“Bruxelas quer…”

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 07/10/2016)

Autor

                   Pacheco Pereira

Periodicamente é esta a dança com que temos de dançar. Bruxelas “exige”, Bruxelas quer mais défice estrutural do que o governo deseja (mesmo que Portugal cumpra os números globais do défice), Bruxelas “não cede”, Bruxelas “ameaça” com a suspensão dos fundos, Bruxelas “manda”.

Duas observações: a primeira, esta é a nossa situação, governados de fora ao detalhe, não só nos dizem que objectivos temos de alcançar, mas que política exigem para o fazer; a segunda é a indisfarçável alegria da nossa direita mais radical, em particular o PSD, com estas ameaças, esquecendo-se de que a “benevolência ” que Bruxelas se atribui, para depois dizer que está farta dessa “benevolência”, é o fechar dos olhos à violação do défice na gestão de Passos Coelho-Portas-Maria Luís.


Guerra colonial ou guerra do Ultramar?
A escolha da designação da guerra que os portugueses travaram entre 1961 e 1975 não é inocente e, como se tornou um motivo de polémica, ainda menos inocente é. No entanto, penso que não é tão importante como isso, nem precisa de suscitar grandes exaltações, à medida que o tempo vai assentando. Na verdade, a guerra no Ultramar foi uma guerra colonial, e não há modo de lhe dar a volta se tratarmos apenas do conteúdo. Começou como guerra colonial, desenvolveu-se como guerra colonial, gerou as tensões no Ultramar e na metrópole típicas de uma guerra colonial, atingiu soldados, colonos brancos e guineenses, moçambicanos e angolanos, como uma guerra colonial, levou à queda de uma ditadura por ser uma guerra colonial, logo perdida à cabeça e sem solução militar, acabou como uma guerra colonial, e continuou, nas suas sequelas de guerra civil, como acontece com os efeitos de uma guerra colonial.

Para quem se lhe opôs, desde os desertores, os refractários, os militantes contra a guerra nas escolas e fábricas, os partidos clandestinos que combatiam a ditadura, ninguém a designa a não ser como guerra colonial. Para os nacionalistas africanos que combateram com armas as Forças Armadas Portuguesas, também não lhes passa pela cabeça chamar à guerra outra coisa que não colonial. Penso, com o risco deste tipo de previsões, que ficará na História como guerra colonial, pelo simples facto de ter sido… uma guerra colonial.

Mas há outro lado: muitas centenas de milhares de portugueses combateram na guerra, muitas mães, namoradas e esposas conheceram a espera sobressaltada e o sofrimento com mortes, feridos e feridas, algumas das quais nunca sararam. Ouvi recentemente alguns depoimentos de soldados, e das mulheres que esperavam, e percebe-se muito bem porque a designação guerra colonial os incomoda, mesmo que, ao falarem da sua experiência militar, se perceba até que ponto foram forçados a fazerem-na, sofreram ao fazerem-na, e olham para ela com uma perspectiva muito mais crítica do que muitos opositores à guerra são capazes de ter. Por uma razão simples, eles fizeram-na e precisam, pela sua dignidade e identidade, que o seu esforço e risco não seja minimizado ou apoucado, pela parte que lhes cabe na condenação moral que tem a designação de guerra colonial. Eu nunca designaria a guerra a não ser como colonial, se à minha frente estivessem os seus responsáveis políticos e militares, nem os seus defensores actuais, mas não me incomoda vê-la designada como sendo do Ultramar por estes homens e mulheres. Até porque, de todos os que ouvi, nenhum achava que a guerra tinha sido justa, nenhum correu para a guerra porque acreditava nas virtudes do império, nenhum escondia as violências e os excessos e mesmo alguns sublinhavam como a guerra lhes destruiu quer a vida que desejavam ter, quer a que tiveram.

É também por isso que penso que o Estado e a comunidade lhes devem aquilo que nos países que conheceram grandes guerras, como os EUA e o Reino Unido, é o reconhecimento dos seus veteranos, e o esforço de os apoiar na sua vida tantas vezes difícil. E honrá-los como devem ser honrados porque a justiça e a injustiça das guerras que um país trava não ficam como julgamento moral dos que as combateram, mas sim naqueles que as decidiram.


Os muros deles e os nossos
Trump propôs-se alargar, ampliar e estender o muro que separa os EUA do México. Já há um e bastante grande. Na Europa, Trump é tratado como deve ser tratado, primeiro como um perigo público, depois pelo resto que ele também é, de ignorante a mentiroso. Mas convinha não esquecer que é muita hipocrisia falar do muro de Trump e esquecer os muros europeus, que não são poucos, a começar em Calais, uma vergonha europeia e franco-britânica, aos que existem da Hungria para lá. Há também um muito antigo em Chipre e um mais moderno na Palestina. Por isso, dobrem a língua ao falar do muro de Trump.

