Uma primavera americana?

(António Gil, in Facebook, 13/02/2017)

estatua_liberdade

Segundo algumas opiniões que vou lendo, os EUA correm o risco de uma guerra civil.

Segundo outras opiniões, essa guerra civil já começou e mantém-se ainda a níveis de baixa intensidade: carros incendiados, montras partidas, confrontos nas ruas. (nada que chegue aos nossos queridos jornais, mas que são reportados numa base diária, em várias cidades).

A falha tectónica que atravessa os EUA enquanto realidade política é geral. Os dois partidos principais rachados a meio. No PD, entre sanderistas e hillaristas, no PR entre trumpistas e anti trumpistas.

Entre as multinacionais, há também interesses divergentes: o «big oil» quer um entendimento com a Rússia, para poder explorar seus enormes recursos na Sibéria. As guerras não os entusiasmam: imaginem então no Médio Oriente, por onde passam todos os petroleiros. Uma chatice.

Os jornais e TVs querem guerras e portanto a diabolização da Rússia: parece que os cidadãos consomem mais (e logo os anunciantes televisivos pagam mais) quando se mostram imagens como as que CNN mostrou de uma cidade lá longe, submetida a uma chuva de misseis, em directo.

No caso dos jornais idem: o café da manhã deve saber melhor a muitos se lerem as crónicas reportagens dos jornalistas «embedded» nas colunas militares. Um pouco como a nós, cidadãos pacíficos deste lado, nos sabe melhor ficar na cama com o ruído da chuva caindo lá fora. 😦

Mc Donalds, Coca Cola etc, não gostam de países que os correram de seus mercados. Gostam portanto da guerra como medida punitiva contra esses estados (how do they dare?), mas se tal destabilizar toda uma região, incluindo países mais amigáveis, fica mau para o negócio. Guerra sim, portanto, mas só um bocadinho.

O aparelho militar industrial, o mais luxuoso do planeta e um sorvedouro de dinheiros públicos, precisa de guerras, claro. De preferência porém se outros países as assumirem: é melhor vendê-las do que usá-las em proveito próprio. Parece que nesta última situação, até os aliados têm relutância em pagar por «fogo de artifício» que não encomendaram.

O exército está dividido também: guerras sim, até porque elas justificam a existência da «classe guerreira». Mas de preferência atirar «pedras» (das explosivas) de longe. Pôr os «boys» no terreno já não os entusiasma desde o Iraque: é chato, pá, voltam em caixões, os seus camaradas de armas e famílias levam isso a mal.E mesmo os soldados que se safam, depois da merda que viram, ficam traumatizados. E engrossam o nº dos niilistas, sem abrigo ou pior ainda: tornam-se em perigosos pacifistas militantes, o que enfraquece a nação.

Querem saber a minha opinião? os EUA arriscam-se a não viver – unidos, quero dizer – os tais dez anos que Bannon previu para uma inevitável guerra com a China. Porque os sinais de desunião estão aí todos, com todo o seu potencial conflituoso.

Depois das primaveras árabes, talvez tenhamos em breve uma primavera americana que mais parecerá um inverno. Ou um inferno. Quem semeia tempestades no deserto, arrisca-se a colher sismos nas cidades.

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