O que é o Estado?

(Por Dieter Dillinger, in Facebook, 02/01/2018)

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É a organização pública sustentada pelos contribuintes, cujos dinheiros são limitados.

Já tenho dito que o Estado está bem organizado para situações normais em que a produtividade do trabalho diário é suficiente.

Mas, os contribuintes não possuem meios financeiros para sustentar uma grande retaguarda para situações excepcionais, muitas delas criadas por alguns privados.

Veja-se o caso dos milhões de contos que muita gente tinha e que esperou 16 ANOS para ir ao Banco de Portugal trocar por euros no último dia.. Vimos na televisão gente irritada com a enorme fila de espera, como se o BP tivesse que ter um número adicional de caixas para trocar no último dia de 16 anos.

O mesmo acontece com impostos que muita gente quer pagar no último dia e entope sistemas informáticos e balcões das secções de Finanças.

E o caso dos INCENDIÁRIOS pagos por MANDANTES que, aparentemente, a Justiça não quer conhecer.

O Estado não possui um exército de reserva para vigiar as florestas nem um serviço de bombeiros adicional para os dois a três meses de verão e que durante nove meses do ano não fazem nada, tal como não possui agora maternidades em que nem uma criança chega a nascer por semana ou escolas com menos de 10 alunos e, por vezes, um por ano de escolaridade.

O Estado, dizem, abandona o interior, mas, nós, os contribuintes, não temos dinheiro para sustentar um segundo Estado de funcionários apenas para que haja mais gente no interior. O Estado sai em último lugar depois daqueles que podiam ser os fornecedores dos Continentes, Pingo Doce, etc. terem deixado a agricultura porque os grandes milionários não pagam o seu trabalho de modo a terem as contas equilibradas.

A falta desse Estado de Reserva é criticado pelo presidente Marcelo e é referida pela Cristas e gente do PPD como “colapso do Estado”.

Mas, se a Justiça não colaborar, vai ter de haver uma imensa Guarda Florestal já constituída e que recebeu recentemente quase uma centenas de viaturas especiais novas para patrulharem a floresta e que terão de multar todos os proprietários de casas e terrenos e concessionários de estradas que não respeitem a lei. Só assim, o custo desta Guarda não será exorbitante.

Sim, espero que nem Marcelo nem a Oposição estejam à espera que essa Guarda seja gratuita.

Sim, senhor Presidente, podem oferecer-lhe um pastel de nata ou um rissol de camarão, mas ninguém vai oferecer ao Estado uma grande Guarda Florestal nem mais unidades de bombeiros sapadores, principalmente agora que os bombeiros voluntários estão a sair dessa atividade porque V. Exa, a Justiça e a Oposição os tratou tão mal e até querem levá-los a Tribunal por não terem apagado os quase 300 fogos por dia que os INCENDIÁRIOS atearam no verão do ano passado.

O Senhor Presidente da República deve ser mais JURISTA e considerar em primeiro lugar aqueles, os INCENDIÁRIOS, que atearam os FOGOS e só depois o pessoal do INEM, da PROTEÇÂO CIVIL e dos BOMBEIROS que não atearam nenhum fogo e chegaram a trabalhar 72 horas seguidas, descansando extenuados um pouco tempo deitados no meio das estradas.

V. Exa Sr. Presidente não estudou química, mas não é preciso ter frequentado a Faculdade de Ciências para saber que NADA ARDE por ignição expontânea. Não são os eucaliptos que ardem, mas sim os garrafões de gasolina que foram postos nas suas imediações.

Marcelo é escravo da sua popularidade 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/01/2018) 

Daniel

Daniel Oliveira

 

O Presidente falou ao país e deixou vários “recados”, como se tornou hábito dizer na gíria política. Todos me parecem, em relação ao que se passou no ano de 2017, pacíficos. Correu bem na economia e em indicadores sociais como o emprego. Para melhor compreensão, correu bem até 16 de junho de 2017, e assim torna mais fácil explicar a sua mudança de comportamento. Correu mal por causa dos incêndios, que para o Presidente consomem toda a segunda metade do ano. Mesmo sabendo-se que o que falhou nos incêndios também tem alguma coisa a ver com o que supostamente correu bem: as contas públicas.

