A insuportável evidência das coisas

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/12/2017)

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Miguel Sousa Tavares

1 Assim que foram privatizados, os CTT encerraram o posto de correio que ficava a cem metros de minha casa, em Lisboa — um entre dezenas ou centenas que vêm encerrando pelo país todo, e em especial no interior, que todos os políticos juram não querer ver desertificado. Agora o mais próximo da minha área de residência fica a dois quilómetros. É preciso ir de carro e só por milagre se arranja lugar para estacionar nas proximidades. Seria de crer que o encerramento de balcões tivesse conduzido a uma concentração de pessoal em menos, mas maiores e melhores balcões, mas, no caso concreto, foi pura ilusão: aparentemente, nenhum dos funcionários do posto extinto se transferiu para este. Mas os utentes, esses sim, dobraram em número e nem sequer têm cadeiras suficientes para se sentarem enquanto esperam: da última vez esperei 25 minutos para levantar uma carta registada — a pior coisa que alguém me pode mandar hoje em dia. Do fundo do coração, só posso agradecer a Passos Coelho, Paulo Portas, Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque o notável benefício que trouxeram ao concreto da minha vida. Eu e milhões de outros portugueses.

Os CTT públicos eram  uma empresa eficiente e rentável: dava, em média, €60 milhões de lucros por ano ao Estado e cumpria, sobretudo na província, uma função social preponderante. Isso, mais o facto de ser um serviço público funcionando em regime de monopólio, deveria aconselhar qualquer pessoa minimamente dotada de sensatez (já não falo de ideologias) a pensar dez vezes antes de se decidir pela sua privatização. Mas nada deteve a teimosia de Passos, feita de um liberalismo enxertado à pressa, talvez pelo mestre António Borges, o je-m’en-fichisme de Portas e, desculpem a ousadia, a impensável incompetência económica de que a dupla Gaspar/Maria Luís deram provas.

Mas podiam ao menos ter revelado algum sentido de história, lembrando-se do que foi a privatização dos correios ingleses, levada a cabo por Margaret Thatcher, e que conseguiu transformar um serviço, que já no reinado da Rainha Vitória era conhecido por ter duas distribuições diárias de correio, numa atividade quase terceiro-mundista. Porém, preferiram privatizar os CTT, dando ainda como benesse uma licença bancária, cuja finalidade era transformar os postos de correio em agências bancárias e as pensões dos reformados em depósitos à ordem ou em investimentos a cargo do banco. Hoje, três anos decorridos, constatamos várias coisas: que o serviço postal é uma droga, sem apelo; que fecharam balcões e despediram trabalhadores; que os accionistas retiraram uma média de €80 milhões por ano, onde o Estado só retirava €60 milhões; e que estão semifalidos. Por conseguinte, acabam de anunciar mais 800 despedimentos, e mais uns quantos encerramentos de balcões. E sabem o que aconteceu no dia a seguir a este anúncio? As acções dos CTT chegaram a subir 10% na bolsa. Ou seja: aquilo que é mau para o país e para os trabalhadores da empresa, é bom para os accionistas. Alguém quererá pedir desculpa pela privatização dos CTT?

2 E, todavia, já sabíamos de cor a lição: sempre que algum serviço público essencial, funcionando em monopólio, é privatizado, o resultado é invariavelmente um serviço pior e mais caro, com lucros garantidos por uma subterrânea teia de cumplicidades e promiscuidades entre políticos e empresários e à custa dos utentes. Foi assim com a PT, com a Galp, com os CTT, com a EDP. A EDP é mesmo o case study absoluto.

