Entrevista a Sócrates: a pulhice em directo

(Estátua de Sal, 13/10/2017)

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Acabo de ver a entrevista a José Sócrates na RTP1. Entrevista? Não. Vítor Gonçalves – que erradamente, segundo o próprio, se dizia ser sobrinho de Dias Loureiro -,  mais parecia , isso sim, um primo do Rosário Teixeira e um representante do Ministério Público. Gonçalves levou o calhamaço das 4000 páginas da acusação para impressionar Sócrates e para que os espectadores, perante tanto quilo de papel tivessem ideia de quantos e quão graves são os crimes de que Sócrates é acusado: é a estratégia dos chamados “crimes ao quilo”.

Sócrates levou meia dúzia de folhas A4. Mas de efeito devastador. A tese do MP de interferência do Governo, comandado por ele, no caso da OPA da SONAE à PT, ruiu como um castelo de cartas. Um documento oficial trazido por Sócrates prova que o sentido de voto do Governo seria sempre no sentido da abstenção e não no sentido de favorecer os interesses do BES ou de qualquer outro grupo. Uma bomba. Gonçalves engoliu em seco.

E foi engolindo, de tese em tese, os documentos de Sócrates foram cirúrgicos e algumas ilações se tem que tirar deste combate em directo:

  1. Sócrates até pode ter culpas no cartório;
  2. Mas a construção do Ministério Público é fantasiosa em muitos tópicos e excederá, em muito, as eventuais culpas que são feitas ao anterior primeiro ministro.
  3. E quando se exorbita, a investigação cai em descrédito e os acusados tiram disso partido, como é natural e legítimo que façam.
  4. A tentativa de julgar alguém na praça pública, ultrapassando por todos os formalismos de um julgamento justo e no lugar certo, já não recebe o apoio da maioria da sociedade portuguesa. Até os não apoiantes de Sócrates já vomitam perante estes métodos e estas práticas de pelourinho a céu aberto em que se está a tornar a Justiça portuguesa.
  5. Gonçalves, durante todo o confronto, estava ali para acusar e provar ao público, e em directo, a culpabilidade de Sócrates. Isenção, nenhuma. Deontologia jornalística, zero. Probidade informativa, nenhuma.
  6. Mas, coitado, não tinha a noção de quem tinha pela frente. Sócrates, usou magistralmente o tempo de antena que lhe foi concedido e deu cabo do enviesado interlocutor, e suscitou grandes dúvidas sobre a coerência factual da narrativa do MP.
  7. Finalmente, Gonçalves, podia ter evitado ter feito a pergunta final, que só o desprestigiou ainda mais: “Como é que actualmente, paga as suas contas?”. Uma pulhice. Isto não se pergunta a ninguém numa entrevista e não creio que seja um assunto de relevância pública, já que faz parte do foro privado de cada um. Eu nunca vi isto ser perguntado a ninguém em televisão, e em directo.
  8. Pois bem, Sócrates esteve à altura da insídia e da provocação de Gonçalves e humilhou-o sem apelo nem agravo, e sempre com um sorriso urbano mas, suponho, intimamente feroz.

Se os adversários de Sócrates pretendiam, com esta entrevista, dar-lhe a estocada final de forma a que a sua culpabilidade e as teses do MP saíssem fortalecidas, enganaram-se.

É que Sócrates até pode ter cometido algum dos 31 crimes de que o acusam, e restarão sempre dúvidas sobre isso na mente dos justos, até que – por hipótese -, se faça um julgamento limpo. Mas do que me parece que não restaram dúvidas é que a acusação do MP tem pontos de fragilidade gritantes. Sócrates conseguiu provar isso de forma veemente e óbvia, e a postura inquisitorial de Vítor Gonçalves durante toda a entrevista só o ajudou. Há dias em que o feitiço se volta contra o feiticeiro e este foi um deles.