Os recados para o futuro são também óbvios. Uns foram meramente poéticos – “reinventar o futuro” ou “reinventar confiança” é conversa de autoajuda que serve para o que cada um de nós quiser. Outros foram mais claros e é fácil concordar com eles: os portugueses, para se sentirem seguros, não precisam apenas de emprego, precisam de saber que, “nos momentos críticos, as missões essenciais do Estado não falham nem se isentam de responsabilidades”. Isto deveria levar a um debate interessante sobre quais são as funções essenciais do Estado e as condições que temos para as fortalecer quando nos são exigidas e escrupulosamente cumpridas metas orçamentais que nos obrigam, todos os anos, a ter um superavit estrutural que só pode resultar em esvaziamento de funções do Estado. Não sei se o Presidente está disponível para promover um debate tão político e tão pouco consensual como este.

Manda a tradição das relações institucionais que o Presidente envie recados aos outros órgãos de soberania mas que estes se abstenham de o fazer com o Presidente. E bem, já que o Presidente tem um papel moderador. Mas cá estamos nós, portugueses sem responsabilidades institucionais, para o fazer. E é especialmente importante fazê-lo com um Presidente que escolheu uma presença tão assídua no espaço mediático.

Marcelo Rebelo de Sousa goza de uma enorme popularidade. Apesar de só ser possível num Presidente que não tem funções executivas e raramente é obrigado a desagradar a alguém, ela é útil para a defesa do sistema democrático num tempo de tanta descrença na política (não estou certo que tenha havido um tempo em que o sentimento tenha sido o oposto, mas adiante). Também não tenho qualquer problema com os afetos de Marcelo. Apesar de me interessar mais o que um político pensa e faz do que aquilo que sente, compreendo que a empatia é um elemento fundamental de liderança. O meu problema com Marcelo é mesmo o tipo de liderança que definiu, de forma consciente e premeditada, para o seu mandato.

Todos os dias Marcelo aparece na televisão a dar opinião sobre tudo. Se há legionela ele vai ao hospital, se há um acidente ele chega antes dos bombeiros, se há um teatro que vai fechar ele aparece a fazer promessas que não pode cumprir. Quase sempre em cima do momento, sem conhecer as implicações daquilo sobre o qual está a intervir. Em geral, tem-lhe corrido bem. Como não é adivinho, acabará por lhe correr mal.

Marcelo é a personificação das redes sociais, sem a parte do ódio e da indignação. E isso não é muito avisado e cria problemas ao funcionamento da democracia. Socorro-me das palavras de Valdemar Cruz no Expresso Curto de hoje: “Decorre daqui uma enorme pressão sobre o sistema político e uma excessiva dependência comunicacional do que possa ser em cada momento a opinião do P.R. Não é seguro que o prolongar desta situação seja bom para a democracia, ou salutar para a convivência democrática entre os diferentes órgãos de soberania.”

O imediatismo da intervenção presidencial acaba por obrigar Marcelo (ou é essa a sua natureza) a surfar na espuma dos dias. Isso implica que, em vez de liderar a opinião pública, como acreditaram os que no Governo julgavam que o seu apoio institucional neutralizava a oposição, ele é liderado pela opinião pública. A enorme popularidade deste governo até aos incêndios não resultou do apoio de Marcelo, o apoio de Marcelo é que resultou da enorme popularidade do Governo. Marcelo vai tentando representar, a cada momento, o sentimento que julga ser dominante no país. Isso tem um lado positivo: o país precisa de ter um espelho no sistema político. Mas liderar não é apenas representar o sentimento geral, é canalizar o sentimento geral para um determinado projeto político para o país. Parte positiva, a sublinhar: não sendo um populista, o Presidente não explora os lados mais sombrios de todos os povos – o ódio, a xenofobia ou a descrença na democracia.

Não é por acaso que todos os comentadores sabem que Marcelo Rebelo de Sousa vai vetar a nova lei de financiamento dos partidos. Ninguém pode adivinhar a sua opinião sobre o assunto e ninguém sabe que argumentos usará. Mas todos perceberam que, por boas e más razões, de forma informada ou totalmente desinformada, a lei é muito impopular. E isso chega para sabermos como se vai comportar o Presidente. Porque intuímos que, independentemente de qualquer consideração política, vetará qualquer lei que seja impopular e apoiará qualquer medida que tenha boa aceitação pública. Uns acharão que isso é positivo, dando ao país uma válvula de escape que impeça a aprovação de leis que o povo não quer. Em parte têm razão, se essa opinião geral não se limitar a ser uma indignação inconsistente e inconsequente.

