TEORORA, a INSONORA!

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 16/12/2016)

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É assim mesmo D. Teodora: não seja sonora! É que se for mais canora a nossa alma não chora e será mesmo o fim… Bom, eu já sei que estavam à espera que eu dissesse. “e não gosta de  mim…”, mas isso seria se ela fosse sonora e ruim…

A D. Teodora ainda é dos “Tempos Modernos”, dos filmes insonoros e mudos, e deste particularmente onde, lá para os anos trinta, o Charlie Chaplin tão bem descreveu a substituição do trabalho braçal humano pelo das máquinas…mas tudo sem som. Não é mas parece ser desses tempos e, por isso, fala baixinho, pousada e tremulamente, como se o sonoro ainda fosse uma heresia e os cabelos à Marlene Dietrich obra do demo. E ainda não tinha aparecido a Marilyn…

Não, ela ficou-se assim pelas tias do Vasquinho da “Canção de Lisboa”, com similitude nos cabelos, nos lacinhos das camisas e nos folhinhos dos pulsos. Mas só aí porque no resto elas eram mais efusivas e canoras. Mas ao contrário delas a D. Teodora não o é, é mais sibilina e não trina. A D. Teodora quando tenta ser mais sonora até parece que chora.

Mas, mesmo tendo referido o atrás descrito, nada me move contra a D. Teodora, Senhora Professora Doutora e Economista se tal lhe aprouver, e tenho enorme respeito pelas pessoas mais velhas e tanto mais respeito tenho quanto mais elas saibam ou consigam colocar a sua sabedoria ao entendimento de todos, isto é, nos tragam aquele acrescento que só a vivência de muitas vidas pode proporcionar e mantenham as suas mentes sempre abertas às mudanças. E a D. Teodora tem aqui um grande handicap: pelos vistos só teve uma vida…

Por isso ouvíamos o Saramago ou o Galeano quando tentávamos descortinar o outro lado das coisas e acontecimentos, como ouvimos Eduardo Lourenço ou Adriano Moreira, estes com mais vidas ainda ou o Noam Chomsky, pensando sempre e sempre no que nos ajudavam e ajudam a pensar…

Mas esses são dos que de imediato aderiram ao “sonoro”, à evolução, e nunca foram “velhos do Restelo” de coisa alguma e ainda outros mais que, mesmo tendo ocupado lugares de relevo, nunca se deixaram tolher pelos espartilhos impostos por uma moral caduca. Ao contrário de outros que do “sonoro” não gostavam, gostavam sim do aprumadinho, do alinhadinho e do toque do silêncio. Isso é que era…

E só pode assim ter sido educada esta estimável Senhora de nome Teodora, a tal que quando fala parece que chora, de tão habituada ao silêncio sempre ter vivido. No gabinete do Banco de Portugal onde passou a vida na solidão dos livros de economia que não lia em voz alta.

Dirige o CFP (Conselho de Finanças Públicas), essa entidade redundante por paralela a outras já existentes (Banco de Portugal, Tribunal de Contas, UTAO…) que do mesmo se ocupam, a saber, da evolução das contas públicas e da execução orçamental, mais as suas projecções, mais o INE que, depois, as vem rectificar a todas!

Mas, para ela, por melhor que as contas estejam a evoluir e a correr até melhor que o esperado, tendo em conta os seus avisos ( o que me faz lembrar o outro, seu mestre com certeza), tudo é muito perigoso, eternamente perigoso, assim como será sempre perigoso sair à rua, casar, ter filhos, educar, viver em suma e sei lá eu que mais e, talvez por tudo isso, por falta de vocação ou para não se ter que dar a esses perigosos cuidados, ela “casou” com a Economia, casou com  a profissão como por aí se diz. Mas disse ela que vive com um cão, cão este que também deve ladrar bem baixinho, não vá ele assustar a dona ou esta ter problemas de vizinhança por causa de latidos imprudentes. E não se riam porque tenho uma sobrinha no Luxemburgo cuja vizinha de baixo se foi queixar que ela (a minha sobrinha) andava de chinelos em casa…Problemas ela só aceita ter com o País e as Finanças Públicas e, também por isso, a TV está sempre sem som passando música clássica…Como no cinema “mudo”!

Mas da sua periclitante fala nunca resulta nada de positivo ou alentador, qualquer pequeno sinal de esperança no futuro ou incentivador, pelo que eu sou obrigado a adivinhar que o que ela deseja é que o vento volte para trás e que voltemos àquele mundo dos pobrezinhos mas honradinhos, ou daquele mundo rural esquecido, mas com um Estado com os cofres cheios de ouro. Ah, aí é que estávamos bem…como no tempo do cinema “mudo”.

Ela também nos informou numa já distante entrevista que não tinha filhos nem netos e eu achei isso uma tremenda pena. E achei uma pena, por tudo, mas também porque ela ainda deve ter uma boa vista, usa mesmo óculos, para se dedicar a fazer uns carapinzinhos, uns casaquinhos com folhinhos e borboletas bordadas à mão, dedicar-se ao ponto de cruz, assim com uns motivos bem delicados tipo pétalas e pombinhas, quiçá às rendas de Bilros e mesmo à tecelagem, quem sabe? Havia tanto para fazer aí em casa, D. Teodora.

Mas ela não, para ela tudo é Economia e mesmo suspeitando eu ela já estar reformada do BP, mas como para estes tudo é possível acrescentar, lá continua ela aparecendo, qual agoiro, com aquela voz pastosa, qual extensão do seu lambido cabelo e que lhe dão aquele ar assim meio híbrido, desajeitado e incongruente de pessoa mal resolvida, anunciando sempre o caminho das trevas, parecendo um D. Quixote, mas ao contrário.

Ó D. Teodora, você não nota que quando fala toda a gente chora e só clama: Porque não se vai embora?

É que a D. Teodora nem é sonora nem é canora!


Artigo original aqui

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Um pensamento sobre “TEORORA, a INSONORA!

  1. Texto interessante e oportuno embora um pouco caustico atendendo a proveta idade do alvo. Mas fez-me recordar outros alvos, esses sim dignos da causticidade implacável do autor. Refiro-me, por exemplo, a alguns atores bafientos da nossa praça que escondem a testa sob cuidada pelagem oleosa. Talvez por isso se assemelhem nos raciocínios e convicções. É verdade que as aparências não dizem tudo porém as exceções abundam.

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