Balanço dos líderes (1): Catarina, a maioridade do Bloco

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/12/2016)

Autor

                              Daniel Oliveira

De hoje até ao fim do ano farei a análise da prestação dos cinco líderes partidários, neste ano de 2016, e alguns dos desafios que têm pela frente. Por esta ordem: Catarina Martins, Jerónimo de Sousa, Assunção Cristas, Pedro Passos Coelho e António Costa.


Quem, no final de 2014, tivesse visto o resultado da IX Convenção do Bloco de Esquerda nunca poderia prever o que estamos a viver hoje. A linha de Catarina Martins empatava com a ala mais ortodoxa, representada por Pedro Filipe Soares. Bastava um voto de diferença e o apagado líder parlamentar teria garantido um resultado trágico para o BE. Mas mesmo Catarina Martins era então uma coordenadora pouco mobilizadora. O partido estava dividido depois de várias derrotas e ziguezagues, com risco de perder ainda mais votos para novos protagonistas e para António Costa, muito mais apreciado pelo eleitorado de esquerda do que António José Seguro. Contra ele, o Bloco tinha acabado de aprovar uma estratégia de radicalização e indisponibilidade para qualquer entendimento: “Os sectores que se aproximam do Partido Socialista e com ele pretendem governar abdicam de responder ao principal desafio colocado ao país: desobedecer às imposições da UE como condição para cumprir qualquer objetivo da esquerda em Portugal. O Bloco não desiste.” Todos os astros pareciam alinhados para tudo correr mal. Incluindo os astros que o BE controlava.

Depois começou a pressão. A pressão da popularidade de Costa no eleitorado bloquista, a pressão de dissidências e novos partidos, a pressão dos próprios eleitores de Costa, a pressão de sondagens que davam Passos com uma forte possibilidade de vencer. E contra todas as probabilidades, uma coordenadora que não era especialmente popular, que não parecia ter especial talento mediático, revelou-se. Todos os debates que teve na campanha correram-lhe bem, na rua esteve irrepreensível e até conseguiu ofuscar a jovem estrela Mariana Mortágua. A imprensa começou a ser favorável, as sondagens começaram a prometer o que nunca se esperou – o BE elegeu deputados que nunca equacionou para o lugar – e Catarina deu o golpe de misericórdia: propôs a Costa, num debate final, uma solução de governo. Ao contrário do que sucedia com o PCP, que já preparava essa solução, tratou-se mais de um golpe de circunstâncias, para aliviar a pressão do voto útil, do que uma proposta pensada. Mas estava dito.

Dos resultados das eleições, sobraram duas coisas: um António Costa mais fragilizado do que se esperava, o Bloco à frente dos comunistas (o que psicologicamente é muito relevante para qualquer um dos partidos) e a impossibilidade de contar com uma maioria de esquerda sem a participação dos dois, PCP e BE. O Bloco sabia que não podia deixar de entrar na solução. Não apenas pelo compromisso assumido, mas porque a pressão dos eleitores, junto do PS, BE e PCP, durante a campanha, tinha sido enorme.

Apesar de alguns deslizes um pouco absurdos – como dizer que o Governo que o Bloco sustenta não é de esquerda –, o BE tentou encontrar o seu espaço na “geringonça”. Soube encontrar objetivos, propô-los e fazer sua cada vitória. É, aliás, a crítica mais comum que lhe tem sido feita: querer dar nas vistas. Devo dizer que a considero uma crítica bastante tonta. A ideia de que um partido pode contribuir para uma solução em que não manda sem sublinhar as suas vitórias corresponde à defesa do suicídio político dos parceiros menores de um entendimento. Para a saúde da “geringonça” é fundamental que todos os partidos nela envolvidos sintam que o seu papel está a ser reconhecido pelo seu eleitorado. No dia em que o BE deixar de assinalar as suas vitórias António Costa deve preocupar-se. Quer dizer que está de partida. Deste ponto de vista, as sondagens que dão o PS à beira da maioria absoluta são um perigo para a geringonça. Ela pode tornar-se vítima do seu próprio sucesso.