 

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29 pensamentos sobre “Entrevista a Sócrates: a pulhice em directo

  1. Também vi e a maneira imparcial e soez como os jornalistas enfrentam Sócrates faz-me pensar num comportamento de pistoleiros desafiadores estilo farwest que pensam consigo não haver ninguém mais rápidos do que eles no mundo a disparar.
    Contudo puxam da pistola e só sai fumo que o adversário desfaz com uma sopradela. Então sentem-se humilhados e começam a disparar sem jeito, sem sentido com o único objectivo já de ver se se salvam da situação de aperto em que se meteram. Foi o caso do Gonçalves.
    Já fora o caso do “pisca-pisca” escritor ao quilo e outros e agora do fininho Gonçalves. Só faltou argumentar que o que está nas 4000 páginas é que vale e prontes. Mas coitado, hoje nem nas milhentas páginas bem escritas da bíblia e demais escrituras do cristianismo o pagode acredita piamente quanto mais mais nas acusações feitas e desfeitas a martelo para encaixarem na narrativa dos acusadores Rosário & Alexandre.
    Desmentidas com provas e argumentos consequentes e goradas todas as tentativas do fininho para impor uma sequer suposição, insinuação, presunção ou coisas do estilo “cujo último beneficiário seria o Engº. José Sóctates” e outros “saltos lógicos” como muito bem denunciou o advogado (nome?) e calou o patife Dâmaso que segundo eu ( também posso ter uma suposição, não?) terá escrito metade das 4000 pág. do processo por interposto “cm”.
    Por fim o fininho, malcriado, fez perguntas torpes que apenas mereciam uma forte bofetada mas também não ficou sem resposta digna. E acabou sem se despedir do convidado de rosto tenso, em bico de faca de irado e raivoso que estava pelo enxovalho que levara quando pensava que ia enxovalhar.
    Mais uma vez Sócrates não teve medo nem respeitinho pelos enfatuados pelo poder que detém, quer magistrados quer jornalistas, e como sempre mostrou-se capaz de desafiar esse poderes inquestionáveis dos intocáveis. E tendo razão face à prepotência desses poderes está disposto a ser julgado sob a Lei escrita e não a ser vingado pela lei arbitrária.

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  2. Mais do mesmo,depois de ver as críticas,já que,infelizmente,por lapso,me enganei nas horas..
    Se nos distanciarmos no tempo,e vendo o percurso de J.Sócrates,sabendo que é um facto,foi o político que mais cumpriu no executivo,o que anunciou em campanha…Denota carácter,honestidade,espírito empreendedor e capacidade de execução…Dada a conjuntura europeia e mundial que tendenciosamente estão controladas pelo agiotismo e hipocrisia da direita nas mais diversas formas,Alemanha,Bruxelas,a possível liberdade individual está a cada dia que passa, mais comprometida…Banca,comércio de combustíveis e energia,telecomunicações e demais sectores que controlam o dinheiro que gastamos todos os dias.todos esses se organizaram em grupos fechados,mais ou menos anónimos,mas que se encarregam duma maneira pouco clara,a nos aliviarem do nosso escasso dinheiro,em benefício do bolso deles…Sócrates reformou,melhorou,inovou mas fê-lo de maneira que a riqueza criada,fosse repartida mais equitativamente,o que diminuiu a receita aos lobbies…Incomodou muita gente,foi uma pedrada no charco e,quem realmente manda,anda há anos a fazê-lo pagar por isso,já que ele Sócrates ousou reformar em função de maiorias e não das minorias agiotas,hipócritas e gananciosas..Os portugueses necessitam do circo do futebol,de bodes expiatórios e de informação tendenciosa e de fácil digestão.pois enquanto assim for,os “lobos”vão calmamente comendo os carneirinhos que só fazem o que lhes mandam…Ousou combater a corrupção,abanar o sistema,paga pelo abuso.A justiça da procuradoria e a comunicação social são os executores.Deplorável.

