Carta a Amadeu Guerra

(Por Ricardo Marques, in Expresso Diário, 27/04/2018)

amadeu_guerra

Exmo. Senhor Diretor do DCIAP

DR. AMADEU GUERRA (PROCURADOR GERAL ADJUNTO)

Departamento Central de Investigação e Ação Penal

Rua Gomes Freire n.º 213, 1150-178 Lisboa

Excelência,

Espero que esta o encontre bem, assim como aos que consigo trabalham — e que, não obstante as mais diversas tentativas, não consegui vislumbrar na mais recente produção cinematográfica com que nos brindou o departamento que superiormente dirige.

Assisti com algum desconforto à discussão que se instalou nos últimos dias acerca da obra, principalmente porque me parece que é absolutamente lateral. Lemos e ouvimos incontáveis opiniões acerca do segredo de justiça e do direito à informação, mas nem uma linha, nem uma palavra sobre a questão realmente decisiva. Como tantas vezes sucede, enredados que estamos a analisar o fotograma, acabamos por perder uma excelente oportunidade para discutir o filme.

Não encontrará nestas linhas, Excelência, uma palavra que seja sobre o acessório. Cingir-me-ei ao essencial. E o essencial, senhor procurador-geral-adjunto, é a opção estética feita pelo DCIAP ao nível da realização do filme dos interrogatórios da denominada Operação Marquês. Em especial, o recurso à câmara estática e ao plano picado.

Rendi-me ao fim de apenas alguns segundos e, admito-o sem pingo de vergonha, terei mesmo exclamado, aos gritos numa sala vazia, algo como: “Génio! Puro génio!” Hoje percebo melhor o meu próprio entusiasmo. Naqueles instantes primevos de exposição à obra fui transportado à Paris de 1895 e dei por mim sentado a assistir ao histórico filme de Louis Lumière, “L’Arrivé d’un Train”. Literalmente, senti-me como se um enorme comboio viesse na minha direção e não houvesse fuga possível. E fiquei ali.

George Sadul, na sua “História do Cinema Mundial”, um livrinho que tenho aqui guardado, nota que se trata de uma espécie de ‘travelling’ invertido. “A câmara não se desloca”, diz ele, “mas os objetos ou as personagens aproximam-se ou afastam-se constantemente dela”. “Esta perpétua variação do ponto de vista permite extrair do filme toda uma série de imagens tão diferentes com os sucessivos planos de uma montagem moderna”, conclui o Sadul, incapaz de adivinhar que 123 anos volvidos, numa sequência de balanços na cadeira e de gestos intensos personagens, voltaria a fazer-se história.

O génio da obra do departamento que dirige vai muito além da câmara estática, dessa homenagem aos dias do cinematógrafo. A aposta no plano picado coloca-nos como que sentados numa nuvem, como anjos, a assistir à história a acontecer diante dos nossos olhos. E nem sequer estamos sempre na mesma nuvem, embora não nos livremos de uma estranha sensação de fim do regime. Do mundo, digo. “Na ‘chegada do comboio’, a locomotiva vinha do fundo da tela e avançava para os espectadores, fazendo-os estremecer com o medo de ficarem esmagados. Identificavam, assim, a sua visão com a da máquina: a câmara era, pela primeira vez, um personagem do drama”, resume o Sadul.

Ora, como se tudo isto não fosse suficiente, optaram os senhores por introduzir uma dimensão ainda mais extraordinária na vossa produção. Uma espécie de presença na ausência. Falo, como Vossa Excelência já deve ter adivinhado, das vozes que inquirem, das perguntas que surgem de nenhures para interpelar os personagens. No fundo, somos nós, do alto das nossas nuvens, que lhes falamos. Queremos saber, queremos saber – e não é o horário do comboio que queremos saber. As vozes exigem mais.

O modo desconfiado com que, a dado momento do filme, um dos advogados nos contempla leva-me inapelavelmente para as derradeiras linhas da humilde carta que lhe dirijo. Há no olhar daquele homem um misto de surpresa e resignação, como se reconhecesse, ali e então, estar em presença de uma obra seminal da cinematografia nacional e, em simultâneo, nos rogasse para que nada volte a ser como já foi.

Aqui chegados, e porque sei bem como são ocupados os seus dias, permita-me senhor procurador-geral-adjunto algumas sugestões. Não se trata de comprometer a integridade artística em obras futuras. Já ouvi dizer que o departamento que dirige não faz justiça ao cinema; que trata a imagem como se fosse apenas uma versão melhor das velhas cassetes em que se gravavam os interrogatórios. São os mesmos que, se levados diante de uma pirâmide, provavelmente iriam queixar-se de que a porta é pequena. São vozes, mas daquelas que não chegam ao céu.

Como lhe digo, não se trata de mudar por mudar. Ainda assim, creio que muito havia a ganhar se as próximas obras do DCIAP apresentassem, digamos, uma estética renovada. Imagine uma pequena câmara colocada na gravata dos procuradores? Há anos que os americanos o fazem com os polícias. Ou um plano fechado apenas nas mãos de quem está à mesa? Quem sabe apostar em grandes planos dos intervenientes, em momentos-chave da história, ou colocar uma câmara no teto, para obter planos de ambiente e, mais fechados, dos apontamentos… Estaríamos, bem sei, perante um novo paradigma ao nível da realização, mas é um erro ignorar os tempos em que vivemos.

Lembre-se: o comboio da vida anda sempre à tabela. Nós é que nos atrasamos.

Com os melhores cumprimentos,

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