 

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4 pensamentos sobre ““Bruxelas quer…”

  1. “Por uma razão simples, eles fizeram-na e precisam, pela sua dignidade e identidade, que o seu esforço e risco não seja minimizado ou apoucado, pela parte que lhes cabe na condenação moral que tem a designação de guerra colonial.”

    Mais uma vez te enganas na tua opinião baseada em impressões de retórica histórica. Pois, para os familiares e também para quem foi obrigado a correr perigo de vida permanente dia e noite sobre picadas, mato e capim durante dois anos pouco lhes diz chamar a guerra de “do Ultramar” como “de Colonial”. Nem a maioria dos Soldados e sobretudo os familiares, a grande maioria, pessoas analfabetas de aldeias rurais recondidas reconhecem a subtileza da diferença entre uma designação e outra para se acharem minimizadas ou apoucadas na sua participação na guerra.
    Claro que para os “exilistas” a designação de “Colonial” tem um sentido de acordo com a sua condição de pessoas que se opuseram à guerra desertando para o exílio mas, para a quase totalidade dos Soldados que sofreram obrigados aos perigos e horrores da guerra no mato, o que conta é precisamente esse tempo perdido em perigos de vida, perdido afastado dos seus familiares e amigos, das suas aldeias, seus ofícios, seus trabalhos e amores e, para muitos o sangue derramado e vidas perdidas, para nada.
    Do que deveria pp nos falar é, precisamente, dessa questão que faz que ainda hoje os portugueses se recusem falar da guerra que viveram. É que ainda antes do 25A os intelectuais, a grande maioria dos exilados, dado as suas ligações políticas começaram a vender a ideia de que os verdadeiros corajosos seriam os que se recusaram fazer a guerra em oposição aos fracos combatentes. E depois do 25A alguns dos mesmos intelectuais exilados fizeram parte dos governos provisórios ou dominaram parte da imprensa e meios intelectuais onde reforçaram a ideia, tornando-a dominante, de que os heróis da guerra teriam sido os que recusaram participar nela.
    Tal situação fez que, quer os Soldados rurais anónimos quer os mais esclarecidos se “fechassem” nas suas recordações e opiniões até hoje. Também, talvez devido a essa tal opinião dominante, nunca nenhum meio de comunicação se dignou entrevistar comandantes militares responsáveis pelas grandes operações no terreno que tanto teriam para dizer acerca da guerra preferindo ficcionar uma ideia da guerra à própria guerra.
    E chegámos a este ponto de se dizer que os portugueses não querem fazer a catarze a guerra. Mas, sobretudo, o que eles não querem e temem realmente é que os façam, novamente, sentir-se culpados de terem participado nessa guerra injusta.
    Apesar do realizador afirmar que ia fazer o “filme das Cartas” e outros que fizessem o filme do outro lado, temi sempre que não resistisse a fazer o filme do lado dos combatentes contra a guerra. Quero voltar a ver o filme novamente mas, do que vi em 1ª mão, pareceu-me que as cenas de guerra só estão lá para justificar as palavras do autor das cartas. E as cartas não falam do sofrimento dos combatentes na guerra mas, quase tão só, do sofrimento do autor pela ausência dos seus familiares e, contudo, também todos os Soldados tinham familiares e muitos mulheres e filhos deixados nas suas aldeias.
    Por aqui me fico que muito mais há para dizer sobre tão delicado assunto.

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    • Subscrevo. Muito mais haveria a dizer. Mas o que disse o amigo Neves foi muito bem dito. Claro que o Pacheco foi dos que conseguiu um feito dado a poucos: não foi à Guerra, seja colonial ou do Ultramar, e não foi também para o exílio. Naquela altura, ter costela de nobre sempre dava algum jeito…:)

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  2. Entre a jangada de pedra e a couve de bruges, venha o diabo e escolha… sim, orgulhosamente sós, combatemos nas províncias, sem que os africanos nos o merecessem, mas em paz, não mereciam o abandono, outrossim o auxilio de raiz, a parceria ao crescimento entre um país finisterra e esse ultramar, naquilo que hoje podia ser a união africana portuguesa e estaríamos muito “mais melhor”, eles e nós. Mas a verdade é que não tivemos essa clarividência. Raio de sorte a sorte que tivemos com os nossos políticos de então e de agora.

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  3. Pois é…quando o cu não caga a culpa é das calças…..é o habitual neste tipo de conversas que a nada levam.
    A guerra aconteceu como outras de colonizadores (França, Belgica, etc), só que nos atrazámos na independência pois em tudo nos atrazamos, é de portuiguês, e graças ao dinossauro excelentíssimo Salazar, homem das cavernas que adormeceu o povo e o embruteceu.

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