O outro lado das imagens

(José Gameiro, in Expresso, 19/02/2021)

José Gameiro

Há filmes que marcam a nossa vida. Mas sabemos pouco sobre a vida desses filmes.


Há filmes que nos marcaram e que vemos e revemos ao longo da vida. Os mais antigos são hoje objeto de estudo e de investigação nas Universidades.

Mas raramente temos acesso, também porque não nos interessa muito, às histórias reais que acompanham o fazer de um filme. É semelhante àquela frase conhecida, se gostas de um livro, não queiras conhecer o autor. Porque podes ficar desiludido.

Cinquenta anos depois do filme “Morte em Veneza”, que nos deslumbrou, surge, no Festival Sundance, de Robert Redford, um documentário sobre o ator que interpretou o papel do jovem Tadzio, “O Rapaz Mais Bonito do Mundo”.

Luchino Visconti demorou meses a encontrar um jovem que fosse suficientemente bonito para encarnar o papel. Correu vários países, Hungria, Polónia, Finlândia e foi finalmente em Estocolmo que encontrou Bjorn Andrésen. O próprio realizador fez um documentário “À Procura de Tadzio”, com todo o percurso que fez.

O filme sobre o ator, agora exibido, demorou cinco anos a realizar. Segundo o jornal “El País”, foram longos tempos a ganhar a confiança de alguém, que tinha ficado marcado para o resto da vida, pelo que se passou depois. Com apenas 15 anos foi exposto de uma forma traumatizante, nas aparições públicas, para promover o filme.

Tudo começou logo na conferência de imprensa de Visconti em Cannes. Falavam dele como se ele não estivesse presente, em francês, que não entendia, sobre a sua beleza. Pareciam morcegos, tive medo, disse Bjorn. A seguir foi levado para um clube homossexual. Só se lembra da decoração vermelha e negra, as línguas vorazes, bebeu muito para não se sentir um bocado de carne. Ainda hoje estas recordações estão bem vivas na sua memória.

Depois levaram-no para o Japão. Ali foi explorado e drogado para aguentar sessões de fotografia, programas de televisão e a gravação de um disco. Ficou lá durante um ano, à espera de fazer um filme, prometido, mas que nunca aconteceu.

Era um jovem marcado pela morte precoce da mãe e por uma avó obcecada pela ideia de ele vir a ser um ator famoso, que o lançou nos castings.

Foram anos e anos em que não conseguia olhar-se no espelho. Hoje, com 66 anos recuperou, fez as pazes com o que viveu e trabalha em cinema e televisão. Como se a história da pandemia que atravessa o filme o tivesse atingido durante muitos anos.

Já em 2007, Maria Schneider, atriz principal do filme de Bernardo Bertolucci, “O Último Tango em Paris”, tinha denunciado o abuso do realizador e de Marlon Brando, na célebre cena da relação anal. Ambos combinaram não revelar o limite da cena, porque queriam ter uma reação da menina e não da atriz… O filme, à época, foi muito criticado pela cena sexual explícita, mas ninguém se preocupou com o que teria sentido uma jovem de 19 anos.

Nenhum destes realizadores abusou dos seus atores. Ao contrário do que foi denunciado nos últimos anos no mundo do cinema e da moda, em que algumas escolhas eram determinadas pela disponibilidade, debaixo de forte pressão, dos jovens em terem relações sexuais, Visconti e Bertolucci nunca o fizeram. Mas permitiram que fossem criados contextos fortemente traumáticos, que condicionaram o resto das suas vidas.

O fotógrafo David Hamilton, célebre e admirado pelas suas fotografias de meninas púberes, em poses sensuais, foi acusado de as ter abusado. À época, foi admirado pelas suas fotos em busca da beleza pura…

Tudo isto se passou há muitos anos, em que ainda ninguém ligava nenhuma a estes abusos. Desde então muita coisa mudou e algumas das vítimas conseguiram falar e denunciar.

