É quase deprimente ver os militantes do PSD a discutir se Santana odeia mais ou menos António Costa do que Rui Rio, com um a recusar qualquer acordo com o PS e o outro a admitir apoiar um governo do PS. Isto é, o que distingue um do outro não é a capacidade de ganhar, mas sim a forma como vão digerir uma derrota que consideram certa. Pelo meio vem Miguel Relva dizer que ganhe um ou o outro, o futuro líder do PSD vai durar dois anos, isto é, só é eleito para tomar conta da casa.
Arquivos mensais: Janeiro 2018
Votei, mas não inalei
(João Quadros, in Jornal de Negócios, 12/01/2018)

João Quadros
“É verdade que a canábis ajuda no sofrimento de cancros terminais, mas depois essas pessoas podem ficar agarradas.” Provavelmente, vão para o céu fazer filtros.
Ontem debateu-se (escrevo esta crónica na quarta-feira) na Assembleia da República as propostas do BE e do PAN sobre os projectos de lei para legalizar a canábis para fins medicinais. O CDS e o PSD estão contra. É pena. Até porque a primeira autorização para plantação de canábis para fins de medicinais em Portugal, para exportação, foi dada em 2014.
Acho que o PSD e o CDS podiam ter sido convencidos se lhes disséssemos que é tradição fumar charros em Portugal. Nas Festas de Reis, na aldeia de Vale Salgueiro, em Mirandela, as crianças são encorajadas a fumar cigarros, uma tradição que teve direito esta semana a uma reportagem da Associated Press. “Pais encorajam os seus filhos, alguns com menos de cinco anos, a fumar cigarros.” A reportagem salienta que a idade legal para adquirir tabaco em Portugal é 18 anos, “mas ninguém proíbe os pais de darem cigarros às crianças e as autoridades não intervêm para parar esta prática”. Os entrevistados justificam a mesma com os costumes locais. Que fixe. Se calhar, os miúdos injectam-se no Carnaval e vão às meninas na Páscoa.
Nada como imaginar um roteiro tradicional, como as crianças a arder de Vila Nova de Sardão, o “striptease” forçado de septuagenárias em Poço de Sete Mães ou a largada de cabrestos e grávidas bêbedas de Fonte de Castelo Coiso.
Os deputados do PSD, pelo menos alguns dos que conheço, votam contra a canábis para uso medicinal, mas usam para fins recreativos. O PSD e o CDS são contra a utilização em Portugal de canábis para fins medicinais, mas autorizaram plantações onde produzimos canábis para venda para fins medicinais noutros países. É espectacular, somos grandes exportadores de marijuana para uso farmacêutico, mas segundo o PSD e o CDS aquilo só faz mal. Ainda recentemente, a maior plantação de canábis em Portugal foi anunciada no Web Summit. É proibir essa malta toda de cá entrar e deitar fogo a estes projectos todos. Porque não vamos deixar produzir cá uma coisa que até é proibida para efeitos medicinais.
Recordo que, em 2012, a JSD, na altura liderada por Duarte Marques, apoiou a Marcha Global da Marijuana em Lisboa. Grande maluco. A desculpa do PSD para chumbar a legalização da canábis para uso medicinal é: “Pode causar habituação.” Ou seja: “Coitados, é verdade que a canábis ajuda no sofrimento de cancros terminais, mas depois essas pessoas podem ficar agarradas.” Provavelmente, vão para o céu fazer filtros.
Resumindo, no país de horas e mais horas de publicidade ao cogumelo do tempo e ao Calcitrin, que é vendido directamente ao público, sem intermediação das farmácias, nem pensar em permitir a canábis para efeitos terapêuticos. Não aguento tanta hipocrisia, preciso de fumar uma.
TOP 5
Faz-me um filtro
1. Marques Mendes diz que investimento da Santa Casa no Montepio “vai acabar num inquérito parlamentar e numa investigação judicial” – Ou seja, o negócio não passou por uma das empresas dele.
2. Há 147 mil empregos vagos nas indústrias tradicionais – Deve ser porque pagam bem.
3. Mulheres vestem-se de preto nos Globos de Ouro contra o assédio – Este ano, o Óscar de melhor actor devia ir para uma mulher.
4. Danos da fuga de touro em Arruda ultrapassam os 25 mil euros – A RTP faz uma corrida de touros para ajudar.
5. Marques Mendes: “Diziam que eu tinha talento para guarda-redes de futebol” – De matraquilhos.
A síndrome de Trump – Anda tudo doido…
(Por Carlos Esperança, in Facebook, 12/01/2018)

– A Assembleia da República quer decidir sobre o uso da canábis para fins terapêuticos, competência do Infarmed, cabendo aos deputados decidir sobre a eventual legalização para fins recreativos.
– A Ordem dos Médicos aprova o uso da canábis em várias situações, posição que deve ser acolhida, mas só como medicamento, como se lhe coubesse a decisão. A AR decide a introdução de medicamentos (este já existe em gotas) e a OM as indicações?
– A ministra da Justiça disse que “o mandato de PGR é longo e único”, e a comunicação social, o PSD e o CDS, os comentadores e os constitucionalistas, contestaram-na. Gerou preocupação no PS e consternação em Belém. § A lei foi alterada para que o cargo que Cunha Rodrigues ocupou 16 anos não fosse vitalício. O mandato único foi o que, depois dele, Souto Moura e Pinto Monteiro cumpriram. Independentemente da interpretação dos juristas, a hipótese omissa de recondução, a existir, podia transformar em 18, 24, 30 ou 36 anos os 16 de Cunha Rodrigues.
– A PGR, Joana Marques Vidal, numa conferência em Cuba sobre ciências penais, em março de 2016, referindo-se às características do MP português afirmou que “o mandato tem 6 anos e duração única”, posição que já tinha assumido em 2012, numa entrevista publicada na revista da Ordem dos Advogados, em que, na sequência da sua exposição, declarou que “Por alguma razão, o mandato do procurador-geral da República é de seis anos, não renovável”. E as afirmações não foram contestadas ou, sequer, comentadas.
(V/ mural de Alfredo Barroso in Facebook).
– O PR sabe que, face às afirmações da PGR, não poderia o Governo propô-la, nem ela aceitar, mas, fazendo pressão disfarçada de magistratura de influência, disse que tomará a decisão em outubro, arrogando-se um inexistente direito de pernada.
– A bastonária da Ordem dos Enfermeiros (V/foto) tem sobre as suas competências uma ideia aproximada, misto de sindicalismo difuso, proselitismo partidário e obsessão mediática. É por isso que desde o conhecimento de médicos que praticam eutanásia nos hospitais públicos, afirmação que teve de engolir, do incitamento à greve, até à acusação de que nas Urgências hospitalares “sempre que os membros do Governo vão a uma Urgência escondem-se os doentes até debaixo de escadas”, entrou em incontinência verbal, exacerbada para atacar o governo.
