Sobre o activismo pró-jihad do Expresso

(In Abril Novo Magazine, 15/12/2016)

jhiad

 

A propósito da evacuação de jihadistas e respectivos familiares da cidade de Alepoe  em direcção a Khan Touman, cidade localizada no caminho para Idlib, o Expresso publica uma peça que é verdadeiramente ilustrativa do que foram os últimos cinco anos de desinformação sobre o conflito na Síria.

O título refere que “Perto de mil pessoas já conseguiram sair de Alepo” mas não esclarece que a evacuação organizada pelo Exército Árabe da Síria e pelas forças russas que o apoiam (e que pôde ser acompanhada em directo no canal russo RT) se destina a militantes armadas dos grupos paramilitares que ocuparam Alepo entre 2012 e 2016 – organizações como a Frente Al-Nusra, a Ahrar al-Sham e a al-Din al-Zenki – e respectivos familiares. O mesmo se passou em diversas povoações a sul de Damasco, onde militantes militarmente derrotados aceitaram depor armas, entregar o material de guerra que tinham em seu poder (incluindo tanques) e rumar a Idlib juntamente com as suas famílias

Naturalmente que estes combatentes são pessoas, mas o título parece sugerir que as mil pessoas “que já conseguiram sair de Alepo”, e que na verdade foram evacuadas no âmbito do cessar fogo negociado pelas partes em conflito, são civis indefesos quando a realidade é bem diferente. Os civis que nada têm a ver com os grupos armados estão de facto a regressar (ao invés de fugir) à cidade e dentro destas aos seus bairros, onde os trabalhos de limpeza e reconstrução já se iniciaram.

O Expresso prossegue para informar o leitor de que “durante a viagem, ambulâncias da Cruz Vermelha foram alvo de disparos, que atingiram civis e membros de organizações humanitárias, causando um morto e vários feridos”. Sobre o assunto, refere o Expresso que “a organização humanitária síria Capacetes Brancos indicou no Twitter que um dos seus membros foi alvejado por um sniper afeto ao regime sírio”. A notícia refere também “activistas sírios” e “elementos da oposição ao regime de Bahsar al-Assad”, que são as fontes que parecem confirmar e legitimar o texto publicado.

Vamos por partes: a origem das balas referidas na notícia não pode ter sido verificada e as fontes da informação em causa são na verdade comprometidas com uma das partes do conflito; os snipers – existentes dos dois lados da barricada – intervêm na guerra de forma móvel e as suas acções contra alvos aleatórios (ou de reduzido interesse militar) apenas no plano político podem ser interpretadas, no momento de imputar culpas; a questão que imediatamente me coloco, analisadas as informações disponíveis, é perceber que interesse teriam as forças armadas sírias em disparar meia dúzia de balas sobre um “comboio” de jihadistas e familiares no momento em que todos os media têm os seus olhos em Alepo; a resposta é óbvia: nenhum. Tal com os snipers da Praça Maidan, na Ucrânia.

Por outro lado a organização “humanitária síria” Capacetes Brancos não é nem humanitária nem síria, como demonstra abundante informação ao dispor do cidadão comum e também da redacção do Expresso. 

Os “Capacetes Brancos” foram fundados em 2013 por um ex-oficial britânico, James Le Mesurier, e a sua actividade nas zonas do conflito controladas pelos jihadistas é financiada por governos com interesses declarados e posicionamento assumido no contexto do conflito sírio. Apresentam-se como neutrais mas na verdade apenas actuam nas zonas sob controlo dos grupos armados, existindo imagens de vídeo que denunciam a sua íntima ligação a organizações como a Frente Al-Nusra. Ao longo de três anos de existência angariaram simpatias um pouco por todo o mundo mas jornalistas como a canadiana Eva Bartlett afirmam, na sequência de várias visitas à Síria e à cidade de Alepo, que na Síria ninguém os conhece. E as suas produções cinematográficas são realizadas com recurso a vítimas que aparecem repetidamente ao locais diferentes, manequins semelhantes àqueles usadas nas lojas de venda de roupa em todo o mundo, figurantes cujas feridas são tão irreais como os “rebeldes moderados” de que falam as notícias.

É extremamente curioso que o recrudescimento da campanha mediática russófoba e mistificadora relativa ao Exército Árabe da Síria – que teve ontem um ponto alto a propósito do suposto massacre de 82 civis num bairro de Alepo, incluindo mulheres e crianças – aconteça no momento em que o Exército sírio obtém a sua segunda maior vitória da história do conflito. O Expresso encontra-se plenamente integrado nesta frente de batalha, como protagonista assumido na guerra de informação e propaganda que se desenvolve cá longe, onde os canhões “rebeldes” não disparam botijas de gás modificadas.

post-scriptum: o Expresso nada refere sobre informações recolhidas in loco e que contrariam as notícias veiculadas por “activistas” e “capacetes brancos”.


via Sobre o activismo pró-jihad do Expresso — Abril de Novo Magazine

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2 pensamentos sobre “Sobre o activismo pró-jihad do Expresso

  1. Ou os jornalistas do Expresso são de meia tigela e limitam-se a “reinterpretar” as noticias das agencias internacionais, cujos donos têm tambem interêsses no mercado mundial de armas e na eliminação de Bashil Al Assad, ou são cobardes e têm medo de perder o emprego se forem imparciais e relatarem a verdade.

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