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  3. A tranquilidade de José Sócrates expressa pelas suas mãos e olhar cansado e doído , são as suas melhores armas contra os carrascos que, indecentemente e sem escrúpulos, o querem levar ao cadafalso. Os quarenta anos de democracia nada fizeram em certos espíritos que se arrogam proceder como se fossem donos da verdade e querem agir como inquiridores cruéis. Foi uma grande prova de que «o animal feroz» que está dentro de José Sócrates não adormeceu nem se deixou domar por uma feiosa JMV ou um raivoso e complexado RT.

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    • Quem pode com toda a justiça afirmar que é culpado ou inocente ? Infelizmente há muita gente, muita mesmo, que sofre de “enviesamento de confirmação”…

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  4. O carrasco (VG) só vale aquilo! Não presta. É um moço de recados. Serve bem esta RTP, viva a bafienta PAF! Só isto, é o valor deste jornalista. Servil, carrasco para quem não se perfila pelo pafismo.

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  5. Gostava de saber quem foi o autor deste comentário da entrevista concedida pelo Engenheiro José Sócrates.
    Tiro o meu chapéu ao que acabo de ler. Isto sim, é isenção, é objectividade.
    Soberbamente escrito. Permita-me que faça minhas as suas palavras.
    Quanto a mim, digo apenas o seguinte:
    Nunca votei no Engenheiro José Sócrates;
    Nunca votei no PS;
    A minha área política é o nacionalismo/fascismo;
    Não gostei dos governos do Engenheiro José Sócrates;
    Vi na sua detenção todos os atropelos e mais alguns, ao chamado estado de direito democrático. O homem foi verdadeiramente um preso político! Mas o fascista sou eu?!
    Foi enxovalhado, ultrajado e julgado na praça pública…à boa maneira da Inquisição e continua, agora até na TV pública.
    Mas, Sócrates não deita a toalha ao chão. Está pronto para a luta e tirar vantagem, dos incautos.
    Nada me move nem a favor nem contra o Engenheiro José Sócrates.
    Mas é por demais evidente que querem fazer dele um “bode expiatório”. Mas, tenham muito cuidado pois ele não desarma e já começou a derrotar os atrevidos. Ontem, foi o jornalista que, a mim muito me desiludiu, pois não pode tomar partido…tem de ser isento e desapaixonado. Sócrates, esteve ele próprio: acutilante, duro e perseverante.
    Querem “matá-lo”…mas ele não deixa.
    Bem haja pelo seu comentário.

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  6. Mais um palhaço a juntar à “plêiade” de jornalecos. Mas que se passa com esta cambada que cada um teima em ser mais parvo, mais pateta, mais imbecil que outro. Será que não haverá um jornalista probo capaz de ter coragem de fazer uma análise objectiva. Meu Deus este palerma seguiu a mesma linha de rumo do bimbo do Gomes Ferreira, do José Rodrigues dos Santos e outros idênticos. Mas quem é que instruiu estes papalvos que era deste modo que deveriam conduzir uma entrevista. Parecia que estávamos no tempo da Inquisição e o rapazito do alto da sua jactancia parecia o inquisidor mor. Pobre diabo, que figura ridícula. Pensava o rapazito que chegava ali e desancava Sócrates. Se calhar até já se tinha vangloriado da maneira como iria proferir a estocada. Teve azar, tal como sucedeu ao caramelo do Gomes Ferreira quando entrevistou António Costa, também este se saiu mal. Quando Sócrates desmontava uma por uma todas as insídias que o palerma pretendia feri-lo, então, não restando argumentação, tentava abafá-lo cortando-lhe a palavra e evitando a todo o custo que Sócrates rebatesse os seus patéticos argumentos.
    Depois perdido, desrespeitado, esmagado, recorre à estocada final caindo na palermice
    de perguntar como o homem pagava as suas despesas. Como é possível cair tão baixo!
    Sócrates não caiu na armadilha. Com um sorriso de triunfador respondeu com toda a propriedade que tal pergunta não era digna de um jornalista. E com esta simples frase demonstrou à saciedade que havia mais um imbecil na praça.

