Espanha – A amnésia do passado e a incerteza do futuro

(Carlos Esperança, 05/04/2018)

guernica

A Espanha entrou no comboio da democracia à boleia do 25 de Abril português, quando Franco era já um cadáver adiado e o país uma sádica ditadura, sem futuro.

Adolfo Suárez conseguiu, contra os mais empedernidos franquistas, fazer uma transição democrática consensual, graças à aprovação da atual Constituição, monárquica, liberal e pluripartidária, apesar da as sondagens à população darem preferência à República.

O medo assimilado na perversa ditadura franquista e o risco de novo golpe fascista, que, aliás, viria a ser tentado, levou os partidos e o próprio povo a consentirem a monarquia. O regime ambicionado pelo genocida Franco, que educou no fascismo o futuro rei, Juan Carlos, acabou por se impor, mas a amnistia dos crimes franquistas é a ferida aberta que permanece, e abre caminho ao retrocesso democrático em curso.

Enquanto o problema catalão prossegue sem solução e o nacional-catolicismo regressa a Espanha, surgem movimentos que pesquisam, descobrem e assinalam numerosas valas comuns para onde os franquistas atiraram os adversários assassinados. O país divide-se entre os nostálgicos do passado e os que esperam um módico de justiça para as décadas de tortura, execuções, fuzilamentos sumários e despotismo.

Só a Junta da Andaluzia encontrou 88 novas valas de vítimas do franquismo. O Mapa das Valas Comuns não para de atualizar-se. Sevilha, Huelva e Cádis têm respetivamente 136, 124 e 118 valas localizadas. Depois, vêm Granada com 108, Málaga (99), Córdoba (79), Jaén (27) e Almería (11). Na Andaluzia estimam-se desaparecidas 48.349 pessoas, durante a ditadura, muitas dispersas por outras províncias: 367 (Almería), 1.555 (Cádis), 5.139 (Córdoba), 11.563 (Granada), 10.382 (Huelva), 2.039 (Jaén), 7.241 (Málaga) e 10.063 (Sevilha). *

A violência adormecida durante quatro décadas acorda com inusitada violência e desejo de justiça num país dilacerado pela corrupção, desorientação do Governo, descrédito da monarquia e avidez da Igreja católica, ansiosa por recuperar e ampliar privilégios, numa luta despudorada contra a separação da Igreja e do Estado.

Mais do que o anacronismo das instituições e a desadequação da Constituição às novas realidades, é a sobrevivência e a impunidade do velho franquismo que ameaça a paz e a convivência entre os espanhóis.


* Os dados deste parágrafo foram recolhidos no diário País, Espanha, de 03-04-2018.

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2 pensamentos sobre “Espanha – A amnésia do passado e a incerteza do futuro

  1. Os assassínios franquistas atravessaram o Atlântico e chegaram à VENEZUELA…,
    Os factos, relacionados com a Guerra Civil da década de 1940, terão ocorrido nos finais da década de 1950 e a família em Portugal, quer a da época ou até a actual…, poderão nunca ter tido acesso a tal conhecimento.
    O Arquitecto Pedro Teotónio Pereira, falecido recentemente, envolvimento em alguns acontecimentos anti-salazarista da época e preso politico em CAXIAS até ao 25 de Abril de 1974, amigo pessoal de JOÃO BRAGANÇA e do meu Pai, se não passou a escrito as suas MEMÓRIAS da época, fez o transporte deste acontecimento para a “cova”…

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  2. E estes crimes e criminosos ficam impunes?! Não há acusação e julgamento para os responsáveis que estejam ainda vivos? É caso para dizer que o crime compensa?! Ou tudo se perdoa e se esquece por a Igreja, a Santa Madre Igreja, Católica, Apostólica, Romana, ter culpas no cartório?

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