível de pessoal de mais de 200 mil empregados, cada um deles custou ao contribuinte dos EUA perto de US$23 milhões, em média. Esse número é totalmente aproximativo! O sector de energia tem os mais altos ganhos por empregado, em torno de US$1,8 milhão per capita. A Valero Energy destaca-se com US$7,6 milhões per capita. Com US$23 milhões, a comunidade de inteligência dos EUA tem ganho três vezes melhor que a Valero. Tiremos o chapéu! Isso torna a comunidade de inteligência dos EUA, de longe, o melhor e mais eficiente condutor imaginável rumo ao colapso.

Há duas hipóteses possíveis para explicar porque assim é.

Primeiro, podemos nos aventurar a imaginar que essas 200 mil pessoas são grosseiramente incompetentes e que os fiascos que elas desencadeiam são acidentais. Mas é difícil imaginar uma situação em que pessoas grosseiramente incompetentes consigam ainda assim canalizar US$23 milhões, em média, para uma variedade de empreendimentos fúteis de sua escolha. E é ainda mais difícil imaginar que seria permitido a tais incompetentes poderem cometer erros crassos década após década sem serem chamadas à pedra pelos seus erros.

Uma outra hipótese, muito mais plausível, é que a comunidade de inteligência dos EUA tem feito um trabalho maravilhoso para levar o país à bancarrota e conduzi-lo ao colapso financeiro, económico e político ao forçá-lo a participar de uma série interminável de conflitos caros e fúteis – o maior acto contínuo de grande furto já experimentado no mundo. Como é que isso pode ser uma coisa inteligente a fazer para o seu próprio país, em qualquer definição concebível de “inteligência”, deixarei para si o cuidado de elaborar. Enquanto estiver nisto, também pode querer chegar a uma melhor definição de “traição”: algo melhor do que “uma atitude céptica em relação a alegações ridículas e não comprovadas feitas por aqueles que são conhecidos como mentirosos perpétuos”.


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