Mas as marcas ficaram para sempre e, provavelmente ainda “não sabemos da missa a metade”.


Pópe Cornos

(Virgínia da Silva Veiga, 09/02/2020)

Voltei ao cinema por reconhecer que ver em casa um filme de guerra, o 1917, não é o mesmo. Sobretudo, questão essencial, por causa da banda sonora, por muito boas que sejam as colunas domésticas. E foi quando saí cerca de 20 minutos depois.

Ao meu lado, um casal sacava da embalagem as pipocas, arranhando, na escuridão da sala, as mãos cheias de milho, zurrando as pipocas contra o pacote e enfiando-as à boca cheia. Ele erguia mesmo o pescoço, inclinando a cabeça para trás, e enchia a boca aberta, mastigando em ostensivo deleite de alarve. Tirava ele uma manápula de pipocas, tirava ela, sorviam uma Coca-Cola por palhinha e o som era, portanto, ininterrupto.

Para quem tinha ido para ouvir a banda sonora era totalmente insuportável. Impossível.
Disse para amiga que me acompanhara que esperaria por ela lá fora.
– Está a meter-se com as minhas pipocas? – ouvi, ao meu lado.
– Perdão, minha senhora? Não falava para si, para a minha amiga.
Nem para ela me voltara.
Disse outra alarvidade qualquer que nem recordo. Nem para ela me virara, menos falara.
Pedi licença para poder passar e sair.
Resmungou, ao alto comigo, qualquer coisa que nem ouvi.
– Com licença – pedi, para poder sair.
Quando estava a passar à frente dela, diz a alarve:
– Pessoas que não sabem vir ao cinema não deviam sair de casa.
Estanquei.
Sempre a olhar em frente.
E sai.
– De facto – pensei.
Mas não disse.
Nada.
Porque se não diz nada a quem não destrinça entre comer pipocas durante os anúncios iniciais, no intervalo ou depois do filme e se bota a comer milho para gáudio do seu estômago alarve, em desconsideração pelo próprio bilhete que comprou.
Não sei se voltarei a uma sala de cinema. Quanto a este casal, aposto ter página no Facebook e juraria saber em quem vota ou em quem se prepara para finalmente ir votar.
Não se comem pipocas durante a sessão. É difícil perceber isto?
Bem. Pelo menos percebi porque é que também lhe chamam pópe cornos ou coisa do género.

Carta a Amadeu Guerra

(Por Ricardo Marques, in Expresso Diário, 27/04/2018)

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Exmo. Senhor Diretor do DCIAP

DR. AMADEU GUERRA (PROCURADOR GERAL ADJUNTO)

Departamento Central de Investigação e Ação Penal

Rua Gomes Freire n.º 213, 1150-178 Lisboa

Excelência,

Espero que esta o encontre bem, assim como aos que consigo trabalham — e que, não obstante as mais diversas tentativas, não consegui vislumbrar na mais recente produção cinematográfica com que nos brindou o departamento que superiormente dirige.

Assisti com algum desconforto à discussão que se instalou nos últimos dias acerca da obra, principalmente porque me parece que é absolutamente lateral. Lemos e ouvimos incontáveis opiniões acerca do segredo de justiça e do direito à informação, mas nem uma linha, nem uma palavra sobre a questão realmente decisiva. Como tantas vezes sucede, enredados que estamos a analisar o fotograma, acabamos por perder uma excelente oportunidade para discutir o filme.

Não encontrará nestas linhas, Excelência, uma palavra que seja sobre o acessório. Cingir-me-ei ao essencial. E o essencial, senhor procurador-geral-adjunto, é a opção estética feita pelo DCIAP ao nível da realização do filme dos interrogatórios da denominada Operação Marquês. Em especial, o recurso à câmara estática e ao plano picado.