Por mais que me tenham tentado explicar ou eu tentado perceber, até hoje ainda não consegui entender de onde vem e quando termina o célebre “défice tarifário” que constantemente nos atiram à cara. Pois se eu pago a electricidade doméstica mais cara da Europa a 28, como é que ainda estou em défice? Se 75% dos portugueses disseram esta semana numa sondagem que passam frio em casa para pouparem electricidade, como é que ainda estamos em défice? E se, como não se cansam de repetir, somos o país mais avançado em matéria de fontes alternativas (e grátis) de energia, como é que pagamos a electricidade mais cara da Europa? Cada vez que falo ou escrevo sobre isto, há um diligente funcionário da EDP que se dá ao trabalho louvável de me enviar um longo e-mail cheio de números e explicações e cuja conclusão é a de que a electricidade não é cara, os impostos é que são. Mas, continuo na mesma: os impostos incidem sobre o montante da conta, logo, se esta fosse baixa ou normal, também eles o seriam. O que sei é que nós pagamos nas contas de electricidade €2,5 mil milhões anualmente para uma coisa chamada CIEG (Custos de Interesse Económico Geral — seja lá isso o que for). E parece que os ditos CIEG não têm nada que ver nem com os custos de produção nem com os de distribuição de energia — de tal forma que, enquanto o consumo global de electricidade dos portugueses em 2013 era igual ao de 2006, já o que pagámos pelo CIEG nesse período multiplicou por cinco, de €500 milhões anuais para €2,5 mil milhões (informação que agradeço ao Rui Rodrigues, que creio ser o inimigo nº 1 da EDP). E também sei que o governo, que orgulhosamente foi “ainda além da troika”, só ficou aquém na recomendação para que cortasse nas “rendas excessivas” da EDP e até correu com um secretário de Estado que se atreveu a querer fazê-lo.

Esta semana, o “Público” trazia um excelente trabalho de investigação da jornalista Cristina Ferreira, sobre esse fenómeno de sobrevivência que é António Mexia, o CEO da EDP, distinto e incontornável membro daquilo a que em tempos chamei o Clube da República — uma centena de personalidades da política, da banca e do mundo empresarial que, de facto, eram os ‘donos disto tudo’. Hoje, o clube foi devastado, essencialmente pela sua ambição sem limites e o seu sentimento de impunidade. Mexia é, practicamente, o único membro do clube que sobreviveu no activo. Sobrevivência tanto mais notável, pois ele, tendo servido (e, segundo consta ou faz constar, brilhantemente) todos os senhores que havia para servir em cada momento — Cavaco, Salgado, Santana, Passos, Sócrates e o Partido Comunista Chinês —, manteve-se sempre no topo e sem nunca arriscar um euro seu. A biografia de António Mexia é, de facto, o retrato do regime nestes últimos 30 anos, entre crises e euforias, surdas conspirações, densas manobras de bastidores, movimentos ocultos, cumplicidades e traições, e milhões, sempre milhões, no princípio e no fim de tudo. Dava uma peça de teatro ou um thriller sem tempos mortos. Que relação é que isso possa ter com o custo da electricidade que pagamos é o que fico à espera de ver esclarecido pelo meu prestável correspondente da EDP.

3 A activação do artigo 7º do Tratado de Lisboa por parte da UE contra a Polónia é apenas um pequeno passo, que poderá ser inconsequente, se não for seguido por outros, como as represálias orçamentais. Mas é um passo simbólico importantíssimo: a União Europeia, cujo fundamento primeiro é a união entre Estados democráticos e cuja função primeira é a protecção dos cidadãos contra os abusos dos Estados, não pode continuar sem reagir à progressiva deriva totalitária de países como a Polónia, a Hungria, a Roménia, a Eslováquia e a República Checa — com a Áustria e a Finlândia sob observação. Ainda por cima, quando essa deriva antidemocrática acompanha um nacionalismo populista e desemboca num racismo sem pudor em relação aos refugiados, que recusam receber em absoluto. A Europa é baseada na democracia e na solidariedade e se estes antigos satélites da URSS no leste, a quem a UE abriu demasiado apressada e levianamente a porta, o não querem entender, então não há lugar para eles na Europa. Na nossa Europa. O que está em jogo é muito mais importante do que a questão das dívidas ou dos défices, da união bancária, da uniformização dos regimes fiscais ou até do que o ‘Brexit’. É a própria ideia da Europa como baluarte principal da democracia e das liberdades individuais. Sobre isto, não pode haver qualquer margem de compromisso ou de negociação.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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13 pensamentos sobre “A insuportável evidência das coisas

  1. Não foi Margaret Thatcher quem privatizou o Royal Mail: Foi David Cameron. Mrs.Thatcher sempre se recusou a faze-lo por, dizia, não querer “privatizar a cabeça da Raínha”, (cujo perfil constava nos selos de correio):
    PS: Pouco depois também me fecharam a minha estação.Uma entre muitas centenas de outras.(O “filme” é sempre o mesmo!)