Sobre a participação do BE na geringonça, tem-se dito tudo e o seu contrário: que é ele que manda no Governo, criando impostos a que se dá o nome de deputadas, ou que meteu a viola no saco. Não me parece que este tipo de leituras, que têm o objetivo de criar ora mal estar no PS ora mal estar no BE, devam merecer grande análise. O Bloco definiu um conjunto de grandes objetivos que foram cumpridos, com exceção das mais relevantes medidas de combate à precaridade que parecem estar agora a ser negociadas. Tornou bem clara a sua participação nas várias propostas. Tem imensa facilidade em explicar aos seus eleitores a utilidade no seu voto. Até a alguns que não votaram no Bloco.

O BE tem, na sua participação na “geringonça”, três dificuldades. A primeira é a Europa. Os constrangimentos europeus são a grande fronteira que impede um entendimento mais sério com os socialistas. E que pode, em caso das coisas correrem mal, provocar um desentendimento sério. Só que, ao contrário do PCP, a posição bloquista sobre a Europa resulta de uma evolução e tem muitas matizes. É muito mais difícil para o BE do que para o PCP definir uma linha de ruptura. A segunda são os próprios eleitores. O Bloco tem de mostrar sempre a utilidade de votarem nele e não no PS. Porque uma parte do seu eleitorado é emprestada. Terá sempre, muito mais do que os comunistas, de sublinhar as suas vitórias. A terceira tem a ver com a sua vida interna. A participação do Bloco não resultou, como se percebe pela moção de estratégia aprovada antes do acordo com os socialistas, de nenhum debate interno prévio. O partido que assinou este acordo é praticamente o mesmo que dizia que quem se aproximava do PS desistia. O Bloco de Esquerda, onde Catarina Martins continua a ter muito menos poder do que parece – seguindo uma tradição dos comunistas, são dirigentes mais apagados que concentram grande parte do poder da pequeníssima máquina –, não quer abandonar a “geringonça”. Mas também não gosta de estar nela. Não seria impossível – e não seria a primeira vez – que um erro tático deitasse tudo a perder.

Mas a verdade é que, até agora, o Bloco tem sido uma peça essencial neste processo. Maltratado pelos comentadores, como é comum acontecer com a força que seja mais determinante à esquerda do PS (quando o perigo vinha dos comunistas era o PCP que tinha má imprensa), é um elemento fundamental para pressionar os socialistas – que temem muito mais a capacidade de atração do BE do que do PCP – a manter a governação alinhada à esquerda.

Foi o lado performativo de Catarina Martins que a levou a preparar-se para a campanha de 2015 de forma exemplar e a transformar um cenário catastrófico na maior vitória de sempre do Bloco de Esquerda. Mas, ao contrário do que muitos julgavam (eu incluído), há mais do que isso. E isso ficou claro quando, a meio da negociação com o PS, quando as vozes internas se começavam a atropelar no espaço público, a coordenadora disse o indizível naquele partido: “quem fala pelo Bloco sou eu.” Aproveitando a força conquistada nas urnas, liderou um processo. Sem o resultado eleitoral que teve, e para o qual contribuiu de forma decisiva, nem o BE teria sido contado para a “geringonça” nem a direção teria conseguido impedir que a oposição interna a boicotasse. Foi Catarina Martins que conseguiu dar uma nova relevância ao partido nascido há 18 anos. O que ainda não se sabe é se tem a autonomia para liderar uma estratégia de longo prazo. Ou se o Bloco tem essa estratégia. Nos momentos difíceis, e eles virão, é isso que impede que se comentem alguns erros ditados por falhas de percepção ou por nervosismo. Erros mais habituais nos bloquistas do que nos comunistas, como nos diz a experiência.

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Um pensamento sobre “Balanço dos líderes (1): Catarina, a maioridade do Bloco

  1. Concordo com o texto na generalidade, porém, parece pouco corajoso dar uma no cravo e outra na ferradura – prática comum nos comentadores da nossa praça – prevenindo a situação de caso haver comentários errados logo poderem ser reequilibrados pelos outros que no mesmo texto ou comentário foram produzidos em sentido inverso. Tranquilamente…

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