Rendi-me ao fim de apenas alguns segundos e, admito-o sem pingo de vergonha, terei mesmo exclamado, aos gritos numa sala vazia, algo como: “Génio! Puro génio!” Hoje percebo melhor o meu próprio entusiasmo. Naqueles instantes primevos de exposição à obra fui transportado à Paris de 1895 e dei por mim sentado a assistir ao histórico filme de Louis Lumière, “L’Arrivé d’un Train”. Literalmente, senti-me como se um enorme comboio viesse na minha direção e não houvesse fuga possível. E fiquei ali.

George Sadul, na sua “História do Cinema Mundial”, um livrinho que tenho aqui guardado, nota que se trata de uma espécie de ‘travelling’ invertido. “A câmara não se desloca”, diz ele, “mas os objetos ou as personagens aproximam-se ou afastam-se constantemente dela”. “Esta perpétua variação do ponto de vista permite extrair do filme toda uma série de imagens tão diferentes com os sucessivos planos de uma montagem moderna”, conclui o Sadul, incapaz de adivinhar que 123 anos volvidos, numa sequência de balanços na cadeira e de gestos intensos personagens, voltaria a fazer-se história.

O génio da obra do departamento que dirige vai muito além da câmara estática, dessa homenagem aos dias do cinematógrafo. A aposta no plano picado coloca-nos como que sentados numa nuvem, como anjos, a assistir à história a acontecer diante dos nossos olhos. E nem sequer estamos sempre na mesma nuvem, embora não nos livremos de uma estranha sensação de fim do regime. Do mundo, digo. “Na ‘chegada do comboio’, a locomotiva vinha do fundo da tela e avançava para os espectadores, fazendo-os estremecer com o medo de ficarem esmagados. Identificavam, assim, a sua visão com a da máquina: a câmara era, pela primeira vez, um personagem do drama”, resume o Sadul.

Ora, como se tudo isto não fosse suficiente, optaram os senhores por introduzir uma dimensão ainda mais extraordinária na vossa produção. Uma espécie de presença na ausência. Falo, como Vossa Excelência já deve ter adivinhado, das vozes que inquirem, das perguntas que surgem de nenhures para interpelar os personagens. No fundo, somos nós, do alto das nossas nuvens, que lhes falamos. Queremos saber, queremos saber – e não é o horário do comboio que queremos saber. As vozes exigem mais.

O modo desconfiado com que, a dado momento do filme, um dos advogados nos contempla leva-me inapelavelmente para as derradeiras linhas da humilde carta que lhe dirijo. Há no olhar daquele homem um misto de surpresa e resignação, como se reconhecesse, ali e então, estar em presença de uma obra seminal da cinematografia nacional e, em simultâneo, nos rogasse para que nada volte a ser como já foi.

Aqui chegados, e porque sei bem como são ocupados os seus dias, permita-me senhor procurador-geral-adjunto algumas sugestões. Não se trata de comprometer a integridade artística em obras futuras. Já ouvi dizer que o departamento que dirige não faz justiça ao cinema; que trata a imagem como se fosse apenas uma versão melhor das velhas cassetes em que se gravavam os interrogatórios. São os mesmos que, se levados diante de uma pirâmide, provavelmente iriam queixar-se de que a porta é pequena. São vozes, mas daquelas que não chegam ao céu.

Como lhe digo, não se trata de mudar por mudar. Ainda assim, creio que muito havia a ganhar se as próximas obras do DCIAP apresentassem, digamos, uma estética renovada. Imagine uma pequena câmara colocada na gravata dos procuradores? Há anos que os americanos o fazem com os polícias. Ou um plano fechado apenas nas mãos de quem está à mesa? Quem sabe apostar em grandes planos dos intervenientes, em momentos-chave da história, ou colocar uma câmara no teto, para obter planos de ambiente e, mais fechados, dos apontamentos… Estaríamos, bem sei, perante um novo paradigma ao nível da realização, mas é um erro ignorar os tempos em que vivemos.

Lembre-se: o comboio da vida anda sempre à tabela. Nós é que nos atrasamos.

Com os melhores cumprimentos,