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  2. A maior e mais insuportável evidência das coisas para o país foi o comportamento anti-português e anti-patriotismo de Passos Coelho e seus seguidores.
    Era uma total evidência para qualquer leigo que tivesse acompanhado o sem-vida e a não-vida de Passos feita de expedientes e oportunísticos saques de ocasião por meio de tráfico de influências políticas.
    Pois o agora mui-visionário não visionou a “insuportável evidência das coisas” nessa coisa tão concreta que era vir a ter um PM da estirpe do podre, do retornado vingativo, do corrupto “democrata”salazarista.
    E desse modo, sem ver um boi sequer quanto mais os cornos da manada que viria, fez a apologia da “grandeza” e “verdade” de Passos face a Sócrates e nós gramámos com o pior e o mais nefasto governo da Democracia.
    Foi um contributo decisivo para ficarmos a conhecer definitivamente o que representa as evidências insuportáveis deste passarão de cu rotundo sentado em todos os cadeirões bem pagos da “opinião” nacional.

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    • Não foi só o visionário a que alude que mandou às urtigas as consequencias de “deitar abaixo” Sócrates sem se importar com o que viria depois. Entrou-se numa euforia miserável ao ponto de se promover um nado-morto como Passos como o grande salvador da pátria e na medida em que amesquinhavam Sócrates elevavam Passos a um patamar tal como se o fulano tivesse algum valor que lhe adviesse do desempenho de algum cargo político ou até mesmo empresarial. Nada, zero, nunca mostrou qualquer valor nem mesmo a lidar com o sexo oposto. Uma autêntica tragédia, uma negação. Mas foi a aversão ao estilo de governar de Sócrates, à sua “frontalidade” que levou muitos visionários a tecerem-lhe as maiores criticas criando nas massas o “húmus” propício à aceitação da aventesma de Passos e da sua famigerada equipa. O que é lamentável é que visionários deste calibre não tivessem a percepção do que viria a seguir à queda de Sócrrates, fosse, o que era por demais evidente, um governo de ultradireita, sem ideias, sem programa, sem política, mero serventuário da Troika que nos levou ao descalabro que todos sabemos. Mas a cegueira ou melhor o ódio a Sócrates era tal que toldou o raciocínio de tanta gente bem falante que até mesmo o PC e BE embarcaram nesta triste aventura de entregar de mão beijada o país a um PSD/CDS cujos líderes eram nem mais nem menos Passos e Portas. Para analistas tão visionários e políticos tão esquerdistas, pergunto: que lhes passou pela cabeça? Do que é estavam à espera?

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  3. Sousa Tavares, a entrar naquilo que Mr Mexia apelida de portugueses, uns invejosos.
    Passou ao lado da galinha dos ovos de ouro, a ANA.
    A ANA, que tudo aponta quanto ao Montijo e futuro, já tem o ministro das Obras Públicas no bolso.
    A bem do Regime.

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  4. Por esta hora as MANADAS dos países citados “Polónia, a Hungria, a Roménia, a Eslováquia e a República Checa” estão a questionar-se: “O que raio estamos a fazer na “união europeia?”!

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    • Não têm mais do que sair já !
      Bravo Miguel Sousa Tavares, hoje concordo plenamente consigo, os CTT para mim , tornaram-se esta coisa longíqua e inacessível que descreve, com esperas de atendimento ao público de três quartos de hora ou mais, e com livros que me foram mandados 2 vezes de França que nunca chegaram…(là em França é o mesmo)… a “financiarização” de toda a actividade humana está a nos desgraçar completamente ! É isto que a UE, se quer sobreviver, deve fazer : acabar com esta dinámica anti-social!

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  5. Estaline, esse idiota,que nunca viu que finos democratad tinha na Polónia, na Roménia, na Letónia, na Hungria,na Bulgária, etc.,etc.. Foi por pura maldade que tentou resolver os problemas que lá surgiram como resolveu. Esta gente,agora libertada do ditador,mostra aos pacóvios a sua raça ….

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