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    • Oh Rogério ! Só é pena que um homem tão sério ,apesar do seu sorriso , que tanto ousou combater a corrupção tenha tantos amigos contemplados com o milagre dos milhões que lhe pagam as contas…..

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      • Oh Fernando Pereira ! Só é pena que por dôr de cotovêlo ,falta de neurónios ,inveja e ou mediocridade ,se recusa o mérito a quem o merece ..O aludido ousou perceber e dar remédio a uma sociedade movida por interesses e manobras palacianas ,o que nos tem colocado num lugar proeminente da corrupção mundial ,práticamente sem apoios …Sem reformistas como Sócrates ,continuaríamos ainda mais tempo no lamaçal que é contínuamente alimentado pelos ultra liberais lobistas …Suponho que alguns retrógrados ,não consigam absorver o conteúdo da declaração dos direitos do homem e,continuem ligados ao obscuro feudalismo medieval …

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    • É uma pergunta digna de todos a quem o dinheiro não chega para uma vida faustosa ….querer saber como é possível consegui-lo ? … . De facto há muitos imbecis na praça… porque a resposta é óbvia… MILAGRE.
      Espero D. Verónica que também seja bemaventurada para estranhar tanto o que os simples mortais, que não tenham sido influentes por mérito ou beleza se interroguem….
      Recordando o artista… “já a minha irmã gostava de dizer coisas….

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  7. A pergunta final foi dum ridículo impensável.
    Se Sócrates quisesse e enriquecer nunca teria ido para PM, pois sabe que é o lugar mais escrutinado no nosso país.
    Se Sócrates tivesse cometido alguns dos crimes de que é acusado ele teria tido a conivência de alguns dos seus ministros. Não é um PM que abre concursos nem faz adjudicações directas. Mas já não me apetece falar mais sobre este assunto.
    Se querem saber as malandrices que os banqueiros fizeram e fazem seria mais fácil perguntar a Marcelo, que é amigo pessoal de Salgado, participava nas suas viagens e festas e não acredito que no uso da cocaína ninguém tivesse aberto a boca. Além disso ele é um reputado constitucionalista, doutorado em Ciências Jurídico- Políticas, que poderia dar muitos conselhos úteis…

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  8. Depois de 2 dezenas de comentários sobre o “MOTE” SÓCRATES, em que os “comentadores, “de um modo geral”, se expressaram através de mesmo “DIAPASÃO”…, ninguém se lembrou da “ORIGEM” do ENTREVISTAOR…,
    Pois dizem por ai umas certas “BOAS LÍNGUAS” que o INQUISIDOR OFICIAL DA RTP, VITOR GONÇÃLVES, é parente próximo de um ex-Ministro de CAVACO SILVA…;

    Será que a diferença entre DIAS LOUREIRO e JOSÉ SOCRATES é tão grande que impede que a HISTÓRIA POLITICA de PORTUGAL, não reserve para ambos um equiparado lugar….;

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    • Todas as acusaçoes a Dias Loureiro passam por verdades absolutas … alias bastaxjogar esse nome pra frente que se ests logo a vaticinar a sentença … ja socrates é 101% inocente aos olhos fos “fieis”.

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  9. Vim parar a este texto por curiosidade, acabando por confirmar que a tese de defesa de Sócrates, de “caso político”, está a dar frutos. Vejo também por aqui muitos comentadores que, quer por partidarismo cego ou mera paixão profunda pelo “pobre mártir”, não se coíbem de vir defendê-lo, antecipando-se ao que aos tribunais compete, cometendo o mesmo erro que os que o acusam em praça pública. Enebriam-se com o “animal político”, com a sua (dele) capacidade retórica, enaltecem a obra feita enquanto Primeiro-Ministro, enquanto se esquecem ou ignoram, os fortes indícios que existem contra o sujeito. Numa só palavra, deplorável.

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