No bicentenário do nascimento de Karl Marx

(Guilherme da Fonseca Statter, 07/05/2018)

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Em que estou a pensar?… Na eventual inutilidade de anos de estudo.

Ao longo dos últimos dias têm aparecido, um pouco por todo o lado, umas referências ao bicentenário do nascimento de Karl Marx. Não me lembro se quando foi o centenário no nascimento de Albert Einstein terá havido igual comoção pública. Um foi um génio das ciências «histórico-sociais», outro foi um génio das ciências «físicas».

Também por isso Karl Marx pode – com toda a justiça – ser considerado o Einstein das ditas ciências «histórico-sociais». A grande – enorme – diferença é que um mexe com um ramo do conhecimento que os «donos disto tudo» ou a alta burguesia, facilmente controla e de que até se aproveita com toda a naturalidade. A Física e a Química são fundamentais para a produção e controle das riquezas. Enquanto que o outro mexe directamente com um ramo do conhecimento que põe directamente em causa a sustentabilidade lógica do sistema de produção e distribuição de riqueza a que chamamos Capitalismo.

Já nem falo da Ética, pois que essa faceta não tem a ver com «ciência» pura e dura…
Entretanto tal como Einstein cometeu alguns erros, e em relação a um deles (a famigerada «constante cosmológica») o próprio afirmou ter cometido a maior asneira da sua vida, sendo que afinal parece que nem terá sido uma asneira.

Mas adiante. Pois se Einstein (e também Newton já agora…) cometeu erros, nada de mais natural que, no meio de milhares de páginas escritas, também Karl Marx tenha cometido alguns erros. Designadamente na forma como se exprimiu relativamente a alguns temas e problemas mais bicudos e, sobretudo, com as várias mudanças de formato com que queria apresentar (sublinho o apresentar!…) as suas teses.

Mas continuemos.
Na minha assumidamente imodesta opinião, o comportamento evolutivo da taxa de lucro é o elemento crucial que ajuda a compreender a lógica e a dinâmica profunda do sistema capitalista, com reflexos indirectos, mas fortíssimos, na nossa vida diária. Desde a corrupção com que nos bomdardeiam todos os dias, até às guerras por causa dos combustíveis fósseis e das tentativas de manter uma hegemonia politico-militar a todo o custo, passando pelas privatizações de tudo e mais alguma coisa.

Entretanto, o fenómeno recorrente da tendência para a queda da taxa de lucro era (e é!…) um fenómeno empiricamente constatado. Essa constatação já vem desde pelo menos os tempo de Adam Smith. A noção de que é preciso provar (ou demonstrar…) essa queda tendencial da taxa de lucro é uma noção profundamente errada. Repito e sublinho: é uma noção profundamente errada. Seria como se fosse necessário demonstrar a força da gravidade. Um tal «erro» só se pode explicar por enviesamento ideológico. E no entanto são aos milhares as páginas publicadas a esse respeito. Para provar, confirmar ou infirmar se de facto existe, ou não, uma tal tendência.

Ficamos com a sensação de que depois de os clássicos – e mesmo Keynes nos tempos mais recentes – terem constatado, observado e relatado a referida tendência para a queda da taxa de lucro (e lembremos que a maximização do lucro é o farol que orienta toda a actividade das empresas…), por artes mágicas da «Natureza», essa tendência evaporou-se… Saiu do planeta Terra e foi dar uma volta por outra galáxia.

A esse respeito veja-se a incontornável Wikipedia:
«A tendência para a queda da taxa de lucro é uma hipótese (note-se bem, digo eu, uma «hipótese»), em teoria económica e economia politica, famosamente exposta por Karl Marx no capítulo 13 de O Capital, Volume III.»
Uma hipótese… Pois… O autor daquelas linhas que se atire de uma janela abaixo e logo vê se a tendência da força da gravidade para atrair os corpos pesados também precisa de ser «demonstrada».