Uma das razões para optarmos pela democracia representativa é para que os humores coletivos de cada momento não tornem a condução do destino coletivo num vaguear sem rumo. Por isso, é preocupante quando o comportamento do árbitro do nosso sistema depende totalmente dos apupos e aplausos das bancadas. Estar atento à vontade do povo não é o mesmo que ser escravo da popularidade. Porque ela, sendo o seu principal instrumento político, também é o seu principal limite.

2018, O ANO DA REINVENÇÃO NACIONAL

(In Blog O Jumento, 02/01/2018)

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Estavam os portugueses tranquilamente a trocar mensagens de WhatsApp de fim de ano, dando uns aos outros os desejos de um ano tão forte, como a gordinha deu ao carro enquanto disparava com a garrafa de espumante aberta à meia-noite, quando receberam do Dr. Eduardo Barroso a grande notícia de 2017, a única boa notícia ouvida no país desde o malogrado dia 16 de junho, o dia em que o ano transato devia ter expirado: a boa nova que ressoava na comunicação social nas últimas horas de 2017 não podia ser melhor, os intestinos do Professor Marcelo voltavam a trabalhar normalmente.

O primeiro dia do ano de 2018 confirmou a boa nova dada pelo médico, Marcelo estava em forma no que respeita às suas funções intestinais. A leitura da mensagem fazia lembrar alguém a ler um dazibao numa rua da Pequim nos tempos da Revolução Cultural. A não ser que alguma dor no remendo intestinal lhe desse aquele ar sofrido de um presidente abraçado a uma velhinha, parecia que o presidente fazia um esforço para ler as letras pequenas dos velhos livros dos Lusíadas. Mas como não escolhemos presidentes pelo seu jeito para declamar poesia, o que importa é que os seus intestinos estavam a intestinar bem a e a bom ritmo.

Isso ficou evidente quando declarou que “ninguém imaginaria há dois anos poder partilhar tão rápida e convincente mudança, sem dúvida iniciada no ciclo político anterior, mas confirmada e acentuada neste, que tão grandes apreensões e desconfianças havia suscitado cá dentro e lá fora.”. Isto é, há dois anos ninguém conseguiria imaginar o sucesso das políticas que iriam ser adotadas pelo Centeno, aquilo a que se designou por reversões e que levaram alguém anunciar a vinda do diabo. Mas passados esses dois anos é óbvio que tudo nasceu no ciclo político anterior e que o atual ciclo só teve o mérito de não estragar o que tinha sido feito.

Essa de ser impossível prever o que iria suceder na economia, em consequência de uma política económica adotada por um governo, para depois ser mais do que óbvio que o que sucedeu resultou dessa política é uma forma de começar 2018 com muito bom sentido de humor.  Curiosamente, já no que se refere à capacidade de resposta de um país a uma grande calamidade como os incêndios é coisa que se resolve na hora, não resulta de mais do que meia legislatura.

Outra ideia muito interessante é a de que há uma maioria silenciosa de gente abenegada mas que conta pouco nas eleições, gente que por ser do interior sofre muito e trabalha ainda mais, e que por isso é mais do que aqueles que vivem no pecado das cidades do litoral, verdadeiras Sodomas e Gomorras dos tempos modernos, onde se ganham as eleições e se despreza os desejos do verdadeiro povo, minoritário mas genuíno, honesto e trabalhador. É para impedir as consequências dessa subversão que é a democracia, que há quem ouça os desejos dessa maioria qualificada, desejos que são os dessa entidade mítica que é o povo. Mas só alguém com um ouvido especial consegue ouvir a ”palavra de ordem que vem do povo, deste povo mais sofrido, do mais sacrificado e abnegado”.

Enfim, 2018 promete e graças aos cuidados médicos do Dr. Eduardo Barroso vamos mesmo conseguir reinventar o país. Aliás, até parece que Portugal tem o primeiro caso de cirurgia em que em vez de se separarem siameses se juntam irmãos a fim de serem siameses. Ontem Marcelo dizia que 2018 era o ano da reinvenção do país; o Presidente pode estar descansado, já que o seu siamês dos almoços vai fazer-lhe a vontade: Santana Lopes acabou de anunciar que é ele que vai reinventar o país. Mas que grande reinvenção.


Fonte aqui