A ANATOMIA de QUATRO MIL PÁGINAS!

(Joaquim Vassalo Abreu, 13/10/2017)

calhamaco

Eu nunca estudei Medicina mas dizem que os compêndios de Anatomia têm para lá de muitas páginas. Eu, o máximo que terei lido, devem ter sido os cinco volumes dos Miseráveis, mas não são muito espessos, e os dois larguíssimos do Guerra e Paz! Mas aqui, ao fim do primeiro tomo, já vomitava paz e guerra e até as barbas do Tolstoy já me provocavam pesadelos…

De modo que ler ou estudar quatro mil páginas está muito para além das minhas cogitações!

Mas a primeira sensação que tive ao ouvir a quantidade de crimes que o MP imputa aos constituídos réus da Operação Marquês foi de ESPANTO. Ena tantos crimes, exclamei eu! Trinta e tal para o Sócrates, outro tanto para o amigo, mais vinte e tal para o Salgado e, coisa pouca, meia dúzia ou pouco mais para os restantes. Eu que pensava que os crimes eram só três: os tais de corrupção passiva e activa, o branqueamento de capitais e a fuga ao fisco. Devem ser estes…

A segunda foi de PERPLEXIDADE! É que na descrição dos mesmos eu não vi nenhum daqueles que a gente considera mesmo crimes e a começar pelo de Assassinato! É que nem um, por mais subtil que seja, aparece! Nem uma mais que leve “Vendetta”! E nem um sequer de traição ou vingança e muito menos de violência doméstica! Nem uma bomba debaixo de um carro…Mas que raio será este guião do Rosário?

E dei por mim a pensar que, perante isto, as narrativas e os guiões das novelas, e mesmo das séries de ficção e seus enredos, têm que sofrer um valente “upgrade” de actualidade pois, de outro modo, ficarão  irremediávelmente ultrapassadas.

Não mais o eterno e vetusto triângulo amoroso; não mais a a velada e minuciosamente estudada traição; não mais o acidente ou a emboscada por encomenda e não mais o malfadado assédio…os crimes mudaram de nome!

Agora, com esta acusação, tudo mudou! Quatro mil páginas, crimes a dar com um pau e mil e uma vezes repetidos réu a réu, caso a caso e…nada de violento? Como pode assim ser?

E, para falar apenas de alguns que eu pensava estarem na moda, nem “unzinho” de Lenocídio? Um que seja de Peculato? Nada? É que, sem um Assassínio, um Lenocídio, um Peculato ou mesmo um “Cumulato”, eu pensava que não poderia haver acusação possível! Afinal..

Mas a verdade é que de triângulos amorosos estamos nós fartos e tanto estamos que até deixamos de ver novelas, não é? E maioria do pessoal começou a ver séries. Até as gravam para depois verem! Mas, diga-me lá quem vê: haverá alguma série sem um assassinato que seja? Alguma sem armas ou coisa assim? Na novela do Rosário, a das quatro mil páginas, só aparece um pequeno revólver e…na posse do Perna! E os outros? Que raio de pistolas usariam eles?

Na novela do Rosário não há ligações nem amorosas nem apaixonadas: há ex-esposas colaborastes e namoradas solidárias! Ali não há arqui-inimigos que os queiram ver na lama: há solícitos amigos sempre disponíveis para uma ajuda! Não constam lá aqueles vis e obscuros intermediários que sugam o pelo e o osso por um servicinho: só há almas boas e sempre acessíveis, para facilitarem a sua conta até, sempre no sentido de obviar procedimentos. Basta um simples e formal pedido que ele se transforma numa ordem…estão a ver?

Esta novela “made by” Rosário abriu aos guionistas, narradores e anatomistas, um novo caminho e uma autêntica Caixa e Pandora quiçá! Até a própria Fox vai ter que rever os seus conceitos, para não ficar obsoleta e ultrapassada.

Mas eu não sei se esta radical mudança vai satisfazer os costumeiros seguidores de novelas, nomeadamente os mais solitários e idosos. Não sei não! Mas vão ter que se habituar aos novos tempos. Agora os protagonistas vão voltar a ser os polícias dos costumes e do fisco, Procuradores indómitos e insaciáveis, obstinados também, e juízes estetas e austeros, solitários e justiceiros, enxergando crimes em tudo o que mexa, assim como se procuram cogumelos comestíveis nos musgos das florestas!

Esta novela do Rosário, ou esta acusação, para ser mais preciso, é uma grande golfada de ar fresco e, como disse, um enorme clarão que se abre para os guionistas. São novos horizontes nos tratamentos das narrativas. Agora o que vai passar a dar são estes tipos de crimes e tudo o que à sua volta gira: os enredos, as teias, as persuações, os conluios, as divisões (do produto, é claro!) e todas essas coisas que se resumem, no fundo, a uma palavra: luvas! E não mais serão precisas luvas para os seus sinais, dos crimes, se descobrir.

Mas eu, que nestas coisas sou mais para o conservador, continuo a perguntar: E os assassinatos, agora são só de carácter? E os Lenocídios? São uma espécie de crime menor? E os Peculatos? Já não constam da ementa?

Isto já não é mais o que era, é o que é!


Fonte aqui

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Um pensamento sobre “A ANATOMIA de QUATRO MIL PÁGINAS!

  1. O meu aplauso , apesar de idosa, para este suculento artigo. Na verdade , as tradicionais tramas , perderam qualquer interesse depois desta nova modalidade de romance. Não sei, na verdade, se o estilo das 4000 pancadas me consegue seduzir pois , à partida , já me sinto enjoada . Gosto de histórias com princípio e fim e , sobretudo, com um fim feliz .

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