Mais adiante, na mesma Wikipedia, vem:
«No seu manuscrito de 1857 «Grundrisse», Karl Marx considerou a tendência para a queda da taxa de lucro, «a mais importante lei da economia política» e procurou dar-lhe uma explicação causal, nos termos da sua teoria da acumulação de capital. A tendência vinha já pressagiada no capítulo 25 d’«O Capital», Volume I (Da “lei geral da acumulação de capital“), mas na Parte 3 do manuscrito do Volume III, editado postumamente por Friedrich Engels, vem uma extensa análise dessa tendência. Marx considerava a tendência para a queda da taxa de lucro como prova de que o capitalismo não poderia durar para sempre como modo de produção dado que no fim se esgotaria o próprio princípio do lucro. No entanto, porque o próprio Marx nunca publicou qualquer manuscrito definitivo sobre a tendência para queda da taxa de lucro, porque a tendência é difícil de provar ou infirmar teoricamente, e porque é difícil testar e medir a taxa de lucro, a teoria de Marx da tendência para a queda da taxa de lucro tem sido um tópico de controvérsia ao longo de mais de um século».

É o que nos diz o repositório do conhecimento politicamente correcto que é suposto ser toda e qualquer enciclopédia. Para o caso a Wikipedia.
A questão que aqui importa sublinhar é que, relativamente à «lei da queda tendêncial da taxa de lucro» o que se tem que fazer não é demonstrar. Trata-se sim de explicar… Sublinho: explicar!…

Mas no que diz respeito às homenagens, publicações e reflexões sobre o bicentenário do nascimento de Karl Marx, sobre estas questões – cruciais para entender o Mundo – quase nada, perto de «nicles»…

Pela minha parte (a imodéstia é muito feia, não é?…), já re-escrevi o livro «Os “Erros” de Marx e os Disparates dos Outros» (alterei o título do anterior livro que aproveitei em grande parte).
Editores?… «Está difícil»… «É complicado»… «Talvez pró ano»…

Depois desta «posta de pescada» tenho a impressão que vou emigrar para outras paragens internéticas. É que, apesar das muitas centenas de “amigos” e “seguidores” (diz aqui o «feicebuque»…) tenho que reconhecer que recebo muito mais «feedback» noutros locais da Internet do que aqui.

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2 pensamentos sobre “No bicentenário do nascimento de Karl Marx

  1. É revelador (mas não de todo surpreendente) que alguém da área política em causa continue a insistir que a economia é uma ciência de resultados absolutamente previsíveis (basta ler Marx) ao mesmo tempo que rejeita as tentativas (erróneas, quiçá) bem mais modestas da micro-Economia de tentar compreender a realidade à custa de modelos.
    Desde logo, quem assim fala escolhe ignorar que a Relatividade Geral, a maior obra de Einstein, é um modelo que foi testado pela experiência e se revelou bem sucedido. E que é talvez o último grande modelo determinista em Física (lida com a macro-física).
    Já o modelo alternativo do Marxismo (ao Capitalismo) foi testado vezes sem conta e falhou nelas todas. Sim, já sei que não é isso que é aqui discutido e sim a tendência empírica para a queda da taxa de lucro com o tempo nos sistemas capitalistas, mas a observação não é de todo irrelevante.
    Num artigo disponível deste autor sobre esta questão, ele tenta uma demonstração matemática e conclui ‘também me parece forçoso considerar que a velocidade ou ritmo de ‘aproximação ao infinito’ é diferente no caso dessas duas funções simples’. A mim, parece-me que uma demonstração matemática requer mais do que simples palpites. Logo, resta-nos apenas a tendência empírica e mais nada. É um bom começo de discussão, afinal os pressupostos de um modelo devem ser realistas. Só que é preciso que haja igualmente um modelo.
    Na ausência do dito e tendo em conta que o modo de produção centralizado proposto pelos marxistas falhou tão espetacularmente, melhor seria guardar prudência em lugar de mostrar pesporrência e tratar todos os que calham de discordar abaixo de burros…

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  2. Em que estou a pensar?… Na eventual inutilidade de anos de vida do Statter!

    Já quanto ao Einstein! Quando este se serviu do objecto “relógio” para definir o “tempo” o bacano mandou a sua teoria para a relatividade do pensamento ilusório! O físico foi-se!

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